Acho importante começar esse texto afirmando que eu gosto muito da Zoe Saldana. Ela é uma atriz ótima e uma pessoa bem bacaninha também. Mas ela definitivamente não é a melhor pessoa para fazer o papel da Nina Simone. É importante que, ao criticar a produção do filme biográfico “Nina”, nós tenhamos o cuidado de não jogar a Zoe na fogueira. Mas é inevitável criticar a escolha de elenco do filme.
A Zoe não se parece fisicamente com a Nina Simone. Para o papel, Zoe usou próteses para o nariz e maquiagem para escurecer a pele [A Zoe é uma atriz negra, então eu tenho minhas ressalvas quanto a chamar a maquiagem e adereços que ela usa no filme de “blackface”. Acho que só quem faz “blackface” mesmo são pessoas brancas, mas eu continuo achando bizarríssimo].
Assim, questionar a qualidade dessa produção e também os motivos que levaram os produtores a escolherem Zoe para o papel é mais do que esperado; especialmente quando consideramos a enorme quantidade de atrizes negras talentosíssimas que se parecem mais com a Nina e que poderiam ter representado a cantora com maestria e sem a necessidade de escurecer sua pele artificialmente.
Digo que temos que evitar transformar as críticas ao filme em ataques focados na Zoe por alguns motivos. O primeiro motivo é que a Zoe é uma atriz negra numa indústria racista que frequentemente exclui mulheres negras, negando papéis e deixando de contratar atrizes como ela. E mais, uma indústria que raramente conta histórias como as de Nina Simone. Então, eu até entendo a vontade da Zoe de querer participar de um projeto que pretende contar a história de uma mulher tão importante. Ao mesmo tempo, acho que ela não deveria ter aceito o papel.
A escolha de uma atriz negra de pele clara para o papel de Nina é uma escolha política. Com a escalação de Zoe, a indústria está, mais uma vez, excluindo especificamente as mulheres negras de pele mais escura. O que está rolando aqui é que um filme sobre uma mulher negra que falava sobre mulheres negras está ignorando uma parte importante bem grande da sua identidade.
A própria Zoe já se pronunciou algumas vezes sobre o filme, alegando não ter gostado do resultado final e confessando que não se dava bem com a equipe. Acho que o que eu quero dizer é: foi muita cagada da Zoe entrar nesse projeto? Foi. Mas a cagada ainda maior é do estúdio que patrocinou a coisa toda e da equipe de produção e direção, que é majoritariamente branca.
Isso me leva a pensar no seguinte: pessoas brancas fazem papéis de pessoas negras ou de asiáticos o TEMPO TODO. Whitewashing, blackface e yellowface são fenômenos racistas e quase que epidêmicos de tão comuns. Esses dias o “Huffington Post” fez uma lista de 25 vezes em que atrizes e atores brancos fizeram blackface ou yellowface e ninguém se importou. O Jim Sturgess (“Um dia”, “Across the universe”), por exemplo, já fez essa enorme tosqueira DUAS vezes! Teve o mega whitewashing em “Quebrando a Banca” (originalmente o personagem dele era baseado no Jeffrey Ma, um estudante de ascendência chinesa) e um yellowface absurdo em “Cloud Atlas”. E a Angelina Jolie representando a francesa de ascendência afrocubana Mariane Pearl em total blackface?! SEM NOÇÃO. E o Joseph Fiennes fazendo o papel do Michael Jackson. (Sim, o irmão do Voldemort vai fazer o MJ. Esse caso é ainda mais absurdo quando lembramos que o próprio Michael Jackson já tinha afirmado várias vezes que não aceitaria um homem branco fazendo seu papel)! E essa palhaçada precisa acabar. Logo.
Um textinho para quem quer entender um pouco do por quê é problemático ver a Zoe Saldana no papel da Nina Simone.
Aqui um vídeo da Nina Simone discutindo negritude para revitalizar <3
Acho importante começar esse texto afirmando que eu gosto muito da Zoe Saldana. Ela é uma atriz ótima e uma pessoa bem bacaninha também. Mas ela definitivamente não é a melhor pessoa para fazer o papel da Nina Simone. É importante que, ao criticar a produção do filme biográfico “Nina”, nós tenhamos o cuidado de não jogar a Zoe na fogueira. Mas é inevitável criticar a escolha de elenco do filme.
A Zoe não se parece fisicamente com a Nina Simone. Para o papel, Zoe usou próteses para o nariz e maquiagem para escurecer a pele [A Zoe é uma atriz negra, então eu tenho minhas ressalvas quanto a chamar a maquiagem e adereços que ela usa no filme de “blackface”. Acho que só quem faz “blackface” mesmo são pessoas brancas, mas eu continuo achando bizarríssimo].
Assim, questionar a qualidade dessa produção e também os motivos que levaram os produtores a escolherem Zoe para o papel é mais do que esperado; especialmente quando consideramos a enorme quantidade de atrizes negras talentosíssimas que se parecem mais com a Nina e que poderiam ter representado a cantora com maestria e sem a necessidade de escurecer sua pele artificialmente.
Digo que temos que evitar transformar as críticas ao filme em ataques focados na Zoe por alguns motivos. O primeiro motivo é que a Zoe é uma atriz negra numa indústria racista que frequentemente exclui mulheres negras, negando papéis e deixando de contratar atrizes como ela. E mais, uma indústria que raramente conta histórias como as de Nina Simone. Então, eu até entendo a vontade da Zoe de querer participar de um projeto que pretende contar a história de uma mulher tão importante. Ao mesmo tempo, acho que ela não deveria ter aceito o papel.
A escolha de uma atriz negra de pele clara para o papel de Nina é uma escolha política. Com a escalação de Zoe, a indústria está, mais uma vez, excluindo especificamente as mulheres negras de pele mais escura. O que está rolando aqui é que um filme sobre uma mulher negra que falava sobre mulheres negras está ignorando uma parte importante bem grande da sua identidade.
A própria Zoe já se pronunciou algumas vezes sobre o filme, alegando não ter gostado do resultado final e confessando que não se dava bem com a equipe. Acho que o que eu quero dizer é: foi muita cagada da Zoe entrar nesse projeto? Foi. Mas a cagada ainda maior é do estúdio que patrocinou a coisa toda e da equipe de produção e direção, que é majoritariamente branca.
Isso me leva a pensar no seguinte: pessoas brancas fazem papéis de pessoas negras ou de asiáticos o TEMPO TODO. Whitewashing, blackface e yellowface são fenômenos racistas e quase que epidêmicos de tão comuns. Esses dias o “Huffington Post” fez uma lista de 25 vezes em que atrizes e atores brancos fizeram blackface ou yellowface e ninguém se importou. O Jim Sturgess (“Um dia”, “Across the universe”), por exemplo, já fez essa enorme tosqueira DUAS vezes! Teve o mega whitewashing em “Quebrando a Banca” (originalmente o personagem dele era baseado no Jeffrey Ma, um estudante de ascendência chinesa) e um yellowface absurdo em “Cloud Atlas”. E a Angelina Jolie representando a francesa de ascendência afrocubana Mariane Pearl em total blackface?! SEM NOÇÃO. E o Joseph Fiennes fazendo o papel do Michael Jackson. (Sim, o irmão do Voldemort vai fazer o MJ. Esse caso é ainda mais absurdo quando lembramos que o próprio Michael Jackson já tinha afirmado várias vezes que não aceitaria um homem branco fazendo seu papel)! E essa palhaçada precisa acabar. Logo.
Um textinho para quem quer entender um pouco do por quê é problemático ver a Zoe Saldana no papel da Nina Simone.
Aqui um vídeo da Nina Simone discutindo negritude para revitalizar <3
Nina Simone apenas ficaria chocada (Cena do filme 'What Happened, Miss Simone?')
Acho importante começar esse texto afirmando que eu gosto muito da Zoe Saldana. Ela é uma atriz ótima e uma pessoa bem bacaninha também. Mas ela definitivamente não é a melhor pessoa para fazer o papel da Nina Simone. É importante que, ao criticar a produção do filme biográfico “Nina”, nós tenhamos o cuidado de não jogar a Zoe na fogueira. Mas é inevitável criticar a escolha de elenco do filme.
A Zoe não se parece fisicamente com a Nina Simone. Para o papel, Zoe usou próteses para o nariz e maquiagem para escurecer a pele [A Zoe é uma atriz negra, então eu tenho minhas ressalvas quanto a chamar a maquiagem e adereços que ela usa no filme de “blackface”. Acho que só quem faz “blackface” mesmo são pessoas brancas, mas eu continuo achando bizarríssimo].
Assim, questionar a qualidade dessa produção e também os motivos que levaram os produtores a escolherem Zoe para o papel é mais do que esperado; especialmente quando consideramos a enorme quantidade de atrizes negras talentosíssimas que se parecem mais com a Nina e que poderiam ter representado a cantora com maestria e sem a necessidade de escurecer sua pele artificialmente.
[caption id="attachment_9626" align="aligncenter" width="467"] Zoe Saldana em foto da revista ‘Vogue’ UK[/caption]
Digo que temos que evitar transformar as críticas ao filme em ataques focados na Zoe por alguns motivos. O primeiro motivo é que a Zoe é uma atriz negra numa indústria racista que frequentemente exclui mulheres negras, negando papéis e deixando de contratar atrizes como ela. E mais, uma indústria que raramente conta histórias como as de Nina Simone. Então, eu até entendo a vontade da Zoe de querer participar de um projeto que pretende contar a história de uma mulher tão importante. Ao mesmo tempo, acho que ela não deveria ter aceito o papel.
A escolha de uma atriz negra de pele clara para o papel de Nina é uma escolha política. Com a escalação de Zoe, a indústria está, mais uma vez, excluindo especificamente as mulheres negras de pele mais escura. O que está rolando aqui é que um filme sobre uma mulher negra que falava sobre mulheres negras está ignorando uma parte importante bem grande da sua identidade.
A própria Zoe já se pronunciou algumas vezes sobre o filme, alegando não ter gostado do resultado final e confessando que não se dava bem com a equipe. Acho que o que eu quero dizer é: foi muita cagada da Zoe entrar nesse projeto? Foi. Mas a cagada ainda maior é do estúdio que patrocinou a coisa toda e da equipe de produção e direção, que é majoritariamente branca.
[caption id="attachment_9630" align="aligncenter" width="636"] Zoe Saldana no filme ‘Nina’[/caption]
Isso me leva a pensar no seguinte: pessoas brancas fazem papéis de pessoas negras ou de asiáticos o TEMPO TODO. Whitewashing, blackface e yellowface são fenômenos racistas e quase que epidêmicos de tão comuns. Esses dias o “Huffington Post” fez uma lista de 25 vezes em que atrizes e atores brancos fizeram blackface ou yellowface e ninguém se importou. O Jim Sturgess (“Um dia”, “Across the universe”), por exemplo, já fez essa enorme tosqueira DUAS vezes! Teve o mega whitewashing em “Quebrando a Banca” (originalmente o personagem dele era baseado no Jeffrey Ma, um estudante de ascendência chinesa) e um yellowface absurdo em “Cloud Atlas”. E a Angelina Jolie representando a francesa de ascendência afrocubana Mariane Pearl em total blackface?! SEM NOÇÃO. E o Joseph Fiennes fazendo o papel do Michael Jackson. (Sim, o irmão do Voldemort vai fazer o MJ. Esse caso é ainda mais absurdo quando lembramos que o próprio Michael Jackson já tinha afirmado várias vezes que não aceitaria um homem branco fazendo seu papel)! E essa palhaçada precisa acabar. Logo.
Um textinho para quem quer entender um pouco do por quê é problemático ver a Zoe Saldana no papel da Nina Simone.
Aqui um vídeo da Nina Simone discutindo negritude para revitalizar <3
O Hair Freedom é um mini-documentário da BBC Raw sobre como é a vida de mulheres negras em Londres que resolveram viver com seus cabelos naturais.
O debate sobre transição capilar está se tornando cada vez mais importante.O documentário feito pela Zindzi Rocque Drayton mostra entrevistas de mulheres negras no Reino Unido que resolveram se despedir dos moldes eurocêntricos de beleza.
A Zindzi comenta como o cabelo liso está normalizado na nossa sociedade e como muitas mulheres negras sentem pressão para alisar quimicamente suas texturas.
Zoe Saldana. Ela é uma atriz ótima e uma pessoa bem bacaninha também. Mas ela definitivamente não é a melhor pessoa para fazer o papel da Nina Simone. É importante que, ao criticar a produção do filme biográfico “Nina”, nós tenhamos o cuidado de não jogar a Zoe na fogueira. Mas é inevitável criticar a escolha de elenco do filme.
A Zoe não se parece fisicamente com a Nina Simone. Para o papel, Zoe usou próteses para o nariz e maquiagem para escurecer a pele [A Zoe é uma atriz negra, então eu tenho minhas ressalvas quanto a chamar a maquiagem e adereços que ela usa no filme de “blackface”. Acho que só quem faz “blackface” mesmo são pessoas brancas, mas eu continuo achando bizarríssimo].
Assim, questionar a qualidade dessa produção e também os motivos que levaram os produtores a escolherem Zoe para o papel é mais do que esperado; especialmente quando consideramos a enorme quantidade de atrizes negras talentosíssimas que se parecem mais com a Nina e que poderiam ter representado a cantora com maestria e sem a necessidade de escurecer sua pele artificialmente.
Digo que temos que evitar transformar as críticas ao filme em ataques focados na Zoe por alguns motivos. O primeiro motivo é que a Zoe é uma atriz negra numa indústria racista que frequentemente exclui mulheres negras, negando papéis e deixando de contratar atrizes como ela. E mais, uma indústria que raramente conta histórias como as de Nina Simone. Então, eu até entendo a vontade da Zoe de querer participar de um projeto que pretende contar a história de uma mulher tão importante. Ao mesmo tempo, acho que ela não deveria ter aceito o papel.
A escolha de uma atriz negra de pele clara para o papel de Nina é uma escolha política. Com a escalação de Zoe, a indústria está, mais uma vez, excluindo especificamente as mulheres negras de pele mais escura. O que está rolando aqui é que um filme sobre uma mulher negra que falava sobre mulheres negras está ignorando uma parte importante bem grande da sua identidade.
A própria Zoe já se pronunciou algumas vezes sobre o filme, alegando não ter gostado do resultado final e confessando que não se dava bem com a equipe. Acho que o que eu quero dizer é: foi muita cagada da Zoe entrar nesse projeto? Foi. Mas a cagada ainda maior é do estúdio que patrocinou a coisa toda e da equipe de produção e direção, que é majoritariamente branca.
Isso me leva a pensar no seguinte: pessoas brancas fazem papéis de pessoas negras ou de asiáticos o TEMPO TODO. Whitewashing, blackface e yellowface são fenômenos racistas e quase que epidêmicos de tão comuns. Esses dias o “Huffington Post” fez uma lista de 25 vezes em que atrizes e atores brancos fizeram blackface ou yellowface e ninguém se importou. O Jim Sturgess (“Um dia”, “Across the universe”), por exemplo, já fez essa enorme tosqueira DUAS vezes! Teve o mega whitewashing em “Quebrando a Banca” (originalmente o personagem dele era baseado no Jeffrey Ma, um estudante de ascendência chinesa) e um yellowface absurdo em “Cloud Atlas”. E a Angelina Jolie representando a francesa de ascendência afrocubana Mariane Pearl em total blackface?! SEM NOÇÃO. E o Joseph Fiennes fazendo o papel do Michael Jackson. (Sim, o irmão do Voldemort vai fazer o MJ. Esse caso é ainda mais absurdo quando lembramos que o próprio Michael Jackson já tinha afirmado várias vezes que não aceitaria um homem branco fazendo seu papel)! E essa palhaçada precisa acabar. Logo.
Um textinho para quem quer entender um pouco do por quê é problemático ver a Zoe Saldana no papel da Nina Simone.
Aqui um vídeo da Nina Simone discutindo negritude para revitalizar <3