Quero ser: Luciana Brito

Nos últimos anos, apesar do aumento nas taxas gerais de escolarização, a quantidade de mulheres e homens negros no ensino superior ainda é muito menor que a quantidade de estudantes brancos (Dossiê Mulher Negra, IPEA, 2013).
Infelizmente, ainda temos pouquíssimas referências de negras ocupando o ambiente acadêmico. E isso acaba normalizando a noção de que nós, mulheres negras, devemos almejar apenas alguns tipos de emprego. Isso faz com que muitas meninas negras sequer contemplem frequentar o ensino superior.
Conhecer e conversar sobre as trajetórias profissionais de mulheres negras é uma forma de inspirar meninas negras que não sabem muito bem que caminho seguir. É um jeito de mostrar que existe um grande leque de opções e de caminhos possíveis. Por isso, resolvemos entrevistar a Luciana Brito, uma mulher negra, baiana, mãe, que estuda relações raciais no Brasil e nos EUA. Ela é doutora em História Social pela USP, mestra em História Social pela UNICAMP e licenciada em história pela UFBA. A Luciana já foi pesquisadora visitante no Instituto Du Bois de Harvard e bolsista Fulbright na NYU, onde completou seu doutorado sanduíche.  Mais recentemente, ela também foi fellow de pós-doutorado na City University of New York e professora visitante no Trinity College. (Ufa, que currículão, né?).
Nessa entrevista, a Luciana fala sobre os caminhos que a levaram até a Universidade; sobre racismo, no mundo acadêmico e fora dele; e sobre os obstáculos que são impostos às mulheres negras ao longo de nossas vidas. Luciana é uma das mulheres negras que estão aí pra mostrar que chegar (e permanecer) na universidade sendo uma mulher negra não é uma trajetória fácil, nem indolor; mas é uma trajetória possível e é cada vez mais nossa.

Ovelha: Será que você pode me contar um pouco da sua história? Quem você é, de onde veio, o que você faz?

Luciana Brito: Meu nome é Luciana Brito, sou uma mulher negra e nordestina. Faço parte da primeira geração da minha família que nasceu na capital, Salvador. Isso é importante ser dito porque meus pais são parte de uma geração que nasceu no interior mas que, na fase adulta, migrou para a capital em busca de melhores empregos e melhor educação para os filhos. Com isso eu digo que venho de uma família de pessoas trabalhadoras, que não tinham trajetória na universidade, cujas mulheres almejavam casar e ter filhos. Eu nunca quis isso, pelo menos não como objetivo principal da minha vida. Eu também sou historiadora e filha de Oyá. Também sou mãe de um menininho chamado Lonan.

Ovelha: Como você escolheu sua área de atuação? Por quê escolheu estudar História? Quando você começou a estudar História, você já pretendia seguir uma carreira acadêmica?

Luciana Brito: Na minha família quando a gente terminava o segundo grau se entrava no mercado de trabalho e pronto. Quando eu era adolescente, eu não me enquadrava no tal critério da “boa aparência” (branca e magra), que era abertamente exigida nas vagas de emprego. Eu sabia que minhas oportunidades eram restritas. Por outro lado, eu sempre gostei de estudar, de ler e escrever. Também eu sempre gostei de história. Porém nos era dito na escola que quem gostava e era boa em história deveria fazer vestibular para direito. Eu não tinha nenhuma pressão familiar para entrar em um curso ou outro porque entrar na universidade foi uma decisão minha, ninguém sabia opinar. Foi somente no meu segundo ano de cursinho pré-vestibular, que eu mesma pagava porque já trabalhava, que eu decidi que eu gosta mesmo era de história. Mesmo assim, eu não sabia bem como era a formação de historiadora, eu não sabia nada sobre pesquisa e eu achava que seria professora…na verdade, eu não sabia muito bem o que fazer com uma formação em história antes de entrar na universidade, mas eu tinha certeza de que o curso abriria um mundo para mim…um mundo de conhecimento, e isso de fato aconteceu.

Ovelha: Você concluiu sua graduação na UFBA em 2003, certo? Como foi a entrada na universidade? Muitas de nós, mulheres negras, enfrentamos racismo e machismo no ambiente acadêmico. Você teve/tem que lidar com isso nas instituições que você frequentou/frequenta? Se sim, como foi essa experiência?

Luciana Brito: Minha entrada na universidade foi muito difícil. Primeiro, eu não tinha apoio da família, que não entendia muito bem a importância de uma pessoa como eu fazer faculdade. Não se tinha a perspectiva da educação como um investimento a longo prazo, sobretudo para uma mulher negra jovem. Pois bem, na universidade eu tive que me deparar com uma dura realidade de fazer um curso que era extremamente elitizado. Eu me recordo que de uma turma de 40 pessoas, acho que 5 eram negras. Dessas 5, pelo menos naquela época, acho que metade se identificava como negra. A minha própria identidade enquanto mulher negra se construiu ao longo do curso graças ao movimento negro, sobretudo as mulheres da militância. Na universidade, além de negra eu era pobre. Os textos, a alimentação, o transporte, tudo isso era muito caro. Embora muitos professores e professoras fossem uma fonte de inspiração, e até de incentivo, a maioria dos docentes não gosta desse perfil de aluna/aluno vindo de escola pública, pois acredita-se que nós temos problemas de formação, sobretudo de escrita. Então o curso, as seleções para iniciação científica acabavam mantendo o ciclo de desigualdade dentro da universidade. Com os/as colegas, se você ousasse apontar o dedo na ferida, o que eu fiz, você era taxada de racista, paranoica e ressentida. Eu sinceramente prefiro acreditar que a maioria das pessoas tenham avançado, mas pelo menos durante a graduação meus colegas pensavam assim. A UFBa mudou bastante com a implementação do sistema de cotas, que na época era veementemente rejeitada pelos meus colegas. Você vai ao campus hoje e o cenário é bem mais diverso. Existem poucos, porém mais professoras e professores negros que antes. As estudantes negras estão mais altivas…o cenário é outro. O racismo e o machismo ainda estão lá, mas as mulheres negras estão botando a boca no mundo. Se eu tive a sensação de um “não lugar” durante meus 4 anos de graduação, acho que hoje as pessoas se impõem e reivindicam aquele espaço e também se organizam em grupos políticos que, pelo menos reduzem ou definitivamente eliminam, esse sentimento de estar num lugar que você não pertence.

Ovelha: Você é uma especialista em escravidão e abolição nos EUA e no Brasil. Como você resolveu pautar esse assunto? Por que esse era um tema importante pra você?

Luciana Brito: Eu comecei a pesquisar esse assunto de forma superficial em 2004, quando fui estudante intercambista na Howard University, a primeira universidade negra dos Estados Unidos fundada em 1867 após a Guerra Civil e a abolição. Primeiramente, é importante dizer que eu fui selecionada por um programa chamado A Cor Da Bahia e este programa tinha como um dos objetivos levar estudantes negros e negras para universidades estadunidenses. A despeito das minhas boas notas, assim como acontecia com outras estudantes negras, a exigência da proficiência em língua inglesa geralmente nos deixava de fora desse tipo de intercâmbio. Pois bem, na Howard University, um dos meus professores sugeriu que como trabalho de fim de curso, eu buscasse alguma documentação sobre Brasil nos Estados Unidos. Foi aí que fiz um levantamento na Biblioteca do Congresso Norte-Americano e encontrei diversos exemplares de jornais The New York Times e Washington Post sobre o processo de abolição da escravidão no Brasil e diversos artigos em que os norte-americanos comparavam a escravidão nos dois países. Esse tema para mim era fascinante! Foi nesses jornais que eu entendi que a ideia do Brasil como oposto da sociedade estadunidense, racialmente harmoniosa, data desde o século XIX. Mais tarde, após o meu mestrado, eu amadureci esse projeto e o apresentei na USP como meu projeto de doutorado, que conclui em 2014. Esse tema era importante para mim pela possibilidade de entender como as nações escravistas estavam se observando e como as noções sobre raça eram produzidas pelas elites, interessadas na manutenção do sistema escravista. Como estas ideias tinham caráter científico, elas ganhavam força como verdade incontestável. Eu também acho importante que saibamos como, tanto senhores de escravos quanto negros estadunidenses buscavam referências além das fronteiras nacionais para defender suas crenças. No caso dos afro-americanos, tema favorito da minha pesquisa, foi muito importante para mim saber que o movimento abolicionista negro no século XIX, buscava referências de liberdade e identidade negra na população negra do Brasil. Nós tendemos a acreditar que a busca por estas referências diaspóricas é coisa nova, mas não é.

Ovelha: Nós vivemos em um contexto de constante menosprezo do intelecto das mulheres negras. É sabido que, ao longo de suas trajetórias educacionais, meninas negras são pouco estimuladas a seguirem carreiras acadêmicas. Além disso, espaço escolar é hostil às meninas negras, que são expulsas e repreendidas com mais frequência. Como resultado, temos um número ainda reduzido de mulheres negras seguindo carreiras acadêmicas. Como você acha que podemos quebrar esse ciclo? Que oportunidades fizeram a diferença pra você?

Luciana Brito: Eu me lembro que quando eu tinha 12 anos, eu estava na casa da minha avó materna, quando um amigo dela chegou e me viu lendo. Ai ele disse: “A minha sobrinha ( que era uma menina negra também) tem 7 anos e trata um peixe como uma adulta, uma beleza”. A minha avó respondeu para ele assim: “Essa daí não sabe fazer nada, só sabe ler e escrever”. Entendeu? Desde muito cedo eu sabia que gostar de ler e escrever seria um “problema”, não seria algo a ser celebrado nem entre minha família e nem pela sociedade. Eu acho que a solução para isso são três. Primeiro é investir nas meninas negras, é fazê-las crer que elas tem algo importante a dizer, que sua escrita é algo que pode fazer o mundo melhor, que sua forma de ver o mundo nunca será a mesma que nenhum outro setor da sociedade. A segunda coisa é referência. É preciso que as jovens negras saibam que existem mulheres negras escritoras, historiadoras, sociólogas, educadoras que estão revolucionando a educação nesse país. É preciso que, quando muito jovens, nos saibamos que podemos estar em qualquer lugar. A terceira coisa fundamental para quebrar esse ciclo é um projeto coletivo. Em hipótese alguma uma mulher negra pode desencorajar a escrita da outra ou pontuar seus limites de maneira desrespeitosa, em hipótese alguma. Isso é um tiro no pé. Tony Morrison nos disse que escrever é um ato de coragem e devemos encorajar todas as mulheres negras e tomarem essa atitude revolucionária que é escrever numa sociedade machista, racista e que não nos escuta. Eu, e outras mulheres negras, somos fruto de um projeto coletivo que eu acredito que deu certo, mesmo com todas as conquistas que ainda estamos por conquistar. Quando eu entrei na universidade eu não sabia o que era mestrado ou doutorado, e mais tarde quando eu sabia o que isso era, eu acreditava que isso não era para mim. O movimento de mulheres negras teve um papel importantíssimo em me convencer das minhas capacidades e que eu deveria cursar a pós-graduação.

Ovelha: Atualmente você é postdoctoral fellow na CUNY e professora visitante no Trinity College, duas instituições bem respeitadas. Além disso, você foi pesquisadora visitante em Harvard e bolsista na NYU, certo? Como é o dia-a-dia nessas universidades? Como é ser uma professora negra e brasileira nesses contextos?

Luciana Brito: Foram experiências super-interessantes que enriqueceram bastante minha vida profissional, mas também reforçaram ainda mais minha defesa da universidade pública no Brasil.

As universidades nos Estados Unidos tem uma estrutura incrível. Bibliotecas ricas, livros disponíveis para todo mundo, diversas bases de dados que facilitam bastante a pesquisa em fontes primárias que estão espalhadas por todo o país. Tanto em Harvard quanto na NYU, como pesquisadora, estes recursos foram muito importantes para a pesquisa que eu desenvolvia. Porém, tudo é privado e caro. A universidade não está ao alcance da maioria dos negros e latinos que são pobres, a não ser que esta estudante tenha crédito e se endivide pelo resto da vida. É um absurdo que a produção intelectual de um país, sobretudo um país rico, seja sustentada às custas do endividamento da sua juventude. É por isso que a universidade pública brasileira é tão importante e devemos preservar esse direito, a todo custo. O que percebemos em universidades como Harvard, NYU e até mesmo no Trinity College, que é um college de elite, é que a educação superior nos Estados Unidos é um privilégio.

A outra coisa é sobre a representação de pessoas negras, mulheres e pessoas LGBT nos campus. Todos estes grupos denunciam e exigem participação e um tratamento digno. Outra coisa que me chamou atenção é que, aparentemente, há mais pessoas negras na academia estadunidense, mas isso é uma ilusão. O número de docentes negras, sobretudo mulheres, é pequeno. Não tão pequeno como no Brasil, mas é. Com a precarização do trabalho nas universidades e a redução de posições permanentes, o que é chamado de tenure, percebemos que são as pessoas negras aquelas que estão em condições de trabalho mais precarizadas na academia ou até mesmo desempregadas. No ano passado e neste ano eu tive uma experiência incrível em CUNY como pós-doutoranda, que é uma universidade mais diversa. Eu tive apoio e estrutura pesquisar, o que foi muito importante porque ser mãe na e ser acadêmica não é nada, nada fácil. Quando fui professora visitante em Trinity, ensinar em inglês foi um grande desafio, mas deu certo! Eu ensinei uma disciplina que era uma análise da escravidão, da abolição e sobre a condição de vida das populações negras no Brasil e nos Estados Unidos. Foi incrível! Os alunos não conheciam nada, ou quase nada, sobre o Brasil, além daquilo que é propaganda turística. Então discutimos a cultura, politica, atos de resistência individual e coletiva, a vida das mulheres negras escravizadas e livres, além das lutas atuais dos movimentos sociais e a dinâmica racial de cada país. Numa universidade branca, onde quase todos os estudantes e docentes são brancos, eu sentia a falta de familiaridade de todo o campus em relação a corpos negros e femininos no campus, inclusive como docente. O outro fator é ser uma mulher negra que fala com sotaque porque inglês não é seu primeiro idioma. O estranhamento, e algumas vezes o desconforto, estava lá, mas eu sentia que eu tinha um papel importante para outras mulheres negras jovens, que buscavam apoio numa palavra e muitas vezes simplesmente numa troca de olhar ou num sorriso acolhedor. Para estes jovens negros, homens e mulheres, era muito importante ter docentes negros no campus que pudessem ser suas referências.

Ovelha: Eu gostaria que você falasse um pouquinho das suas impressões sobre as diferentes formas que o racismo se materializa nos EUA e no Brasil.  

Luciana Brito: Coisas muito interessantes tem acontecido no Brasil e nos Estados Unidos. Enquanto aqui nos estamos cada vez mais botando o “dedo na ferida” e falando em desigualdade racial de forma muito aberta, hoje, nos EUA, alguns setores sociais têm tratado o tema racismo como um tabu. No Brasil também estamos reivindicando lutas sociais da perspectiva da experiência negra, por exemplo, existe um movimento feminista negro no Brasil composto por mulheres de todas as idades que tem dado o tom na luta contra o machismo e o sexismo. As pessoas negras no Brasil tem rejeitado uma identidade que renuncia a negritude e tem se afirmado como negras cada vez mais. Nos Estados Unidos, muita gente tem adotado o discurso do “birracial”, do “new black”, para afirmar uma sociedade pós-racista ou uma identidade racial intermediária, dinâmicas que nós no Brasil conhecemos muito bem. Ao mesmo tempo, a morte de jovens negros nos Estados Unidos e que estão impunes, como Trayvon Martin, Tamir Rice, Michael Brown, Sandra Bland (que foi morta sob custodia da polícia), todos os casos de abuso e violência policial, mobilizam protestos como aqueles organizados pela campanha Black Lives Matter, que tem cumprido um papel importantíssimo na tarefa de denunciar a violência contra a população negra e cobrado um posicionamento de lideranças politicas, inclusive candidatos à presidência. Por outro lado, estes episódios também despertam atitudes reacionárias de pessoas que culpam as vítimas, que se articulam para apoiar os assassinos legal e financeiramente ou que não querem falar no assunto porque se sentem constrangidas ou porque acham que as pessoas negras estão exagerando.

A população negra lá está tão vulnerável quanto no Brasil, inclusive as mulheres negras. Em 2012 eu presenciei um episódio que me marcou muito. Uma mulher negra no metrô de Nova York tinha sido algemada na frente da sua filha, que era um bebê, acusada de tentar entrar no metrô sem pagar. Ela afirmava que o ticket havia ficado preso na máquina e que ela estava tentando puxar o bilhete para fora. Enfim, ficou algemada, foi humilhada pelos policiais todos homens, a mulher pedia que eles consultassem as câmeras de segurança para confirmar o que ela dizia…nada adiantou. Quando vi aquilo pensei: ”infelizmente, me senti em casa…é a mesma coisa.” Eu acredito que a troca de experiências, diálogo e luta contra o racismo/sexismo/homo e lesbofobia deveria se tornar transnacional, entre negros e negras daqui e de lá, de forma igualitária e horizontal. Assim, nos tornaríamos mais fortes.

 


 

Quero ser!

Quero ser é uma série de entrevistas feita com mulheres poderosas que se destacaram em suas profissões ou em suas empreitadas como empreendedoras, cientistas ou acadêmicas. Precisamos de mais referências para meninas e mulheres!

 

Mais de Bárbara Paes

Eu penso em todas nós todos os dias

Passei as últimas semanas pensando na Rayzza Ribeiro. Ela tinha 21 anos,...
Leia mais