Estante das minas: Amanda Palmer

Texto feito em conjunto pelas colaboradoras Estela Rosa e Fabi Oda.
 


 
Na resolução de ler mais escritoras em 2016, uma grande amiga me indicou ler Amanda Palmer, A arte de pedir.

Na verdade, além da resolução, o livro veio num contexto pessoal mais do que necessário. Tinha acabado de perder meu emprego, estava com as horas ociosas para entrar forte naquela espiral de insegurança e auto-flagelação depreciativa que todas conhecemos muito bem. O livro veio e me tirou da bad como poucos livros haviam feito (quem nunca quis ler Harry Potter como se fosse a primeira vez over and over?).

A arte de pedir é uma grande busca pela terceira via, aquela terceira margem do rio que Guimarães tanto falava. Querendo se livrar dos contratos limitadores de grandes gravadoras mas, ao mesmo tempo, querendo sempre a visão para além do alcance que essa artista multimídia é capaz de produzir, Amanda Palmer se joga de corpo e alma para um contato direto com os fãs, promovendo mobilizações, pocket shows e performances que nunca aconteceriam de outra maneira.

Mas comecemos do começo.

the bride 3Vocalista da banda Dresden Dolls (link videoclip), Amanda Palmer iniciou sua carreira performática como  estátua-viva, assumindo o papel da Noiva de dois metros e meio. Performando nas ruas de Massasuchetts, oferecia flores e olhares intensos em trocas de alguns dólares ou mesmo apenas uma interação despida de formalidades. Essa experiência foi marcante o suficiente para ela assumir esse personagem como emprego permanente e serviu também como fonte inspiracional para sua postura artística tanto na banda Dresden Dolls como em sua carreira solo, sem contar que bebeu direto dessa fonte para dar a famigerada palestra TED, A Arte de Pedir ( a partir do qual nasceu esse livro mara).

Dresden Dolls formou-se em meados de 2000, com a dupla Amanda Palmer e Brian Viglione se definindo como uma banda cabaré punk, lançou seu primeiro disco em 2003, A is for acident. Após uma parceira traumática com a gravadora Roadrunner, que resultou no disco Yes, Virginia, Dresden Dolls decidiu atuar de forma independente. Foi a partir dessa experiência que a banda, e mais tarde a própria Amanda Palmer em sua carreira solo, passou a priorizar acima de tudo o contato direto e pessoal com sua comunidade de fãs.

Grande defensora de uma produção artística sem as grandes empresas como mediadoras e limitadoras do processo de criação, produção e disseminação do produto, Amanda Palmer sempre manteve sua base de fãs próxima ao seu coração e sempre conversava, trocava conselhos, sugestões e acomodações pelo twitter ou em seu blog.

Quando resolveu lançar seu 2º disco solo, Theatre is Evil, optou por realizá-lo via financiamento coletivo e conseguiu cerca de U$ 1,192,793,00 pelo Kickstarter, considerado a campanha mais bem sucedida da plataforma até 2012, ano em que o album fora lançado. O financiamento tornou-se um assunto polêmico na carreira de Palmer, sendo acusada de explorar seus fãs, mendigar por dinheiro, ser uma artista narcisista e megalomaníaca.

 
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Na real, me identifico com parte das críticas que Amanda Palmer recebe: é auto-centrada, dependente de atenções, excessivamente performática e expansiva. Sim, ela tem várias característica que me irritam em um artista, mas é maravilhoso ver como ela direciona essa energia um tanto egocêntrica para a construção de algo tão único e honesto e conseguir aproveitar o máximo dessa relação.

De fato, a relação que a cantora tem com seus fãs é difícil de achar em outro lugar: eles abrigam ela e sua banda em suas casas, saem para tomar café juntos, mobilizam sessões ninja de performance na rua durante a turnê. Foi essa relação que viabilizou o financiamento de seu disco pelo Kickstarter e essa mesma relação, agora através do Patreon, que sustenta a carreira de Amanda Palmer até hoje.  

Escrito com uma abordagem meio autobiográfica e não-linear, A Arte de pedir discorre sobre o porquê de se pedir ajuda – colaboração e até dinheiro não nos é tão natural quanto pedir pela cadeira vazia da mesa ao lado no restaurante ou por uma caneta para preencher um formulário. Com essa premissa um pouco ingênua, Amanda Palmer defende que pedir é o ato mais humano, intimo e empático que podemos fazer, sem esperar nada em troca, apenas uma conexão despida de imposições. Pedir é um ato vulnerável, que te deixa rendida à rejeição mas que, ao mesmo tempo, oferece uma oportunidade de se relacionar de uma maneira única. Na verdade o que o ato de pedir implica, em termos da indústria cultural, é um tanto revolucionário: a troca direta do artista com seu público, deixando este último a autonomia de pagar, financiar e apoiar a artista.

Com um humor afiado, Palmer mistura histórias sobre os pontos-chave de sua carreira com trechos de sua vida pessoal, as partes sobre seu relacionamento com Neil Gaiman são tão fofos e sinceros que você quer correr para YouTube para ver as entrevistas que eles dão juntos. O livro tem uma abordagem um tanto romântica e eufórica sobre sua relação com os fãs, mas ao mesmo tempo nos fornece uma perspectiva interessantíssima sobre a real capacidade da rede mundial de computadores sobre como aproximar e criar conexões.

Dá até pra sentir um pouco de raiva dessa abordagem romântica e eufórica que Amanda tem não só com os fãs, mas com o mundo. É como se os óculos que ela usa fossem lotados de um otimismo tão ingênuo que fica difícil de acreditar. É fácil pensar que aquilo só pode ser besteira, que é da boca pra fora, mas ao seguir a Amanda nas redes sociais, Twitter e Facebook, você percebe que não, que aquela jogação toda é genuína e muito apaixonante.

Li A arte de pedir logo depois de ler um livro da assistente social e palestrante Brené Brown chamado A coragem de ser imperfeito. Ela, inclusive, escreveu o prefácio do livro da Amanda Palmer. A verdade é que foi um ótimo combo de livros, fora do comum para mim, que falaram de aspectos que sempre encarei como negativos: pedir, confiar, ser vulnerável. Em épocas como a que vivemos, onde tudo muda o tempo todo, é difícil ter otimismo e confiar nos outros, mas é exatamente isso que tanto a Brené quanto a Amanda nos mostram em seus livros: a virtude de ser vulnerável, a virtude de pedir ajuda, a virtude de confiar, mesmo se dando mal depois.

É meio papo de Poliana, uma coisa meio Manic Pixie Dream Girl, aqueles personagem extremamente otimistas de filmes de comédia romântica, mas, ao mesmo tempo, é algo muito corajoso e ousado. Amanda Palmer não só se dá bem do começo ao fim, ela passa por situações suficientes para desanimar e você pensa muitas vezes ao longo do livro que se fosse você no lugar dela, já teria desistido.

 
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A arte de pedir é um livro que vale a pena ler, mesmo que você não seja lá uma pessoa super otimista. Se confrontar com a realidade de alguém que realmente considera a sua própria vida uma obra de arte é praticamente um choque, ainda mais quando você lê a história da perspectiva da própria pessoa. Como disse Brené Brown em seu livro “Viver com ousadia não tem nada a ver com ganhar ou perder. Tem a ver com coragem. […] quando faço uma retrospectiva de minha própria vida e do que viver com ousadia provocou em mim, posso dizer com sinceridade que nada é mais incômodo, perigoso e doloroso do que constatar que estou do lado de fora da minha vida, olhando para ela e imaginando como seria se eu tivesse a coragem de me mostrar e deixar que me vissem.”

 

Mais de Ovelha

Diário de viagem: Nã pela China

Meu nome é Ana Carolina Matsusaki, conhecida pelos amigos como . Antes, a China para mim era um shopping cheio de lojinhas com produtos pirateados na Avenida Paulista ou na 25 de março. O yakisoba era o prato oficial do país, e provavelmente o biscoito da sorte devia ser a sobremesa tradicional deles.

 
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De repente, fui parar na China e tudo mudou. Era 2012 e estávamos eu e meu namorado em uma trip de 5 meses pela Ásia. Passamos pela Tailândia, Camboja, Vietnã, Laos, mas nenhum foi tão marcante em termos de choque cultural quanto foi a China. Gosto de comparar nossa viagem à Ásia a um videogame, sendo os países do Sudeste Asiático o nível fácil. A China é o Chefão.

 
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E por que falar justamente da China? Até hoje, quando penso na China, quando falo sobre a China, é como se eu estivesse contando um sonho. Como encaixar na minha realidade as noites dormidas nos trens me alimentando com macarrão instantâneo, os dumplings no café da manhã, os chineses de cócoras jogando xadrez chinês, suas sopas quentes e perfumadas, os bebês com suas bundinhas de fora, chineses levantando da mesa do restaurante e deixando sobras que alimentariam 10 pessoas, os seus barcos de bambu, seus olhos curiosos nos sondando o tempo todo?

 
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Durante 45 dias viajamos por montanhas, campos de arroz e cidades com lanternas vermelhas. Foram cerca de 10 cidades: Yangshuo, Longsheng, Dali, Lijiang, Shangri-la, Chengdu, Leshan, Xiaan, Luoyang, Pingyao e Beijing.

 
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Tínhamos acabado de passar uma semana em Hong Kong quando colocamos nosso pé pela primeira vez na China de fato. Estávamos em Guanzhou, uma “pequena cidade” de 14 milhões de habitantes. Até então eu e meu namorado tínhamos viajado por 3 meses pela Ásia sem fazer nenhuma reserva de hotel. Chegávamos nas cidades e procurávamos na hora ou íamos até um hotel indicado pelo nosso guia de viagens. Na China percebemos que teríamos que mudar o nosso esquema, questão de sobrevivência. No primeiro hotel onde batemos à porta, ninguém falava inglês, e não havia vagas. Desespero. Eu já queria ir embora do país. Ainda bem que ficamos.

 

6 sabedorias milenares para pisar na China

 

Hospede-se em hostels

Na maioria dos hotéis não se fala inglês, e acredite, qualquer pessoa que fale inglês na China é uma pessoa em potencial para resolver 90% dos seus problemas. Nós sempre pedíamos para os recepcionistas dos hostels onde ficávamos, anotarem em papeizinhos tudo o que precisávamos: lugares que queríamos ir, nomes de remédios e o mais imprescindível para mim – a frase “sem pimenta, por favor”.
 

Vá de trem

Seguros e confortáveis são a forma mais divertida de se viajar pela China. Pássavamos horas conversando com os outros passageiros através de mímica. E eles costumam ser generosos, oferecendo – quase obrigando – comidinhas ao longo da viagem. Pode ser um milho cozido, pode ser uma lata de cerveja quente. Lembrando que você, mulher, provavelmente ficará de fora da oferta da cerveja quente e de alguns cigarros. Sim, a China é um país machista. Sim, vale a pena ficar fora da oferta de cerveja quente.
 

Like a superstar

Não faz tanto tempo assim que a China se abriu para o mundo. Turistas ocidentais ainda são raros por lá, principalmente fora de Beijing e Shanghai. Se o seu biotipo é diferente do dos chineses prepare-se para ser o centro das atenções. Os chineses vão querer tirar fotos com você (e inclusive fazer fila para isso), tocar seu cabelo (especialmente se você tiver dreads) e ficar na tua cola o tempo todo. Quando eu e meu namorado estávamos nas estações de trem jogando xadrez chinês para passar o tempo, não era raro nos vermos envoltos por uma multidão de curiosos.
 

Cadê meu yakisoba?

Embora você não encontre o yakisoba como conhecemos no Brasil (e com esse nome), há pratos muito similares. As comidas de lá são bem temperadas, muitas com molho agridoce e eles comem bastante sopa com noodles no dia a dia. Não dispenso e vou junto. Os deliciosos dumplings cozidos ao vapor em cestinhas de bambu são o pau pra toda obra. E para os mais lariquentos a dica é carregar sempre alguns potes de macarrão instantâneo com você, os boilers com água fervendo estão espalhados por todos os lados – trens, hotéis, hostels, estações de trem e de ônibus.
 

Internet controlada

Sim, é verdade que o acesso a sites como Facebook ou Instagram é censurado no país. Quem vê as lojinhas abarrotadas de turistas em cidades como Yangshuo ou Lijiang não diz que a China é um país comunista. Mas quanto mais viajávamos por lá, mais nos dávamos conta da triste mão de ferro que controla o país. Chineses totalmente desinformados (alguns não sabiam dos conflitos no Tibet), controle rigoroso para pisar na Praça da Paz Celestial (raio X e muitas câmeras) e boatos de que nosso guia poderia ser confiscado (por não mostrar Taiwan como parte da China).
 

Talvez doa em você

Escarrar no chão é normal. O tempo todo. Homens e mulheres. E dentro do restaurante, dentro do aeroporto, quando não tem placa proibindo. É a sinfonia da cidade. Além disso, em cidades pequenas, era comum ver crianças pequenas com roupas com uma abertura no bumbum <3 . Para facilitar o processo. Na rua mesmo.    

Cinco momentos maravilhosos para se viver na China

 

Pedalar de bicicleta em Shangri-la, uma pequena cidade próxima ao Tibet

 

Navegar de bambu boat pelo rio Amarelo em Yangshuo

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O famoso bairro 798 de Beijing

 

O bairro muçulmano em Xiaan, a cidade com os guerreiros de Terracota

 

Os terraços de arroz em Longsheng, conhecido como A Espinha do Dragão

 

Onde fiquei: China
Quanto tempo: 45 dias
Com quem: meu namorado
Quanto gastei:
Passagens (via Bangkok): R$ 2.400
Média de preço do hostel: $14 para duas pessoas
Média de gastos diário por pessoa: 20 a 30 dólares

Conclusão: Não é para os fracos. Volto em breve.


 
Nã Matsusaki é designer, ilustradora, mãe da pug Bullying e colaboradora Ovelha. Se você se apaixonou pela viagem dela, leia os relatos e mais fotos incríveis da sua viagem em seu blog, Ásia de Mochila.

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Estela Rosa e Fabi Oda.
 


 
Na resolução de ler mais escritoras em 2016, uma grande amiga me indicou ler Amanda Palmer, A arte de pedir.

Na verdade, além da resolução, o livro veio num contexto pessoal mais do que necessário. Tinha acabado de perder meu emprego, estava com as horas ociosas para entrar forte naquela espiral de insegurança e auto-flagelação depreciativa que todas conhecemos muito bem. O livro veio e me tirou da bad como poucos livros haviam feito (quem nunca quis ler Harry Potter como se fosse a primeira vez over and over?).

A arte de pedir é uma grande busca pela terceira via, aquela terceira margem do rio que Guimarães tanto falava. Querendo se livrar dos contratos limitadores de grandes gravadoras mas, ao mesmo tempo, querendo sempre a visão para além do alcance que essa artista multimídia é capaz de produzir, Amanda Palmer se joga de corpo e alma para um contato direto com os fãs, promovendo mobilizações, pocket shows e performances que nunca aconteceriam de outra maneira.

Mas comecemos do começo.

the bride 3Vocalista da banda Dresden Dolls (link videoclip), Amanda Palmer iniciou sua carreira performática como  estátua-viva, assumindo o papel da Noiva de dois metros e meio. Performando nas ruas de Massasuchetts, oferecia flores e olhares intensos em trocas de alguns dólares ou mesmo apenas uma interação despida de formalidades. Essa experiência foi marcante o suficiente para ela assumir esse personagem como emprego permanente e serviu também como fonte inspiracional para sua postura artística tanto na banda Dresden Dolls como em sua carreira solo, sem contar que bebeu direto dessa fonte para dar a famigerada palestra TED, A Arte de Pedir ( a partir do qual nasceu esse livro mara).

Dresden Dolls formou-se em meados de 2000, com a dupla Amanda Palmer e Brian Viglione se definindo como uma banda cabaré punk, lançou seu primeiro disco em 2003, A is for acident. Após uma parceira traumática com a gravadora Roadrunner, que resultou no disco Yes, Virginia, Dresden Dolls decidiu atuar de forma independente. Foi a partir dessa experiência que a banda, e mais tarde a própria Amanda Palmer em sua carreira solo, passou a priorizar acima de tudo o contato direto e pessoal com sua comunidade de fãs.

Grande defensora de uma produção artística sem as grandes empresas como mediadoras e limitadoras do processo de criação, produção e disseminação do produto, Amanda Palmer sempre manteve sua base de fãs próxima ao seu coração e sempre conversava, trocava conselhos, sugestões e acomodações pelo twitter ou em seu blog.

Quando resolveu lançar seu 2º disco solo, Theatre is Evil, optou por realizá-lo via financiamento coletivo e conseguiu cerca de U$ 1,192,793,00 pelo Kickstarter, considerado a campanha mais bem sucedida da plataforma até 2012, ano em que o album fora lançado. O financiamento tornou-se um assunto polêmico na carreira de Palmer, sendo acusada de explorar seus fãs, mendigar por dinheiro, ser uma artista narcisista e megalomaníaca.

 
palmer e fãs
 
Na real, me identifico com parte das críticas que Amanda Palmer recebe: é auto-centrada, dependente de atenções, excessivamente performática e expansiva. Sim, ela tem várias característica que me irritam em um artista, mas é maravilhoso ver como ela direciona essa energia um tanto egocêntrica para a construção de algo tão único e honesto e conseguir aproveitar o máximo dessa relação.

De fato, a relação que a cantora tem com seus fãs é difícil de achar em outro lugar: eles abrigam ela e sua banda em suas casas, saem para tomar café juntos, mobilizam sessões ninja de performance na rua durante a turnê. Foi essa relação que viabilizou o financiamento de seu disco pelo Kickstarter e essa mesma relação, agora através do Patreon, que sustenta a carreira de Amanda Palmer até hoje.  

Escrito com uma abordagem meio autobiográfica e não-linear, A Arte de pedir discorre sobre o porquê de se pedir ajuda – colaboração e até dinheiro não nos é tão natural quanto pedir pela cadeira vazia da mesa ao lado no restaurante ou por uma caneta para preencher um formulário. Com essa premissa um pouco ingênua, Amanda Palmer defende que pedir é o ato mais humano, intimo e empático que podemos fazer, sem esperar nada em troca, apenas uma conexão despida de imposições. Pedir é um ato vulnerável, que te deixa rendida à rejeição mas que, ao mesmo tempo, oferece uma oportunidade de se relacionar de uma maneira única. Na verdade o que o ato de pedir implica, em termos da indústria cultural, é um tanto revolucionário: a troca direta do artista com seu público, deixando este último a autonomia de pagar, financiar e apoiar a artista.

Com um humor afiado, Palmer mistura histórias sobre os pontos-chave de sua carreira com trechos de sua vida pessoal, as partes sobre seu relacionamento com Neil Gaiman são tão fofos e sinceros que você quer correr para YouTube para ver as entrevistas que eles dão juntos. O livro tem uma abordagem um tanto romântica e eufórica sobre sua relação com os fãs, mas ao mesmo tempo nos fornece uma perspectiva interessantíssima sobre a real capacidade da rede mundial de computadores sobre como aproximar e criar conexões.

Dá até pra sentir um pouco de raiva dessa abordagem romântica e eufórica que Amanda tem não só com os fãs, mas com o mundo. É como se os óculos que ela usa fossem lotados de um otimismo tão ingênuo que fica difícil de acreditar. É fácil pensar que aquilo só pode ser besteira, que é da boca pra fora, mas ao seguir a Amanda nas redes sociais, Twitter e Facebook, você percebe que não, que aquela jogação toda é genuína e muito apaixonante.

Li A arte de pedir logo depois de ler um livro da assistente social e palestrante Brené Brown chamado A coragem de ser imperfeito. Ela, inclusive, escreveu o prefácio do livro da Amanda Palmer. A verdade é que foi um ótimo combo de livros, fora do comum para mim, que falaram de aspectos que sempre encarei como negativos: pedir, confiar, ser vulnerável. Em épocas como a que vivemos, onde tudo muda o tempo todo, é difícil ter otimismo e confiar nos outros, mas é exatamente isso que tanto a Brené quanto a Amanda nos mostram em seus livros: a virtude de ser vulnerável, a virtude de pedir ajuda, a virtude de confiar, mesmo se dando mal depois.

É meio papo de Poliana, uma coisa meio Manic Pixie Dream Girl, aqueles personagem extremamente otimistas de filmes de comédia romântica, mas, ao mesmo tempo, é algo muito corajoso e ousado. Amanda Palmer não só se dá bem do começo ao fim, ela passa por situações suficientes para desanimar e você pensa muitas vezes ao longo do livro que se fosse você no lugar dela, já teria desistido.

 
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A arte de pedir é um livro que vale a pena ler, mesmo que você não seja lá uma pessoa super otimista. Se confrontar com a realidade de alguém que realmente considera a sua própria vida uma obra de arte é praticamente um choque, ainda mais quando você lê a história da perspectiva da própria pessoa. Como disse Brené Brown em seu livro “Viver com ousadia não tem nada a ver com ganhar ou perder. Tem a ver com coragem. […] quando faço uma retrospectiva de minha própria vida e do que viver com ousadia provocou em mim, posso dizer com sinceridade que nada é mais incômodo, perigoso e doloroso do que constatar que estou do lado de fora da minha vida, olhando para ela e imaginando como seria se eu tivesse a coragem de me mostrar e deixar que me vissem.”

 

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