Do que eu falo quando falo de corrida

Arte por Bárbara Malagoli (Baby C) para Ovelha
Arte por Bárbara Malagoli (Baby C) para Ovelha

Meu nome é Priscila Garcia, sou motion designer e animadora 2D freelancer. Comecei a correr pra diminuir minhas angústias e acabei desenvolvendo um super poder: o de me sentir maravilhosa.

Eu sou meio “tudo ou nada”. Quando me interesso por alguma coisa, acabo ficando meio geek no assunto e me aprofundando em todos os aspectos dele, até enjoar e partir pra próxima paixão. Mas por algum motivo, o meu caso com a corrida tem se estendido sem prazos aparentes pra terminar. Já li uns 9 livros sobre o assunto, e quando estou meio pra baixo, é a única temática que me retoma o sopro de vida.

Comecei a correr há pouco mais de 8 meses e estou com a minha primeira Meia-Maratona de trilha agendada pra Maio. Eu já tinha tentado começar a correr antes, mas não tinha dado muito certo porque eu não sabia da existência do Trail Running, e não achava muito legal correr na esteira. Tive que entender de que maneira eu gosto de correr pra começar a gostar de correr, de fato.

[caption id="attachment_2912" align="aligncenter" width="700"]Priscila Garcia e a vista do Pão de Açúcar do Mamanguá, 2014. Foto de arquivo pessoal. Com a vista do Pão de Açúcar do Mamanguá, 2014. Foto de arquivo pessoal.[/caption]

Nesses 8 meses, eu cheguei à conclusão que todo mundo pode gostar de correr. A grande questão é entender que tipo de corredor você é. Eu descobri que sou apaixonada por percorrer longas distâncias, principalmente no meio da natureza. A velocidade pra mim não importa tanto. Mas existe gente que gosta de corrida curta, de velocidade, em esteira, em pista, na rua. Corrida longa no deserto, no asfalto. As modalidades são muitas, independente de forma física. Tanto que tem corredor super rápido que não estaria pronto pra terminar uma maratona. Os desafios são muito diferentes em cada modalidade. Quanto mais longa a prova, mais mental é o problema. Claro que sem o mínimo de treinamento, ninguém corre nem 5 quilômetros.

Depois de ter me formado e me encontrado na minha profissão e vida amorosa, eu comecei a sentir um vazio muito grande. Foi na corrida que eu encontrei o hobbie que eu tanto precisava.

A minha relação com o mundo mudou. Quando traço uma rota na internet e vejo que vou demorar mais de uma hora pra percorrer 9 quilômetros de transporte publico ou carro, eu penso que poderia ir correndo que chegaria mais rápido.

[caption id="attachment_2911" align="aligncenter" width="700"]Priscila Garcia correndo a prova Volta dos Biris de 12k. Foto: Liga Outdoor Correndo a prova Volta dos Biris de 12k. Foto: Liga Outdoor[/caption]

Eu não tenho uma forma física atlética, jamais penso em conseguir um pódio, mas correr tem me ajudado a aceitar melhor o meu corpo também. Quando eu sinto aquele calor porque estou suando que nem um porco, não hesito mais em tirar a camiseta e ficar só de top. Pelo contrário, sinto orgulho de estar me exercitando e cuidando da minha saúde, mesmo não estando no padrão de beleza das revistas.

Não sou hipócrita, é claro que eu preferiria ter um pouco menos de culote e de pneuzinhos. Mas um dia desses eu dei sinal pro ônibus e ele não quis parar, então decidi sair correndo até o próximo ponto e consegui alcançá-lo. Não tem medalha que coroe isso. Estar condicionada e desafiar os meus limites me faz ver como meu corpo é maravilhoso e por consequência amá-lo mais.

Eu tenho um corpo bom, sim! Ele me leva a lugares, transpõe obstáculos e faz coisas que eu jamais imaginei que pudesse fazer, a cada dia com mais eficiência. Essa é a minha motivação no momento. Se, como consequência, eu perder uns quilos e enrijecer os músculos, legal. Mas isso está longe de ser prioridade. Eu corro porque me sinto livre como em raros momentos da vida. Tem mulher que se sente poderosa em cima de um salto agulha, eu me sinto assim quando estou há mais de uma hora correndo sem bufar.

Como citei mais acima, a mágica acontece pra mim em corridas mais longas, e demorou pra eu conseguir perceber isso. Mas se você tem vontade de correr e não sabe muito bem se vai gostar, coloca um tênis e sai explorando sua vizinhança, ou mesmo a esteira da academia, pra descobrir que tipo de treino te faz feliz. Sem frescuras e sem neuras. Espero que você se encontre também. Não desista antes do terceiro mês e busque orientação profissional :)

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Acompanhe o blog Meus Corres, da Pri Garcia: meuscorres.wordpress.com

Ilustração por Bárbara Malagoly (Baby C)

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Sobre a cultura da pedofilia

Texto da escritora Alicen Grey, publicado originalmente em inglês no Feminist Current.

Tradução: Sarah Assaf.

 


Você já ouviu sobre a cultura do estupro, mas você já ouviu sobre a cultura da pedofilia?

“Eu sou um pedófilo, mas não sou um monstro.
Sou atraído por crianças mas relutante a agir sobre elas. Antes de me julgar rigorosamente, você estaria disposto a me escutar?
Todd Nickerson”

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Caro Todd Nickerson,

No Salon alguns dias atrás, você escreveu esse artigo provocantemente intitulado “Eu sou um pedófilo, mas não sou um monstro”. Provavelmente, um monte de pessoas está agora fazendo perguntas como “Será pedofilia natural?” ou “A pedofilia pode ser curada?”. Mas eu não vou tentar responder a essas perguntas específicas. Em vez disso, eu gostaria de aprofundar esse discurso através do preenchimento de algumas grandes lacunas em seu artigo.

Vamos começar com esta peça que faltava: a grande maioria dos pedófilos são homens. E a maioria das crianças vitimizadas por esses pedófilos que optam por agir sobre seus desejos sexuais são meninas. Este é um grande detalhe para negar a seu público, você não acha? Infelizmente, como enraizado e evidente que o patriarcado é, geralmente é o último detalhe mencionado em conversas dessa natureza – se for mencionado de qualquer modo.

Dito isto, a pedofilia pode parecer um tabu e desprezada pelas massas, mas uma avaliação honesta da nossa cultura em geral revela o contrário. Proponho que a pedofilia seja realmente recompensada e celebrada, e que toda a nossa cultura e compreensão da sexualidade seja construída em torno do que parecem ser os desejos de pedofilia. Eu chamo isso de “Cultura da Pedofilia.”

Na cultura da pedofilia, espera-se que as mulheres mantenham um nível quase impossível de magreza, pré-adolescentes em sua quase andrógina falta de curvatura e gordura corporal. Devido a essa pressão, distúrbios alimentares são abundantes em mulheres jovens, e as mulheres em particular, são alvo ao longo de suas vidas por uma indústria de perda de peso de bilhões de dólares.

Na cultura da pedofilia, a categoria mais acessada do Pornhub é “Teen” (adolescente).”Barely Legal” (quase ilegal), “meninas” em roupas de colegial que usam de tudo, desde “manipulações de virgens”, fantasias de incesto pai e filha, simulação professor-aluna – escreva o que quiser, existe pornografia para isso, e tem sido esgotado milhões e milhões e milhões de vezes. É justo de se pensar se a única coisa que afasta alguns desses espectadores de assistir à pornografia infantil diretamente são as leis de consenso e idade.

Influenciada pela indústria da pornografia, a labioplastia ou ninfoplastia – cirurgia plástica que consiste na remoção de pele dos lábios vaginais -, está rapidamente ganhando popularidade, assim como outros procedimentos, como himenoplastia, que restaura o “aperto” virgin-like para vaginas das mulheres.

Na cultura da pedofilia, as mulheres são pressionadas a se depilar com lâmina ou cera suas regiões inferiores e axilas regularmente. A indústria de cosméticos – novamente, dirigida às mulheres – vende cremes “anti-envelhecimento” e loções que irão tornar a nossa pele “macia como a de um bebê.”

Na cultura da pedofilia, nós casualmente nos referimos a mulheres adultas como “meninas” ou “garotas”. Nós temos uma paralvra especificamente para adolescentes atraentes: jailbait (ninfetas). Mulheres são sexualizada como chicks, kittens e babes.

Na cultura da pedofilia, muitas vezes eu noto homens em público me analisando com os olhos cheios de luxúria, até que vejam os pelos nas minhas pernas – em que ponto, eles recorrem a uma exibição teatral de desgosto. Eu tenho escutado grupos de rapazes em idade universitária falando sobre como eles não vão fazer sexo oral em uma mulher se seus grandes lábios forem muito proeminentes. Um homem que vinha atrás de sexo comigo durante três anos, de repente mudou de ideia quando eu revelei que eu não raspo e não rasparei meus pelos pubianos. Em outras palavras, muitos homens deixam de se sentirem atraídos por mim quando lembram que eu sou uma mulher, e não uma menina.

Certamente todos estes homens, que têm uma “preferência” para as qualidades acima mencionadas em mulheres, não são pedófilos pela definição estrita do termo. Mas parece que um número elevado de homens, provavelmente como resultado do condicionamento cultural profundo, encontram muitas das mesmas coisas atraentes em uma mulher que um pedófilo iria encontrar atraente em uma menina. Pequenos lábios, vaginas apertadas, hímens intactos, pele de bebê macia, membros sem pêlos e vulvas, juventude eterna, pequenos corpos frágeis… Como o usuário do Tumblr reddressalert escreveu: “como é que nós não reconhecemos que esta é essencialmente uma descrição de um bebê ou uma criança?”

De volta ao meu ponto original:

Eu preciso que você, e seus leitores simpatizantes, compreendam esta grave verdade: a pedofilia não é um quase tabu, ou é vergonhoso, ou repulsivo para a sociedade, como você diz que é. Eu queria que fosse. Muito em detrimento das mulheres em todo o mundo, seus desejos são refletidos de volta para você infinitamente, em uma escala global produzido em massa para atender uma demanda sempre crescente. Este mundo de supremacia masculina recebe de braços abertos, e todos os seus desejos são comandados. Ouso dizer que você está mais seguro de ser você mesmo, do que as meninas são.

Você diz “Eu sou um pedófilo, mas não um monstro”, e eu concordo plenamente com você. Você não é um monstro – você é um homem. Um homem bastante comum. Uma representação microcósmica de perversões mais prevalentes do patriarcado. Você não é especial, você não é anômalo, e você não está sozinho. Nem mesmo perto. Sua “orientação sexual” é apenas uma outra manifestação do desejo coletivo de homens para subjugar as fêmeas em uma cruzada para defender a supremacia masculina em todos os custos.

Portanto, se “ser compreensivo e dar apoio” a sua pedofilia envolve aliciamento de homens para erotizar características infantis em mulheres, e ensinando as mulheres a manter a juventude eterna a não agravar a insegurança do sexo masculino, então você não está pedindo o nosso apoio – você está pedindo nossa submissão. E assim como você diz que “não há nenhuma maneira ética de podermos concretizar plenamente os nossos desejos sexuais”, não há nenhuma maneira ética para solicitar a cooperação daqueles de nós que estão ativamente tentando desmantelar o sistema patriarcal que a sua “orientação” representa.

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Priscila Garcia, sou motion designer e animadora 2D freelancer. Comecei a correr pra diminuir minhas angústias e acabei desenvolvendo um super poder: o de me sentir maravilhosa.

Eu sou meio “tudo ou nada”. Quando me interesso por alguma coisa, acabo ficando meio geek no assunto e me aprofundando em todos os aspectos dele, até enjoar e partir pra próxima paixão. Mas por algum motivo, o meu caso com a corrida tem se estendido sem prazos aparentes pra terminar. Já li uns 9 livros sobre o assunto, e quando estou meio pra baixo, é a única temática que me retoma o sopro de vida.

Comecei a correr há pouco mais de 8 meses e estou com a minha primeira Meia-Maratona de trilha agendada pra Maio. Eu já tinha tentado começar a correr antes, mas não tinha dado muito certo porque eu não sabia da existência do Trail Running, e não achava muito legal correr na esteira. Tive que entender de que maneira eu gosto de correr pra começar a gostar de correr, de fato.

Nesses 8 meses, eu cheguei à conclusão que todo mundo pode gostar de correr. A grande questão é entender que tipo de corredor você é. Eu descobri que sou apaixonada por percorrer longas distâncias, principalmente no meio da natureza. A velocidade pra mim não importa tanto. Mas existe gente que gosta de corrida curta, de velocidade, em esteira, em pista, na rua. Corrida longa no deserto, no asfalto. As modalidades são muitas, independente de forma física. Tanto que tem corredor super rápido que não estaria pronto pra terminar uma maratona. Os desafios são muito diferentes em cada modalidade. Quanto mais longa a prova, mais mental é o problema. Claro que sem o mínimo de treinamento, ninguém corre nem 5 quilômetros.

Depois de ter me formado e me encontrado na minha profissão e vida amorosa, eu comecei a sentir um vazio muito grande. Foi na corrida que eu encontrei o hobbie que eu tanto precisava.

A minha relação com o mundo mudou. Quando traço uma rota na internet e vejo que vou demorar mais de uma hora pra percorrer 9 quilômetros de transporte publico ou carro, eu penso que poderia ir correndo que chegaria mais rápido.

Eu não tenho uma forma física atlética, jamais penso em conseguir um pódio, mas correr tem me ajudado a aceitar melhor o meu corpo também. Quando eu sinto aquele calor porque estou suando que nem um porco, não hesito mais em tirar a camiseta e ficar só de top. Pelo contrário, sinto orgulho de estar me exercitando e cuidando da minha saúde, mesmo não estando no padrão de beleza das revistas.

Não sou hipócrita, é claro que eu preferiria ter um pouco menos de culote e de pneuzinhos. Mas um dia desses eu dei sinal pro ônibus e ele não quis parar, então decidi sair correndo até o próximo ponto e consegui alcançá-lo. Não tem medalha que coroe isso. Estar condicionada e desafiar os meus limites me faz ver como meu corpo é maravilhoso e por consequência amá-lo mais.

Eu tenho um corpo bom, sim! Ele me leva a lugares, transpõe obstáculos e faz coisas que eu jamais imaginei que pudesse fazer, a cada dia com mais eficiência. Essa é a minha motivação no momento. Se, como consequência, eu perder uns quilos e enrijecer os músculos, legal. Mas isso está longe de ser prioridade. Eu corro porque me sinto livre como em raros momentos da vida. Tem mulher que se sente poderosa em cima de um salto agulha, eu me sinto assim quando estou há mais de uma hora correndo sem bufar.

Como citei mais acima, a mágica acontece pra mim em corridas mais longas, e demorou pra eu conseguir perceber isso. Mas se você tem vontade de correr e não sabe muito bem se vai gostar, coloca um tênis e sai explorando sua vizinhança, ou mesmo a esteira da academia, pra descobrir que tipo de treino te faz feliz. Sem frescuras e sem neuras. Espero que você se encontre também. Não desista antes do terceiro mês e busque orientação profissional :)

Acompanhe o blog Meus Corres, da Pri Garcia: meuscorres.wordpress.com

Ilustração por Bárbara Malagoly (Baby C)

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