O filme Coherence e o Teste Bechdel

Coherence (2014)

Provavelmente eu só vá fazer resenhas de filmes que passem no Teste Bechdel porque não sou obrigada, hahaha. Senão vou ficar falando mal do filme o tempo todo e acho que ninguém curte só ler crítica ruim, né? Se você não sabe o que é o teste Bechdel, hoje é um ótimo dia pra saber! Alison Bechdel é uma escritora e quadrinista estadunidense, e quando ela fazia a tirinha Dykes for Watch Out For, ela apresentou o teste por uma de suas personagens, então para um filme passar, são necessários três requisitos bem básicos:

 

1) O filme precisa ter duas personagens mulheres
que tenham nomes (e não sejam figurantes).
2) Que essas duas personagens falem uma com a outra.
3) E que o assunto seja sobre QUALQUER COISA
que não seja sobre homens.

 

Teste Bechdel

Daí você vai me dizer, nossa Bárbara, que idiota, só isso? SIM SÓ ISSO, e muitos filmes não passam, acredite em mim, a maioria não passa. Rolam listas na internet dizendo os filmes que passam e os que foram reprovados, você pode se surpreender sozinhos em vossa casa. Nem a Pixar fica fora disso, é assustador!

Mas, hoje eu vou falar sobre um filme que passa no teste com louvor, é o filme Sci-Fi Coherence. Eu sou uma eterna apaixonada por filmes Sci-Fi, de verdade. Assisto 2001 uma Odisséia no Espaço todo natal porque meu pai é ateu e esse é nosso ritual de final de ano. Então no meu facebook, perguntei a uns amigos se eles indicavam algum filme Sci-Fi super bom e esse foi um dos que me indicaram.

[caption id="attachment_2995" align="aligncenter" width="1024"]Poster do filme Coherence amo essas caras afetadas, hahaha[/caption]

O mote é o seguinte, há um jantar entre amigos e durante o jantar, alguém menciona que naquele momento, um cometa x está passando bem perto da Terra. Algumas histórias sobre interferência dos astros e cometas nos comportamentos humanos são falados na conversa e de repente rola um apagão. PÂNICO NO LAGO. Hahaha. Enfim, a trama é bem interessante, apesar de muito usada, que é a de conhecer as reais personalidades em situações de alto estresse emocional, mas continua valendo a pena.

Eu não piro muito em câmera na mão se não for pra um efeito muito específico de primeira pessoa (e não por muito tempo também), acho que já passou essa moda. É muito primeira década dos anos dois mil demais, Bruxa de Blair, Cloverfield, Rec, Distrito 9, Atividade Paranormal, Encontros Imediatos de Quarto Grau (quase cagay na calça), etc. Rola esse recurso mas não atrapalha.

A trilha sonora é legal, nada muito chamativa, na real, no trailer dá pra sacar mais qual é a onda. Há muitas propagandas dizendo que é o melhor filme de Sci-Fi dos últimos tempos, eu não sei se concordo com isso, aliás, não concordo com isso não, mas é um bom filme, sem dúvidas. Acho que não posso falar muito mais sobre porque Sci-Fi, se você conta uma coisa, você acaba com a graça do filme, então você vai ter que confiar em mim na questão de ser um filme bem interessante. Se resolver ver o filme, me conta o que achou depois, tem no Popcorn Time!

Acho que eu vou começar a dar notas pros filmes, esse merece um 7. Dá uma olhada no trailer e vê se te apetece.


[separator type="thin"] [infobox maintitle="Hey, já assistiu o filme?" subtitle="Contém spoilers a partir daqui, então só leia se já assistiu." bg="green" color="black" opacity="on" space="30" link="no link"] [separator type="thin"]

Fatalmente não é um filme feminista por causa da cena das minas se minando, mas o fato de ter uma mulher que é considerada a vilã, quebrando estereótipos de mulher santa, dando espaço pra mulher ser o que ela quiser de forma natural, achei um tesão. O que vocês acharam?

Mais de Bárbara Gondar

Misandria Robótica: Ex Machina

 

 
Posso começar pela nota? Porque esse filme é excelente. Posso dizer que é pelo menos 8,5. Tenho certeza de que muitas pessoas que escreveram uma resenha sobre o Ex Machina focaram na produção impecável e cenário completamente possível. Mas, muito provavelmente, tenha faltado um ponto de vista sobre violência contra mulher. Uma vez feminista, não tive como não imprimir uma crítica à misoginia que existe no cenário atual e no filme. Seguida de uma bela duma misandria muito bem aplicada.

O filme é incrível por diversos pontos, vou por partes. Vou contar o mote entre um tópico e outro e já deixo avisado, pode conter spoilers, especialmente a partir do tópico ~ Google, Facebook, Dados.

 

 

Robôs e Teste de Turing

Tudo começa quando Caleb, um programador duma grande empresa de ferramenta de buscas, é sorteado para passar um curto período de tempo na casa do criador da tal empresa. O cara, enaltecido tanto pelos empregados quanto pela sociedade, vive completamente isolado e é tido como um gênio desde criança.

Ao chegar (deboas de helicóptero, diga-se de passagem) na casa do empresário, Caleb se depara com um personagem fora do que ele havia imaginado. Apesar de brilhante, o inventor, Nathan, é extremamente arrogante e visivelmente alcoólatra.

Por saber que vai ter que aturá-lo por pouco tempo, Caleb se esforça para aproveitar a genialidade de Nathan ao máximo: sua última invenção foi um tipo de inteligência artificial tão incrível que ele precisava fazer um Teste de Turing. E foi pra isso que Caleb foi recrutado.

 

 

Filosofia

Caleb então conhece Ava, a robô. Por causa do teste, eles ficam juntos durante horas e o programador acaba se envolvendo. Há bastante filosofia sobre as sinapses de pensamento e o que torna humano o ser humano. As dicusssões do filme perpassam também por signos linguísticos, semiótica. O roteiro e os diálogos são extremamente bem escritos e realmente interessantes. Ava consegue fazer piadas com pequenas informações que Caleb transmite a ela e Caleb e Nathan têm uma conversa muito interessante sobre as relações humanas e como elas se dão.

Creio que a própria personalidade dúbia do Nathan seja interessante porque estamos acostumados a maniqueísmos – principalmente no mundo do faz-de-contas. Já o Nathan tem essa aura do gênio-escroto com a qual a gente não sabe lidar direito, mesmo no mundo real. Acredito que esse tipo de personalidade seja identificada por pessoas que tiveram relacionamentos abusivos com ~ pessoas incríveis ~ mas que no círculo menor sejam irreconhecíveis e opressoras.

 

 

Google, Facebook e Dados

Bom, estamos falando sobre definições de consciência e, em certo momento, Nathan revela a Caleb que coleta e armazena em padrões os dados de sua empresa de ferramenta de buscas. E mais, que o governo o autoriza a utilizar não apenas esses dados, como também a ter acesso a TODAS as câmeras e microfones de smartphones e computadores para coletar expressões faciais correspondentes às conversas, as reações.

Sim, há uma crítica enorme sobre os algoritmos de busca do Google, sobre a coleta de dados do Facebook e, graças ao querido (e exilado) Snowden, sabemos que tudo isso é realmente possível e que está realmente sendo feito. A diferença é que isso ainda não está sendo aplicado em robôs… ou já está???? (m-e-d-o)

 

 

Misoginia / Empatia

O que acontece é que o Nathan monta (e desmonta) robôs-mulheres para seu bel prazer, seja para satisfazê-lo sexualmente ou para serví-lo. Elas são meros brinquedos, trancafiadas, que ele ativa ou desativa de acordo com a evolução das escolhas de personalidade aplicadas. As que não se comportam da maneira que ele quer, acabam sendo desativadas. E isso é misógino pra caralho. (Soa familiar? Se a resposta for sim, leia este texto) Não vou evoluir para esse lado, mas pessoalmente me pareceu uma crítica muito clara a esse tipo de relacionamento abusivo.

 
giphy-4
 
Quando Ava descobre que outras mulheres robôs estavam encarceradas, decide então usar toda sua capacidade e armazenamento de dados para se ver livre dessa situação, com ajuda de uma amigue. <3

 
Ex-Machina-1
 

 

Misandria (aqui tem bastante spoiler, do final inclusive)

O que achei lindo nesse momento foi que o filme consegue quebrar a ideia do amor romântico e do homem que acha que deve chegar num cavalo branco para salvar uma mulher de um relacionamento abusivo. A ideia de que toda história precisa de uma história de amor, na minha opinião, é completamente equivocada.

Spoiler:

Depois de mil reviravoltas e conflitos, Ava foge e simplesmente deixa Caleb – seu suposto herói – preso dentro da casa. Por que ela faz isso? Por achar que ele seria mais um homem a tentar subjulgá-la? Talvez por achar que ele não acredita que eles sejam equiparáveis – nem intelectualmente, nem biologicamente? Não importa. Esse não é o ponto. É a vontade dela. E isso, caras amigas, é extremamente atual e real. Nada de ficção nessa moral da história.

O que chamei de misandria, nada mais é do que a vontade e ação de uma mulher que vai contra as de um homem. Acredito que isso deveria se chamar ~ escolha ~ ou ~ reação ~ apenas. Mas não, sempre que tem uma mulher no meio, acabamos sendo enquadradas em alguma categoria específica. Por que diabos chamar de “literatura feminina”, o que deveria ser apenas “literatura”, por exemplo? ENFIM, DESABAFO ~

 
1
 
Analogias à parte, o filme é extremamente bem feito, trilha sonora incrível, direção de arte impecável, roteiro inteligente e atuações foderosas. Nota 8,5, já falei.

Coincidência ou não, acredito em internalização muito mais do que eu gostaria: deletei minha conta no Facebook esta semana, hahaha! Se tive qualquer comentário ou se você acha que eu viajei completamente na minha analogia a relacionamentos abusivos, me diga. Pode deixar aqui na página ou no Twitter, @crusihcredo! :)

Pra finalizar, uma propaganda gratuita:

Duck Duck Go – uma ferramenta de busca que não te rastreia. É uma ótima dica para quem, como eu, estiver convencida de que o lucro está acima de qualquer experiência antropológica e que as ferramentas de busca aliadas a propaganda interferem sim na condução de pensamento e consumo.

 

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Teste Bechdel porque não sou obrigada, hahaha. Senão vou ficar falando mal do filme o tempo todo e acho que ninguém curte só ler crítica ruim, né? Se você não sabe o que é o teste Bechdel, hoje é um ótimo dia pra saber! Alison Bechdel é uma escritora e quadrinista estadunidense, e quando ela fazia a tirinha Dykes for Watch Out For, ela apresentou o teste por uma de suas personagens, então para um filme passar, são necessários três requisitos bem básicos:

 

1) O filme precisa ter duas personagens mulheres
que tenham nomes (e não sejam figurantes).
2) Que essas duas personagens falem uma com a outra.
3) E que o assunto seja sobre QUALQUER COISA
que não seja sobre homens.

 

Teste Bechdel

Daí você vai me dizer, nossa Bárbara, que idiota, só isso? SIM SÓ ISSO, e muitos filmes não passam, acredite em mim, a maioria não passa. Rolam listas na internet dizendo os filmes que passam e os que foram reprovados, você pode se surpreender sozinhos em vossa casa. Nem a Pixar fica fora disso, é assustador!

Mas, hoje eu vou falar sobre um filme que passa no teste com louvor, é o filme Sci-Fi Coherence. Eu sou uma eterna apaixonada por filmes Sci-Fi, de verdade. Assisto 2001 uma Odisséia no Espaço todo natal porque meu pai é ateu e esse é nosso ritual de final de ano. Então no meu facebook, perguntei a uns amigos se eles indicavam algum filme Sci-Fi super bom e esse foi um dos que me indicaram.

O mote é o seguinte, há um jantar entre amigos e durante o jantar, alguém menciona que naquele momento, um cometa x está passando bem perto da Terra. Algumas histórias sobre interferência dos astros e cometas nos comportamentos humanos são falados na conversa e de repente rola um apagão. PÂNICO NO LAGO. Hahaha. Enfim, a trama é bem interessante, apesar de muito usada, que é a de conhecer as reais personalidades em situações de alto estresse emocional, mas continua valendo a pena.

Eu não piro muito em câmera na mão se não for pra um efeito muito específico de primeira pessoa (e não por muito tempo também), acho que já passou essa moda. É muito primeira década dos anos dois mil demais, Bruxa de Blair, Cloverfield, Rec, Distrito 9, Atividade Paranormal, Encontros Imediatos de Quarto Grau (quase cagay na calça), etc. Rola esse recurso mas não atrapalha.

A trilha sonora é legal, nada muito chamativa, na real, no trailer dá pra sacar mais qual é a onda. Há muitas propagandas dizendo que é o melhor filme de Sci-Fi dos últimos tempos, eu não sei se concordo com isso, aliás, não concordo com isso não, mas é um bom filme, sem dúvidas. Acho que não posso falar muito mais sobre porque Sci-Fi, se você conta uma coisa, você acaba com a graça do filme, então você vai ter que confiar em mim na questão de ser um filme bem interessante. Se resolver ver o filme, me conta o que achou depois, tem no Popcorn Time!

Acho que eu vou começar a dar notas pros filmes, esse merece um 7. Dá uma olhada no trailer e vê se te apetece.

Fatalmente não é um filme feminista por causa da cena das minas se minando, mas o fato de ter uma mulher que é considerada a vilã, quebrando estereótipos de mulher santa, dando espaço pra mulher ser o que ela quiser de forma natural, achei um tesão. O que vocês acharam?

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