Zoe Saldana não é a melhor Nina Simone

Nina Simone apenas ficaria chocada (Cena do filme 'What Happened, Miss Simone?')

Acho importante começar esse texto afirmando que eu gosto muito da Zoe Saldana. Ela é uma atriz ótima e uma pessoa bem bacaninha também. Mas ela definitivamente não é a melhor pessoa para fazer o papel da Nina Simone. É importante que, ao criticar a produção do filme biográfico “Nina”, nós tenhamos o cuidado de não jogar a Zoe na fogueira. Mas é inevitável criticar a escolha de elenco do filme.

Nesta quarta-feira (2), dois anos após o início das filmagens, saiu o primeiro trailer de “Nina”, estrelado por Zoe Saldana e muitas pessoas se mostraram mega insatisfeitas. Quando a atriz foi escalada para representar a cantora no filme, muitas pessoas também criticaram a produção. A filha da Nina Simone também pronunciou seu desconforto (pra dizer o mínimo) com a escolha da Zoe para o papel da Nina.

Ou seja…

A Zoe não se parece fisicamente com a Nina Simone. Para o papel, Zoe usou próteses para o nariz e maquiagem para escurecer a pele [A Zoe é uma atriz negra, então eu tenho minhas ressalvas quanto a chamar a maquiagem e adereços que ela usa no filme de “blackface”. Acho que só quem faz “blackface” mesmo são pessoas brancas, mas eu continuo achando bizarríssimo].

Assim, questionar a qualidade dessa produção e também os motivos que levaram os produtores a escolherem Zoe para o papel é mais do que esperado; especialmente quando consideramos a enorme quantidade de atrizes negras talentosíssimas que se parecem mais com a Nina e que poderiam ter representado a cantora com maestria e sem a necessidade de escurecer sua pele artificialmente.

[caption id="attachment_9626" align="aligncenter" width="467"] Zoe Saldana em foto da revista ‘Vogue’ UK[/caption]

Digo que temos que evitar transformar as críticas ao filme em ataques focados na Zoe por alguns motivos. O primeiro motivo é que a Zoe é uma atriz negra numa indústria racista que frequentemente exclui mulheres negras, negando papéis e deixando de contratar atrizes como ela. E mais, uma indústria que raramente conta histórias como as de Nina Simone. Então, eu até entendo a vontade da Zoe de querer participar de um projeto que pretende contar a história de uma mulher tão importante. Ao mesmo tempo, acho que ela não deveria ter aceito o papel.

A escolha de uma atriz negra de pele clara para o papel de Nina é uma escolha política. Com a escalação de Zoe, a indústria está, mais uma vez, excluindo especificamente as mulheres negras de pele mais escura. O que está rolando aqui é que um filme sobre uma mulher negra que falava sobre mulheres negras está ignorando uma parte importante bem grande da sua identidade.

A própria Zoe já se pronunciou algumas vezes sobre o filme, alegando não ter gostado do resultado final e confessando que não se dava bem com a equipe. Acho que o que eu quero dizer é: foi muita cagada da Zoe entrar nesse projeto? Foi. Mas a cagada ainda maior é do estúdio que patrocinou a coisa toda e da equipe de produção e direção, que é majoritariamente branca.

[caption id="attachment_9630" align="aligncenter" width="636"]Zoe Saldana no filme 'Nina' Zoe Saldana no filme ‘Nina’[/caption]

Isso me leva a pensar no seguinte: pessoas brancas fazem papéis de pessoas negras ou de asiáticos o TEMPO TODO. Whitewashing, blackface e yellowface são fenômenos racistas e quase que epidêmicos de tão comuns. Esses dias o “Huffington Post” fez uma lista de 25 vezes em que atrizes e atores brancos fizeram blackface ou yellowface e ninguém se importou. O Jim Sturgess (“Um dia”, “Across the universe”), por exemplo, já fez essa enorme tosqueira DUAS vezes! Teve o mega whitewashing em “Quebrando a Banca” (originalmente o personagem dele era baseado no Jeffrey Ma, um estudante de ascendência chinesa) e um yellowface absurdo em “Cloud Atlas”. E a Angelina Jolie representando a francesa de ascendência afrocubana Mariane Pearl em total blackface?! SEM NOÇÃO. E o Joseph Fiennes fazendo o papel do Michael Jackson. (Sim, o irmão do Voldemort vai fazer o MJ. Esse caso é ainda mais absurdo quando lembramos que o próprio Michael Jackson já tinha afirmado várias vezes que não aceitaria um homem branco fazendo seu papel)! E essa palhaçada precisa acabar. Logo.

Um textinho para quem quer entender um pouco do por quê é problemático ver a Zoe Saldana no papel da Nina Simone.

Aqui um vídeo da Nina Simone discutindo negritude para revitalizar <3

Mais de Bárbara Paes

Retratos da diáspora africana

Cecile Emeke é uma cineasta e poeta jamaicana-britânica de 23 anos que faz vídeos sensacionais sobre a vida de jovens negras e negros no Reino Unido. Sua produção traz um retrato super sincero de uma juventude que é quase sempre mal representada.

O tumblr da Cecile é uma das coisas mais legais que eu descobri nos últimos tempos! Foi nele que eu vi o poema “Origin” e comecei a acompanhar o trabalho dela. A Cecile se interessa pela narrativa da diáspora africana, com foco especial na experiência da mulher negra. Uma das coisas que torna tudo mais legal é que a Cecile tem um olhar bem pessoal, então seus vídeos acabam abordando várias camadas da identidade negra. Toda vez que ela posta alguma coisa no canal dela no YouTube, eu corro pra ver.
 

Strolling/Flâner

Strolling é uma série de entrevistas com jovens negras e negros de Londres. Flâner é o mesmo conceito, mas com vídeos gravados na França. Enquanto andam pelas ruas de suas respectivas cidades, os entrevistados falam de tudo, desde identidade, afrofuturismo e colorismo, até Palestina e gentrificação.

Apesar de abordar temas densos, os vídeos são simples, têm uma trilha sonora bem legal e são construídos de uma forma linda (acho que tudo que ela faz fica lindo porque a Cecile é poeta). As opiniões apresentadas nem sempre são consensuais, mas a proposta da Cecile é justamente fomentar discussão: ela descreve o projeto como uma plataforma para diálogo honesto e aberto dentro do contexto da diáspora negra global.

Sendo uma mulher negra morando em uma cidade gigante, é inevitável reconhecer um pouquinho de mim em cada um dos depoimentos. Abaixo, um dos episódios de Flâner, onde as entrevistadas falam sobre a cultura negra na França, estereótipos relacionados às mulheres negras no país e a importância da amizade entre mulheres:

 

 

Fake Deep

Neste curta, 6 atrizes negras (e talentosíssimas) interpretam um poema escrito pela Cecile, sobre os aspectos sutis e benevolentes da misoginia a qual as mulheres negras estão submetidas. Em Fake Deep, a Cecile consegue verbalizar, com muita precisão, coisas que eu sempre senti, mas que nem sempre soube articular.

 

 

Ackee & Saltfish

ackee saltfish
 
Ackee & Saltfish começou como um curta-metragem, mas rapidamente se expandiu para uma websérie, e retrata a vida de duas melhores amigas: Rachel e Olivia. Se você gosta do tipo de humor de Broad City (essa coisa maravilhosa que também começou como uma websérie), você vai amar Ackee & Saltfish. Os diálogos são rápidos, engraçados e, acima de tudo, parecem reais e palpáveis. A Rachel e a Olivia são interpretadas por Vanessa Babirye e Michelle Tiwo, que são hilárias.

O primeiro episódio da série é um dos meus preferidos e chama “The Lauryn Hill Tickets”:

 

 
Em Ackee & Saltfish vemos mulheres negras sendo representadas para além das identidades que geralmente são impostas em filmes e séries. Na produção de Cecile, a mulher negra não é só a “melhor amiga engraçada da protagonista branca”, a barraqueira, a empregada. Sob o olhar de Cecile, mulheres negras são pessoas completas e não apenas acessórios para incrementar a trama.

Se você quer conhecer o trabalho da Cecile melhor, lê essa entrevista dela no New York Times, segue ela no Facebook e no Tumblr.

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Zoe Saldana. Ela é uma atriz ótima e uma pessoa bem bacaninha também. Mas ela definitivamente não é a melhor pessoa para fazer o papel da Nina Simone. É importante que, ao criticar a produção do filme biográfico “Nina”, nós tenhamos o cuidado de não jogar a Zoe na fogueira. Mas é inevitável criticar a escolha de elenco do filme.

Nesta quarta-feira (2), dois anos após o início das filmagens, saiu o primeiro trailer de “Nina”, estrelado por Zoe Saldana e muitas pessoas se mostraram mega insatisfeitas. Quando a atriz foi escalada para representar a cantora no filme, muitas pessoas também criticaram a produção. A filha da Nina Simone também pronunciou seu desconforto (pra dizer o mínimo) com a escolha da Zoe para o papel da Nina.

Ou seja…

A Zoe não se parece fisicamente com a Nina Simone. Para o papel, Zoe usou próteses para o nariz e maquiagem para escurecer a pele [A Zoe é uma atriz negra, então eu tenho minhas ressalvas quanto a chamar a maquiagem e adereços que ela usa no filme de “blackface”. Acho que só quem faz “blackface” mesmo são pessoas brancas, mas eu continuo achando bizarríssimo].

Assim, questionar a qualidade dessa produção e também os motivos que levaram os produtores a escolherem Zoe para o papel é mais do que esperado; especialmente quando consideramos a enorme quantidade de atrizes negras talentosíssimas que se parecem mais com a Nina e que poderiam ter representado a cantora com maestria e sem a necessidade de escurecer sua pele artificialmente.

Digo que temos que evitar transformar as críticas ao filme em ataques focados na Zoe por alguns motivos. O primeiro motivo é que a Zoe é uma atriz negra numa indústria racista que frequentemente exclui mulheres negras, negando papéis e deixando de contratar atrizes como ela. E mais, uma indústria que raramente conta histórias como as de Nina Simone. Então, eu até entendo a vontade da Zoe de querer participar de um projeto que pretende contar a história de uma mulher tão importante. Ao mesmo tempo, acho que ela não deveria ter aceito o papel.

A escolha de uma atriz negra de pele clara para o papel de Nina é uma escolha política. Com a escalação de Zoe, a indústria está, mais uma vez, excluindo especificamente as mulheres negras de pele mais escura. O que está rolando aqui é que um filme sobre uma mulher negra que falava sobre mulheres negras está ignorando uma parte importante bem grande da sua identidade.

A própria Zoe já se pronunciou algumas vezes sobre o filme, alegando não ter gostado do resultado final e confessando que não se dava bem com a equipe. Acho que o que eu quero dizer é: foi muita cagada da Zoe entrar nesse projeto? Foi. Mas a cagada ainda maior é do estúdio que patrocinou a coisa toda e da equipe de produção e direção, que é majoritariamente branca.

Isso me leva a pensar no seguinte: pessoas brancas fazem papéis de pessoas negras ou de asiáticos o TEMPO TODO. Whitewashing, blackface e yellowface são fenômenos racistas e quase que epidêmicos de tão comuns. Esses dias o “Huffington Post” fez uma lista de 25 vezes em que atrizes e atores brancos fizeram blackface ou yellowface e ninguém se importou. O Jim Sturgess (“Um dia”, “Across the universe”), por exemplo, já fez essa enorme tosqueira DUAS vezes! Teve o mega whitewashing em “Quebrando a Banca” (originalmente o personagem dele era baseado no Jeffrey Ma, um estudante de ascendência chinesa) e um yellowface absurdo em “Cloud Atlas”. E a Angelina Jolie representando a francesa de ascendência afrocubana Mariane Pearl em total blackface?! SEM NOÇÃO. E o Joseph Fiennes fazendo o papel do Michael Jackson. (Sim, o irmão do Voldemort vai fazer o MJ. Esse caso é ainda mais absurdo quando lembramos que o próprio Michael Jackson já tinha afirmado várias vezes que não aceitaria um homem branco fazendo seu papel)! E essa palhaçada precisa acabar. Logo.

Um textinho para quem quer entender um pouco do por quê é problemático ver a Zoe Saldana no papel da Nina Simone.

Aqui um vídeo da Nina Simone discutindo negritude para revitalizar <3

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