Mulheres jornalistas contra o assédio

Mais uma vez as mulheres mostraram que não irão se calar diante de assédios justificados como “brincadeirinhas”. Muito menos no exercício de sua profissão. Ontem à noite, um grupo de mulheres jornalistas lançou um vídeo com relatos de assédios sofridos durante o trabalho. O vídeo de quase dois minutos faz parte da campanha Jornalistas Contra O Assédio, uma ação em solidariedade à repórter do portal iG assediada pelo cantor Biel.

Depois de ouvir frases machistas como “se te pego, te quebro no meio” e ser chamada de “gostosinha” durante entrevista com o MC sobre seu novo álbum, a repórter foi demitida da redação. Sim, isso mesmo. Como se já não bastasse o abalo emocional, a jornalista perdeu seu emprego pelo simples fato de tomar coragem e denunciar machinho misógino que se considera super star na Delegacia da Mulher de São Paulo.

Para provar que a repórter do iG não está sozinha e revelar o machismo presente nas redações, jornalistas criaram a fanpage no Facebook “Jornalistas Contra o Assédio”. No vídeo divulgado ontem à noite na página, são muitas as declarações bizarras de entrevistados e colegas de trabalho que as profissionais relatam ter escutado. Não são só declarações de cunho sexual ou referentes à aparência física, mas também frases que subestimavam sua competência profissional. “Ali eu escutei que as mulheres faziam as matérias mais lights, de comportamento, previsão do tempo, de bichinhos. E os homens faziam as matérias mais aprofundadas, de política e economia”, relata uma das jornalistas no vídeo.

Até o término desse texto, o vídeo já havia sido compartilhado 965 vezes. Muitos dos compartilhamentos contém relatos de outras profissionais escutaram coisas absurdas. Para quem pensava que o jornalismo é um lugar de gente cool, de mente aberta e sem preconceitos, essas histórias são um tapa na cara. Mas é um tapa na cara pra acordar essa gente e mostrar que se mexeu com uma, mexeu com todas!

Escrito por
Mais de Débora Backes

Assista: Strolling

A contemporaneidade do tema e a necessidade de pessoas negras na Europa de se verem representadas lotou a noite de projeção de “Strolling” na Semana de Cinema Feminista de Berlim, que começou no dia 8 de março. O filme da diretora jamaicana-britânica Cecile Emeke gerou um desconforto necessário no público europeu e branco.

O documentário foi montado com episódios de séries feitas por Emeke, em que pessoas negras – imigrantes ou descendentes de imigrantes – falam sobre temas como pós-colonialismo, racismo e identidade, enquanto caminham por suas cidades na Itália, Inglaterra, Holanda, França e Bélgica. A querida Bárbara Paes já falou sobre a talentosa Emeke e suas séries aqui, caso você queira saber mais sobre os diferentes trabalhos da diretora.

Emeke não aparece na série, nem no filme. O interlocutor fala com a câmera, enquanto a cidade ao fundo segue seu ritmo como se os ignorasse. Todos são muito eloquentes e vão direto ao ponto: os europeus exploraram países africanos durante séculos, escravizaram e mataram diversos povos, mas agora não conseguem lidar com os descendentes daqueles que deixaram seus países forçadamente para sobreviver.

Eu queria saber o que eles fariam, se estivessem no lugar dos nossos pais, que vieram pra cá querendo algo melhor pra gente. Eles provavelmente fariam a mesma coisa!

É o que diz uma das mulheres italianas que aparece também na série “Passeggiando” (strolling, em italiano). A mesma diz que se considera italiana, respira a cultura e o idioma, mas, por ser negra, é tratada como estrangeira e se sente atacada pelos discursos atuais anti-imigração.

A questão da identidade é bastante recorrente em “Strolling”. O caso da italiana é o mesmo de outros. O de sempre ser visto como alguém de fora, mesmo que os gestos e idioma já os aproxime mais do país em que cresceram (ou inclusive nasceram) do que do país de seus descendentes. E na Europa isso é muito comum, não só entre negros, mas entre turcos, árabes, latinos…

Na Alemanha, as gerações mais jovens de turcos ainda sofrem com o preconceito, mesmo que tenham nascido e vivido toda sua vida na cidade mais alemã possível. E sofrem por viver em um limite de identidades que não é nem turca, nem alemã. Por essa e por outras, achei ótimo o filme ter sido exibido em Berlim. Mesmo nos círculos não conservadores e de pessoas envolvidas em temas sociais, é difícil se ter uma noção do que é ser descendente de não europeus aqui. Uma coisa é ser imigrante europeu na Alemanha, outra é ser imigrante do leste europeu e outra coisa bem diferente é ser imigrante africano.

Aqui, como nos países em que Emeke fez as entrevistas, pessoas negras são categorizadas rapidamente como estrangeiros. Uma das mulheres entrevistadas pela diretora britânica na Bélgica é americana e vive em Bruxelas. Por ser negra, muitos a perguntam diretamente “de qual país da África você vem?”. Ao que ela responde ser dos Estados Unidos, há pessoas que ainda insistem: “mas de onde vem a sua família? De que país da África eles vêm?”.

Isso mostra a liberdade que os brancos sentem em especular e fazer perguntas ridículas como essas, mesmo sem ter a intenção de ofender. Ou revela uma falta de noção sobre a história do colonialismo e escravidão nas Américas que geraram uma miscigenação forçada entre negros, brancos e indígenas. Ou ainda pior: desvenda o olhar estereotipado que se tem ao redor do mundo sobre como deve ser a aparência norte-americana e europeia, pois, como diz uma das garotas entrevistas na França, “muitas pessoas nem sabem que existem franceses negros”.

“Strolling” é um documentário super necessário e não só em países anteriormente colonizadores. Em lugares, como os Estados Unidos e Brasil, em que a população negra tem uma história de exploração, violência e preconceito, esse tapa na cara que a diretora nos dá também não seria má ideia. 

Se você ficou interessada e quiser ver as sérias de Cecile Emeke, elas estão disponíveis no canal da diretora no YouTube.

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“Jornalistas Contra o Assédio”. No vídeo divulgado ontem à noite na página, são muitas as declarações bizarras de entrevistados e colegas de trabalho que as profissionais relatam ter escutado. Não são só declarações de cunho sexual ou referentes à aparência física, mas também frases que subestimavam sua competência profissional. “Ali eu escutei que as mulheres faziam as matérias mais lights, de comportamento, previsão do tempo, de bichinhos. E os homens faziam as matérias mais aprofundadas, de política e economia”, relata uma das jornalistas no vídeo.

Até o término desse texto, o vídeo já havia sido compartilhado 965 vezes. Muitos dos compartilhamentos contém relatos de outras profissionais escutaram coisas absurdas. Para quem pensava que o jornalismo é um lugar de gente cool, de mente aberta e sem preconceitos, essas histórias são um tapa na cara. Mas é um tapa na cara pra acordar essa gente e mostrar que se mexeu com uma, mexeu com todas!

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“Jornalistas Contra o Assédio”. No vídeo divulgado ontem à noite na página, são muitas as declarações bizarras de entrevistados e colegas de trabalho que as profissionais relatam ter escutado. Não são só declarações de cunho sexual ou referentes à aparência física, mas também frases que subestimavam sua competência profissional. “Ali eu escutei que as mulheres faziam as matérias mais lights, de comportamento, previsão do tempo, de bichinhos. E os homens faziam as matérias mais aprofundadas, de política e economia”, relata uma das jornalistas no vídeo.

Até o término desse texto, o vídeo já havia sido compartilhado 965 vezes. Muitos dos compartilhamentos contém relatos de outras profissionais escutaram coisas absurdas. Para quem pensava que o jornalismo é um lugar de gente cool, de mente aberta e sem preconceitos, essas histórias são um tapa na cara. Mas é um tapa na cara pra acordar essa gente e mostrar que se mexeu com uma, mexeu com todas!

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