“Passing” de Nella Larsen é uma novela sobre identidade. Sobre conhecer e desconhecer uma identidade. Sobre o jogo entre possibilidades de se ter diferentes identidades em uma pessoa só.
Na década de 1920 nos Estados Unidos, a “color line”, linha de limite entre negros e brancos, era um tema bastante delicado. Nesse contexto, negros de pele mais clara e de descendência mista praticavam algo chamado “passing”. Em uma sociedade, em que raça determinava quem podia ou não frequentar certos lugares, ter determinados empregos e morar em um bairro lá ou aqui, “passing” era quase como uma forma de sobrevivência. Como é o caso de uma das principais personagens da novela.
O livro de Nella Larsen, publicado em 1929, conta a história das amigas de infância Irene Redfield e Claire Kendry. Duas mulheres com passados iguais e um presente muito parecido, tirando alguns detalhes. As duas foram criadas no bairro de maioria afro-americana Harlem, em Nova York. Até que a morte do pai de Claire fez com que ela desaparecesse da vizinhança, o que despertou fofocas dos moradores. A novela é toda narrada em terceira pessoa pela visão de Irene, que na primeira página do livro, se mostra nervosa ao receber uma carta. O envelope com a mensagem de Claire a lembra de um encontro, por acaso, anos atrás, em Chicago. As duas estavam no terraço do Hotel Drayton, em um dia quente de verão. Era um lugar onde ambas não poderiam estar, mas estavam. A pela mais clara das duas mulheres afro-americanos as faziam passar por mulheres brancas. Ninguém mais ali sabia que elas estavam “passing”, apenas as duas. Ambas tinham conhecimento da origem uma da outra. A possibilidade de “pass” por uma pessoa de outra raça não era conhecida pelos brancos – e, só por isso, ela era possível.
Para quem lê a novela e não conhece o conceito de “passing”, a identidade racial de Irene não fica clara nas primeiras páginas. É somente no segundo capítulo que Nella Larsen revela que Irene é uma mulher negra de pele mais clara. A novela em si está “passing”, de certa forma. E é isso que a faz tão interessante.
Mesmo que ambas possam passar por mulheres brancas, apenas Claire precisa disso para sobreviver. Irene mora em Harlem, onde é bastante ativa dentro da comunidade negra. Ela é casada com o médico Brian, também afro-americano, e tem dois filhos. Irene vive sua identidade racial em sua casa, em seu bairro, em sua comunidade. Já Claire é casada com John Bellew, um homem branco bastante racista e que não faz ideia de que sua esposa tenha descendências afro-americanas. Claire esconde sua identidade racial e ignora os discursos preconceituosos do marido. Mesmo assim, ela não tem medo de ser descoberta.
Esse é outro ponto importante na novela. As duas amigas têm personalidades muito diferentes. Irene é séria, contida, controlada. Tive uma matéria sobre Leituras Feministas e Queer na minha faculdade e discutimos semanas sobre Passing e suas personagens. A professora observou que Irene tenta constantemente passar a ideia de uma mulher respeitável, séria, de classe média, também numa tentativa de ir contra aquele estereótipo da mulher negra super sexualizada – na época, havia essa ideia de que a mulher negra era sensual, selvagem sexualmente e objeto de desejo dos homens brancos. Por isso, para se aproximar do conceito de “mulher branca”, Irene tinha que mostrar um comportamento contrário a essa ideia de o que era ser uma mulher negra.
Claire, diferente da amiga, é uma mulher solta, simpática, sexy, sempre animada e que gosta de se aventurar sem pensar nos riscos. O mais interessante é que Irene parece ter mais liberdade em sua vida do que Claire, pois não tem segredos a guardar. Mas ela não vive essa liberdade plenamente. Já Claire, mesmo correndo riscos de que o Mrs. Bellew descubra suas origens, vai a eventos e bailes da comunidade negra e anseia por viver essa identidade “blackness” que lhe foi limitada.
A história gira em torno dessa relação de amizade entre as duas mulheres. Mas muitas questões ficam no ar o tempo todo. Alguns enxergam uma atração física de Irene por Claire, pela forma como a descreve – como uma mulher linda e sensual – e fica obcecada pela amiga. Também tem uma questão de traição no meio da trama. Irene começa a suspeitar de que Brian a está traindo com Claire, já que os dois passam muito tempo juntos. Mas nada disso é esclarecido em nenhum momento do romance.
Roubando mais uma vez a fala da minha professora, dá pra dizer a obra de Nella Larsen é uma novela sobre knowing and not-knowing. E é exatamente isso que faz a prática do passing possível. O saber mas não saber exatamente, como no caso de John Bellew, que acreditava saber tudo sobre sua esposa, mas que não conhece seu passado. É um livro que coloca o tempo todo a questão do que é afinal blackness and whitness – o que são essas identidade? O que significa ser negro ou branco? O que é afinal essa “color line”? Isso não é respondido no livro, mas fica nas nossas cabecinhas pensantes.
Acredito também que Nella Larsen colocou muito de sua experiência de vida na novela. Nascida em Chicago, a autora também tinha descendência mista: afro-caribenha e dinamarquesa. Larsen morou em Nova York e, por um tempo, no bairro de suas protagonistas, o Harlem.
Infelizmente, não encontrei o livro em português, somente em inglês. Talvez ainda não tenha sido traduzido… Mas a linguagem em inglês até que é bem fácil e o livro não é longo. Ou seja, super recomendável pra quem gosta de novelas feministas mais clássicas (e quer treinar seu inglês!).
“Passing” de Nella Larsen é uma novela sobre identidade. Sobre conhecer e desconhecer uma identidade. Sobre o jogo entre possibilidades de se ter diferentes identidades em uma pessoa só.
Na década de 1920 nos Estados Unidos, a “color line”, linha de limite entre negros e brancos, era um tema bastante delicado. Nesse contexto, negros de pele mais clara e de descendência mista praticavam algo chamado “passing”. Em uma sociedade, em que raça determinava quem podia ou não frequentar certos lugares, ter determinados empregos e morar em um bairro lá ou aqui, “passing” era quase como uma forma de sobrevivência. Como é o caso de uma das principais personagens da novela.
O livro de Nella Larsen, publicado em 1929, conta a história das amigas de infância Irene Redfield e Claire Kendry. Duas mulheres com passados iguais e um presente muito parecido, tirando alguns detalhes. As duas foram criadas no bairro de maioria afro-americana Harlem, em Nova York. Até que a morte do pai de Claire fez com que ela desaparecesse da vizinhança, o que despertou fofocas dos moradores. A novela é toda narrada em terceira pessoa pela visão de Irene, que na primeira página do livro, se mostra nervosa ao receber uma carta. O envelope com a mensagem de Claire a lembra de um encontro, por acaso, anos atrás, em Chicago. As duas estavam no terraço do Hotel Drayton, em um dia quente de verão. Era um lugar onde ambas não poderiam estar, mas estavam. A pela mais clara das duas mulheres afro-americanos as faziam passar por mulheres brancas. Ninguém mais ali sabia que elas estavam “passing”, apenas as duas. Ambas tinham conhecimento da origem uma da outra. A possibilidade de “pass” por uma pessoa de outra raça não era conhecida pelos brancos – e, só por isso, ela era possível.
Para quem lê a novela e não conhece o conceito de “passing”, a identidade racial de Irene não fica clara nas primeiras páginas. É somente no segundo capítulo que Nella Larsen revela que Irene é uma mulher negra de pele mais clara. A novela em si está “passing”, de certa forma. E é isso que a faz tão interessante.
Mesmo que ambas possam passar por mulheres brancas, apenas Claire precisa disso para sobreviver. Irene mora em Harlem, onde é bastante ativa dentro da comunidade negra. Ela é casada com o médico Brian, também afro-americano, e tem dois filhos. Irene vive sua identidade racial em sua casa, em seu bairro, em sua comunidade. Já Claire é casada com John Bellew, um homem branco bastante racista e que não faz ideia de que sua esposa tenha descendências afro-americanas. Claire esconde sua identidade racial e ignora os discursos preconceituosos do marido. Mesmo assim, ela não tem medo de ser descoberta.
Esse é outro ponto importante na novela. As duas amigas têm personalidades muito diferentes. Irene é séria, contida, controlada. Tive uma matéria sobre Leituras Feministas e Queer na minha faculdade e discutimos semanas sobre Passing e suas personagens. A professora observou que Irene tenta constantemente passar a ideia de uma mulher respeitável, séria, de classe média, também numa tentativa de ir contra aquele estereótipo da mulher negra super sexualizada – na época, havia essa ideia de que a mulher negra era sensual, selvagem sexualmente e objeto de desejo dos homens brancos. Por isso, para se aproximar do conceito de “mulher branca”, Irene tinha que mostrar um comportamento contrário a essa ideia de o que era ser uma mulher negra.
Claire, diferente da amiga, é uma mulher solta, simpática, sexy, sempre animada e que gosta de se aventurar sem pensar nos riscos. O mais interessante é que Irene parece ter mais liberdade em sua vida do que Claire, pois não tem segredos a guardar. Mas ela não vive essa liberdade plenamente. Já Claire, mesmo correndo riscos de que o Mrs. Bellew descubra suas origens, vai a eventos e bailes da comunidade negra e anseia por viver essa identidade “blackness” que lhe foi limitada.
A história gira em torno dessa relação de amizade entre as duas mulheres. Mas muitas questões ficam no ar o tempo todo. Alguns enxergam uma atração física de Irene por Claire, pela forma como a descreve – como uma mulher linda e sensual – e fica obcecada pela amiga. Também tem uma questão de traição no meio da trama. Irene começa a suspeitar de que Brian a está traindo com Claire, já que os dois passam muito tempo juntos. Mas nada disso é esclarecido em nenhum momento do romance.
Roubando mais uma vez a fala da minha professora, dá pra dizer a obra de Nella Larsen é uma novela sobre knowing and not-knowing. E é exatamente isso que faz a prática do passing possível. O saber mas não saber exatamente, como no caso de John Bellew, que acreditava saber tudo sobre sua esposa, mas que não conhece seu passado. É um livro que coloca o tempo todo a questão do que é afinal blackness and whitness – o que são essas identidade? O que significa ser negro ou branco? O que é afinal essa “color line”? Isso não é respondido no livro, mas fica nas nossas cabecinhas pensantes.
Acredito também que Nella Larsen colocou muito de sua experiência de vida na novela. Nascida em Chicago, a autora também tinha descendência mista: afro-caribenha e dinamarquesa. Larsen morou em Nova York e, por um tempo, no bairro de suas protagonistas, o Harlem.
Infelizmente, não encontrei o livro em português, somente em inglês. Talvez ainda não tenha sido traduzido… Mas a linguagem em inglês até que é bem fácil e o livro não é longo. Ou seja, super recomendável pra quem gosta de novelas feministas mais clássicas (e quer treinar seu inglês!).
“Passing” de Nella Larsen é uma novela sobre identidade. Sobre conhecer e desconhecer uma identidade. Sobre o jogo entre possibilidades de se ter diferentes identidades em uma pessoa só.
Na década de 1920 nos Estados Unidos, a “color line”, linha de limite entre negros e brancos, era um tema bastante delicado. Nesse contexto, negros de pele mais clara e de descendência mista praticavam algo chamado “passing”. Em uma sociedade, em que raça determinava quem podia ou não frequentar certos lugares, ter determinados empregos e morar em um bairro lá ou aqui, “passing” era quase como uma forma de sobrevivência. Como é o caso de uma das principais personagens da novela.
O livro de Nella Larsen, publicado em 1929, conta a história das amigas de infância Irene Redfield e Claire Kendry. Duas mulheres com passados iguais e um presente muito parecido, tirando alguns detalhes. As duas foram criadas no bairro de maioria afro-americana Harlem, em Nova York. Até que a morte do pai de Claire fez com que ela desaparecesse da vizinhança, o que despertou fofocas dos moradores. A novela é toda narrada em terceira pessoa pela visão de Irene, que na primeira página do livro, se mostra nervosa ao receber uma carta. O envelope com a mensagem de Claire a lembra de um encontro, por acaso, anos atrás, em Chicago. As duas estavam no terraço do Hotel Drayton, em um dia quente de verão. Era um lugar onde ambas não poderiam estar, mas estavam. A pela mais clara das duas mulheres afro-americanos as faziam passar por mulheres brancas. Ninguém mais ali sabia que elas estavam “passing”, apenas as duas. Ambas tinham conhecimento da origem uma da outra. A possibilidade de “pass” por uma pessoa de outra raça não era conhecida pelos brancos – e, só por isso, ela era possível.
Para quem lê a novela e não conhece o conceito de “passing”, a identidade racial de Irene não fica clara nas primeiras páginas. É somente no segundo capítulo que Nella Larsen revela que Irene é uma mulher negra de pele mais clara. A novela em si está “passing”, de certa forma. E é isso que a faz tão interessante.
Mesmo que ambas possam passar por mulheres brancas, apenas Claire precisa disso para sobreviver. Irene mora em Harlem, onde é bastante ativa dentro da comunidade negra. Ela é casada com o médico Brian, também afro-americano, e tem dois filhos. Irene vive sua identidade racial em sua casa, em seu bairro, em sua comunidade. Já Claire é casada com John Bellew, um homem branco bastante racista e que não faz ideia de que sua esposa tenha descendências afro-americanas. Claire esconde sua identidade racial e ignora os discursos preconceituosos do marido. Mesmo assim, ela não tem medo de ser descoberta.
Esse é outro ponto importante na novela. As duas amigas têm personalidades muito diferentes. Irene é séria, contida, controlada. Tive uma matéria sobre Leituras Feministas e Queer na minha faculdade e discutimos semanas sobre Passing e suas personagens. A professora observou que Irene tenta constantemente passar a ideia de uma mulher respeitável, séria, de classe média, também numa tentativa de ir contra aquele estereótipo da mulher negra super sexualizada – na época, havia essa ideia de que a mulher negra era sensual, selvagem sexualmente e objeto de desejo dos homens brancos. Por isso, para se aproximar do conceito de “mulher branca”, Irene tinha que mostrar um comportamento contrário a essa ideia de o que era ser uma mulher negra.
Claire, diferente da amiga, é uma mulher solta, simpática, sexy, sempre animada e que gosta de se aventurar sem pensar nos riscos. O mais interessante é que Irene parece ter mais liberdade em sua vida do que Claire, pois não tem segredos a guardar. Mas ela não vive essa liberdade plenamente. Já Claire, mesmo correndo riscos de que o Mrs. Bellew descubra suas origens, vai a eventos e bailes da comunidade negra e anseia por viver essa identidade “blackness” que lhe foi limitada.
A história gira em torno dessa relação de amizade entre as duas mulheres. Mas muitas questões ficam no ar o tempo todo. Alguns enxergam uma atração física de Irene por Claire, pela forma como a descreve – como uma mulher linda e sensual – e fica obcecada pela amiga. Também tem uma questão de traição no meio da trama. Irene começa a suspeitar de que Brian a está traindo com Claire, já que os dois passam muito tempo juntos. Mas nada disso é esclarecido em nenhum momento do romance.
Roubando mais uma vez a fala da minha professora, dá pra dizer a obra de Nella Larsen é uma novela sobre knowing and not-knowing. E é exatamente isso que faz a prática do passing possível. O saber mas não saber exatamente, como no caso de John Bellew, que acreditava saber tudo sobre sua esposa, mas que não conhece seu passado. É um livro que coloca o tempo todo a questão do que é afinal blackness and whitness – o que são essas identidade? O que significa ser negro ou branco? O que é afinal essa “color line”? Isso não é respondido no livro, mas fica nas nossas cabecinhas pensantes.
[caption id="attachment_3908" align="aligncenter" width="450"] A escritora Nella Larsen[/caption]
Acredito também que Nella Larsen colocou muito de sua experiência de vida na novela. Nascida em Chicago, a autora também tinha descendência mista: afro-caribenha e dinamarquesa. Larsen morou em Nova York e, por um tempo, no bairro de suas protagonistas, o Harlem.
Infelizmente, não encontrei o livro em português, somente em inglês. Talvez ainda não tenha sido traduzido… Mas a linguagem em inglês até que é bem fácil e o livro não é longo. Ou seja, super recomendável pra quem gosta de novelas feministas mais clássicas (e quer treinar seu inglês!).
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Imagem de capa feita a partir da edição do livro pela African/American Library
Azza Soliman é um nome conhecido no Egito. A advogada e líder feminista tem feito um trabalho significativo na vida de muitas mulheres que vivem em uma cultura que ignora suas vozes. Seu corajoso empenho foi interrompido nesta quarta-feira, dia 7 de dezembro, quando Azza foi levada presa de sua casa no Cairo, capital do Egito.
Sem pronunciamento oficial do governo egípcio, as acusações contra a ativista – se é que existem – ainda não são claras.
Azza Soliman é mais uma entre os muitos ativistas de ONGs que vem sendo perseguidos no Egito. “A prisão de Azza desmascara a animosidade do governo não só com os defensores dos direitos humanos em geral, mas com movimentos feministas independentes no Egito”, disse Mohamed Lofty, da Comissão Egípcia por Direitos e Liberdades, ao The Guardian.
Azza é a fundadora do Centro de Assistência Legal para Mulheres Egípcias (CEWLA, sigla do nome em inglês Center for Egyptian Women’s Legal Assistence), uma organização não governamental fundada em 1995 com o objetivo de ajudar mais ativamente mulheres em casos de violência ou discriminação de gênero.
CEWLA tem como um de seus focos os crimes de honra – crimes cometidos para “limpar a honra da família” –, um tema tratado como tabu em sociedades do Oriente Médio.
A líder feminista já estava sendo perseguida há algum tempo pelo governo militar que rege o país desde a deposição de Mohamed Morsi, em 2013. Depois de testemunhar o assassinato da ativista socialista Shaimaa al-Sabbagh, Azza foi submetida a julgamento.
Shaimaa foi morta a tiros por um policial, enquanto participava de um protesto pacífico em memória das centenas de mortos durante as revoltas da Primavera Árabe que opuseram o governo autoritário de Hosni Mubarak.
No dia 19 de novembro deste ano, Azza foi impedida, já no aeroporto de Cairo, de viajar para fora do país, o que iniciou uma mobilização na internet em sua defesa. Pouco depois, ela descobriu que sua conta pessoal e a de sua organização haviam sido congeladas. Na quarta-feira, dia 7, a ONG tuitou sobre o mandato de prisão contra Azza Soliman.
Horas depois, a ONG publicou no seu Twitter que o juiz do caso havia decidido por um valor de fiança de 20.000 libras egípcias (cerca de 3.640 reais) pela soltura de Azza Soliman.
Não é de hoje que o governo comandado pelas Forças Armadas tenta calar ativistas de direitos humanos. Já temos como exemplo a triste morte de Shaimaa, documentada em fotos e vídeos e testemunhada por policiais que nem sequer chamaram uma ambulância enquanto ela sofria nos braços de seus amigos. Mas além de matar e prender ativistas, o governo vem comandando uma investigação contra várias ONGs que, segundo eles, estariam recebendo fundos de organizações estrangeiras para semear o caos no país.
Com essa desculpa, um tribunal egípcio congelou, em setembro deste ano, os bens de cinco conhecidos ativistas de direitos humanos e três ONGs. Tais ações abrem portas para acusações criminais contra essas corajosas pessoas e até a eventuais condenações a prisão perpétua.
O pior de tudo é que, desde novembro deste ano, uma lei sobre o trabalho de ONGs, aprovada pelo parlamento, dá base legal para a intervenção do Estado no trabalho de organizações. De acordo com a lei, grupos egípcios e estrangeiros estão proibidos de se envolver em ações políticas ou que prejudiquem a segurança nacional, a ordem pública, a moral pública ou a saúde pública. Alguém pode me dizer como é possível fazer avanços em direitos humanos e em direitos das mulheres sem se envolver em questão políticas? A lei é uma clara tentativa de calar opiniões divergentes e manter um conservadorismo político.
A situação de instabilidade política no Egito é um dos motivos que move o trabalho de organizações não governamentais e de ativistas como Azza e Shaimaa. Mas também o motivo para sua perseguição.
Após as revoltas em 2011, o governo autoritário de 30 anos de Hosni Mubarak chegou ao fim. Com as eleições no ano seguinte, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, se tornou o primeiro presidente eleito após a esperada abertura política. Seu governo não durou muito e, em 2013, ele foi deposto do governo por um golpe militar. Durante esses anos de instabilidade, várias ONGs estrangeiras foram fechadas e 45 membros dessas organizações receberam ordem de prisão, incluindo 15 norte-americanos que deixaram o Egito.
Enquanto o mundo ocidental se preocupa com seus próprios problemas – ou vê a questão de direitos humanos como desnecessária ou já resolvida –, no Oriente Médio lutar por direitos humanos virou questão de vida ou morte. A nós resta pedir liberdade para Azza Soliman e torcer para que ela consiga voltar com segurança a fazer seu lindo trabalho pelas mulheres árabes.
Liberdade à Azza Soliman!
*Boa parte das informações para este texto foram tiradas desta matéria do Guardian.
A novela é toda narrada em terceira pessoa pela visão de Irene, que na primeira página do livro, se mostra nervosa ao receber uma carta. O envelope com a mensagem de Claire a lembra de um encontro, por acaso, anos atrás, em Chicago. As duas estavam no terraço do Hotel Drayton, em um dia quente de verão. Era um lugar onde ambas não poderiam estar, mas estavam. A pela mais clara das duas mulheres afro-americanos as faziam passar por mulheres brancas. Ninguém mais ali sabia que elas estavam “passing”, apenas as duas. Ambas tinham conhecimento da origem uma da outra. A possibilidade de “pass” por uma pessoa de outra raça não era conhecida pelos brancos – e, só por isso, ela era possível.
Para quem lê a novela e não conhece o conceito de “passing”, a identidade racial de Irene não fica clara nas primeiras páginas. É somente no segundo capítulo que Nella Larsen revela que Irene é uma mulher negra de pele mais clara. A novela em si está “passing”, de certa forma. E é isso que a faz tão interessante.
Mesmo que ambas possam passar por mulheres brancas, apenas Claire precisa disso para sobreviver. Irene mora em Harlem, onde é bastante ativa dentro da comunidade negra. Ela é casada com o médico Brian, também afro-americano, e tem dois filhos. Irene vive sua identidade racial em sua casa, em seu bairro, em sua comunidade. Já Claire é casada com John Bellew, um homem branco bastante racista e que não faz ideia de que sua esposa tenha descendências afro-americanas. Claire esconde sua identidade racial e ignora os discursos preconceituosos do marido. Mesmo assim, ela não tem medo de ser descoberta.
Esse é outro ponto importante na novela. As duas amigas têm personalidades muito diferentes. Irene é séria, contida, controlada. Tive uma matéria sobre Leituras Feministas e Queer na minha faculdade e discutimos semanas sobre Passing e suas personagens. A professora observou que Irene tenta constantemente passar a ideia de uma mulher respeitável, séria, de classe média, também numa tentativa de ir contra aquele estereótipo da mulher negra super sexualizada – na época, havia essa ideia de que a mulher negra era sensual, selvagem sexualmente e objeto de desejo dos homens brancos. Por isso, para se aproximar do conceito de “mulher branca”, Irene tinha que mostrar um comportamento contrário a essa ideia de o que era ser uma mulher negra.
Claire, diferente da amiga, é uma mulher solta, simpática, sexy, sempre animada e que gosta de se aventurar sem pensar nos riscos. O mais interessante é que Irene parece ter mais liberdade em sua vida do que Claire, pois não tem segredos a guardar. Mas ela não vive essa liberdade plenamente. Já Claire, mesmo correndo riscos de que o Mrs. Bellew descubra suas origens, vai a eventos e bailes da comunidade negra e anseia por viver essa identidade “blackness” que lhe foi limitada.
A história gira em torno dessa relação de amizade entre as duas mulheres. Mas muitas questões ficam no ar o tempo todo. Alguns enxergam uma atração física de Irene por Claire, pela forma como a descreve – como uma mulher linda e sensual – e fica obcecada pela amiga. Também tem uma questão de traição no meio da trama. Irene começa a suspeitar de que Brian a está traindo com Claire, já que os dois passam muito tempo juntos. Mas nada disso é esclarecido em nenhum momento do romance.
Roubando mais uma vez a fala da minha professora, dá pra dizer a obra de Nella Larsen é uma novela sobre knowing and not-knowing. E é exatamente isso que faz a prática do passing possível. O saber mas não saber exatamente, como no caso de John Bellew, que acreditava saber tudo sobre sua esposa, mas que não conhece seu passado. É um livro que coloca o tempo todo a questão do que é afinal blackness and whitness – o que são essas identidade? O que significa ser negro ou branco? O que é afinal essa “color line”? Isso não é respondido no livro, mas fica nas nossas cabecinhas pensantes.
Acredito também que Nella Larsen colocou muito de sua experiência de vida na novela. Nascida em Chicago, a autora também tinha descendência mista: afro-caribenha e dinamarquesa. Larsen morou em Nova York e, por um tempo, no bairro de suas protagonistas, o Harlem.
Infelizmente, não encontrei o livro em português, somente em inglês. Talvez ainda não tenha sido traduzido… Mas a linguagem em inglês até que é bem fácil e o livro não é longo. Ou seja, super recomendável pra quem gosta de novelas feministas mais clássicas (e quer treinar seu inglês!).