Mulheres jornalistas contra o assédio

Mais uma vez as mulheres mostraram que não irão se calar diante de assédios justificados como “brincadeirinhas”. Muito menos no exercício de sua profissão. Ontem à noite, um grupo de mulheres jornalistas lançou um vídeo com relatos de assédios sofridos durante o trabalho. O vídeo de quase dois minutos faz parte da campanha Jornalistas Contra O Assédio, uma ação em solidariedade à repórter do portal iG assediada pelo cantor Biel.

Depois de ouvir frases machistas como “se te pego, te quebro no meio” e ser chamada de “gostosinha” durante entrevista com o MC sobre seu novo álbum, a repórter foi demitida da redação. Sim, isso mesmo. Como se já não bastasse o abalo emocional, a jornalista perdeu seu emprego pelo simples fato de tomar coragem e denunciar machinho misógino que se considera super star na Delegacia da Mulher de São Paulo.

Para provar que a repórter do iG não está sozinha e revelar o machismo presente nas redações, jornalistas criaram a fanpage no Facebook “Jornalistas Contra o Assédio”. No vídeo divulgado ontem à noite na página, são muitas as declarações bizarras de entrevistados e colegas de trabalho que as profissionais relatam ter escutado. Não são só declarações de cunho sexual ou referentes à aparência física, mas também frases que subestimavam sua competência profissional. “Ali eu escutei que as mulheres faziam as matérias mais lights, de comportamento, previsão do tempo, de bichinhos. E os homens faziam as matérias mais aprofundadas, de política e economia”, relata uma das jornalistas no vídeo.

Até o término desse texto, o vídeo já havia sido compartilhado 965 vezes. Muitos dos compartilhamentos contém relatos de outras profissionais escutaram coisas absurdas. Para quem pensava que o jornalismo é um lugar de gente cool, de mente aberta e sem preconceitos, essas histórias são um tapa na cara. Mas é um tapa na cara pra acordar essa gente e mostrar que se mexeu com uma, mexeu com todas!

Escrito por
Mais de Débora Backes

Ultrapassando os limites da cor

Passing” de Nella Larsen é uma novela sobre identidade. Sobre conhecer e desconhecer uma identidade. Sobre o jogo entre possibilidades de se ter diferentes identidades em uma pessoa só.

Na década de 1920 nos Estados Unidos, a “color line”, linha de limite entre negros e brancos, era um tema bastante delicado. Nesse contexto, negros de pele mais clara e de descendência mista praticavam algo chamado “passing”. Em uma sociedade, em que raça determinava quem podia ou não frequentar certos lugares, ter determinados empregos e morar em um bairro lá ou aqui, “passing” era quase como uma forma de sobrevivência. Como é o caso de uma das principais personagens da novela.

O livro de Nella Larsen, publicado em 1929, conta a história das amigas de infância Irene Redfield e Claire Kendry. Duas mulheres com passados iguais e um presente muito parecido, tirando alguns detalhes. As duas foram criadas no bairro de maioria afro-americana Harlem, em Nova York. Até que a morte do pai de Claire fez com que ela desaparecesse da vizinhança, o que despertou fofocas dos moradores.
PassingA novela é toda narrada em terceira pessoa pela visão de Irene, que na primeira página do livro, se mostra nervosa ao receber uma carta. O envelope com a mensagem de Claire a lembra de um encontro, por acaso, anos atrás, em Chicago. As duas estavam no terraço do Hotel Drayton, em um dia quente de verão. Era um lugar onde ambas não poderiam estar, mas estavam. A pela mais clara das duas mulheres afro-americanos as faziam passar por mulheres brancas. Ninguém mais ali sabia que elas estavam “passing”, apenas as duas. Ambas tinham conhecimento da origem uma da outra. A possibilidade de “pass” por uma pessoa de outra raça não era conhecida pelos brancos – e, só por isso, ela era possível.

Para quem lê a novela e não conhece o conceito de “passing”, a identidade racial de Irene não fica clara nas primeiras páginas. É somente no segundo capítulo que Nella Larsen revela que Irene é uma mulher negra de pele mais clara. A novela em si está “passing”, de certa forma. E é isso que a faz tão interessante.

Mesmo que ambas possam passar por mulheres brancas, apenas Claire precisa disso para sobreviver. Irene mora em Harlem, onde é bastante ativa dentro da comunidade negra. Ela é casada com o médico Brian, também afro-americano, e tem dois filhos. Irene vive sua identidade racial em sua casa, em seu bairro, em sua comunidade. Já Claire é casada com John Bellew, um homem branco bastante racista e que não faz ideia de que sua esposa tenha descendências afro-americanas. Claire esconde sua identidade racial e ignora os discursos preconceituosos do marido. Mesmo assim, ela não tem medo de ser descoberta.

Esse é outro ponto importante na novela. As duas amigas têm personalidades muito diferentes. Irene é séria, contida, controlada. Tive uma matéria sobre Leituras Feministas e Queer na minha faculdade e discutimos semanas sobre Passing e suas personagens. A professora observou que Irene tenta constantemente passar a ideia de uma mulher respeitável, séria, de classe média, também numa tentativa de ir contra aquele estereótipo da mulher negra super sexualizada – na época, havia essa ideia de que a mulher negra era sensual, selvagem sexualmente e objeto de desejo dos homens brancos. Por isso, para se aproximar do conceito de “mulher branca”, Irene tinha que mostrar um comportamento contrário a essa ideia de o que era ser uma mulher negra.

Claire, diferente da amiga, é uma mulher solta, simpática, sexy, sempre animada e que gosta de se aventurar sem pensar nos riscos. O mais interessante é que Irene parece ter mais liberdade em sua vida do que Claire, pois não tem segredos a guardar. Mas ela não vive essa liberdade plenamente. Já Claire, mesmo correndo riscos de que o Mrs. Bellew descubra suas origens, vai a eventos e bailes da comunidade negra e anseia por viver essa identidade “blackness” que lhe foi limitada.

A história gira em torno dessa relação de amizade entre as duas mulheres. Mas muitas questões ficam no ar o tempo todo. Alguns enxergam uma atração física de Irene por Claire, pela forma como a descreve – como uma mulher linda e sensual – e fica obcecada pela amiga. Também tem uma questão de traição no meio da trama. Irene começa a suspeitar de que Brian a está traindo com Claire, já que os dois passam muito tempo juntos. Mas nada disso é esclarecido em nenhum momento do romance.

Roubando mais uma vez a fala da minha professora, dá pra dizer a obra de Nella Larsen é uma novela sobre knowing and not-knowing. E é exatamente isso que faz a prática do passing possível. O saber mas não saber exatamente, como no caso de John Bellew, que acreditava saber tudo sobre sua esposa, mas que não conhece seu passado. É um livro que coloca o tempo todo a questão do que é afinal blackness and whitness – o que são essas identidade? O que significa ser negro ou branco? O que é afinal essa “color line”? Isso não é respondido no livro, mas fica nas nossas cabecinhas pensantes.
 

 
Acredito também que Nella Larsen colocou muito de sua experiência de vida na novela. Nascida em Chicago, a autora também tinha descendência mista: afro-caribenha e dinamarquesa. Larsen morou em Nova York e, por um tempo, no bairro de suas protagonistas, o Harlem.

Infelizmente, não encontrei o livro em português, somente em inglês. Talvez ainda não tenha sido traduzido… Mas a linguagem em inglês até que é bem fácil e o livro não é longo. Ou seja, super recomendável pra quem gosta de novelas feministas mais clássicas (e quer treinar seu inglês!).
 

Imagem de capa feita a partir da edição do livro pela African/American Library

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“Jornalistas Contra o Assédio”. No vídeo divulgado ontem à noite na página, são muitas as declarações bizarras de entrevistados e colegas de trabalho que as profissionais relatam ter escutado. Não são só declarações de cunho sexual ou referentes à aparência física, mas também frases que subestimavam sua competência profissional. “Ali eu escutei que as mulheres faziam as matérias mais lights, de comportamento, previsão do tempo, de bichinhos. E os homens faziam as matérias mais aprofundadas, de política e economia”, relata uma das jornalistas no vídeo.

Até o término desse texto, o vídeo já havia sido compartilhado 965 vezes. Muitos dos compartilhamentos contém relatos de outras profissionais escutaram coisas absurdas. Para quem pensava que o jornalismo é um lugar de gente cool, de mente aberta e sem preconceitos, essas histórias são um tapa na cara. Mas é um tapa na cara pra acordar essa gente e mostrar que se mexeu com uma, mexeu com todas!

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“Jornalistas Contra o Assédio”. No vídeo divulgado ontem à noite na página, são muitas as declarações bizarras de entrevistados e colegas de trabalho que as profissionais relatam ter escutado. Não são só declarações de cunho sexual ou referentes à aparência física, mas também frases que subestimavam sua competência profissional. “Ali eu escutei que as mulheres faziam as matérias mais lights, de comportamento, previsão do tempo, de bichinhos. E os homens faziam as matérias mais aprofundadas, de política e economia”, relata uma das jornalistas no vídeo.

Até o término desse texto, o vídeo já havia sido compartilhado 965 vezes. Muitos dos compartilhamentos contém relatos de outras profissionais escutaram coisas absurdas. Para quem pensava que o jornalismo é um lugar de gente cool, de mente aberta e sem preconceitos, essas histórias são um tapa na cara. Mas é um tapa na cara pra acordar essa gente e mostrar que se mexeu com uma, mexeu com todas!

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