Em um atelier de pintura, em uma casa da década de 1920, em Copenhague, marido e esposa trabalham. A modelo para seu retrato se atrasa e ela pede ao marido que vista meias até o joelho, calce sapatos de salto e coloque um vestido pomposo na frente, para ajudá-la a terminar o trabalho. Enquanto ela pincela na tela, ele amacia o tecido do vestido com as pontas dos dedos e se perde em pensamentos. Concentrado no toque, respira rapidamente, quase que nervoso. Quando a modelo e amiga do casal entra no quarto de repente e vê a cena, vira-se para o homem vestido de mulher e em gargalhadas diz: “Vamos te chamar de Lili.”
Essa não é a primeira cena do filme “A Garota Dinamarquesa” (“The Danish Girl”), do diretor Tom Hooper, mas é com certeza decisiva. O filme se inspira história do livro de ficção, baseado em fatos reais, “A Garota Dinamarquesa” de David Ebershoff, que por sua vez conta parte da vida do pintor dinamarquês Einar Wegener ou Lili Elbe, depois a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo. A cirurgia o primeiro procedimento do tipo documentado na história.
Mais do que uma simples biografia, o filme foca na relação complexa e delicada entre Einar (e depois Lili) e sua mulher Gerda. Os dois eram o casal perfeito, super apaixonados, e Einar dizia só ter olhos para sua linda esposa. Também combinavam em talento: ele, pintor de paisagens do interior da Dinamarca; ela, pintora de retratos de pessoas ricas e famosas. Um dia são convidados a um baile do meio artístico por uma amiga. Como Einar não queria ir, Gerda tem a ideia de vesti-lo como Lili, assim ela e Lili poderiam ir à festa. Ela diria que Lili era a prima de Einar do interior. Tudo começa como uma brincadeira que acaba por despertar outro lado no pintor. O seu lado Lili.
A partir de então é como se ele tivesse duas personalidades. Com o tempo, a personalidade de Lili passa a predominar e Einar se torna seguro de que nunca será feliz em um corpo masculino. Gerda, sua esposa, não faz escândalos ou tem grandes crises (só algumas pequenas). O apoia e decidi leva-lo a Paris, quando os médicos ameaçam interna-lo por loucura. No filme, Einar procura vários médicos em busca de ajuda e muitas vezes recebe o diagnóstico de esquizofrênico ou homossexual (o que na época se acreditava ser algo a ser tratado).
Ainda em Copenhague, Gerda começa a fazer sucesso com os retratos de Lili. Em Paris, ela se foca mais ainda nisso, encorajando Einar a ser cada vez mais Lili. Claro que, com o tempo, a relação de marido e mulher some entre os dois. Até por isso, há momentos muitos difíceis para Gerda. Em uma das cenas que achei bem marcante, ela chega em casa pedindo para falar com seu marido Einar, mas é Lili que está ali. E Lili responde que não pode chama-lo. Ao que Gerda insiste em lágrimas que precisa abraçar seu marido, Einar reaparece brevemente.
A relação dos dois é complexa, mas bela. Gerda claramente era uma mulher à frente de seu tempo, que mesmo com o sofrimento em perder seu marido, esteve todo o tempo ao lado de Einar e Lili. Ela tinha consciência de que iria, de certa forma, perdê-lo, mas quer acabar com sua angústia por estar no corpo de um homem.
Outra cena bastante decisiva no filme é quando Einar e Gerda se encontram com o médico alemão Dr. Warnekros. Em uma mesa de um café, Einar diz acreditar ser, de fato, uma mulher. Gerda concorda: “Eu também acredito que ele seja uma mulher”. Os dois se olham e dão as mãos, enquanto o médico explica como pode ajudar. Graças a uma nova prática cirúrgica, ele seria capaz de fazer Einar se tornar Lili por completo. “É a minha única esperança”, e com isso Einar decide partir para Dresden, no leste da Alemanha, para retornar como Lili.
O filme tem uma fotografia linda e foca bastante em detalhes, como o toque delicado e nervoso de Einar ao passar as mães em roupas femininas ou, com desgosto, por seu próprio corpo. Delicada também é a forma como a história é contada. Acho o filme conseguiu mostrar bem a transformação gradual de Einar em Lili e deixa claro que aquilo não havia começado por culpa de Gerda, que o fez vestir as roupas femininas pela primeira vez. “Lili sempre esteve em mim, você só ajudou a dar vida a ela”, são palavras de Lili à Gerda. Mais tarde, fica claro que desde criança Einar sentia estar no corpo errado.
Parte me deixou bem pra baixo no cinema foi ver a forma como as pessoas tratavam homossexuais e transexuais naquela época. Tá certo que ainda não vencemos todas as barreiras e ainda existem pessoas muito ignorantes quanto a isso (oi, Bolsonaros da vida, estou falando com vocês!), mas ver como era naquela época foi um soco no estômago. Einar passou por tratamentos com radiação, terapias e foi classificado como louco, correndo o risco de ser trancado em um hospício para sempre. Pelo que entendi, havia um grande medo quanto a isso e quem apresentasse um lado considerado “anormal” ou “imoral”, como eles mesmo dizem no filme, era logo classificado como insano.
Apesar das críticas, achei que a atuação do ator britânico Eddie Redmayne como Einar e Lili foi muito boa. Achei que ele conseguiu acompanhar a transformação gradual do seu personagem e também jogar com as duas personalidades que brigam para se tornar predominante. A sua indicação ao Oscar não foi à toa, na minha opinião.
Outra atuação impecável é a da atriz sueca Alicia Vikander (também indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) no papel de Gerda. Ela consegue passar a leveza e a força da personalidade da pintura, que mostra só lealdade para com Einar e Lili. Uma lealdade incrível que é, na minha opinião, uma das coisas mais surpreendentes no longa.
Enfim, fica aí a recomendação e aguardo ansiosamente por novos comentários sobre filme.
Créditos das imagens: Focus Features/Divulgação
Em um atelier de pintura, em uma casa da década de 1920, em Copenhague, marido e esposa trabalham. A modelo para seu retrato se atrasa e ela pede ao marido que vista meias até o joelho, calce sapatos de salto e coloque um vestido pomposo na frente, para ajudá-la a terminar o trabalho. Enquanto ela pincela na tela, ele amacia o tecido do vestido com as pontas dos dedos e se perde em pensamentos. Concentrado no toque, respira rapidamente, quase que nervoso. Quando a modelo e amiga do casal entra no quarto de repente e vê a cena, vira-se para o homem vestido de mulher e em gargalhadas diz: “Vamos te chamar de Lili.”
Essa não é a primeira cena do filme “A Garota Dinamarquesa” (“The Danish Girl”), do diretor Tom Hooper, mas é com certeza decisiva. O filme se inspira história do livro de ficção, baseado em fatos reais, “A Garota Dinamarquesa” de David Ebershoff, que por sua vez conta parte da vida do pintor dinamarquês Einar Wegener ou Lili Elbe, depois a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo. A cirurgia o primeiro procedimento do tipo documentado na história.
Mais do que uma simples biografia, o filme foca na relação complexa e delicada entre Einar (e depois Lili) e sua mulher Gerda. Os dois eram o casal perfeito, super apaixonados, e Einar dizia só ter olhos para sua linda esposa. Também combinavam em talento: ele, pintor de paisagens do interior da Dinamarca; ela, pintora de retratos de pessoas ricas e famosas. Um dia são convidados a um baile do meio artístico por uma amiga. Como Einar não queria ir, Gerda tem a ideia de vesti-lo como Lili, assim ela e Lili poderiam ir à festa. Ela diria que Lili era a prima de Einar do interior. Tudo começa como uma brincadeira que acaba por despertar outro lado no pintor. O seu lado Lili.
A partir de então é como se ele tivesse duas personalidades. Com o tempo, a personalidade de Lili passa a predominar e Einar se torna seguro de que nunca será feliz em um corpo masculino. Gerda, sua esposa, não faz escândalos ou tem grandes crises (só algumas pequenas). O apoia e decidi leva-lo a Paris, quando os médicos ameaçam interna-lo por loucura. No filme, Einar procura vários médicos em busca de ajuda e muitas vezes recebe o diagnóstico de esquizofrênico ou homossexual (o que na época se acreditava ser algo a ser tratado).
Ainda em Copenhague, Gerda começa a fazer sucesso com os retratos de Lili. Em Paris, ela se foca mais ainda nisso, encorajando Einar a ser cada vez mais Lili. Claro que, com o tempo, a relação de marido e mulher some entre os dois. Até por isso, há momentos muitos difíceis para Gerda. Em uma das cenas que achei bem marcante, ela chega em casa pedindo para falar com seu marido Einar, mas é Lili que está ali. E Lili responde que não pode chama-lo. Ao que Gerda insiste em lágrimas que precisa abraçar seu marido, Einar reaparece brevemente.
A relação dos dois é complexa, mas bela. Gerda claramente era uma mulher à frente de seu tempo, que mesmo com o sofrimento em perder seu marido, esteve todo o tempo ao lado de Einar e Lili. Ela tinha consciência de que iria, de certa forma, perdê-lo, mas quer acabar com sua angústia por estar no corpo de um homem.
Outra cena bastante decisiva no filme é quando Einar e Gerda se encontram com o médico alemão Dr. Warnekros. Em uma mesa de um café, Einar diz acreditar ser, de fato, uma mulher. Gerda concorda: “Eu também acredito que ele seja uma mulher”. Os dois se olham e dão as mãos, enquanto o médico explica como pode ajudar. Graças a uma nova prática cirúrgica, ele seria capaz de fazer Einar se tornar Lili por completo. “É a minha única esperança”, e com isso Einar decide partir para Dresden, no leste da Alemanha, para retornar como Lili.
O filme tem uma fotografia linda e foca bastante em detalhes, como o toque delicado e nervoso de Einar ao passar as mães em roupas femininas ou, com desgosto, por seu próprio corpo. Delicada também é a forma como a história é contada. Acho o filme conseguiu mostrar bem a transformação gradual de Einar em Lili e deixa claro que aquilo não havia começado por culpa de Gerda, que o fez vestir as roupas femininas pela primeira vez. “Lili sempre esteve em mim, você só ajudou a dar vida a ela”, são palavras de Lili à Gerda. Mais tarde, fica claro que desde criança Einar sentia estar no corpo errado.
Parte me deixou bem pra baixo no cinema foi ver a forma como as pessoas tratavam homossexuais e transexuais naquela época. Tá certo que ainda não vencemos todas as barreiras e ainda existem pessoas muito ignorantes quanto a isso (oi, Bolsonaros da vida, estou falando com vocês!), mas ver como era naquela época foi um soco no estômago. Einar passou por tratamentos com radiação, terapias e foi classificado como louco, correndo o risco de ser trancado em um hospício para sempre. Pelo que entendi, havia um grande medo quanto a isso e quem apresentasse um lado considerado “anormal” ou “imoral”, como eles mesmo dizem no filme, era logo classificado como insano.
Apesar das críticas, achei que a atuação do ator britânico Eddie Redmayne como Einar e Lili foi muito boa. Achei que ele conseguiu acompanhar a transformação gradual do seu personagem e também jogar com as duas personalidades que brigam para se tornar predominante. A sua indicação ao Oscar não foi à toa, na minha opinião.
Outra atuação impecável é a da atriz sueca Alicia Vikander (também indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) no papel de Gerda. Ela consegue passar a leveza e a força da personalidade da pintura, que mostra só lealdade para com Einar e Lili. Uma lealdade incrível que é, na minha opinião, uma das coisas mais surpreendentes no longa.
Enfim, fica aí a recomendação e aguardo ansiosamente por novos comentários sobre filme.
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Em um atelier de pintura, em uma casa da década de 1920, em Copenhague, marido e esposa trabalham. A modelo para seu retrato se atrasa e ela pede ao marido que vista meias até o joelho, calce sapatos de salto e coloque um vestido pomposo na frente, para ajudá-la a terminar o trabalho. Enquanto ela pincela na tela, ele amacia o tecido do vestido com as pontas dos dedos e se perde em pensamentos. Concentrado no toque, respira rapidamente, quase que nervoso. Quando a modelo e amiga do casal entra no quarto de repente e vê a cena, vira-se para o homem vestido de mulher e em gargalhadas diz: “Vamos te chamar de Lili.”
Essa não é a primeira cena do filme “A Garota Dinamarquesa” (“The Danish Girl”), do diretor Tom Hooper, mas é com certeza decisiva. O filme se inspira história do livro de ficção, baseado em fatos reais, “A Garota Dinamarquesa” de David Ebershoff, que por sua vez conta parte da vida do pintor dinamarquês Einar Wegener ou Lili Elbe, depois a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo. A cirurgia o primeiro procedimento do tipo documentado na história.
Mais do que uma simples biografia, o filme foca na relação complexa e delicada entre Einar (e depois Lili) e sua mulher Gerda. Os dois eram o casal perfeito, super apaixonados, e Einar dizia só ter olhos para sua linda esposa. Também combinavam em talento: ele, pintor de paisagens do interior da Dinamarca; ela, pintora de retratos de pessoas ricas e famosas. Um dia são convidados a um baile do meio artístico por uma amiga. Como Einar não queria ir, Gerda tem a ideia de vesti-lo como Lili, assim ela e Lili poderiam ir à festa. Ela diria que Lili era a prima de Einar do interior. Tudo começa como uma brincadeira que acaba por despertar outro lado no pintor. O seu lado Lili.
A partir de então é como se ele tivesse duas personalidades. Com o tempo, a personalidade de Lili passa a predominar e Einar se torna seguro de que nunca será feliz em um corpo masculino. Gerda, sua esposa, não faz escândalos ou tem grandes crises (só algumas pequenas). O apoia e decidi leva-lo a Paris, quando os médicos ameaçam interna-lo por loucura. No filme, Einar procura vários médicos em busca de ajuda e muitas vezes recebe o diagnóstico de esquizofrênico ou homossexual (o que na época se acreditava ser algo a ser tratado).
Ainda em Copenhague, Gerda começa a fazer sucesso com os retratos de Lili. Em Paris, ela se foca mais ainda nisso, encorajando Einar a ser cada vez mais Lili. Claro que, com o tempo, a relação de marido e mulher some entre os dois. Até por isso, há momentos muitos difíceis para Gerda. Em uma das cenas que achei bem marcante, ela chega em casa pedindo para falar com seu marido Einar, mas é Lili que está ali. E Lili responde que não pode chama-lo. Ao que Gerda insiste em lágrimas que precisa abraçar seu marido, Einar reaparece brevemente.
A relação dos dois é complexa, mas bela. Gerda claramente era uma mulher à frente de seu tempo, que mesmo com o sofrimento em perder seu marido, esteve todo o tempo ao lado de Einar e Lili. Ela tinha consciência de que iria, de certa forma, perdê-lo, mas quer acabar com sua angústia por estar no corpo de um homem.
Outra cena bastante decisiva no filme é quando Einar e Gerda se encontram com o médico alemão Dr. Warnekros. Em uma mesa de um café, Einar diz acreditar ser, de fato, uma mulher. Gerda concorda: “Eu também acredito que ele seja uma mulher”. Os dois se olham e dão as mãos, enquanto o médico explica como pode ajudar. Graças a uma nova prática cirúrgica, ele seria capaz de fazer Einar se tornar Lili por completo. “É a minha única esperança”, e com isso Einar decide partir para Dresden, no leste da Alemanha, para retornar como Lili.
O filme tem uma fotografia linda e foca bastante em detalhes, como o toque delicado e nervoso de Einar ao passar as mães em roupas femininas ou, com desgosto, por seu próprio corpo. Delicada também é a forma como a história é contada. Acho o filme conseguiu mostrar bem a transformação gradual de Einar em Lili e deixa claro que aquilo não havia começado por culpa de Gerda, que o fez vestir as roupas femininas pela primeira vez. “Lili sempre esteve em mim, você só ajudou a dar vida a ela”, são palavras de Lili à Gerda. Mais tarde, fica claro que desde criança Einar sentia estar no corpo errado.
Parte me deixou bem pra baixo no cinema foi ver a forma como as pessoas tratavam homossexuais e transexuais naquela época. Tá certo que ainda não vencemos todas as barreiras e ainda existem pessoas muito ignorantes quanto a isso (oi, Bolsonaros da vida, estou falando com vocês!), mas ver como era naquela época foi um soco no estômago. Einar passou por tratamentos com radiação, terapias e foi classificado como louco, correndo o risco de ser trancado em um hospício para sempre. Pelo que entendi, havia um grande medo quanto a isso e quem apresentasse um lado considerado “anormal” ou “imoral”, como eles mesmo dizem no filme, era logo classificado como insano.
Apesar das críticas, achei que a atuação do ator britânico Eddie Redmayne como Einar e Lili foi muito boa. Achei que ele conseguiu acompanhar a transformação gradual do seu personagem e também jogar com as duas personalidades que brigam para se tornar predominante. A sua indicação ao Oscar não foi à toa, na minha opinião.
Outra atuação impecável é a da atriz sueca Alicia Vikander (também indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) no papel de Gerda. Ela consegue passar a leveza e a força da personalidade da pintura, que mostra só lealdade para com Einar e Lili. Uma lealdade incrível que é, na minha opinião, uma das coisas mais surpreendentes no longa.
Enfim, fica aí a recomendação e aguardo ansiosamente por novos comentários sobre filme.
Mesmo nascida e criada em Porto Alegre, eu nunca coloquei os pés no Morro da Cruz. Lá é o lar da Dona Eni. Mesmo sem me conhecer, nunca ter me visto nem por foto, ela me presenteou com a seguinte frase: “Ser pedra é fácil. Difícil é ser vidraça”. Afinal, quem se atreve a ser transparente hoje em dia, né Dona Eni? Além do gosto por essa frase, não temos muito em comum a não ser duas coisas: Porto Alegre e a Colibrii, empresa que nos aproximou através de uma simples mochila.
A Colibrii é um negócio socioambiental, idealizado por duas porto-alegrenses. O objetivo é simples: valorizar o trabalho de artesãs de comunidades de baixa renda de Porto Alegre e dar um novo significado a materiais reutilizáveis. Nessa lista de materiais entra, por exemplo, cinto de segurança de carro, lona de guarda-chuva, resto de tecidos e de calça jeans. Esses pedaços esquecidos dão resultado a algo útil e querido por quem os adquire, como é o caso da minha mochila de couro ecológico e resto de tecidos com alça de cinto de segurança que eu comprei quando estava de férias em casa.
Alice Meditsch, de 26 anos, e Gabriela Ruiz Gonçalves, de 31, estão à frente da Colibrii, mas não querem levar todo o crédito pela criação das mochilas, carteiras, ecobags e outros produtos destinados a guardar coisas. Desde que começou a ser montada, entre o fim de 2013 e o início de 2014 por Gabriela e sua sócia na época, Marília Martins, a ideia da Colibrii é desenvolver os acessórios – desde o design até a confecção – junto com as próprias artesãs. “A gente conversou com elas e falou que não era só a gente ir ali com uma ideia já pronta e pedir pra elas fazerem. A gente via a importância de abrir o espaço para que existisse uma troca”, explica Gabriela.
Foi graças a essa troca de conhecimentos com essas criativas senhoras que surgiu a ideia de ressignificar materiais nas confecções. “A Eni já trabalhava há muito tempo com jeans e reaproveitamento, daí a gente fez um teste. Teve uma aceitação super boa e então desenvolvemos essa proposta”, conta Gabriela. Já o forro das mochilas e das ecobags é feito com guarda-chuvas. Dona Natalia, moradora do bairro Partenon, já tinha experiência com esse material e sugeriu sua incorporação.
Além do conhecimento e criatividade de quem já trabalhava com costura há tempos, os produtos também carregam a escrita das artesãs. Cada um deles é vendido com um bilhetinho com uma mensagem escrita pela artesã que o fez – como a mensagem que a Dona Eni me mandou. “Elas valorizam muito isso de ter o bilhete, de ter a assinatura delas. No início, era assim ‘ai tá, tem que assinar…’, mas agora elas vêem como um produto delas e se orgulham disso”, conta Alice.
E o retorno para as artesãs? Cada uma recebe pelo que confeccionou, no momento que entregam os produtos. Em casos de produção em grande escala em parceria com empresas maiores, o valor do projeto é dividido entre as artesãs e a Colibrii. Mas tudo isso é acertado em conjunto. “Isso é uma coisa que a gente faz na criação. A gente senta com elas pra pensar no valor para confeccionar e o valor total da produção será dividido entre todas as artesãs participantes”, explica Alice, que além de sócia da Colibrii também é designer de produto. Entre as empresas parceiras estão a Insecta Shoes, Surfari (pra quem elas confeccionaram capas de pranchas), YouCom e Cravo e Canela. Também com a ThyssenKrup Elevadores, a Colibrii fez uma parceria em que confeccionou estojos feitos dos uniformes da empresa que foram dados de brindes no Dia dos Pais.
Mas, claro, além das consequências positivas na renda dessas senhoras, há também um retorno pessoal. No contexto familiar, essas mulheres passaram a ter seu trabalho levado mais a sério e ser motivo de orgulho para os familiares. A nível individual, essas mulheres de 40 a 60 anos se redescobriram através de seu trabalho. Se deram conta de seu poder e talento. Alice observa:
A gente não gosta de falar que a gente empodera. Não é a gente que faz o impacto social, na verdade é todo mundo junto que promove esse impacto. A gente nota que esse trabalho faz com que elas percebam que elas têm esse poder.
As duas porto-alegrenses dizem não querer banalizar o termo “empoderamento” já que, como Alice diz, as mudanças sociais não são feitas só pelas duas. “Começou esse boom do empoderamento e é sempre com essa visão de inferioridade: alguém tem que ter mais porque alguém tem menos, e o que tem mais vai lá e empodera o que tem menos. Pensando no conceito da coisa, existe um empoderamento no sentido da pessoa entender que ela tem o poder, não que ela vai receber”, defende Gabriela.
Em três anos, esse lindo projeto de cocriação da Colibrii chegou a outras comunidades de Porto Alegre. Hoje, a empresa conta com o trabalho de artesãs também na Ilha das Flores, Glória e Humaitá. Para determinados projetos, até 20 artesãs participam da formação de ideias e confecção dos acessórios.
Até então, as parcerias para confecção e venda de produtos foram feitas somente com empresas gaúchas. Mas Gabriela e Alice esperam levar seus produtos em breve para outras partes do Brasil. Por enquanto, você pode dar uma conferida nas mochilas no site da Insecta Shoes e da Cravo Canela.
Essa não é a primeira cena do filme “A Garota Dinamarquesa” (“The Danish Girl”), do diretor Tom Hooper, mas é com certeza decisiva. O filme se inspira história do livro de ficção, baseado em fatos reais, “A Garota Dinamarquesa” de David Ebershoff, que por sua vez conta parte da vida do pintor dinamarquês Einar Wegener ou Lili Elbe, depois a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo. A cirurgia o primeiro procedimento do tipo documentado na história.
Mais do que uma simples biografia, o filme foca na relação complexa e delicada entre Einar (e depois Lili) e sua mulher Gerda. Os dois eram o casal perfeito, super apaixonados, e Einar dizia só ter olhos para sua linda esposa. Também combinavam em talento: ele, pintor de paisagens do interior da Dinamarca; ela, pintora de retratos de pessoas ricas e famosas. Um dia são convidados a um baile do meio artístico por uma amiga. Como Einar não queria ir, Gerda tem a ideia de vesti-lo como Lili, assim ela e Lili poderiam ir à festa. Ela diria que Lili era a prima de Einar do interior. Tudo começa como uma brincadeira que acaba por despertar outro lado no pintor. O seu lado Lili.
A partir de então é como se ele tivesse duas personalidades. Com o tempo, a personalidade de Lili passa a predominar e Einar se torna seguro de que nunca será feliz em um corpo masculino. Gerda, sua esposa, não faz escândalos ou tem grandes crises (só algumas pequenas). O apoia e decidi leva-lo a Paris, quando os médicos ameaçam interna-lo por loucura. No filme, Einar procura vários médicos em busca de ajuda e muitas vezes recebe o diagnóstico de esquizofrênico ou homossexual (o que na época se acreditava ser algo a ser tratado).
Ainda em Copenhague, Gerda começa a fazer sucesso com os retratos de Lili. Em Paris, ela se foca mais ainda nisso, encorajando Einar a ser cada vez mais Lili. Claro que, com o tempo, a relação de marido e mulher some entre os dois. Até por isso, há momentos muitos difíceis para Gerda. Em uma das cenas que achei bem marcante, ela chega em casa pedindo para falar com seu marido Einar, mas é Lili que está ali. E Lili responde que não pode chama-lo. Ao que Gerda insiste em lágrimas que precisa abraçar seu marido, Einar reaparece brevemente.
A relação dos dois é complexa, mas bela. Gerda claramente era uma mulher à frente de seu tempo, que mesmo com o sofrimento em perder seu marido, esteve todo o tempo ao lado de Einar e Lili. Ela tinha consciência de que iria, de certa forma, perdê-lo, mas quer acabar com sua angústia por estar no corpo de um homem.
Outra cena bastante decisiva no filme é quando Einar e Gerda se encontram com o médico alemão Dr. Warnekros. Em uma mesa de um café, Einar diz acreditar ser, de fato, uma mulher. Gerda concorda: “Eu também acredito que ele seja uma mulher”. Os dois se olham e dão as mãos, enquanto o médico explica como pode ajudar. Graças a uma nova prática cirúrgica, ele seria capaz de fazer Einar se tornar Lili por completo. “É a minha única esperança”, e com isso Einar decide partir para Dresden, no leste da Alemanha, para retornar como Lili.
O filme tem uma fotografia linda e foca bastante em detalhes, como o toque delicado e nervoso de Einar ao passar as mães em roupas femininas ou, com desgosto, por seu próprio corpo. Delicada também é a forma como a história é contada. Acho o filme conseguiu mostrar bem a transformação gradual de Einar em Lili e deixa claro que aquilo não havia começado por culpa de Gerda, que o fez vestir as roupas femininas pela primeira vez. “Lili sempre esteve em mim, você só ajudou a dar vida a ela”, são palavras de Lili à Gerda. Mais tarde, fica claro que desde criança Einar sentia estar no corpo errado.
Parte me deixou bem pra baixo no cinema foi ver a forma como as pessoas tratavam homossexuais e transexuais naquela época. Tá certo que ainda não vencemos todas as barreiras e ainda existem pessoas muito ignorantes quanto a isso (oi, Bolsonaros da vida, estou falando com vocês!), mas ver como era naquela época foi um soco no estômago. Einar passou por tratamentos com radiação, terapias e foi classificado como louco, correndo o risco de ser trancado em um hospício para sempre. Pelo que entendi, havia um grande medo quanto a isso e quem apresentasse um lado considerado “anormal” ou “imoral”, como eles mesmo dizem no filme, era logo classificado como insano.
Apesar das críticas, achei que a atuação do ator britânico Eddie Redmayne como Einar e Lili foi muito boa. Achei que ele conseguiu acompanhar a transformação gradual do seu personagem e também jogar com as duas personalidades que brigam para se tornar predominante. A sua indicação ao Oscar não foi à toa, na minha opinião.
Outra atuação impecável é a da atriz sueca Alicia Vikander (também indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) no papel de Gerda. Ela consegue passar a leveza e a força da personalidade da pintura, que mostra só lealdade para com Einar e Lili. Uma lealdade incrível que é, na minha opinião, uma das coisas mais surpreendentes no longa.
Enfim, fica aí a recomendação e aguardo ansiosamente por novos comentários sobre filme.