A vida de Cinthia, militante antirracista

Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)

Meu nome é Cinthia Maria do Carmo Gomes. Nasci no estado do Rio de Janeiro, na cidade de Duque de Caxias, de onde a geração dos meus pais é. Meus avós maternos vieram da Bahia e os paternos, de Minas Gerais. Minha avó paterna também falava de uma bisavó índia. Só sei até aí. Meu avô materno era saxofonista empregado na banda do Corpo de Bombeiros. Meu avô paterno era ferroviário. Minhas avós eram donas de casa (mas minha avó paterna se orgulhava de ter sido telefonista). Minha mãe é professora de matemática. Meu pai é formado em engenharia operacional e trabalhava em uma indústria química. Meu irmão é publicitário. E eu sou eu.

Minha consciência racial se desenvolveu junto com a fala e com as habilidades motoras, eu acho. Não me lembro de uma fase da vida em que eu não soubesse que era negra e em que não observasse e sentisse os impactos disso. Nasci em 1981. Lembro do Sarney e de que morávamos em um subúrbio carioca, Guadalupe, que já era socialmente mais ascendido que onde meus pais moravam quando solteiros. Lembro que havia uma menina loira no jardim de infância que ditava as brincadeiras. Todos a obedeciam e tinham que brincar do jeito que ela queria. As professoras a achavam linda. As professoras não me achavam linda.

Quando eu tinha 6 ou 7 anos, nos mudamos para Jacarepaguá, ainda subúrbio, mas na zona Oeste e longe da Avenida Brasil, mais uma ascensão social. Como minha mãe era professora, ela sabia quais eram as escolas públicas boas, e fomos, meu irmão e eu, estudar no Golda Meir, na emergente Barra da Tijuca. Lembro e quero registrar e agradecer todo sacrifício que meus pais fizeram para que tivéssemos uma boa qualidade de vida e uma boa educação. Meus pais nos levavam para a escola e ficavam lá esperando até a hora da saída, sem voltar pra casa, pra economizar gasolina. Durante as horas de espera, meu pai lia Guimarães Rosa e minha mãe ia à praia. Íamos bastante à praia. Até fizemos um curso de férias com salva-vidas, que ensinava as crianças a não se afogarem, a salvar os outros do afogamento e tinha exercícios e corrida e nado no mar e era legal. Brincávamos bastante com as crianças do prédio. Não foi uma infância ruim. Mas tinha umas coisinhas.

Na escola, eu era bem excluída, embora ainda não conhecesse essa palavra. Só conseguia fazer amizade com outros excluídos: outra rara menina negra, a menina que morava tão longe que já dormia de uniforme e o menino gordo. Não lembro o nome de ninguém. Mas lembro que ninguém conversava muito comigo, que eu não participava muito das brincadeiras e que tinha um menino insuportável que me chamava de petróleo. Quando chegou a idade de ir para as matinês, eu sabia que ninguém ia me chamar pra dançar porque eu era negra e essa categoria não é muito valorizada no mercado amoroso. E era isso que acontecia. Ah, eu só tinha 10 anos.

Minha mãe costumava dizer que “a gente que é mais escurinho, tem que ser o mais inteligente, o mais bem arrumado, o melhor em tudo”. Nunca me livrei do peso disso. Enfim, comecei a fazer coisas estranhas na escola. Comecei a tirar notas altíssimas. Comecei entender e a engendrar sentidos a partir do que os professores falavam. Ganhei concursos de redação e fui aprovada no Colégio Pedro II, uma escola pública federal com grande prestígio até hoje e sempre. Só havia 10 vagas no ano em que fiz a prova. E eu passei. Foi um grande feito. A diretora da escola me exibiu de sala em sala para professores e outros alunos, como um troféu da eficácia de sua administração e qualidade de ensino. Eu não me lembro disso, minha mãe que contou. Minha mãe também contou que havia uma professora negra nessa escola e que as mães dos alunos diziam que ela era burra e que era minha mãe que preparava as aulas dela. Foi dessa escola que saí para receber uma melhor educação formal.

 
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No Pedro II, além das disciplinas habituais, tive aulas de Música, Inglês, Francês, Espanhol e Latim. Também tive Educação Moral e Cívica, mas essa não entrou para a história. Só as músicas cívicas que cantávamos no Fogo Simbólico, uma reunião de todas as unidades – o CPII tem cinco unidades – em que cantávamos “Fibra de Herói” e “Anhangá fugiu” e outras coisas de exaltação ao espírito nacional e havia competições esportivas, das quais obviamente nunca participei. Também não havia muitos negros nessa escola e meio que instintivamente comecei a namorar o Fábio, meu primeiro namorado, por quem nutro profundo carinho e respeito. Hoje ele é rastafári e mora em Cabo Verde, na África. Nossas conversas e convivência foram fundamentais para estabelecer o pensamento racial de cada um, embora tenhamos seguido caminhos diferentes.

A vida foi seguindo, cursei segundo grau técnico em Meteorologia no Cefet, o que me proporcionou ser aprovada em um concurso da Infraero e, assim, conseguir meu primeiro emprego. Para isso, tive de sair da casa dos meus pais e me mudar para São Paulo, o que fiz com a inocência de quem tem 20 anos e absolutamente não tem capacidade de prever consequências. Mas foi bom. Estou aqui até hoje, 13 anos depois. Ah, esqueci de citar que já cursava Letras na UFRJ, habilitação em Português-Literaturas, e estava no terceiro semestre quando tive que decidir sobre a mudança. Paradoxalmente, tive mais colegas negras na faculdade do que havia tido até então na vida escolar. Mas não se empolguem, eram a Tatiana e a Helena, só duas.

Em São Paulo, a questão racial ficou mais escancarada. A geografia da cidade é segregada e segregatória. Negros na periferia e brancos no centro expandido. Alguns brancos e muitos nordestinos na periferia e raramente nas mansões do Jardim Europa. E agora, bolivianos, haitianos e várias nacionalidades de africanos no centrão. Decidi mudar de curso e fazer Jornalismo porque achei que minhas perspectivas de intervenção no mundo por meio do adjunto adnominal eram bastante reduzidas. Estudei na Faculdade Cásper Líbero. Demorei um pouco para perceber que isso era uma coisa boa pois tinha um ranço carioca que dizia que só as universidades públicas prestavam. Ainda no primeiro ano, uma garota de quem eu nem era amiga disse que achava que se eu usasse meu cabelo crespo, ficaria muito mais bonita. Eu ainda alisava – alisava desde os seis anos, acho, a meu próprio pedido, pois queria ficar igual à Xuxa. Aliás, tive até festa de aniversário da Xuxa, aos 7 anos. Esqueci de citar também que eu era constantemente atormentada na infância por um sonho ou pesadelo, no qual descia um anjo do céu, com asa e tudo, e me dava uma bênção mágica e meu cabelo virava liso, no pátio da escola, diante de dezenas de crianças estupefatas.

Voltando à faculdade, um dia resolvi experimentar. Não escovei nem enrolei bobs no cabelo, lavei e o deixei secar naturalmente. Ele enrolou. Pus uma faixa pra fazer um penteado e fui pra aula. Entrei na sala e o professor interrompeu a fala por uns cinco segundos, olhou e analisou o novo look. Ele também era mestiço. E finalizou com um olhar de aprovação. A partir daquele dia, fui deixando a química sair e a negritude entrar.

Na Cásper encontrei a mesma escassez de negros a qual já estava acostumada em toda minha vida escolar. Mas houve uma conjuntura astral, um plano espiritual ou um odu dos orixás que fizeram com que, nessas condições, eu organizasse meu pensamento e minha primeira ação de militância racial. Constituímos um grupo chamado Dandaras, que editava fanzines, produzia debates e palestras e produzia um programa de rádio, tudo sobre questão racial, negritude, cultura negra. Isso foi em 2005. Foi fantástico. Não deveríamos perder nunca essa sensação de que se pode mudar o mundo. Éramos Gabi, Paola, Thaís, Karina, Lucas e os professores Chico Nunes e Pedro Vaz. Conheci muita gente, transitei por vários ambientes, ouvia era ouvida. Produzi muitas coisas das quais me orgulho e que fizeram sentido para muita gente. Contei a história dos bailes black da capital, conheci os batuques do interior, o hip-hop de Diadema, sacerdotes do candomblé e da umbanda, quilombolas, perfilei guerreiros contemporâneos e artistas, cobrei políticas públicas de ministros, secretários, deputados, senadores e vereadores. Me formei, constituí a Afroeducação com Paola Prandini, e continuamos a trabalhar na questão.

Depois de alguns anos, comecei a me sentir muito divida e a questionar meu caminho. Em todo esse tempo, tive a honra de conviver e continuar convivendo com militantes históricos, amigos e referências, como Oswaldo Faustino e Flavio Carrança, na Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial. Nunca parei. Nunca deixei de ser. Mas percebi que se eu optasse exclusivamente pela militância, eu deixaria muitas coisas de fora da minha trajetória profissional. E eu não tinha feito todo aquele sacríficio de trabalhar e estudar pra não ser repórter. Assim como em toda a minha vida escolar, também não há muitos negros nas redações, menos ainda apresentando programas ou reportagens de TV. Decidi como estratégia pessoal ocupar esse espaço. Como não seria produtivo ocupar o espaço só com a beleza negra, durante algum tempo, tive que me abster de ações sistemáticas de militância para investir na imersão no jornalismo – diário, impressionante, desbravador e cruel. Me desestruturei e me reestruturei. Hoje percebo meu desenvolvimento profissional e minhas convicções, caminhando paralelamente, como linhas que não se cruzam ou se encontram no infinito, mas me guiando na mesma direção.

Em 2015, celebro 10 anos de militância antirracista. É uma caminhada e um caminho. Axé.

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**Este texto é dedica do à memória de minha querida avó Leonor Dultra do Carmo, que não gostava de negros, dizia que o marido era mulato e adorava macumba. E de meu avô José Gomes, que não conheci mas de quem sempre tive saudades, e que era um líder trabalhista e desconfiava que seus filhos haviam sido expulsos de um colégio particular e católico porque era eram negros.
 
Ilustrações por Fernanda Garcia (Kissy)

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Dia da visibilidade bissexual

 
Estar escrevendo esse post hoje é uma espécie de artimanha do destino.

Vamos começar do começo: essa semana me vi repentinamente tomada por um vendaval. Ele me possuiu tamanhamente que não consegui descansar por um minuto sequer e me vi possessa como não ficava desde o colegial, quando conhecia algum livro/filme/banda nova, ou, talvez, desde que conheci o feminismo cinco anos atrás. O que aconteceu essa semana foi que, pela primeira vez na vida, comecei a pesquisar a bissexualidade. Pesquisar mesmo, pesquisar coletivos, textos teóricos, todas aquelas coisas que a gente faz quando se reconhece em um movimento ou uma comunidade e se apaixona.

Só que. Só que, eu me identifico como bissexual desde os quatorze anos. Faz doze anos isso. Doze. Hesitei no meu vendaval. Por que ele demorou doze anos para chegar? E mais. Alguns dos meus melhores amigos são bissexuais. Porém, nunca conversamos sobre isso, sobre a comunidade, as nossas dores e vitórias e todas aquelas coisas que conversamos quando nos reconhecemos um no outro. Engraçado, pensei. Quando comecei a me entender por feminista a única coisa que fazia, cem por cento do tempo, era falar sobre feminismo com as pessoas, ainda mais com minhas amigas, e ainda mais com minhas amigas feministas, em busca de criar uma comunidade em torno de mim que refletisse minhas necessidades, em busca de entender melhor, de criar meu próprio feminismo, etc. – basicamente, em busca de me tornar um ser físico presente e visível como feminista. Então por que isso não aconteceu em relação à minha sexualidade? Quanto mais eu pensava sobre o assunto, mais aterrorizada eu ficava. E logo entendi o que aconteceu.

Lembrei de quase todas as conversas que já tive com heterossexuais a respeito de bissexualidade. Apesar de conhecer muitos HT bacanas que não falam isso, a opinião parece ser geral. “Bissexual não existe” me diziam. “A pessoa só tá criando coragem pra se assumir gay ou passando por uma fase.” Mas eu não sou gay, eu pensava, lutando contra a vontade de abanar minha mão na frente do rosto da pessoa para ver se ela estava ou não me enxergando.

Corta para quando conheci o feminismo. Sendo mulher e não me identificando como HT, acabei caindo no nicho das lésbicas/bissexuais. Apesar de conhecer muitas lésbicas bacanas que não falam isso, a opinião parece ser geral. “Não existe bifobia” me diziam. Que é um discurso que cabe muito bem com o discurso hétero, já que se não existem bissexuais, então claro que não existe bifobia. RISOS fim da piada (alô gaslight!). Pior, se me sentia desconfortável com os comentários bi-fóbicos, automaticamente me reprimia, já que me sentia uma traídora por fazer mimimi do preconceito das irmãs.

O que aconteceu é que, é obvio que nunca conversei com ninguém a respeito da bissexualidade, que nunca tentei me estabelecer como indivíduo existente bissexual. Ao meu redor, de todas as comunidades que eu integrava (mesmo as comunidades de suposta resistência contra o patriarcado e a normatividade), ouvia ou que a bissexualidade não existe, ou que ela não é válida – ao menos, não tão válida quanto outras sexualidades. Como se as pessoas no mundo só conhecessem a opção A ou B, e a partir do momento que você não se encaixa em nenhuma das duas, você passa a não ter voz ou a não existir. Ou, em outras palavras, a partir do momento que você não se encaixa em um padrão de relacionamento monossexual, você não existe. Você passa a ser uma espécie de subgrupo, que serve só para fazer volume (“lésbicas/bissexuais”), mas que na hora do vamo-ver é considerado café com leite, como alguém que não conta “de verdade”. Esse tipo de postura faz com que ocorra o que chamamos de apagamento bissexual, em que você convence toda uma parcela da sociedade de que ela não existe, que a luta dela não é tão importante quanto outras, que ela está de mimimi só porque as reivindicações dela são diferentes das suas, ou porque você não passa pelas situações que ela passa e, portanto, não reconhece a validade daquilo. (convenhamos que pessoas heterossexuais e homossexuais geralmente não sofrem preconceito dos parceiros ou da comunidade própria – ou sendo, lésbicas da comunidade lésbica e héteros da comunidade hétero – pela sexualidade deles). Gente, isso nos soa familiar? Não é exatamente o que o patriarcado racista classista faz com a luta feminista todos os dias?

Uma mulher bissexual não precisa estar em um relacionamento com outra mulher para ser bissexual e sofrer bi-fobia, do mesmo jeito que uma lésbica solteira continua lésbica sujeita a lesbofobia. Se eu namoro um homem, continuo bi (não hétero), se eu namoro uma mulher continuo bi (não lésbica). E outra coisa: o preconceito que as mulheres bissexuais enfrentam perante a sociedade não é relativizado em relação às lésbicas, e assumir isso não significa apagar lesbofobia, significa apenas reconhecer que essa merda de homofobia afeta a todas nós. Não existe uma placa na testa das bissexuais dizendo “Oi sou bissexual também fico com homens, ok?” que impede o patriarcado de atacar quando vê duas mulheres andando na rua de mãos dadas. Isso sem contar o preconceito que as mulheres bi enfrentam no meio HT, onde são vistas como objetos de fetiche ou pior, namoradas que tem o duplo potencial de trair o macho e que, por isso, precisam ser vigiadas e corrigidas. O que todas as comunidades precisam entender é que todas as vivências são diferentes, são específicas, mas isso não as torna inferiores ou menos válidas ou menos dolorosas. Chega de submeter a vivência bissexual ao gaslighteamento!

Estatisticamente, bissexuais são a sexualidade com taxa mais alta de suicídio, doenças mentais e ocorrência de estupro. Para se ter uma ideia, em uma pesquisa de 2010, foram registradas ocorrências de estupro em 35% das mulheres hétero, 44% das lésbicas e 61% das mulheres bissexuais americanas. Quando contei para uma amiga minha bissexual que eu ia escrever esse post para o dia da visibilidade bissexual, ela me respondeu: “Sinceramente, o dia da visibilidade bi é uma piada na comunidade LGBT”. Nós duas concordamos tristemente. Que bela piada essa. Talvez, vendo essas estatísticas, possamos passar a existir aos olhos da sociedade monossexual. Se nós não existimos, que pelo menos o nosso sangue derramado exista.

Eu disse lá em cima que eu estar escrevendo esse post hoje é uma espécie de artimanha do destino. Que bela coincidência que foi eu estar me vendo como pessoa bissexual na sociedade (em vez de só na minha esfera pessoal) justamente na semana da visibilidade bissexual. Eu perceber que essa minha sensação de inadequação, de apagamento, de quero me encontrar mas não sei onde estou, vem comigo procurar algum lugar mais calmo (…) tenho quase certeza que eu não sou daqui não é um reflexo da minha sexualidade insuficiente (alô gaslight!) e sim da sociedade monossexista que eu estou integrando. De uma sociedade heterossexual que me rejeita, mas também de uma sociedade homossexual que me rejeita. Gente, o B tá lá, juro que to vendo ele no LGBT. Vocês não?

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No Pedro II, além das disciplinas habituais, tive aulas de Música, Inglês, Francês, Espanhol e Latim. Também tive Educação Moral e Cívica, mas essa não entrou para a história. Só as músicas cívicas que cantávamos no Fogo Simbólico, uma reunião de todas as unidades – o CPII tem cinco unidades – em que cantávamos “Fibra de Herói” e “Anhangá fugiu” e outras coisas de exaltação ao espírito nacional e havia competições esportivas, das quais obviamente nunca participei. Também não havia muitos negros nessa escola e meio que instintivamente comecei a namorar o Fábio, meu primeiro namorado, por quem nutro profundo carinho e respeito. Hoje ele é rastafári e mora em Cabo Verde, na África. Nossas conversas e convivência foram fundamentais para estabelecer o pensamento racial de cada um, embora tenhamos seguido caminhos diferentes.

A vida foi seguindo, cursei segundo grau técnico em Meteorologia no Cefet, o que me proporcionou ser aprovada em um concurso da Infraero e, assim, conseguir meu primeiro emprego. Para isso, tive de sair da casa dos meus pais e me mudar para São Paulo, o que fiz com a inocência de quem tem 20 anos e absolutamente não tem capacidade de prever consequências. Mas foi bom. Estou aqui até hoje, 13 anos depois. Ah, esqueci de citar que já cursava Letras na UFRJ, habilitação em Português-Literaturas, e estava no terceiro semestre quando tive que decidir sobre a mudança. Paradoxalmente, tive mais colegas negras na faculdade do que havia tido até então na vida escolar. Mas não se empolguem, eram a Tatiana e a Helena, só duas.

Em São Paulo, a questão racial ficou mais escancarada. A geografia da cidade é segregada e segregatória. Negros na periferia e brancos no centro expandido. Alguns brancos e muitos nordestinos na periferia e raramente nas mansões do Jardim Europa. E agora, bolivianos, haitianos e várias nacionalidades de africanos no centrão. Decidi mudar de curso e fazer Jornalismo porque achei que minhas perspectivas de intervenção no mundo por meio do adjunto adnominal eram bastante reduzidas. Estudei na Faculdade Cásper Líbero. Demorei um pouco para perceber que isso era uma coisa boa pois tinha um ranço carioca que dizia que só as universidades públicas prestavam. Ainda no primeiro ano, uma garota de quem eu nem era amiga disse que achava que se eu usasse meu cabelo crespo, ficaria muito mais bonita. Eu ainda alisava – alisava desde os seis anos, acho, a meu próprio pedido, pois queria ficar igual à Xuxa. Aliás, tive até festa de aniversário da Xuxa, aos 7 anos. Esqueci de citar também que eu era constantemente atormentada na infância por um sonho ou pesadelo, no qual descia um anjo do céu, com asa e tudo, e me dava uma bênção mágica e meu cabelo virava liso, no pátio da escola, diante de dezenas de crianças estupefatas.

Voltando à faculdade, um dia resolvi experimentar. Não escovei nem enrolei bobs no cabelo, lavei e o deixei secar naturalmente. Ele enrolou. Pus uma faixa pra fazer um penteado e fui pra aula. Entrei na sala e o professor interrompeu a fala por uns cinco segundos, olhou e analisou o novo look. Ele também era mestiço. E finalizou com um olhar de aprovação. A partir daquele dia, fui deixando a química sair e a negritude entrar.

Na Cásper encontrei a mesma escassez de negros a qual já estava acostumada em toda minha vida escolar. Mas houve uma conjuntura astral, um plano espiritual ou um odu dos orixás que fizeram com que, nessas condições, eu organizasse meu pensamento e minha primeira ação de militância racial. Constituímos um grupo chamado Dandaras, que editava fanzines, produzia debates e palestras e produzia um programa de rádio, tudo sobre questão racial, negritude, cultura negra. Isso foi em 2005. Foi fantástico. Não deveríamos perder nunca essa sensação de que se pode mudar o mundo. Éramos Gabi, Paola, Thaís, Karina, Lucas e os professores Chico Nunes e Pedro Vaz. Conheci muita gente, transitei por vários ambientes, ouvia era ouvida. Produzi muitas coisas das quais me orgulho e que fizeram sentido para muita gente. Contei a história dos bailes black da capital, conheci os batuques do interior, o hip-hop de Diadema, sacerdotes do candomblé e da umbanda, quilombolas, perfilei guerreiros contemporâneos e artistas, cobrei políticas públicas de ministros, secretários, deputados, senadores e vereadores. Me formei, constituí a Afroeducação com Paola Prandini, e continuamos a trabalhar na questão.

Depois de alguns anos, comecei a me sentir muito divida e a questionar meu caminho. Em todo esse tempo, tive a honra de conviver e continuar convivendo com militantes históricos, amigos e referências, como Oswaldo Faustino e Flavio Carrança, na Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial. Nunca parei. Nunca deixei de ser. Mas percebi que se eu optasse exclusivamente pela militância, eu deixaria muitas coisas de fora da minha trajetória profissional. E eu não tinha feito todo aquele sacríficio de trabalhar e estudar pra não ser repórter. Assim como em toda a minha vida escolar, também não há muitos negros nas redações, menos ainda apresentando programas ou reportagens de TV. Decidi como estratégia pessoal ocupar esse espaço. Como não seria produtivo ocupar o espaço só com a beleza negra, durante algum tempo, tive que me abster de ações sistemáticas de militância para investir na imersão no jornalismo – diário, impressionante, desbravador e cruel. Me desestruturei e me reestruturei. Hoje percebo meu desenvolvimento profissional e minhas convicções, caminhando paralelamente, como linhas que não se cruzam ou se encontram no infinito, mas me guiando na mesma direção.

Em 2015, celebro 10 anos de militância antirracista. É uma caminhada e um caminho. Axé.

**Este texto é dedica do à memória de minha querida avó Leonor Dultra do Carmo, que não gostava de negros, dizia que o marido era mulato e adorava macumba. E de meu avô José Gomes, que não conheci mas de quem sempre tive saudades, e que era um líder trabalhista e desconfiava que seus filhos haviam sido expulsos de um colégio particular e católico porque era eram negros.
 
Ilustrações por Fernanda Garcia (Kissy)

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