Fui sem muitas expectativas para ver esse filme e saí do cinema com um sentimento de tristeza. Não porque o filme era ruim. Longe disso. Mas porque ele retrata coisas tão reais com uma sensibilidade que te puxa pra dentro da história. Foi esse o sentimento que tive durante “Alias Maria”, filme colombiano do diretor José Luis Rugeles que esteve no Festival de Cannes em 2015 e no LAKINO 2015 – Festival de Cinema Latino-americano em Berlim.
Acho que o cinema latino-americano faz muito bem essa coisa de te contar uma história tão dramática, que parece tão irreal, mas que, algumas vezes, é o mais puro retrato da realidade. De uma realidade que parece longe de nós… Assim é a história de Maria que nem se passa tão longe de nós, nas matas da vizinha Colômbia.
Maria é uma garota de – pasmem! – 13 anos que integra como soldada um grupo da guerrilha colombiana. Mesmo com essa pouca idade, a menina, com já certo jeito de mulher, está grávida de um dos soldados de la Guerrilla. E isso é um problema gigante. Não apenas por ser muito nova – isso nem é levado muito em consideração no filme –, mas por ela ser uma mulher soldado e, sendo assim, precisa lutar pelos ideais do grupo e só! Em uma das cenas do filme, no meio da mata, um grupo de mulheres guerrilheiras aguardam sentadas em frente à uma construção precária de madeira. Elas esperam pelo atendimento do médico que apoia o grupo. Maria está sentada na ponta do banco e espera a sua vez, quando uma das mulheres se levanta e diz ao médico “faz três meses que não tenho meu período”. O homem pede que ela levante a camisa de seu uniforme camuflado e apalpa sua barriga. “Ainda está pequeno, vamos retirá-lo”. E sem perguntar em nenhum momento o que ela quer, ele a leva para uma “sala de cirurgia” para fazer o aborto.
“A gravidez é um problema, pois por ser uma jovem soldado, ela deve se preocupar apenas em lutar pelos ideias de la Guerrilla e nada mais”
Maria observa tudo isso quando é chamada por outros soldados. Ela tem uma missão: levar o filho recém-nascido do coronel (porque aparentemente, somente se você tem um filho do coronel, ele pode nascer…) para uma família, num lugar seguro, que cuidará dele. Com isso, Maria adia seu aborto e segue com seu namorado Maurício, que desconhece a gravidez, e outros dois soldados para a missão. Como mulher do grupo, a jovem fica responsável por alimentar, limpar e cuidar da segurança do bebê – o que significa, em certos momentos, fugir de tiroteios com ele no colo ou escondê-lo na mata por algumas horas.
Ao longo da jornada, Maria vai se ligando ao bebê e decide que quer ter seu filho. O filme quase não deixa isso explícito em falas, mas em pequenas ações. No olhar dela para o recém-nascido, na forma como tenta convencer Maurício a pegá-lo no colo, no seu desespero quando precisa deixá-lo sob cuidados de outras pessoas. Muitos desses sentimentos intensos no longa são passados mais por gestos do que por falas. A câmera foca nas mudanças de expressões e comportamentos dos personagens. As cenas são longas e slow. É possível escutar o som dos pássaros, passos na mata, o barulho da água, os tiros. Uma das coisas de que mais gostei foram as filmagens das caminhadas noturnas pela mata. Elas permanecem escuras para dar aquele sentimento de insegurança que os guerrilheiros têm ao andar por matas fechadas, talvez cheias de inimigos.
Talvez um dos momentos mais decisivos do filme seja quando Maria confronta seu namorado e diz que não quer fazer o aborto. Depois de descobrir que a jovem está grávida, ele nem cogita ter o bebê. Após jantar na casa do médico, depois de dias na mata, ele a manda tomar banho e se preparar para fazer o procedimento. Em troca de sua ordem, recebe um “No!”. Ele sobe o tom de voz. “No quiero!”, diz ela. Agressivo, ele impõe autoridade. Maria vai ao banheiro, onde se olha longamente no espelho, talvez imaginando como seria se tivesse outra vida, se pudesse ser mãe daquela criança. Nesse momento, decide fugir.
A esperança dos pobres espectadores acaba quando, depois de andar por dias, ela é encontrada de novo por Maurício. Dali adiante acontecem coisas inesperadas que me fizeram temer por Maria e desejar que eu estivesse ali para ajudá-la (não que eu pudesse fazer muito no meio do mato cercada por guerrilheiros e militares…). E o que mais me intrigou nisso tudo, foi a falta de empatia que a garota grávida de 13 anos recebeu durante sua história. Nenhum personagem, nem mesmo as personagens femininas, como a mulher do coronel que acabara de se tornar mãe, se compadeceram da jovem. Nem a esposa do médico. Ninguém podia ou queria ajudá-la. Mas talvez seja isso que a faz uma personagem tão marcante, com seu jeito quieto, duro e, apesar de tudo, até medroso. Entendi que Maria é uma personagem que representa muitas, por mais clichê que isso possa parecer.
Claro que não serei spoiler de contar o final – porque isso não se faz e não é legal – mas achei o final condizente com o filme. Te dá esperanças em poucos momentos, mas ao mesmo tempo te deixa confusa sobre o que irá acontecer com Maria. O final aberto talvez seja uma maneira de mostrar que histórias como essas têm destinos incertos e não há maneira de prever como elas vão acabar…
Créditos das imagens: Rhayuela Cine
Fui sem muitas expectativas para ver esse filme e saí do cinema com um sentimento de tristeza. Não porque o filme era ruim. Longe disso. Mas porque ele retrata coisas tão reais com uma sensibilidade que te puxa pra dentro da história. Foi esse o sentimento que tive durante “Alias Maria”, filme colombiano do diretor José Luis Rugeles que esteve no Festival de Cannes em 2015 e no LAKINO 2015 – Festival de Cinema Latino-americano em Berlim.
Acho que o cinema latino-americano faz muito bem essa coisa de te contar uma história tão dramática, que parece tão irreal, mas que, algumas vezes, é o mais puro retrato da realidade. De uma realidade que parece longe de nós… Assim é a história de Maria que nem se passa tão longe de nós, nas matas da vizinha Colômbia.
Maria é uma garota de – pasmem! – 13 anos que integra como soldada um grupo da guerrilha colombiana. Mesmo com essa pouca idade, a menina, com já certo jeito de mulher, está grávida de um dos soldados de la Guerrilla. E isso é um problema gigante. Não apenas por ser muito nova – isso nem é levado muito em consideração no filme –, mas por ela ser uma mulher soldado e, sendo assim, precisa lutar pelos ideais do grupo e só! Em uma das cenas do filme, no meio da mata, um grupo de mulheres guerrilheiras aguardam sentadas em frente à uma construção precária de madeira. Elas esperam pelo atendimento do médico que apoia o grupo. Maria está sentada na ponta do banco e espera a sua vez, quando uma das mulheres se levanta e diz ao médico “faz três meses que não tenho meu período”. O homem pede que ela levante a camisa de seu uniforme camuflado e apalpa sua barriga. “Ainda está pequeno, vamos retirá-lo”. E sem perguntar em nenhum momento o que ela quer, ele a leva para uma “sala de cirurgia” para fazer o aborto.
“A gravidez é um problema, pois por ser uma jovem soldado, ela deve se preocupar apenas em lutar pelos ideias de la Guerrilla e nada mais”
Maria observa tudo isso quando é chamada por outros soldados. Ela tem uma missão: levar o filho recém-nascido do coronel (porque aparentemente, somente se você tem um filho do coronel, ele pode nascer…) para uma família, num lugar seguro, que cuidará dele. Com isso, Maria adia seu aborto e segue com seu namorado Maurício, que desconhece a gravidez, e outros dois soldados para a missão. Como mulher do grupo, a jovem fica responsável por alimentar, limpar e cuidar da segurança do bebê – o que significa, em certos momentos, fugir de tiroteios com ele no colo ou escondê-lo na mata por algumas horas.
Ao longo da jornada, Maria vai se ligando ao bebê e decide que quer ter seu filho. O filme quase não deixa isso explícito em falas, mas em pequenas ações. No olhar dela para o recém-nascido, na forma como tenta convencer Maurício a pegá-lo no colo, no seu desespero quando precisa deixá-lo sob cuidados de outras pessoas. Muitos desses sentimentos intensos no longa são passados mais por gestos do que por falas. A câmera foca nas mudanças de expressões e comportamentos dos personagens. As cenas são longas e slow. É possível escutar o som dos pássaros, passos na mata, o barulho da água, os tiros. Uma das coisas de que mais gostei foram as filmagens das caminhadas noturnas pela mata. Elas permanecem escuras para dar aquele sentimento de insegurança que os guerrilheiros têm ao andar por matas fechadas, talvez cheias de inimigos.
Talvez um dos momentos mais decisivos do filme seja quando Maria confronta seu namorado e diz que não quer fazer o aborto. Depois de descobrir que a jovem está grávida, ele nem cogita ter o bebê. Após jantar na casa do médico, depois de dias na mata, ele a manda tomar banho e se preparar para fazer o procedimento. Em troca de sua ordem, recebe um “No!”. Ele sobe o tom de voz. “No quiero!”, diz ela. Agressivo, ele impõe autoridade. Maria vai ao banheiro, onde se olha longamente no espelho, talvez imaginando como seria se tivesse outra vida, se pudesse ser mãe daquela criança. Nesse momento, decide fugir.
A esperança dos pobres espectadores acaba quando, depois de andar por dias, ela é encontrada de novo por Maurício. Dali adiante acontecem coisas inesperadas que me fizeram temer por Maria e desejar que eu estivesse ali para ajudá-la (não que eu pudesse fazer muito no meio do mato cercada por guerrilheiros e militares…). E o que mais me intrigou nisso tudo, foi a falta de empatia que a garota grávida de 13 anos recebeu durante sua história. Nenhum personagem, nem mesmo as personagens femininas, como a mulher do coronel que acabara de se tornar mãe, se compadeceram da jovem. Nem a esposa do médico. Ninguém podia ou queria ajudá-la. Mas talvez seja isso que a faz uma personagem tão marcante, com seu jeito quieto, duro e, apesar de tudo, até medroso. Entendi que Maria é uma personagem que representa muitas, por mais clichê que isso possa parecer.
Claro que não serei spoiler de contar o final – porque isso não se faz e não é legal – mas achei o final condizente com o filme. Te dá esperanças em poucos momentos, mas ao mesmo tempo te deixa confusa sobre o que irá acontecer com Maria. O final aberto talvez seja uma maneira de mostrar que histórias como essas têm destinos incertos e não há maneira de prever como elas vão acabar…
[infobox maintitle="AVISO DE GATILHO + SPOILERS" subtitle="O post fala sobre relacionamento abusivo, e aborto. Além de spoilers! Teje avisada!" bg="red" color="black" opacity="on" space="30" link="no link"]
Fui sem muitas expectativas para ver esse filme e saí do cinema com um sentimento de tristeza. Não porque o filme era ruim. Longe disso. Mas porque ele retrata coisas tão reais com uma sensibilidade que te puxa pra dentro da história. Foi esse o sentimento que tive durante “Alias Maria”, filme colombiano do diretor José Luis Rugeles que esteve no Festival de Cannes em 2015 e no LAKINO 2015 – Festival de Cinema Latino-americano em Berlim.
Acho que o cinema latino-americano faz muito bem essa coisa de te contar uma história tão dramática, que parece tão irreal, mas que, algumas vezes, é o mais puro retrato da realidade. De uma realidade que parece longe de nós… Assim é a história de Maria que nem se passa tão longe de nós, nas matas da vizinha Colômbia.
Maria é uma garota de – pasmem! – 13 anos que integra como soldada um grupo da guerrilha colombiana. Mesmo com essa pouca idade, a menina, com já certo jeito de mulher, está grávida de um dos soldados de la Guerrilla. E isso é um problema gigante. Não apenas por ser muito nova – isso nem é levado muito em consideração no filme –, mas por ela ser uma mulher soldado e, sendo assim, precisa lutar pelos ideais do grupo e só! Em uma das cenas do filme, no meio da mata, um grupo de mulheres guerrilheiras aguardam sentadas em frente à uma construção precária de madeira. Elas esperam pelo atendimento do médico que apoia o grupo. Maria está sentada na ponta do banco e espera a sua vez, quando uma das mulheres se levanta e diz ao médico “faz três meses que não tenho meu período”. O homem pede que ela levante a camisa de seu uniforme camuflado e apalpa sua barriga. “Ainda está pequeno, vamos retirá-lo”. E sem perguntar em nenhum momento o que ela quer, ele a leva para uma “sala de cirurgia” para fazer o aborto.
“A gravidez é um problema, pois por ser uma jovem soldado, ela deve se preocupar apenas em lutar pelos ideias de la Guerrilla e nada mais”
Maria observa tudo isso quando é chamada por outros soldados. Ela tem uma missão: levar o filho recém-nascido do coronel (porque aparentemente, somente se você tem um filho do coronel, ele pode nascer…) para uma família, num lugar seguro, que cuidará dele. Com isso, Maria adia seu aborto e segue com seu namorado Maurício, que desconhece a gravidez, e outros dois soldados para a missão. Como mulher do grupo, a jovem fica responsável por alimentar, limpar e cuidar da segurança do bebê – o que significa, em certos momentos, fugir de tiroteios com ele no colo ou escondê-lo na mata por algumas horas.
Ao longo da jornada, Maria vai se ligando ao bebê e decide que quer ter seu filho. O filme quase não deixa isso explícito em falas, mas em pequenas ações. No olhar dela para o recém-nascido, na forma como tenta convencer Maurício a pegá-lo no colo, no seu desespero quando precisa deixá-lo sob cuidados de outras pessoas. Muitos desses sentimentos intensos no longa são passados mais por gestos do que por falas. A câmera foca nas mudanças de expressões e comportamentos dos personagens. As cenas são longas e slow. É possível escutar o som dos pássaros, passos na mata, o barulho da água, os tiros. Uma das coisas de que mais gostei foram as filmagens das caminhadas noturnas pela mata. Elas permanecem escuras para dar aquele sentimento de insegurança que os guerrilheiros têm ao andar por matas fechadas, talvez cheias de inimigos.
Talvez um dos momentos mais decisivos do filme seja quando Maria confronta seu namorado e diz que não quer fazer o aborto. Depois de descobrir que a jovem está grávida, ele nem cogita ter o bebê. Após jantar na casa do médico, depois de dias na mata, ele a manda tomar banho e se preparar para fazer o procedimento. Em troca de sua ordem, recebe um “No!”. Ele sobe o tom de voz. “No quiero!”, diz ela. Agressivo, ele impõe autoridade. Maria vai ao banheiro, onde se olha longamente no espelho, talvez imaginando como seria se tivesse outra vida, se pudesse ser mãe daquela criança. Nesse momento, decide fugir.
A esperança dos pobres espectadores acaba quando, depois de andar por dias, ela é encontrada de novo por Maurício. Dali adiante acontecem coisas inesperadas que me fizeram temer por Maria e desejar que eu estivesse ali para ajudá-la (não que eu pudesse fazer muito no meio do mato cercada por guerrilheiros e militares…). E o que mais me intrigou nisso tudo, foi a falta de empatia que a garota grávida de 13 anos recebeu durante sua história. Nenhum personagem, nem mesmo as personagens femininas, como a mulher do coronel que acabara de se tornar mãe, se compadeceram da jovem. Nem a esposa do médico. Ninguém podia ou queria ajudá-la. Mas talvez seja isso que a faz uma personagem tão marcante, com seu jeito quieto, duro e, apesar de tudo, até medroso. Entendi que Maria é uma personagem que representa muitas, por mais clichê que isso possa parecer.
Claro que não serei spoiler de contar o final – porque isso não se faz e não é legal – mas achei o final condizente com o filme. Te dá esperanças em poucos momentos, mas ao mesmo tempo te deixa confusa sobre o que irá acontecer com Maria. O final aberto talvez seja uma maneira de mostrar que histórias como essas têm destinos incertos e não há maneira de prever como elas vão acabar…
“Passing” de Nella Larsen é uma novela sobre identidade. Sobre conhecer e desconhecer uma identidade. Sobre o jogo entre possibilidades de se ter diferentes identidades em uma pessoa só.
Na década de 1920 nos Estados Unidos, a “color line”, linha de limite entre negros e brancos, era um tema bastante delicado. Nesse contexto, negros de pele mais clara e de descendência mista praticavam algo chamado “passing”. Em uma sociedade, em que raça determinava quem podia ou não frequentar certos lugares, ter determinados empregos e morar em um bairro lá ou aqui, “passing” era quase como uma forma de sobrevivência. Como é o caso de uma das principais personagens da novela.
O livro de Nella Larsen, publicado em 1929, conta a história das amigas de infância Irene Redfield e Claire Kendry. Duas mulheres com passados iguais e um presente muito parecido, tirando alguns detalhes. As duas foram criadas no bairro de maioria afro-americana Harlem, em Nova York. Até que a morte do pai de Claire fez com que ela desaparecesse da vizinhança, o que despertou fofocas dos moradores. A novela é toda narrada em terceira pessoa pela visão de Irene, que na primeira página do livro, se mostra nervosa ao receber uma carta. O envelope com a mensagem de Claire a lembra de um encontro, por acaso, anos atrás, em Chicago. As duas estavam no terraço do Hotel Drayton, em um dia quente de verão. Era um lugar onde ambas não poderiam estar, mas estavam. A pela mais clara das duas mulheres afro-americanos as faziam passar por mulheres brancas. Ninguém mais ali sabia que elas estavam “passing”, apenas as duas. Ambas tinham conhecimento da origem uma da outra. A possibilidade de “pass” por uma pessoa de outra raça não era conhecida pelos brancos – e, só por isso, ela era possível.
Para quem lê a novela e não conhece o conceito de “passing”, a identidade racial de Irene não fica clara nas primeiras páginas. É somente no segundo capítulo que Nella Larsen revela que Irene é uma mulher negra de pele mais clara. A novela em si está “passing”, de certa forma. E é isso que a faz tão interessante.
Mesmo que ambas possam passar por mulheres brancas, apenas Claire precisa disso para sobreviver. Irene mora em Harlem, onde é bastante ativa dentro da comunidade negra. Ela é casada com o médico Brian, também afro-americano, e tem dois filhos. Irene vive sua identidade racial em sua casa, em seu bairro, em sua comunidade. Já Claire é casada com John Bellew, um homem branco bastante racista e que não faz ideia de que sua esposa tenha descendências afro-americanas. Claire esconde sua identidade racial e ignora os discursos preconceituosos do marido. Mesmo assim, ela não tem medo de ser descoberta.
Esse é outro ponto importante na novela. As duas amigas têm personalidades muito diferentes. Irene é séria, contida, controlada. Tive uma matéria sobre Leituras Feministas e Queer na minha faculdade e discutimos semanas sobre Passing e suas personagens. A professora observou que Irene tenta constantemente passar a ideia de uma mulher respeitável, séria, de classe média, também numa tentativa de ir contra aquele estereótipo da mulher negra super sexualizada – na época, havia essa ideia de que a mulher negra era sensual, selvagem sexualmente e objeto de desejo dos homens brancos. Por isso, para se aproximar do conceito de “mulher branca”, Irene tinha que mostrar um comportamento contrário a essa ideia de o que era ser uma mulher negra.
Claire, diferente da amiga, é uma mulher solta, simpática, sexy, sempre animada e que gosta de se aventurar sem pensar nos riscos. O mais interessante é que Irene parece ter mais liberdade em sua vida do que Claire, pois não tem segredos a guardar. Mas ela não vive essa liberdade plenamente. Já Claire, mesmo correndo riscos de que o Mrs. Bellew descubra suas origens, vai a eventos e bailes da comunidade negra e anseia por viver essa identidade “blackness” que lhe foi limitada.
A história gira em torno dessa relação de amizade entre as duas mulheres. Mas muitas questões ficam no ar o tempo todo. Alguns enxergam uma atração física de Irene por Claire, pela forma como a descreve – como uma mulher linda e sensual – e fica obcecada pela amiga. Também tem uma questão de traição no meio da trama. Irene começa a suspeitar de que Brian a está traindo com Claire, já que os dois passam muito tempo juntos. Mas nada disso é esclarecido em nenhum momento do romance.
Roubando mais uma vez a fala da minha professora, dá pra dizer a obra de Nella Larsen é uma novela sobre knowing and not-knowing. E é exatamente isso que faz a prática do passing possível. O saber mas não saber exatamente, como no caso de John Bellew, que acreditava saber tudo sobre sua esposa, mas que não conhece seu passado. É um livro que coloca o tempo todo a questão do que é afinal blackness and whitness – o que são essas identidade? O que significa ser negro ou branco? O que é afinal essa “color line”? Isso não é respondido no livro, mas fica nas nossas cabecinhas pensantes.
Acredito também que Nella Larsen colocou muito de sua experiência de vida na novela. Nascida em Chicago, a autora também tinha descendência mista: afro-caribenha e dinamarquesa. Larsen morou em Nova York e, por um tempo, no bairro de suas protagonistas, o Harlem.
Infelizmente, não encontrei o livro em português, somente em inglês. Talvez ainda não tenha sido traduzido… Mas a linguagem em inglês até que é bem fácil e o livro não é longo. Ou seja, super recomendável pra quem gosta de novelas feministas mais clássicas (e quer treinar seu inglês!).
José Luis Rugeles que esteve no Festival de Cannes em 2015 e no LAKINO 2015 – Festival de Cinema Latino-americano em Berlim.
Acho que o cinema latino-americano faz muito bem essa coisa de te contar uma história tão dramática, que parece tão irreal, mas que, algumas vezes, é o mais puro retrato da realidade. De uma realidade que parece longe de nós… Assim é a história de Maria que nem se passa tão longe de nós, nas matas da vizinha Colômbia.
Maria é uma garota de – pasmem! – 13 anos que integra como soldada um grupo da guerrilha colombiana. Mesmo com essa pouca idade, a menina, com já certo jeito de mulher, está grávida de um dos soldados de la Guerrilla. E isso é um problema gigante. Não apenas por ser muito nova – isso nem é levado muito em consideração no filme –, mas por ela ser uma mulher soldado e, sendo assim, precisa lutar pelos ideais do grupo e só! Em uma das cenas do filme, no meio da mata, um grupo de mulheres guerrilheiras aguardam sentadas em frente à uma construção precária de madeira. Elas esperam pelo atendimento do médico que apoia o grupo. Maria está sentada na ponta do banco e espera a sua vez, quando uma das mulheres se levanta e diz ao médico “faz três meses que não tenho meu período”. O homem pede que ela levante a camisa de seu uniforme camuflado e apalpa sua barriga. “Ainda está pequeno, vamos retirá-lo”. E sem perguntar em nenhum momento o que ela quer, ele a leva para uma “sala de cirurgia” para fazer o aborto.
“A gravidez é um problema, pois por ser uma jovem soldado, ela deve se preocupar apenas em lutar pelos ideias de la Guerrilla e nada mais”
Maria observa tudo isso quando é chamada por outros soldados. Ela tem uma missão: levar o filho recém-nascido do coronel (porque aparentemente, somente se você tem um filho do coronel, ele pode nascer…) para uma família, num lugar seguro, que cuidará dele. Com isso, Maria adia seu aborto e segue com seu namorado Maurício, que desconhece a gravidez, e outros dois soldados para a missão. Como mulher do grupo, a jovem fica responsável por alimentar, limpar e cuidar da segurança do bebê – o que significa, em certos momentos, fugir de tiroteios com ele no colo ou escondê-lo na mata por algumas horas.
Ao longo da jornada, Maria vai se ligando ao bebê e decide que quer ter seu filho. O filme quase não deixa isso explícito em falas, mas em pequenas ações. No olhar dela para o recém-nascido, na forma como tenta convencer Maurício a pegá-lo no colo, no seu desespero quando precisa deixá-lo sob cuidados de outras pessoas. Muitos desses sentimentos intensos no longa são passados mais por gestos do que por falas. A câmera foca nas mudanças de expressões e comportamentos dos personagens. As cenas são longas e slow. É possível escutar o som dos pássaros, passos na mata, o barulho da água, os tiros. Uma das coisas de que mais gostei foram as filmagens das caminhadas noturnas pela mata. Elas permanecem escuras para dar aquele sentimento de insegurança que os guerrilheiros têm ao andar por matas fechadas, talvez cheias de inimigos.
Talvez um dos momentos mais decisivos do filme seja quando Maria confronta seu namorado e diz que não quer fazer o aborto. Depois de descobrir que a jovem está grávida, ele nem cogita ter o bebê. Após jantar na casa do médico, depois de dias na mata, ele a manda tomar banho e se preparar para fazer o procedimento. Em troca de sua ordem, recebe um “No!”. Ele sobe o tom de voz. “No quiero!”, diz ela. Agressivo, ele impõe autoridade. Maria vai ao banheiro, onde se olha longamente no espelho, talvez imaginando como seria se tivesse outra vida, se pudesse ser mãe daquela criança. Nesse momento, decide fugir.
A esperança dos pobres espectadores acaba quando, depois de andar por dias, ela é encontrada de novo por Maurício. Dali adiante acontecem coisas inesperadas que me fizeram temer por Maria e desejar que eu estivesse ali para ajudá-la (não que eu pudesse fazer muito no meio do mato cercada por guerrilheiros e militares…). E o que mais me intrigou nisso tudo, foi a falta de empatia que a garota grávida de 13 anos recebeu durante sua história. Nenhum personagem, nem mesmo as personagens femininas, como a mulher do coronel que acabara de se tornar mãe, se compadeceram da jovem. Nem a esposa do médico. Ninguém podia ou queria ajudá-la. Mas talvez seja isso que a faz uma personagem tão marcante, com seu jeito quieto, duro e, apesar de tudo, até medroso. Entendi que Maria é uma personagem que representa muitas, por mais clichê que isso possa parecer.
Claro que não serei spoiler de contar o final – porque isso não se faz e não é legal – mas achei o final condizente com o filme. Te dá esperanças em poucos momentos, mas ao mesmo tempo te deixa confusa sobre o que irá acontecer com Maria. O final aberto talvez seja uma maneira de mostrar que histórias como essas têm destinos incertos e não há maneira de prever como elas vão acabar…