Nana Queiroz e os presos que menstruam

Atualmente, vivemos uma forte onda reacionária em nosso país. No Congresso Nacional, votam a favor da redução da maioridade penal. Nas ruas, por muito pouco lincham corpos negros. A grande mídia ratifica e incita a violência em um discurso que preza pela ignorância e o ódio. Em meio a esse cenário desesperador, surge uma brecha de esperança: “Presos que menstruam”. O livro, escrito pela jornalista e ativista Nana Queiroz, conta a vida de algumas presidiárias brasileiras e provoca um sentimento poderosos e urgente: a empatia. Nessa entrevista, Nana conta pra gente um pouco de sua história, seu processo criativo e a repercussão de seu livro.

 
Ovelha: Em “Presos que menstruam” há histórias de muitas mulheres, mas sua voz passa discretamente entre elas. Pela narrativa, não dá pra saber quem você é e como começou seu projeto. Me parece que o foco é realmente a experiência dessas mulheres e não a sua. Mas eu gostaria de saber mais sobre sua história, seu engajamento com o feminismo e o processo de escrever o livro. Como tudo isso começou? Existe uma relação entre a Revista AzMina , o movimento “Não Mereço Ser Estuprada” e o livro?

Nana: O livro é resultado daquela magia que as mulheres fortes têm em outras mulheres. Ele foi inspirado numa grande mulher chamada Rosália Naves que, num jantar, me contou sobre sua experiência trabalhando por anos no sistema carcerário feminino. Eu fiquei hipnotizada. Tentei ler mais sobre o tema depois do jantar, mas quando comecei a pesquisar na internet, não tinha nenhum livro, não tinha nenhum artigo, não tinha nada sobre as mulheres presas: elas eram completamente invisíveis. Eu tinha que quebrar esse silêncio. A pesquisa começou em 2010 e todo o processo de criação do livro durou pouco menos de cinco anos. Mas não posso dizer que minha relação com o feminismo tenha começado ali.

A verdade é que o feminismo não mudou minha vida, quem mudou foi o machismo! O feminismo é apenas o estado natural das coisas. Eu nasci feminista pois nasci com a consciência de minha dignidade e a consciência de que eu não era menor que nenhum dos meus 3 irmãos homens. Aos 8 anos, lembro que meu pai me pediu para lavar louças e eu retruquei “só se eu começar a ver você lavando louças também!”. 
Nós temos que entender que o feminismo é um movimento que nos chama para a natureza, que nos chama pro estado natural das coisas. O machismo nos vendeu a mentira de que diferenças biológicas nos fazem merecer tratamento diferente e menos respeito. Isso é uma grande mentira. 

Enfim, tudo isso para dizer que não existe uma história de como eu conheci o feminismo e ele me salvou, entende? Essa sensação de dignidade sempre esteve comigo e foi isso que gritou quando comecei, em 2014, o Não Mereço Ser Estuprada (que, vale dizer, não foi um movimento meu, mas de 200 mil mulheres brasileiras incrivelmente corajosas), e isso também que motiva a criação da Revista AzMina. Tudo isso está mergulhado numa convicção de que o feminismo não é só um movimento social e político, ele é a única verdade possível. Feminismo não é o oposto de machismo. Feminismo é a ideia de que, enquanto seres humanos, as mulheres têm dignidade à altura da masculina. Não mais, nem menos. Reconhecer isso é libertador não só para as mulheres, mas para a sociedade como um todo, que destrava 50% de seu potencial de curar, transformar, criar, gerar renda, fazer arte. Quem ganha é a humanidade.

  
Ovelha: Me parece que sua intenção não é vitimizar ou defender a inocência dessas mulheres, mas expor que, ainda que seus crimes não justificam os abusos que sofrem do sistema penitenciário. Uma ideia que é ignorada não só pelas instituições públicas, mas também pela opinião popular que cada vez mais reafirma – incitada pela grande mídia – que diretos humanos só são válidos para “humanos direitos”.  O modo como você escolheu escrever esse livro, a partir da narrativa das presidiárias, é uma tentativa de demonstrar que elas são seres humanos e não monstros que precisam ser extintos da sociedade? De certa forma, o livro pode ser lido como um pedido por um pouco mais de empatia?

Nana: Engraçado que a necessidade de empatia era essencial também para eu pudesse escrever o livro, sabe? Eu nunca cometi crimes, mas já fui vítima de vários, assim como pessoas que eu amo. Por isso, há sempre a tentação de julgar, de se colocar em uma posição moralmente superior. Mas isso mudou definitivamente pra mim quando eu conheci a Safira. 

Eu me identificava muito com ela. Safira era uma moleca crescida, como eu, muito sonhadora, guerreira, tinha muita vontade de ter um grande amor, mas ao mesmo tempo, era muito dona de si, achava que a condição de mulher não a diminuía e queria desbravar terrenos masculinos. Eu me vejo assim. E também, como ela, nasci em uma família grande na periferia e era a filha mais velha, com responsabilidades pelos 5 menores. Sonhava em crescer na vida e me tornar uma grande mulher e profissional, como ela. 

Pequenas diferenças na nossa história, porém, me fizeram aluna da USP, jornalista, escritora, casada com um homem bom e generoso, enquanto ela acabou se casando com um homem agressivo, engravidando cedo e sendo obrigada a deixar a escola. Percebi que éramos tão parecidas que, se eu tivesse vivido a vida dela, e ela a minha, era possível que a gente estivesse ali naquela mesma mesa, mas de lugares trocados. 

Quando eu escrevi essas histórias eu esperava sinceramente que houvesse uma Safira para cada pessoa que lesse. Que cada um pudesse se encontrar ali em alguma daquelas mulheres e ver que monstros só existem em histórias de criança e filmes ruins de Hollywood. Na vida real existem pessoas como nós que, diante de situações difíceis, tomaram decisões ilegais ou pouco acertadas. Mas continuam sendo gente e, em sua maioria, mais parecidas conosco do que imaginamos.

 
[caption id="attachment_5639" align="aligncenter" width="688"]A autora Nana Queiroz. Foto: Arquivo pessoal. A autora Nana Queiroz. Foto: Arquivo pessoal.[/caption]  
Ovelha: Como esta sendo a recepção do livro?  E o processo de transformá-lo em filme?

Nana: A recepção do livro tem sido uma delícia de surpresa. Inicialmente, os comentários intolerantes nas matérias sobre ele estavam me destruindo. Mas, logo surgiu em vários estados a iniciativa de coletar absorventes para as presidiárias e isso foi um afago. Nos mostra que ainda existe muita gente no Brasil que acredita que o sistema carcerário deve ressocializar e não apenas punir. 

Já o filme é uma maneira de atingir mais pessoas com essa mensagem. A gente sabe que, no Brasil, muita gente é avessa à leitura, principalmente de livros de não-ficção. Espero que essas pessoas possam também ser levadas à reflexão nas telonas ou telinhas. Junto a duas cineastas de Brasília, Lídia Oyo e Liana Faria, ganhei um edital em Brasília para produzir um média-metragem. Neste momento, estamos em fase de captação de recursos para transformar esse média no piloto de uma série, que pretendemos vender para um canal de TV ou até para o Netflix, quem sabe. Empresas interessadas em apoiar ou patrocinar o projeto podem saber mais sobre ele no site.

 
Ovelha: Li “Presos que menstruam” em dois dias. A sua escrita é muito envolvente e, de certa forma, é prazeroso acompanhar suas palavras. No entanto, é difícil dizer que amei seu livro ou mesmo admitir esse prazer da leitura. Não parece justo visto que seu conteúdo é tão pesado e real. Em muitos momentos, senti uma profunda sensação de impotência. Me perguntei – e ainda pergunto – o que posso fazer para ajudar a vida de mulheres como Camila e Gardênia. Acredito que foi em função dessa questão que surgiram movimentos em diversos lugares do país para organizar doações de absorventes para os presídios. Como tem sido acompanhar o nascimento desses eventos em solidariedade às presidiárias? 

Nana: Enquanto eu escrevi me debati com isso também. Naturalmente, enquanto escritora, eu queria fazer um bom trabalho, um livro saboroso de ler. Mas a verdade é que, no fim das contas, eu decidi que tudo isso deveria servir a um propósito claro: ser claro, atingir mais mais pessoas, ser eficiente em tocar o leitor e transmitir uma mensagem. Esta era a maneira como eu iria ajudar essas mulheres. E talvez dar uma forcinha para que outras não precisassem passar pelo mesmo. Pode ser um pouco de arrogância da minha parte achar que posso fazer alguma diferença com apenas um livro, mas a iniciativa dos absorventes me mostrou que nenhuma atitude feita com consciência e esforço, por menor que seja, passa pelo mundo sem causar algum tipo de efeito. Espero que isso não tenho soado auto-ajuda demais – risos – falei com sinceridade.

 
Ovelha: E, por fim, na sua opinião, como podemos ajudar essas mulheres?Como podemos colaborar para que nossa sociedade seja menos abusiva, machista e injusta?

Nana: Primeiro, que se enxergue as mulheres enquanto mulheres, considerando suas especifidades de gênero. Que exista a distribuição de absorventes, o pré-natal para gestantes, creches dignas para os bebês presos, tratamento ginecológico preventivo, acesso a trabalho e facilidades para as mulheres mantenham o contato com seus filhos. Entre os fatos que presenciei ou me foram relatados, me inquietou muito a situação dos bebês presos e das gestantes. Temos cerca de 350 crianças presas no Brasil hoje, vivendo em celas imundas e sem condições minimamente dignas. Grávidas são torturadas e bebês são obrigados a assistir à tortura da mãe. E essas crianças nem sequer precisam estar presas. O perfil dos crimes que levam as mulheres à cadeia é diferente dos que levam o homem a cadeia. Só 10% das mulheres cometeram crimes violentos, ou seja, crimes contra a pessoa. Logo, a maioria delas poderia estar amamentando em casa, cumprindo pena domiciliar. Já existe a caneleira eletrônica, tecnologicamente isso é possível. 

Naturalmente, as presas perigosas tem mesmo que ser afastadas do convívio social, e eu de maneira nenhuma vou defender a impunidade. Mas existem casos e casos e, para crimes mais leves, há uma série de penas alternativas que poderiam ser muito benéficas para as mulheres, no caso, por exemplo, do tráfico de drogas no pequeno escalão – que é só aquela pessoa que vende mesmo, não é o líder do tráfico, não mata, não achaca. Furto, roubo de supermercado, caixa eletrônico… sabe essas bobagens? Chamariz de assalto, porque ela é bonita e dá um chamariz confiante, um destaque para atrair vitimas… Além disso, a mídia precisa se repensar. A mídia só olha para mulheres quando há casos escandalosos como os de Suzane Richthofen. Isso dá à população uma impressão equivocada sobre quem são as mulheres presas. Como eu disse, Suzane pertence a uma minoria de 10%.

Na verdade, acho que é necessário repensar o sistema carcerário como um todo, e como a gente bota gente na cadeia no Brasil. Nosso sitema carcerário é falido, estamos gastando demais, prendendo gente demais, superlotando e cada vez reinserindo menos gente na sociedade – a taxa atual de reincidência no crime é de 70%, muito alta. É importante que a gente repense isso.

As mulheres, por exemplo. Antes de entrar no crime, muitas são vítimas da violência doméstica. Um estudo no Rio Grande do Sul (RS) mostrou recentemente que cerca de 40% das mulheres que foram presas no estado estavam imediatamente fugindo da violência doméstica. Ou seja, o marido batia (ou estuprava) nela e nos filhos e ela teve que fugir. Sozinha, não conseguiu sustentar os filhos. Ou ela resolveu traficar para conseguir dinheiro para sair de casa e fugir da violência doméstica, ou o próprio marido batia nela para que ela cometesse os crimes pra ele. Tinha maridos que obrigavam as mulheres a vender drogas pra eles. Veja bem, essas mulheres são vitimas, não são criminosas. Como a sociedade está tratando isso? Gastamos entre dois e três mil reais por detenta, por mês, no Brasil. Esse dinheiro não poderia servir para prevenir que essas mulheres fossem presas? Eu acho que trabalhar na prevenção é a coisa mais inteligente que podemos fazer enquanto sociedade.

 
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Entrevista feita pela colaboradora Taís Bravo.

Escrito por
Mais de Taís Bravo

Ser mulher e viajar

No fim de fevereiro, duas jovens argentinas Marina Menegazzo e María José Coni desapareceram enquanto faziam uma viagem pelo Equador. Marina e Maíra eram duas amigas que viajavam juntas. Elas foram assassinadas por dois homens (já falamos sobre esse triste caso de feminicídio aqui). A mídia cobriu o caso como a terrível história de duas mulheres que se exporam ao risco de viajar sozinhas. Sim, eram duas amigas, mas, no mundo misógino, uma mulher desacompanhada de um homem ainda é um ser vulnerável e sozinha .

Na minha vida tive a sorte de poder viajar. Desde a adolescência sonhava em viajar sozinha e fiz isso assim que consegui economizar meu dinheiro. As pessoas não entendiam porque eu escolhi viajar sozinha. Meus pais ficaram desesperados. Minhas amigas perguntavam se eu não ia ficar entediada. Diante dessas reações, sempre pensava como seria se eu fosse um homem. Quando voltei, meus pais falavam para seus amigos como tinham uma filha corajosa que saía pelo mundo sozinha, sem medo. De novo me perguntei se um homem ganharia esse elogio. Aventureiro talvez, mas corajoso? Um homem precisa de coragem para fazer o que deseja? Eu não me acho corajosa e eu tenho, sim, medo. É assim que me chamam quando volto, com fotos e lembrancinhas. Mas se eu não voltasse, seria esse o termo? Não seria essa coragem uma ousadia descabida? Não seria uma imprudência?

Todas as minhas viagens foram sozinha ou acompanhadas de amigas. Em alguns lugares andar com quatro amigas parecia mesmo andar só. Éramos quatro dentro de um táxi com um homem e, no entanto, a cada curva desconhecida, nos sentíamos minoria.

Ser mulher é ainda estar em uma posição vulnerável. Na minha última viagem, senti que minha pele, meu corpo inteiro, eram sexualizados de uma nova forma. Mulher da América Latina em terra de colonizador deve estar querendo: um passaporte, um emprego, um velho escroto pra te perturbar quando você está de boa lendo um livro. Fui abordada algumas vezes de modos muito invasivos. Mas continuei viajando sozinha, de ônibus, no meio da madrugada. Usava o que chamo de “a cara de bolada” e mantinha minha cabeça muito erguida. Uma posição que me não me protegia, mas me salvava de desistir. É preciso forjar algum controle para driblar a vulnerabilidade imposta.

Mas escolher viajar sozinha – até se você é um homem – é escolher uma posição vulnerável. Porque estar sozinha em um lugar desconhecido é, sim, algum tipo de radicalidade. Isso te abre de um modo novo. Você é obrigada a reparar mais nas pessoas, nas ruas e em que você é nesse espaço – mas, olha a diferença, reparar aí é por querer prestar atenção e não por medo. O tempo então corre em um ritmo inédito. Os dez dias em que viajei sozinha foram maiores do que meses.

Eu gosto da vulnerabilidade quando ela é uma escolha. Quando eu escolho me colocar nessa posição, escolho um risco que não é mortal. Estar vulnerável, nesse contexto, é livrar-se das certezas para descobrir novas possibilidades. Eu gosto disso, na verdade, eu preciso disso.

É muito diferente da vulnerabilidade que é imposto ao nosso gênero. Estar atenta ao mundo porque se está em busca é muito diferente de estar atenta por medo, até porque essa atenação não garante segurança alguma.

Viajar sozinha não é o problema. O problema é viver em um mundo misógino em que o feminicídio é uma realidade ignorada. O risco não está em ser mulher em um lugar desconhecido. O risco está em ser mulher. Porque, na verdade, em nossas vidas, a violência mais provável não vem de desconhecidos, mas daqueles que confiamos como íntimos. Os casos de feminicídio mais recorrentes envolvem pais, padrastos, maridos, namorados e supostos companheiros – para ter acesso a esses dados, vale consultar essa reportagem.

Dizer as mulheres que o risco está em sair para o mundo faz parte de um discurso político que nos quer encurraladas, longe das ruas, longe da vida. Um discurso que isenta os homens de responsabilidade e joga toda culpa sobre os ombros das mulheres. Um discurso que impõe a vulnerabilidade como uma fragilidade essencial ao nosso gênero. E nós não escolhemos esse risco.

Eu não estou aqui para negar os perigos, mas para pedir que o medo não nos sufoque.

Na minha última viagem, vi muitas mulheres viajando, os grupos de amigas nas rodoviárias eram muito maiores do que os grupos de homens; entrei em um banheiro feminino que ficava na fronteira entre dois países e encontrei nas portas cor de rosa várias mensagens de felicidade, imaginei cada uma dessas garotas alegremente explorando o mundo; fui acolhida por mulheres em cada lugar que passei; bebi com garotas que provavelmente nunca mais vou ver na vida e que nunca esquecerei; fiz amigas, troquei confissões, dividi garrafas de vinho e um tanto de força.

Se você deseja viajar, viaje. Nem sempre é fácil, nem sempre é bom, mas essa vulnerabilidade escolhida sempre te dá algo novo. E às vezes é justamente o que você precisa para sobreviver em mundo que nos coloca em papéis claustrofóbicos.

 

Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez (a.k.a. Emily).
 

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Presos que menstruam”. O livro, escrito pela jornalista e ativista Nana Queiroz, conta a vida de algumas presidiárias brasileiras e provoca um sentimento poderosos e urgente: a empatia. Nessa entrevista, Nana conta pra gente um pouco de sua história, seu processo criativo e a repercussão de seu livro.

 
Ovelha: Em “Presos que menstruam” há histórias de muitas mulheres, mas sua voz passa discretamente entre elas. Pela narrativa, não dá pra saber quem você é e como começou seu projeto. Me parece que o foco é realmente a experiência dessas mulheres e não a sua. Mas eu gostaria de saber mais sobre sua história, seu engajamento com o feminismo e o processo de escrever o livro. Como tudo isso começou? Existe uma relação entre a Revista AzMina , o movimento “Não Mereço Ser Estuprada” e o livro?

Nana: O livro é resultado daquela magia que as mulheres fortes têm em outras mulheres. Ele foi inspirado numa grande mulher chamada Rosália Naves que, num jantar, me contou sobre sua experiência trabalhando por anos no sistema carcerário feminino. Eu fiquei hipnotizada. Tentei ler mais sobre o tema depois do jantar, mas quando comecei a pesquisar na internet, não tinha nenhum livro, não tinha nenhum artigo, não tinha nada sobre as mulheres presas: elas eram completamente invisíveis. Eu tinha que quebrar esse silêncio. A pesquisa começou em 2010 e todo o processo de criação do livro durou pouco menos de cinco anos. Mas não posso dizer que minha relação com o feminismo tenha começado ali.

A verdade é que o feminismo não mudou minha vida, quem mudou foi o machismo! O feminismo é apenas o estado natural das coisas. Eu nasci feminista pois nasci com a consciência de minha dignidade e a consciência de que eu não era menor que nenhum dos meus 3 irmãos homens. Aos 8 anos, lembro que meu pai me pediu para lavar louças e eu retruquei “só se eu começar a ver você lavando louças também!”. 
Nós temos que entender que o feminismo é um movimento que nos chama para a natureza, que nos chama pro estado natural das coisas. O machismo nos vendeu a mentira de que diferenças biológicas nos fazem merecer tratamento diferente e menos respeito. Isso é uma grande mentira. 

Enfim, tudo isso para dizer que não existe uma história de como eu conheci o feminismo e ele me salvou, entende? Essa sensação de dignidade sempre esteve comigo e foi isso que gritou quando comecei, em 2014, o Não Mereço Ser Estuprada (que, vale dizer, não foi um movimento meu, mas de 200 mil mulheres brasileiras incrivelmente corajosas), e isso também que motiva a criação da Revista AzMina. Tudo isso está mergulhado numa convicção de que o feminismo não é só um movimento social e político, ele é a única verdade possível. Feminismo não é o oposto de machismo. Feminismo é a ideia de que, enquanto seres humanos, as mulheres têm dignidade à altura da masculina. Não mais, nem menos. Reconhecer isso é libertador não só para as mulheres, mas para a sociedade como um todo, que destrava 50% de seu potencial de curar, transformar, criar, gerar renda, fazer arte. Quem ganha é a humanidade.

  
Ovelha: Me parece que sua intenção não é vitimizar ou defender a inocência dessas mulheres, mas expor que, ainda que seus crimes não justificam os abusos que sofrem do sistema penitenciário. Uma ideia que é ignorada não só pelas instituições públicas, mas também pela opinião popular que cada vez mais reafirma – incitada pela grande mídia – que diretos humanos só são válidos para “humanos direitos”.  O modo como você escolheu escrever esse livro, a partir da narrativa das presidiárias, é uma tentativa de demonstrar que elas são seres humanos e não monstros que precisam ser extintos da sociedade? De certa forma, o livro pode ser lido como um pedido por um pouco mais de empatia?

Nana: Engraçado que a necessidade de empatia era essencial também para eu pudesse escrever o livro, sabe? Eu nunca cometi crimes, mas já fui vítima de vários, assim como pessoas que eu amo. Por isso, há sempre a tentação de julgar, de se colocar em uma posição moralmente superior. Mas isso mudou definitivamente pra mim quando eu conheci a Safira. 

Eu me identificava muito com ela. Safira era uma moleca crescida, como eu, muito sonhadora, guerreira, tinha muita vontade de ter um grande amor, mas ao mesmo tempo, era muito dona de si, achava que a condição de mulher não a diminuía e queria desbravar terrenos masculinos. Eu me vejo assim. E também, como ela, nasci em uma família grande na periferia e era a filha mais velha, com responsabilidades pelos 5 menores. Sonhava em crescer na vida e me tornar uma grande mulher e profissional, como ela. 

Pequenas diferenças na nossa história, porém, me fizeram aluna da USP, jornalista, escritora, casada com um homem bom e generoso, enquanto ela acabou se casando com um homem agressivo, engravidando cedo e sendo obrigada a deixar a escola. Percebi que éramos tão parecidas que, se eu tivesse vivido a vida dela, e ela a minha, era possível que a gente estivesse ali naquela mesma mesa, mas de lugares trocados. 

Quando eu escrevi essas histórias eu esperava sinceramente que houvesse uma Safira para cada pessoa que lesse. Que cada um pudesse se encontrar ali em alguma daquelas mulheres e ver que monstros só existem em histórias de criança e filmes ruins de Hollywood. Na vida real existem pessoas como nós que, diante de situações difíceis, tomaram decisões ilegais ou pouco acertadas. Mas continuam sendo gente e, em sua maioria, mais parecidas conosco do que imaginamos.

 

 
Ovelha: Como esta sendo a recepção do livro?  E o processo de transformá-lo em filme?

Nana: A recepção do livro tem sido uma delícia de surpresa. Inicialmente, os comentários intolerantes nas matérias sobre ele estavam me destruindo. Mas, logo surgiu em vários estados a iniciativa de coletar absorventes para as presidiárias e isso foi um afago. Nos mostra que ainda existe muita gente no Brasil que acredita que o sistema carcerário deve ressocializar e não apenas punir. 

Já o filme é uma maneira de atingir mais pessoas com essa mensagem. A gente sabe que, no Brasil, muita gente é avessa à leitura, principalmente de livros de não-ficção. Espero que essas pessoas possam também ser levadas à reflexão nas telonas ou telinhas. Junto a duas cineastas de Brasília, Lídia Oyo e Liana Faria, ganhei um edital em Brasília para produzir um média-metragem. Neste momento, estamos em fase de captação de recursos para transformar esse média no piloto de uma série, que pretendemos vender para um canal de TV ou até para o Netflix, quem sabe. Empresas interessadas em apoiar ou patrocinar o projeto podem saber mais sobre ele no site.

 
Ovelha: Li “Presos que menstruam” em dois dias. A sua escrita é muito envolvente e, de certa forma, é prazeroso acompanhar suas palavras. No entanto, é difícil dizer que amei seu livro ou mesmo admitir esse prazer da leitura. Não parece justo visto que seu conteúdo é tão pesado e real. Em muitos momentos, senti uma profunda sensação de impotência. Me perguntei – e ainda pergunto – o que posso fazer para ajudar a vida de mulheres como Camila e Gardênia. Acredito que foi em função dessa questão que surgiram movimentos em diversos lugares do país para organizar doações de absorventes para os presídios. Como tem sido acompanhar o nascimento desses eventos em solidariedade às presidiárias? 

Nana: Enquanto eu escrevi me debati com isso também. Naturalmente, enquanto escritora, eu queria fazer um bom trabalho, um livro saboroso de ler. Mas a verdade é que, no fim das contas, eu decidi que tudo isso deveria servir a um propósito claro: ser claro, atingir mais mais pessoas, ser eficiente em tocar o leitor e transmitir uma mensagem. Esta era a maneira como eu iria ajudar essas mulheres. E talvez dar uma forcinha para que outras não precisassem passar pelo mesmo. Pode ser um pouco de arrogância da minha parte achar que posso fazer alguma diferença com apenas um livro, mas a iniciativa dos absorventes me mostrou que nenhuma atitude feita com consciência e esforço, por menor que seja, passa pelo mundo sem causar algum tipo de efeito. Espero que isso não tenho soado auto-ajuda demais – risos – falei com sinceridade.

 
Ovelha: E, por fim, na sua opinião, como podemos ajudar essas mulheres?Como podemos colaborar para que nossa sociedade seja menos abusiva, machista e injusta?

Nana: Primeiro, que se enxergue as mulheres enquanto mulheres, considerando suas especifidades de gênero. Que exista a distribuição de absorventes, o pré-natal para gestantes, creches dignas para os bebês presos, tratamento ginecológico preventivo, acesso a trabalho e facilidades para as mulheres mantenham o contato com seus filhos. Entre os fatos que presenciei ou me foram relatados, me inquietou muito a situação dos bebês presos e das gestantes. Temos cerca de 350 crianças presas no Brasil hoje, vivendo em celas imundas e sem condições minimamente dignas. Grávidas são torturadas e bebês são obrigados a assistir à tortura da mãe. E essas crianças nem sequer precisam estar presas. O perfil dos crimes que levam as mulheres à cadeia é diferente dos que levam o homem a cadeia. Só 10% das mulheres cometeram crimes violentos, ou seja, crimes contra a pessoa. Logo, a maioria delas poderia estar amamentando em casa, cumprindo pena domiciliar. Já existe a caneleira eletrônica, tecnologicamente isso é possível. 

Naturalmente, as presas perigosas tem mesmo que ser afastadas do convívio social, e eu de maneira nenhuma vou defender a impunidade. Mas existem casos e casos e, para crimes mais leves, há uma série de penas alternativas que poderiam ser muito benéficas para as mulheres, no caso, por exemplo, do tráfico de drogas no pequeno escalão – que é só aquela pessoa que vende mesmo, não é o líder do tráfico, não mata, não achaca. Furto, roubo de supermercado, caixa eletrônico… sabe essas bobagens? Chamariz de assalto, porque ela é bonita e dá um chamariz confiante, um destaque para atrair vitimas… Além disso, a mídia precisa se repensar. A mídia só olha para mulheres quando há casos escandalosos como os de Suzane Richthofen. Isso dá à população uma impressão equivocada sobre quem são as mulheres presas. Como eu disse, Suzane pertence a uma minoria de 10%.

Na verdade, acho que é necessário repensar o sistema carcerário como um todo, e como a gente bota gente na cadeia no Brasil. Nosso sitema carcerário é falido, estamos gastando demais, prendendo gente demais, superlotando e cada vez reinserindo menos gente na sociedade – a taxa atual de reincidência no crime é de 70%, muito alta. É importante que a gente repense isso.

As mulheres, por exemplo. Antes de entrar no crime, muitas são vítimas da violência doméstica. Um estudo no Rio Grande do Sul (RS) mostrou recentemente que cerca de 40% das mulheres que foram presas no estado estavam imediatamente fugindo da violência doméstica. Ou seja, o marido batia (ou estuprava) nela e nos filhos e ela teve que fugir. Sozinha, não conseguiu sustentar os filhos. Ou ela resolveu traficar para conseguir dinheiro para sair de casa e fugir da violência doméstica, ou o próprio marido batia nela para que ela cometesse os crimes pra ele. Tinha maridos que obrigavam as mulheres a vender drogas pra eles. Veja bem, essas mulheres são vitimas, não são criminosas. Como a sociedade está tratando isso? Gastamos entre dois e três mil reais por detenta, por mês, no Brasil. Esse dinheiro não poderia servir para prevenir que essas mulheres fossem presas? Eu acho que trabalhar na prevenção é a coisa mais inteligente que podemos fazer enquanto sociedade.

 

Entrevista feita pela colaboradora Taís Bravo.

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