Tem algum tempo que tento me assumir como escritora. Mas afirmar essa identidade diante dos outros me provoca um intenso complexo de fraude. Sinto que a qualquer momento alguém pode duvidar de mim e apontar todas as minhas falhas. No entanto, também tem algum tempo que decidi que não preciso de aprovação alheia. Ainda que ser admirada seja algo ótimo, é apenas uma sensação passageira e incapaz de sustentar minha felicidade. No fim do dia, mesmo que ninguém me leia ou aprecie, eu vou escrever. Então, afirmar com todas as letras que sou, sim, escritora, tem sido uma tentativa difícil, mas importante.
Tornou-se ainda mais importante quando percebi que minhas angústias pertencem, na verdade, a um inconsciente coletivo que eu diria que é especialmente um inconsciente feminino. Porque, afinal, a materialidade histórica de séculos de silenciamento ainda impõe opressões físicas e psicológicas sobre nosso gênero. Minhas amigas, Amanda Palmer e Aline Valek são algumas das mulheres que já falaram sobre os tormentos do complexo de fraude. Em 1928, Virginia Woolf afirmava que para ser escritora era necessário um teto e uma renda própria, mas eu, pessoalmente, acredito que também é preciso uma boa dose de autoestima e de um grupo de apoio, ou seja, das migas. Quanto mais exponho minhas dúvidas, mais companheiras encontro. Pensando essa urgência como uma questão de gênero surgiu a vontade de ter um espaço para que escritoras possam se conhecer, conversar e transformar as inseguranças em criação. Foi assim que surgiu a Mulheres Que Escrevem uma newsletter organizada por mim e a jornalista – e minha bff – Natasha Ísis, mas (assim nós esperamos) alimentada por muitas outras escritoras.

A ideia é que a newsletter seja um lugar para refletir sobre nosso ofício, compartilhar nossos textos e também como se desenvolve nosso processo criativo. Mas nossa intenção é que tenha um tom de um café ou um boteco gostoso, ou seja, apesar de termos um ponto de partida estamos contando que o tópico da conversa seja desvirtuado e se transforme, porque, afinal, conversa boa tem sempre um movimento imprevisível. Escolhemos o formato da newsletter justamente porque acreditamos no poder de um ambiente mais intimista, em vez de um textão pronto, enviamos uma email e um convite para uma troca.
Então, bora escrever com a gente?
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Arte do “Mulheres Que Escrevem” por Dora Leroy.
Foto de capa: Clarice Lispector clicada por Claudia Andujar.