“Mustang”, traduzido no Brasil como “Cinco graças” (título péssimo, aliás), é o primeiro longa-metragem da diretora turca Deniz Gamze Ergüven, de 37 anos, e concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro. É uma pena que ainda não tenha data de estreia no país, já que é um filme que merece muito ser visto.
Vamos lá. A história se passa em uma pequena cidade no interior da Turquia. No último dia de aula, as irmãs Sonay (Ilayda Akdogan), Ece (Elit Iscan), Selma (Tugba Sunguroglu), Nur (Doga Zeynep Doguslu) e Lale (Günes Sensoy) decidem aproveitar o dia bem ensolarado para voltarem para casa a pé. Brincam na praia, acompanhadas de alguns colegas meninos da escola, e entram no mar de uniforme mesmo.
Está tudo indo bem – oba, férias! – até que elas são recebidas em casa aos tapas pela avó e pelo tio, seus guardiões desde que elas perderem os pais. “O que houve de errado?”, elas se perguntam. Uma vizinha dedurou o “mau comportamento” e a “depravação” das meninas por terem andado por aí sozinhas com garotos.
Aqui vale lembrar um pouco da realidade conservadora na Turquia, regida pela lei religiosa islâmica. O país é governado desde 2014 por Recep Tayyip Erdogan, um cara que já declarou que “mulheres e homens não podem ser tratados como iguais”, entre outras coisas absurdas contra os direitos das mulheres.
Ou seja, para as garotas não ficarem com má fama, a rotina delas muda drasticamente. As cinco são aprisionadas em casa, proibidas até de irem para a escola. Grades são colocadas ao redor de toda a casa. Elas são obrigadas a trocarem os shorts jeans curtinhos por túnicas largas, longas e com tons de marrom, e têm aulas apenas sobre como uma mocinha deve se comportar: aprendem a costurar, a arrumar a casa e a cozinhar para os futuros maridos.
Seus casamentos começam a serem arranjados e, como elas não podem opinar sobre mais nada, elas vão sendo oprimidas em muitos aspectos. Em uma das cenas, a irmã mais velha transa, mas não sangra no lençol para comprovar à família do marido que era virgem. Ela é levada às pressas ao hospital, usando o vestido de noiva ainda, onde um médico dirá que realmente o hímen dela ainda está lá.
A cumplicidade entre elas só é abalada quando distanciadas pelos casamentos forçados. Ver meninas sendo vítimas de um tipo de humilhação que começa dentro da própria família, do tio machista e da avó que só conhece essa realidade opressora, é sufocante.
Porém, Deniz, a diretora, compensa as cenas mais angustiantes com a leveza e a beleza das pequenas alegrias que as meninas ainda conseguem conquistar. A cena em que elas fogem para assistirem a um jogo de futebol é de chorar de tão linda!
Há comparações sendo feitas entre “Mustang” e “As virgens suicidas” (1999), o primeiro longa dirigido por Sofia Coppola. Baseado na obra de Jeffrey Eugenides, o filme se passa numa cidade americana em 1974, onde cinco irmãs são alvo de pais extremamente repressores. No entanto, esses dois filmes são muito diferentes.
Ao contrário do longa de Coppola, em que os meninos do bairro é que relatam como era “conviver” com as misteriosas e inatingíveis garotas loiras, a história de “Mustang” é contada pelo ponto de vista das próprias meninas, principalmente pelo da irmã mais nova, Lale (foto acima), que é a que mais se inconforma com cada injustiça cometida contra suas irmãs e a que planeja a fuga de casa.
Essa fuga almejada por Lale é também a fuga da abertura de precedentes. Se essa opressão das mulheres acontece hoje no interior da Turquia, e é vista como algo que deve ser aceitado, amanhã será em Istambul, e depois de amanhã em todos os lugares. Mas eu tenho certeza que Lale junto com outras Lales estarão lutando para que as mulheres sejam donas de si mesmas.
O filme não é só Lale, claro. Todas as cinco são protagonistas, cada uma com sua personalidade feminina, e muito – mas muito – fortes quando unidas. As atrizes estão incríveis, como se também fossem irmãs na vida real. Somos todas irmãs no fundo.
“Mustang”, traduzido no Brasil como “Cinco graças” (título péssimo, aliás), é o primeiro longa-metragem da diretora turca Deniz Gamze Ergüven, de 37 anos, e concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro. É uma pena que ainda não tenha data de estreia no país, já que é um filme que merece muito ser visto.
Vamos lá. A história se passa em uma pequena cidade no interior da Turquia. No último dia de aula, as irmãs Sonay (Ilayda Akdogan), Ece (Elit Iscan), Selma (Tugba Sunguroglu), Nur (Doga Zeynep Doguslu) e Lale (Günes Sensoy) decidem aproveitar o dia bem ensolarado para voltarem para casa a pé. Brincam na praia, acompanhadas de alguns colegas meninos da escola, e entram no mar de uniforme mesmo.
Está tudo indo bem – oba, férias! – até que elas são recebidas em casa aos tapas pela avó e pelo tio, seus guardiões desde que elas perderem os pais. “O que houve de errado?”, elas se perguntam. Uma vizinha dedurou o “mau comportamento” e a “depravação” das meninas por terem andado por aí sozinhas com garotos.
Aqui vale lembrar um pouco da realidade conservadora na Turquia, regida pela lei religiosa islâmica. O país é governado desde 2014 por Recep Tayyip Erdogan, um cara que já declarou que “mulheres e homens não podem ser tratados como iguais”, entre outras coisas absurdas contra os direitos das mulheres.
Ou seja, para as garotas não ficarem com má fama, a rotina delas muda drasticamente. As cinco são aprisionadas em casa, proibidas até de irem para a escola. Grades são colocadas ao redor de toda a casa. Elas são obrigadas a trocarem os shorts jeans curtinhos por túnicas largas, longas e com tons de marrom, e têm aulas apenas sobre como uma mocinha deve se comportar: aprendem a costurar, a arrumar a casa e a cozinhar para os futuros maridos.
Seus casamentos começam a serem arranjados e, como elas não podem opinar sobre mais nada, elas vão sendo oprimidas em muitos aspectos. Em uma das cenas, a irmã mais velha transa, mas não sangra no lençol para comprovar à família do marido que era virgem. Ela é levada às pressas ao hospital, usando o vestido de noiva ainda, onde um médico dirá que realmente o hímen dela ainda está lá.
A cumplicidade entre elas só é abalada quando distanciadas pelos casamentos forçados. Ver meninas sendo vítimas de um tipo de humilhação que começa dentro da própria família, do tio machista e da avó que só conhece essa realidade opressora, é sufocante.
Porém, Deniz, a diretora, compensa as cenas mais angustiantes com a leveza e a beleza das pequenas alegrias que as meninas ainda conseguem conquistar. A cena em que elas fogem para assistirem a um jogo de futebol é de chorar de tão linda!
Há comparações sendo feitas entre “Mustang” e “As virgens suicidas” (1999), o primeiro longa dirigido por Sofia Coppola. Baseado na obra de Jeffrey Eugenides, o filme se passa numa cidade americana em 1974, onde cinco irmãs são alvo de pais extremamente repressores. No entanto, esses dois filmes são muito diferentes.
Ao contrário do longa de Coppola, em que os meninos do bairro é que relatam como era “conviver” com as misteriosas e inatingíveis garotas loiras, a história de “Mustang” é contada pelo ponto de vista das próprias meninas, principalmente pelo da irmã mais nova, Lale (foto acima), que é a que mais se inconforma com cada injustiça cometida contra suas irmãs e a que planeja a fuga de casa.
Essa fuga almejada por Lale é também a fuga da abertura de precedentes. Se essa opressão das mulheres acontece hoje no interior da Turquia, e é vista como algo que deve ser aceitado, amanhã será em Istambul, e depois de amanhã em todos os lugares. Mas eu tenho certeza que Lale junto com outras Lales estarão lutando para que as mulheres sejam donas de si mesmas.
O filme não é só Lale, claro. Todas as cinco são protagonistas, cada uma com sua personalidade feminina, e muito – mas muito – fortes quando unidas. As atrizes estão incríveis, como se também fossem irmãs na vida real. Somos todas irmãs no fundo.
“Mustang”, traduzido no Brasil como “Cinco graças” (título péssimo, aliás), é o primeiro longa-metragem da diretora turca Deniz Gamze Ergüven, de 37 anos, e concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro. É uma pena que ainda não tenha data de estreia no país, já que é um filme que merece muito ser visto.
Vamos lá. A história se passa em uma pequena cidade no interior da Turquia. No último dia de aula, as irmãs Sonay (Ilayda Akdogan), Ece (Elit Iscan), Selma (Tugba Sunguroglu), Nur (Doga Zeynep Doguslu) e Lale (Günes Sensoy) decidem aproveitar o dia bem ensolarado para voltarem para casa a pé. Brincam na praia, acompanhadas de alguns colegas meninos da escola, e entram no mar de uniforme mesmo.
Está tudo indo bem – oba, férias! – até que elas são recebidas em casa aos tapas pela avó e pelo tio, seus guardiões desde que elas perderem os pais. “O que houve de errado?”, elas se perguntam. Uma vizinha dedurou o “mau comportamento” e a “depravação” das meninas por terem andado por aí sozinhas com garotos.
Aqui vale lembrar um pouco da realidade conservadora na Turquia, regida pela lei religiosa islâmica. O país é governado desde 2014 por Recep Tayyip Erdogan, um cara que já declarou que “mulheres e homens não podem ser tratados como iguais”, entre outras coisas absurdas contra os direitos das mulheres.
Ou seja, para as garotas não ficarem com má fama, a rotina delas muda drasticamente. As cinco são aprisionadas em casa, proibidas até de irem para a escola. Grades são colocadas ao redor de toda a casa. Elas são obrigadas a trocarem os shorts jeans curtinhos por túnicas largas, longas e com tons de marrom, e têm aulas apenas sobre como uma mocinha deve se comportar: aprendem a costurar, a arrumar a casa e a cozinhar para os futuros maridos.
Seus casamentos começam a serem arranjados e, como elas não podem opinar sobre mais nada, elas vão sendo oprimidas em muitos aspectos. Em uma das cenas, a irmã mais velha transa, mas não sangra no lençol para comprovar à família do marido que era virgem. Ela é levada às pressas ao hospital, usando o vestido de noiva ainda, onde um médico dirá que realmente o hímen dela ainda está lá.
A cumplicidade entre elas só é abalada quando distanciadas pelos casamentos forçados. Ver meninas sendo vítimas de um tipo de humilhação que começa dentro da própria família, do tio machista e da avó que só conhece essa realidade opressora, é sufocante.
Porém, Deniz, a diretora, compensa as cenas mais angustiantes com a leveza e a beleza das pequenas alegrias que as meninas ainda conseguem conquistar. A cena em que elas fogem para assistirem a um jogo de futebol é de chorar de tão linda!
Há comparações sendo feitas entre “Mustang” e “As virgens suicidas” (1999), o primeiro longa dirigido por Sofia Coppola. Baseado na obra de Jeffrey Eugenides, o filme se passa numa cidade americana em 1974, onde cinco irmãs são alvo de pais extremamente repressores. No entanto, esses dois filmes são muito diferentes.
Ao contrário do longa de Coppola, em que os meninos do bairro é que relatam como era “conviver” com as misteriosas e inatingíveis garotas loiras, a história de “Mustang” é contada pelo ponto de vista das próprias meninas, principalmente pelo da irmã mais nova, Lale (foto acima), que é a que mais se inconforma com cada injustiça cometida contra suas irmãs e a que planeja a fuga de casa.
Essa fuga almejada por Lale é também a fuga da abertura de precedentes. Se essa opressão das mulheres acontece hoje no interior da Turquia, e é vista como algo que deve ser aceitado, amanhã será em Istambul, e depois de amanhã em todos os lugares. Mas eu tenho certeza que Lale junto com outras Lales estarão lutando para que as mulheres sejam donas de si mesmas.
O filme não é só Lale, claro. Todas as cinco são protagonistas, cada uma com sua personalidade feminina, e muito – mas muito – fortes quando unidas. As atrizes estão incríveis, como se também fossem irmãs na vida real. Somos todas irmãs no fundo.
Acontece até o dia 10 de janeiro de 2016 a exposição “Frida Kahlo – Conexões entre mulheres surrealistas no México”, no Instituto Tomie Ohtake, em SP.
Frida Kahlo, como eu imagino que todas nós sabemos, foi uma pintora mexicana, que viveu de 1907 a 1954, e que sofreu um acidente horrível na adolescência. Felizmente, ela sobreviveu, começou a pintar, entrou para o Partido Comunista e conheceu Diego Rivera. É uma história belíssima a de Frida (você pode assistir a esse documentário para saber mais sobre ela).
Adorei a exposição. Acho que está bem completa, levando em conta que Frida só tem 143 trabalhos. Mas o que mais me chamou a atenção foram as obras de suas companheiras surrealistas. Como diz o panfleto da mostra, “muitas delas reconhecidas no passado como ‘esposas’ desse ou daquele artista. Aqui, elas são protagonistas: criam aproximações, promovem eventos, trocam correspondências, desafiam lugares-comuns, escapam de qualquer submissão e, claro, produzem obras de arte de vigor inquestionável.” <3
Abaixo, escolhi algumas das mulheres surrealistas que mais amei ter conhecido:
Alice Rahon nasceu na França em 1904 e descobriu a cultura mexicana por intermédio de Frida Kahlo, que viajou a Paris em 1938. Alice, que era poeta surrealista na Europa, fugiu da guerra e se estabeleceu definitivamente no México como pintora. Ela concebeu um balé cósmico para o qual escreveu o roteiro e desenhou uma série de marionetes articuladas. Para saber mais.
Bridget Tichenor foi editora da revista “Vogue” em Nova York, e o interesse pelo desenho de vestuário manifesta-se em suas pinturas. Ela se divorciou de seu segundo marido e se mudou para o México no início de 1950, onde morreu em 1990. Quem apresentou o México a ela foi seu primo Edward James, colecionador britânico de arte surrealista. Em 1958, ela participou do Primeiro Salão de Arte Feminina no México, junto com Leonora Carrington, Alice Rahon, Remedios Varo, e outras mulheres pintoras de sua época.
Jacqueline Lamba era uma pintora francesa e segunda mulher de André Breton. Eles se separaram em 1943 e Lamba se casou com David Hare, escultor americano. Dizem que ela teve um affair com Frida Kahlo. Na foto acima, Jacqueline Lamba ao lado de André Breton, Diego Rivera e León Trotsky no México em 1938. Para saber mais.
Com suas reportagens para a revista “Mujeres”, Kati Horna contribuiu para difundir a obra daquelas que se destacavam no mundo das artes e da cultura. Além de retratista das amigas surrealistas, a fotógrafa húngara ficou famosa por fazer os mais bonitos registros da Guerra Civil Espanhola.
Além de pintora e escultora, Leonora Carrington criou cenografias e textos para teatro inspirados em seus próprios contos. Nascida na Inglaterra, viveu por um bom tempo na Cidade do México. Mas antes de morar lá, ela passou três anos em Paris, acompanhando o seu então namorado e também artista, Max Ernst, morto pelos nazistas.
Lola Álvarez Bravo era fotógrafa, mas fez incursões no cinema, tendo iniciado a produção de um filme sobre a dupla identidade de Frida Kahlo. Também fundou a Galeria de Arte Contemporânea, que abriu espaço para a primeira exposição individual de Frida. Álvarez Bravo é provavelmente mais conhecida pelas fotografias que tirou na década de 1940 de sua amiga Frida. Durante 50 anos ela fotografou uma ampla variedade de temas, fazendo imagens documentais da vida cotidiana nas aldeias do México. Ela tirou fotos até ficar cega aos 79 anos.
A suíça Lucienne Bloch era muralista, por influência de Diego Rivera, mas também fotografou bastante Frida Kahlo. Lucienne acompanhou Frida e Diego durante a estadia do casal em Detroit, Michigan, nos EUA. Frida odiava o país e não estava mais produzindo, então as duas montaram um estúdio no apartamento que se assemelhava a uma escola de artes. Para saber mais.
Além de pintora, María Izquierdo colaborou como crítica de arte para o jornal “Novedades”. Sua primeira exposição foi no Palácio de Belas Artes da Cidade do México, cuja introdução do catálogo foi escrita por Diego Rivera. Em 1930, foi a primeira mexicana a ter uma mostra individual em Nova York. Para saber mais.
Nascida na Espanha, Remedios Varo foi uma pintora, que também desenhava máscaras e trajes para peças teatrais. Durante a Guerra Civil Espanhola, Remedios mudou-se para Paris onde foi influenciada pelo movimento surrealista. Ela foi forçada a exilar-se da capital francesa durante a ocupação nazista e mudou-se para a Cidade do México em fins de 1941. Morreu lá em 1963 de ataque cardíaco. Clique para ver as obras de Varo.
Frida Kahlo – Conexões entre mulheres surrealistas no México
Até 10 de janeiro de 2016
Instituto Tomie Ohtake, São Paulo – SP
Ingressos: ingresse.com / contato@ingresse.com / (11) 3004.6111.
“Mustang”, traduzido no Brasil como “Cinco graças” (título péssimo, aliás), é o primeiro longa-metragem da diretora turca Deniz Gamze Ergüven, de 37 anos, e concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro. É uma pena que ainda não tenha data de estreia no país, já que é um filme que merece muito ser visto.
Vamos lá. A história se passa em uma pequena cidade no interior da Turquia. No último dia de aula, as irmãs Sonay (Ilayda Akdogan), Ece (Elit Iscan), Selma (Tugba Sunguroglu), Nur (Doga Zeynep Doguslu) e Lale (Günes Sensoy) decidem aproveitar o dia bem ensolarado para voltarem para casa a pé. Brincam na praia, acompanhadas de alguns colegas meninos da escola, e entram no mar de uniforme mesmo.
Está tudo indo bem – oba, férias! – até que elas são recebidas em casa aos tapas pela avó e pelo tio, seus guardiões desde que elas perderem os pais. “O que houve de errado?”, elas se perguntam. Uma vizinha dedurou o “mau comportamento” e a “depravação” das meninas por terem andado por aí sozinhas com garotos.
Aqui vale lembrar um pouco da realidade conservadora na Turquia, regida pela lei religiosa islâmica. O país é governado desde 2014 por Recep Tayyip Erdogan, um cara que já declarou que “mulheres e homens não podem ser tratados como iguais”, entre outras coisas absurdas contra os direitos das mulheres.
Ou seja, para as garotas não ficarem com má fama, a rotina delas muda drasticamente. As cinco são aprisionadas em casa, proibidas até de irem para a escola. Grades são colocadas ao redor de toda a casa. Elas são obrigadas a trocarem os shorts jeans curtinhos por túnicas largas, longas e com tons de marrom, e têm aulas apenas sobre como uma mocinha deve se comportar: aprendem a costurar, a arrumar a casa e a cozinhar para os futuros maridos.
Seus casamentos começam a serem arranjados e, como elas não podem opinar sobre mais nada, elas vão sendo oprimidas em muitos aspectos. Em uma das cenas, a irmã mais velha transa, mas não sangra no lençol para comprovar à família do marido que era virgem. Ela é levada às pressas ao hospital, usando o vestido de noiva ainda, onde um médico dirá que realmente o hímen dela ainda está lá.
A cumplicidade entre elas só é abalada quando distanciadas pelos casamentos forçados. Ver meninas sendo vítimas de um tipo de humilhação que começa dentro da própria família, do tio machista e da avó que só conhece essa realidade opressora, é sufocante.
Porém, Deniz, a diretora, compensa as cenas mais angustiantes com a leveza e a beleza das pequenas alegrias que as meninas ainda conseguem conquistar. A cena em que elas fogem para assistirem a um jogo de futebol é de chorar de tão linda!
Há comparações sendo feitas entre “Mustang” e “As virgens suicidas” (1999), o primeiro longa dirigido por Sofia Coppola. Baseado na obra de Jeffrey Eugenides, o filme se passa numa cidade americana em 1974, onde cinco irmãs são alvo de pais extremamente repressores. No entanto, esses dois filmes são muito diferentes.
Ao contrário do longa de Coppola, em que os meninos do bairro é que relatam como era “conviver” com as misteriosas e inatingíveis garotas loiras, a história de “Mustang” é contada pelo ponto de vista das próprias meninas, principalmente pelo da irmã mais nova, Lale (foto acima), que é a que mais se inconforma com cada injustiça cometida contra suas irmãs e a que planeja a fuga de casa.
Essa fuga almejada por Lale é também a fuga da abertura de precedentes. Se essa opressão das mulheres acontece hoje no interior da Turquia, e é vista como algo que deve ser aceitado, amanhã será em Istambul, e depois de amanhã em todos os lugares. Mas eu tenho certeza que Lale junto com outras Lales estarão lutando para que as mulheres sejam donas de si mesmas.
O filme não é só Lale, claro. Todas as cinco são protagonistas, cada uma com sua personalidade feminina, e muito – mas muito – fortes quando unidas. As atrizes estão incríveis, como se também fossem irmãs na vida real. Somos todas irmãs no fundo.
" />
“Mustang”, traduzido no Brasil como “Cinco graças” (título péssimo, aliás), é o primeiro longa-metragem da diretora turca Deniz Gamze Ergüven, de 37 anos, e concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro. É uma pena que ainda não tenha data de estreia no país, já que é um filme que merece muito ser visto.
Vamos lá. A história se passa em uma pequena cidade no interior da Turquia. No último dia de aula, as irmãs Sonay (Ilayda Akdogan), Ece (Elit Iscan), Selma (Tugba Sunguroglu), Nur (Doga Zeynep Doguslu) e Lale (Günes Sensoy) decidem aproveitar o dia bem ensolarado para voltarem para casa a pé. Brincam na praia, acompanhadas de alguns colegas meninos da escola, e entram no mar de uniforme mesmo.
Está tudo indo bem – oba, férias! – até que elas são recebidas em casa aos tapas pela avó e pelo tio, seus guardiões desde que elas perderem os pais. “O que houve de errado?”, elas se perguntam. Uma vizinha dedurou o “mau comportamento” e a “depravação” das meninas por terem andado por aí sozinhas com garotos.
Aqui vale lembrar um pouco da realidade conservadora na Turquia, regida pela lei religiosa islâmica. O país é governado desde 2014 por Recep Tayyip Erdogan, um cara que já declarou que “mulheres e homens não podem ser tratados como iguais”, entre outras coisas absurdas contra os direitos das mulheres.
Ou seja, para as garotas não ficarem com má fama, a rotina delas muda drasticamente. As cinco são aprisionadas em casa, proibidas até de irem para a escola. Grades são colocadas ao redor de toda a casa. Elas são obrigadas a trocarem os shorts jeans curtinhos por túnicas largas, longas e com tons de marrom, e têm aulas apenas sobre como uma mocinha deve se comportar: aprendem a costurar, a arrumar a casa e a cozinhar para os futuros maridos.
Seus casamentos começam a serem arranjados e, como elas não podem opinar sobre mais nada, elas vão sendo oprimidas em muitos aspectos. Em uma das cenas, a irmã mais velha transa, mas não sangra no lençol para comprovar à família do marido que era virgem. Ela é levada às pressas ao hospital, usando o vestido de noiva ainda, onde um médico dirá que realmente o hímen dela ainda está lá.
A cumplicidade entre elas só é abalada quando distanciadas pelos casamentos forçados. Ver meninas sendo vítimas de um tipo de humilhação que começa dentro da própria família, do tio machista e da avó que só conhece essa realidade opressora, é sufocante.
Porém, Deniz, a diretora, compensa as cenas mais angustiantes com a leveza e a beleza das pequenas alegrias que as meninas ainda conseguem conquistar. A cena em que elas fogem para assistirem a um jogo de futebol é de chorar de tão linda!
Há comparações sendo feitas entre “Mustang” e “As virgens suicidas” (1999), o primeiro longa dirigido por Sofia Coppola. Baseado na obra de Jeffrey Eugenides, o filme se passa numa cidade americana em 1974, onde cinco irmãs são alvo de pais extremamente repressores. No entanto, esses dois filmes são muito diferentes.
Ao contrário do longa de Coppola, em que os meninos do bairro é que relatam como era “conviver” com as misteriosas e inatingíveis garotas loiras, a história de “Mustang” é contada pelo ponto de vista das próprias meninas, principalmente pelo da irmã mais nova, Lale (foto acima), que é a que mais se inconforma com cada injustiça cometida contra suas irmãs e a que planeja a fuga de casa.
Essa fuga almejada por Lale é também a fuga da abertura de precedentes. Se essa opressão das mulheres acontece hoje no interior da Turquia, e é vista como algo que deve ser aceitado, amanhã será em Istambul, e depois de amanhã em todos os lugares. Mas eu tenho certeza que Lale junto com outras Lales estarão lutando para que as mulheres sejam donas de si mesmas.
O filme não é só Lale, claro. Todas as cinco são protagonistas, cada uma com sua personalidade feminina, e muito – mas muito – fortes quando unidas. As atrizes estão incríveis, como se também fossem irmãs na vida real. Somos todas irmãs no fundo.