Crescendo negra: o assédio de todo dia

Ilustração feita com exclusividade por Ana Carolina Matsusaki (Nã)

 

22 anos

No caminho entre o Metrô Anhangabaú e o escritório.
Passo por um engravatado, que grita:

– Gostosa!

Mando o cara se foder. A reação dele é rápida e previsível:

– Macaca!

 

15 anos

Uniforme escolar, de pé no ônibus lotado.
Um velho chega perto, quase encostando, e diz:

– Nossa, morena, queria que minha mulher fosse que nem você.

Não soube reagir, quase vomitei.
Uma mulher levanta do seu assento pra que eu possa sentar.

 

13 anos

Oitava série. Aula de matemática. Sou a única pessoa negra na sala de aula. Sento com as pernas dobradas em cima da cadeira. Chamo o professor pra tirar uma dúvida, e antes de resolver o exercício, ele aconselha:

– Você já é mulher demais pra continuar sentando desse jeito, viu?

Algumas das minhas colegas de classe, brancas, estão sentadas exatamente da mesma forma. Nenhuma delas foi repreendida.

 

9 anos

Fazendo compras no shopping com a minha mãe. Antes de sair pra pegar o par de tênis que eu escolhi, o vendedor me olha e solta:

– Já dá pra ver que vai ter um corpão igual ao da mãe.

Ela o encara com nojo e saímos loja sem comprar nada.
 


 
Comecei a escutar comentários sobre meu corpo por volta dos 7 anos. Menina negra nunca tem “cara de criança”. Nossos corpos são hipersexualizados desde muito cedo, de uma forma extremamente agressiva e cruel.

Por um tempo acreditei que meninas negras de fato não tinham infância, que a gente crescia rápido e era isso. Achava que tinha que aprender a me portar de um determinado jeito, caso contrário, a responsabilidade pelo assédio sofrido era minha. Mas logo eu aprendi que o assédio a que eu era constantemente exposta ao andar na rua não era natural e que eu jamais me acostumaria.

Todas as mulheres estão submetidas ao machismo, mas não da mesma forma. É preciso fazer recortes. O Dossiê Violência Contra as Mulheres, da Agência Patrícia Galvão, explica que há “diferenças em formas de violência que vão atingir desproporcionalmente as mulheres ante a combinação de múltiplas formas de discriminação, baseadas em sistemas de desigualdades que se retroalimentam – sobretudo de gênero, raça, etnia, classe e orientação e identidade sexual”. 

A história escravagista desse país ajudou a construir estereótipos ainda muito presentes que desumanizam e sexualizam as mulheres negras mesmo antes de entrarmos na puberdade, e que continuam a nos atormentar ao longo da vida adulta.

O mito racista da mulher negra hipersexualizada, subalterna e animalizada, vitimiza centenas de meninas e mulheres negras diariamente. As meninas negras são as maiores vítimas de exploração sexual infantil e de adolescentes. A taxa de homicídio de mulheres negras é o dobro da taxa das mulheres brancas.

Somos brutalmente atacadas todos os dias e eu nunca vou me acostumar.
 
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Ilustração feita com exclusividade por Ana Carolina Matsusaki (Nã).

Mais de Bárbara Paes

Não toleramos racismo! #LoveForLeslieJ

Texto feito em conjunto pelas colaboradoras Estela Rosa e Bárbara Paes.


Ontem à noite, depois de várias pessoas dizendo “vá ver o novo Caça-fantasmas pra ontem”, a Estela foi ao cinema. Ela arrisca a dizer que foi um dos filmes que mais a deixou ansiosa ultimamente, ela estava visivelmente descontrolada de emoção na fila pra entrar. Afinal de contas, depois de tanto choro e ranger de dentes dos nerds machistas na internet, o filme, que já a deixava animada só pela ideia de ser um time todo de mulheres, a deixou ainda mais intrigada. Foi e entrou pro time do “vá ver o novo Caça-fantasmas pra ontem”.

A Bárbara ainda não viu o filme. Mas segundo a Estela, o filme é divertido, leve, muito bem construído e todo trabalhado nas referências. É um fan service do começo ao fim, o que vai deixar muita gente emocionadinha. No entanto, mesmo antes de ser sequer filmada uma cena do filme, ele já era alvo do ódio dos fãs, homens, em sua grande maioria, que não vão se permitir curtir o filme por conta do elenco majoritariamente feminino. O machismo tomou conta das “críticas” ao filme que nem havia estreado ainda. Os comentários iam desde coisas como “é um absurdo fazerem um remake com mulheres” até “mulheres não entendem de Caça-fantasmas”. Uma chuva de ódio que acabou sendo muito bem aproveitada no filme. As tiradas sobre machismo são excelentes, sem contar as sutis referências a diversos comportamentos machistas como gaslight, mansplaining, bropropriation e brodagem.

Mas na manhã do dia 19 de julho acordamos com a triste notícia de que Leslie Jones, uma das Caça-fantasmas, está sendo alvo de comentários racistas e machistas no Twitter. A atriz se defendeu dos ataques, mas ao final desabafou estar exausta de sofrer este tipo de perseguição. Ao final de tudo, o racismo acabou expulsando a Leslie do Twitter.

Pra quem não conhece, a Leslie tem sido parte do elenco de Saturday Night Live desde 2014. Antes disso, ela já havia sido contratada como roteirista do programa em 2013. O SNL é um dos programas de comédia mais importantes do entretenimento americano e foi responsável por lançar gente como a Tina Fey, a Amy Poehler, a Kristen Wiig, Maya Rudolph, Chris Rock, Seth Meyers e o Jimmy Fallon (só pra mencionar alguns!!!). Ah, e muita gente incrível já foi roteirista, tipo a Mindy Kaling.

Mas o SNL, que já existe há quase 42 anos, tem um problema muito sério com diversidade racial no elenco e só muito recentemente começou a incluir mais atrizes e atores não-brancos (negros, latinos, asiáticos, etc)! A real é que o elenco sempre tinha uma ou outra pessoa negra (tipo o Chris Rock no começo da década de 90 ou o Tracy Morgan no final da década de 90), mas agora é a primeira vez que temos várias pessoas negras ao mesmo tempo! O ator Kenan Thompson (que vocês devem conhecer de Kenan & Kel) já está no programa desde 2003, mas agora finalmente temos também a Leslie, a Sasheer Zamata, o Jay Pharoah e o Michael Che. Esse cenário permitiu que o SNL fizesse cada vez mais quadros abordando a temática racial. Como o famoso quadro do “Dia que a Beyoncé virou negra” e o esse aqui sobre o Black History Month.

A questão é que em sociedades racistas e excludentes, ver mulheres negras ocupando esses espaços tradicionalmente brancos incomoda. A participação da Leslie no Caça-fantasmas e no SNL incomoda.As mulheres negras têm muito pouco espaço na mídia, no entretenimento e na comédia. E os ataques extremamente odiosos dirigidos à Leslie não são novidade pra mulheres negras que têm visibilidade e eles contém uma carga de racismo gigantesca. A Serena Williams, por exemplo, sempre sofre ataques similares aos que a Leslie sofreu. Por isso o trabalho da Leslie e de outras mulheres negras é super importante!

Há alguns dias, vimos esse vídeo da Leslie homenageando a Whoopi Goldberg, que teve um papel importantíssimo abrindo portas para outras mulheres negras no entretenimento. A Leslie disse: “Eu só queria agradecer do fundo do meu coração pelo que você fez pelas mulheres negras. Pelo que você fez pelos comediantes negros.” Ela acrescenta que quando viu Whoopi na televisão pela primeira vez, chorou por ter finalmente enxergado alguém igual a ela ocupando aquele espaço. E para muitas meninas negras, ver a Leslie no Caça-fantasmas em 2016 tem esse mesmo efeito <3.

Por isso, é crucial que nos posicionemos contra esse tipo de ataque racista. Muitas celebridades, tipo a jada Pinkett-Smith e o Matt McGorry, mandaram tuítes de apoio à Leslie usando a hashtag #LoveForLeslieJ. Mas além disso, é importante que sites como o Twitter criem uma política séria de combate ao discurso racista.

Pra quem quiser conhecer mais sobre a Leslie, o Saturday Night Live fez esse vídeo AskSNL: Leslie Jones:

Ai, e quanto mais a gente aprende sobre a Leslie, mais legal ela se torna. A Leslie estudou na Colorado State University e tinha uma bolsa de estudos por ser jogadora de basquete. Durante seus anos na universidade, a Leslie estudou várias coisas: de Ciências da Computação a Contabilidade, mas se formou em Comunicação. E, aliás, ela ganhou o concurso de pessoa mais engraçada no campus.

E gente, na moral, corram pra assistir o novo Caça-fantasmas! E mandem amor pra Leslie Jones com a hashtag #LoveForLeslieJ.

#LoveForLeslieJ

 

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Dossiê Violência Contra as Mulheres, da Agência Patrícia Galvão, explica que há “diferenças em formas de violência que vão atingir desproporcionalmente as mulheres ante a combinação de múltiplas formas de discriminação, baseadas em sistemas de desigualdades que se retroalimentam – sobretudo de gênero, raça, etnia, classe e orientação e identidade sexual”. 

A história escravagista desse país ajudou a construir estereótipos ainda muito presentes que desumanizam e sexualizam as mulheres negras mesmo antes de entrarmos na puberdade, e que continuam a nos atormentar ao longo da vida adulta.

O mito racista da mulher negra hipersexualizada, subalterna e animalizada, vitimiza centenas de meninas e mulheres negras diariamente. As meninas negras são as maiores vítimas de exploração sexual infantil e de adolescentes. A taxa de homicídio de mulheres negras é o dobro da taxa das mulheres brancas.

Somos brutalmente atacadas todos os dias e eu nunca vou me acostumar.
 

Ilustração feita com exclusividade por Ana Carolina Matsusaki (Nã).

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