Fui sem muitas expectativas para ver esse filme e saí do cinema com um sentimento de tristeza. Não porque o filme era ruim. Longe disso. Mas porque ele retrata coisas tão reais com uma sensibilidade que te puxa pra dentro da história. Foi esse o sentimento que tive durante “Alias Maria”, filme colombiano do diretor José Luis Rugeles que esteve no Festival de Cannes em 2015 e no LAKINO 2015 – Festival de Cinema Latino-americano em Berlim.
Acho que o cinema latino-americano faz muito bem essa coisa de te contar uma história tão dramática, que parece tão irreal, mas que, algumas vezes, é o mais puro retrato da realidade. De uma realidade que parece longe de nós… Assim é a história de Maria que nem se passa tão longe de nós, nas matas da vizinha Colômbia.
Maria é uma garota de – pasmem! – 13 anos que integra como soldada um grupo da guerrilha colombiana. Mesmo com essa pouca idade, a menina, com já certo jeito de mulher, está grávida de um dos soldados de la Guerrilla. E isso é um problema gigante. Não apenas por ser muito nova – isso nem é levado muito em consideração no filme –, mas por ela ser uma mulher soldado e, sendo assim, precisa lutar pelos ideais do grupo e só! Em uma das cenas do filme, no meio da mata, um grupo de mulheres guerrilheiras aguardam sentadas em frente à uma construção precária de madeira. Elas esperam pelo atendimento do médico que apoia o grupo. Maria está sentada na ponta do banco e espera a sua vez, quando uma das mulheres se levanta e diz ao médico “faz três meses que não tenho meu período”. O homem pede que ela levante a camisa de seu uniforme camuflado e apalpa sua barriga. “Ainda está pequeno, vamos retirá-lo”. E sem perguntar em nenhum momento o que ela quer, ele a leva para uma “sala de cirurgia” para fazer o aborto.
“A gravidez é um problema, pois por ser uma jovem soldado, ela deve se preocupar apenas em lutar pelos ideias de la Guerrilla e nada mais”
Maria observa tudo isso quando é chamada por outros soldados. Ela tem uma missão: levar o filho recém-nascido do coronel (porque aparentemente, somente se você tem um filho do coronel, ele pode nascer…) para uma família, num lugar seguro, que cuidará dele. Com isso, Maria adia seu aborto e segue com seu namorado Maurício, que desconhece a gravidez, e outros dois soldados para a missão. Como mulher do grupo, a jovem fica responsável por alimentar, limpar e cuidar da segurança do bebê – o que significa, em certos momentos, fugir de tiroteios com ele no colo ou escondê-lo na mata por algumas horas.
Ao longo da jornada, Maria vai se ligando ao bebê e decide que quer ter seu filho. O filme quase não deixa isso explícito em falas, mas em pequenas ações. No olhar dela para o recém-nascido, na forma como tenta convencer Maurício a pegá-lo no colo, no seu desespero quando precisa deixá-lo sob cuidados de outras pessoas. Muitos desses sentimentos intensos no longa são passados mais por gestos do que por falas. A câmera foca nas mudanças de expressões e comportamentos dos personagens. As cenas são longas e slow. É possível escutar o som dos pássaros, passos na mata, o barulho da água, os tiros. Uma das coisas de que mais gostei foram as filmagens das caminhadas noturnas pela mata. Elas permanecem escuras para dar aquele sentimento de insegurança que os guerrilheiros têm ao andar por matas fechadas, talvez cheias de inimigos.
Talvez um dos momentos mais decisivos do filme seja quando Maria confronta seu namorado e diz que não quer fazer o aborto. Depois de descobrir que a jovem está grávida, ele nem cogita ter o bebê. Após jantar na casa do médico, depois de dias na mata, ele a manda tomar banho e se preparar para fazer o procedimento. Em troca de sua ordem, recebe um “No!”. Ele sobe o tom de voz. “No quiero!”, diz ela. Agressivo, ele impõe autoridade. Maria vai ao banheiro, onde se olha longamente no espelho, talvez imaginando como seria se tivesse outra vida, se pudesse ser mãe daquela criança. Nesse momento, decide fugir.
A esperança dos pobres espectadores acaba quando, depois de andar por dias, ela é encontrada de novo por Maurício. Dali adiante acontecem coisas inesperadas que me fizeram temer por Maria e desejar que eu estivesse ali para ajudá-la (não que eu pudesse fazer muito no meio do mato cercada por guerrilheiros e militares…). E o que mais me intrigou nisso tudo, foi a falta de empatia que a garota grávida de 13 anos recebeu durante sua história. Nenhum personagem, nem mesmo as personagens femininas, como a mulher do coronel que acabara de se tornar mãe, se compadeceram da jovem. Nem a esposa do médico. Ninguém podia ou queria ajudá-la. Mas talvez seja isso que a faz uma personagem tão marcante, com seu jeito quieto, duro e, apesar de tudo, até medroso. Entendi que Maria é uma personagem que representa muitas, por mais clichê que isso possa parecer.
Claro que não serei spoiler de contar o final – porque isso não se faz e não é legal – mas achei o final condizente com o filme. Te dá esperanças em poucos momentos, mas ao mesmo tempo te deixa confusa sobre o que irá acontecer com Maria. O final aberto talvez seja uma maneira de mostrar que histórias como essas têm destinos incertos e não há maneira de prever como elas vão acabar…
Créditos das imagens: Rhayuela Cine
Fui sem muitas expectativas para ver esse filme e saí do cinema com um sentimento de tristeza. Não porque o filme era ruim. Longe disso. Mas porque ele retrata coisas tão reais com uma sensibilidade que te puxa pra dentro da história. Foi esse o sentimento que tive durante “Alias Maria”, filme colombiano do diretor José Luis Rugeles que esteve no Festival de Cannes em 2015 e no LAKINO 2015 – Festival de Cinema Latino-americano em Berlim.
Acho que o cinema latino-americano faz muito bem essa coisa de te contar uma história tão dramática, que parece tão irreal, mas que, algumas vezes, é o mais puro retrato da realidade. De uma realidade que parece longe de nós… Assim é a história de Maria que nem se passa tão longe de nós, nas matas da vizinha Colômbia.
Maria é uma garota de – pasmem! – 13 anos que integra como soldada um grupo da guerrilha colombiana. Mesmo com essa pouca idade, a menina, com já certo jeito de mulher, está grávida de um dos soldados de la Guerrilla. E isso é um problema gigante. Não apenas por ser muito nova – isso nem é levado muito em consideração no filme –, mas por ela ser uma mulher soldado e, sendo assim, precisa lutar pelos ideais do grupo e só! Em uma das cenas do filme, no meio da mata, um grupo de mulheres guerrilheiras aguardam sentadas em frente à uma construção precária de madeira. Elas esperam pelo atendimento do médico que apoia o grupo. Maria está sentada na ponta do banco e espera a sua vez, quando uma das mulheres se levanta e diz ao médico “faz três meses que não tenho meu período”. O homem pede que ela levante a camisa de seu uniforme camuflado e apalpa sua barriga. “Ainda está pequeno, vamos retirá-lo”. E sem perguntar em nenhum momento o que ela quer, ele a leva para uma “sala de cirurgia” para fazer o aborto.
“A gravidez é um problema, pois por ser uma jovem soldado, ela deve se preocupar apenas em lutar pelos ideias de la Guerrilla e nada mais”
Maria observa tudo isso quando é chamada por outros soldados. Ela tem uma missão: levar o filho recém-nascido do coronel (porque aparentemente, somente se você tem um filho do coronel, ele pode nascer…) para uma família, num lugar seguro, que cuidará dele. Com isso, Maria adia seu aborto e segue com seu namorado Maurício, que desconhece a gravidez, e outros dois soldados para a missão. Como mulher do grupo, a jovem fica responsável por alimentar, limpar e cuidar da segurança do bebê – o que significa, em certos momentos, fugir de tiroteios com ele no colo ou escondê-lo na mata por algumas horas.
Ao longo da jornada, Maria vai se ligando ao bebê e decide que quer ter seu filho. O filme quase não deixa isso explícito em falas, mas em pequenas ações. No olhar dela para o recém-nascido, na forma como tenta convencer Maurício a pegá-lo no colo, no seu desespero quando precisa deixá-lo sob cuidados de outras pessoas. Muitos desses sentimentos intensos no longa são passados mais por gestos do que por falas. A câmera foca nas mudanças de expressões e comportamentos dos personagens. As cenas são longas e slow. É possível escutar o som dos pássaros, passos na mata, o barulho da água, os tiros. Uma das coisas de que mais gostei foram as filmagens das caminhadas noturnas pela mata. Elas permanecem escuras para dar aquele sentimento de insegurança que os guerrilheiros têm ao andar por matas fechadas, talvez cheias de inimigos.
Talvez um dos momentos mais decisivos do filme seja quando Maria confronta seu namorado e diz que não quer fazer o aborto. Depois de descobrir que a jovem está grávida, ele nem cogita ter o bebê. Após jantar na casa do médico, depois de dias na mata, ele a manda tomar banho e se preparar para fazer o procedimento. Em troca de sua ordem, recebe um “No!”. Ele sobe o tom de voz. “No quiero!”, diz ela. Agressivo, ele impõe autoridade. Maria vai ao banheiro, onde se olha longamente no espelho, talvez imaginando como seria se tivesse outra vida, se pudesse ser mãe daquela criança. Nesse momento, decide fugir.
A esperança dos pobres espectadores acaba quando, depois de andar por dias, ela é encontrada de novo por Maurício. Dali adiante acontecem coisas inesperadas que me fizeram temer por Maria e desejar que eu estivesse ali para ajudá-la (não que eu pudesse fazer muito no meio do mato cercada por guerrilheiros e militares…). E o que mais me intrigou nisso tudo, foi a falta de empatia que a garota grávida de 13 anos recebeu durante sua história. Nenhum personagem, nem mesmo as personagens femininas, como a mulher do coronel que acabara de se tornar mãe, se compadeceram da jovem. Nem a esposa do médico. Ninguém podia ou queria ajudá-la. Mas talvez seja isso que a faz uma personagem tão marcante, com seu jeito quieto, duro e, apesar de tudo, até medroso. Entendi que Maria é uma personagem que representa muitas, por mais clichê que isso possa parecer.
Claro que não serei spoiler de contar o final – porque isso não se faz e não é legal – mas achei o final condizente com o filme. Te dá esperanças em poucos momentos, mas ao mesmo tempo te deixa confusa sobre o que irá acontecer com Maria. O final aberto talvez seja uma maneira de mostrar que histórias como essas têm destinos incertos e não há maneira de prever como elas vão acabar…
[infobox maintitle="AVISO DE GATILHO + SPOILERS" subtitle="O post fala sobre relacionamento abusivo, e aborto. Além de spoilers! Teje avisada!" bg="red" color="black" opacity="on" space="30" link="no link"]
Fui sem muitas expectativas para ver esse filme e saí do cinema com um sentimento de tristeza. Não porque o filme era ruim. Longe disso. Mas porque ele retrata coisas tão reais com uma sensibilidade que te puxa pra dentro da história. Foi esse o sentimento que tive durante “Alias Maria”, filme colombiano do diretor José Luis Rugeles que esteve no Festival de Cannes em 2015 e no LAKINO 2015 – Festival de Cinema Latino-americano em Berlim.
Acho que o cinema latino-americano faz muito bem essa coisa de te contar uma história tão dramática, que parece tão irreal, mas que, algumas vezes, é o mais puro retrato da realidade. De uma realidade que parece longe de nós… Assim é a história de Maria que nem se passa tão longe de nós, nas matas da vizinha Colômbia.
Maria é uma garota de – pasmem! – 13 anos que integra como soldada um grupo da guerrilha colombiana. Mesmo com essa pouca idade, a menina, com já certo jeito de mulher, está grávida de um dos soldados de la Guerrilla. E isso é um problema gigante. Não apenas por ser muito nova – isso nem é levado muito em consideração no filme –, mas por ela ser uma mulher soldado e, sendo assim, precisa lutar pelos ideais do grupo e só! Em uma das cenas do filme, no meio da mata, um grupo de mulheres guerrilheiras aguardam sentadas em frente à uma construção precária de madeira. Elas esperam pelo atendimento do médico que apoia o grupo. Maria está sentada na ponta do banco e espera a sua vez, quando uma das mulheres se levanta e diz ao médico “faz três meses que não tenho meu período”. O homem pede que ela levante a camisa de seu uniforme camuflado e apalpa sua barriga. “Ainda está pequeno, vamos retirá-lo”. E sem perguntar em nenhum momento o que ela quer, ele a leva para uma “sala de cirurgia” para fazer o aborto.
“A gravidez é um problema, pois por ser uma jovem soldado, ela deve se preocupar apenas em lutar pelos ideias de la Guerrilla e nada mais”
Maria observa tudo isso quando é chamada por outros soldados. Ela tem uma missão: levar o filho recém-nascido do coronel (porque aparentemente, somente se você tem um filho do coronel, ele pode nascer…) para uma família, num lugar seguro, que cuidará dele. Com isso, Maria adia seu aborto e segue com seu namorado Maurício, que desconhece a gravidez, e outros dois soldados para a missão. Como mulher do grupo, a jovem fica responsável por alimentar, limpar e cuidar da segurança do bebê – o que significa, em certos momentos, fugir de tiroteios com ele no colo ou escondê-lo na mata por algumas horas.
Ao longo da jornada, Maria vai se ligando ao bebê e decide que quer ter seu filho. O filme quase não deixa isso explícito em falas, mas em pequenas ações. No olhar dela para o recém-nascido, na forma como tenta convencer Maurício a pegá-lo no colo, no seu desespero quando precisa deixá-lo sob cuidados de outras pessoas. Muitos desses sentimentos intensos no longa são passados mais por gestos do que por falas. A câmera foca nas mudanças de expressões e comportamentos dos personagens. As cenas são longas e slow. É possível escutar o som dos pássaros, passos na mata, o barulho da água, os tiros. Uma das coisas de que mais gostei foram as filmagens das caminhadas noturnas pela mata. Elas permanecem escuras para dar aquele sentimento de insegurança que os guerrilheiros têm ao andar por matas fechadas, talvez cheias de inimigos.
Talvez um dos momentos mais decisivos do filme seja quando Maria confronta seu namorado e diz que não quer fazer o aborto. Depois de descobrir que a jovem está grávida, ele nem cogita ter o bebê. Após jantar na casa do médico, depois de dias na mata, ele a manda tomar banho e se preparar para fazer o procedimento. Em troca de sua ordem, recebe um “No!”. Ele sobe o tom de voz. “No quiero!”, diz ela. Agressivo, ele impõe autoridade. Maria vai ao banheiro, onde se olha longamente no espelho, talvez imaginando como seria se tivesse outra vida, se pudesse ser mãe daquela criança. Nesse momento, decide fugir.
A esperança dos pobres espectadores acaba quando, depois de andar por dias, ela é encontrada de novo por Maurício. Dali adiante acontecem coisas inesperadas que me fizeram temer por Maria e desejar que eu estivesse ali para ajudá-la (não que eu pudesse fazer muito no meio do mato cercada por guerrilheiros e militares…). E o que mais me intrigou nisso tudo, foi a falta de empatia que a garota grávida de 13 anos recebeu durante sua história. Nenhum personagem, nem mesmo as personagens femininas, como a mulher do coronel que acabara de se tornar mãe, se compadeceram da jovem. Nem a esposa do médico. Ninguém podia ou queria ajudá-la. Mas talvez seja isso que a faz uma personagem tão marcante, com seu jeito quieto, duro e, apesar de tudo, até medroso. Entendi que Maria é uma personagem que representa muitas, por mais clichê que isso possa parecer.
Claro que não serei spoiler de contar o final – porque isso não se faz e não é legal – mas achei o final condizente com o filme. Te dá esperanças em poucos momentos, mas ao mesmo tempo te deixa confusa sobre o que irá acontecer com Maria. O final aberto talvez seja uma maneira de mostrar que histórias como essas têm destinos incertos e não há maneira de prever como elas vão acabar…
Azza Soliman é um nome conhecido no Egito. A advogada e líder feminista tem feito um trabalho significativo na vida de muitas mulheres que vivem em uma cultura que ignora suas vozes. Seu corajoso empenho foi interrompido nesta quarta-feira, dia 7 de dezembro, quando Azza foi levada presa de sua casa no Cairo, capital do Egito.
Sem pronunciamento oficial do governo egípcio, as acusações contra a ativista – se é que existem – ainda não são claras.
Azza Soliman é mais uma entre os muitos ativistas de ONGs que vem sendo perseguidos no Egito. “A prisão de Azza desmascara a animosidade do governo não só com os defensores dos direitos humanos em geral, mas com movimentos feministas independentes no Egito”, disse Mohamed Lofty, da Comissão Egípcia por Direitos e Liberdades, ao The Guardian.
Azza é a fundadora do Centro de Assistência Legal para Mulheres Egípcias (CEWLA, sigla do nome em inglês Center for Egyptian Women’s Legal Assistence), uma organização não governamental fundada em 1995 com o objetivo de ajudar mais ativamente mulheres em casos de violência ou discriminação de gênero.
CEWLA tem como um de seus focos os crimes de honra – crimes cometidos para “limpar a honra da família” –, um tema tratado como tabu em sociedades do Oriente Médio.
A líder feminista já estava sendo perseguida há algum tempo pelo governo militar que rege o país desde a deposição de Mohamed Morsi, em 2013. Depois de testemunhar o assassinato da ativista socialista Shaimaa al-Sabbagh, Azza foi submetida a julgamento.
Shaimaa foi morta a tiros por um policial, enquanto participava de um protesto pacífico em memória das centenas de mortos durante as revoltas da Primavera Árabe que opuseram o governo autoritário de Hosni Mubarak.
No dia 19 de novembro deste ano, Azza foi impedida, já no aeroporto de Cairo, de viajar para fora do país, o que iniciou uma mobilização na internet em sua defesa. Pouco depois, ela descobriu que sua conta pessoal e a de sua organização haviam sido congeladas. Na quarta-feira, dia 7, a ONG tuitou sobre o mandato de prisão contra Azza Soliman.
Horas depois, a ONG publicou no seu Twitter que o juiz do caso havia decidido por um valor de fiança de 20.000 libras egípcias (cerca de 3.640 reais) pela soltura de Azza Soliman.
Não é de hoje que o governo comandado pelas Forças Armadas tenta calar ativistas de direitos humanos. Já temos como exemplo a triste morte de Shaimaa, documentada em fotos e vídeos e testemunhada por policiais que nem sequer chamaram uma ambulância enquanto ela sofria nos braços de seus amigos. Mas além de matar e prender ativistas, o governo vem comandando uma investigação contra várias ONGs que, segundo eles, estariam recebendo fundos de organizações estrangeiras para semear o caos no país.
Com essa desculpa, um tribunal egípcio congelou, em setembro deste ano, os bens de cinco conhecidos ativistas de direitos humanos e três ONGs. Tais ações abrem portas para acusações criminais contra essas corajosas pessoas e até a eventuais condenações a prisão perpétua.
O pior de tudo é que, desde novembro deste ano, uma lei sobre o trabalho de ONGs, aprovada pelo parlamento, dá base legal para a intervenção do Estado no trabalho de organizações. De acordo com a lei, grupos egípcios e estrangeiros estão proibidos de se envolver em ações políticas ou que prejudiquem a segurança nacional, a ordem pública, a moral pública ou a saúde pública. Alguém pode me dizer como é possível fazer avanços em direitos humanos e em direitos das mulheres sem se envolver em questão políticas? A lei é uma clara tentativa de calar opiniões divergentes e manter um conservadorismo político.
A situação de instabilidade política no Egito é um dos motivos que move o trabalho de organizações não governamentais e de ativistas como Azza e Shaimaa. Mas também o motivo para sua perseguição.
Após as revoltas em 2011, o governo autoritário de 30 anos de Hosni Mubarak chegou ao fim. Com as eleições no ano seguinte, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, se tornou o primeiro presidente eleito após a esperada abertura política. Seu governo não durou muito e, em 2013, ele foi deposto do governo por um golpe militar. Durante esses anos de instabilidade, várias ONGs estrangeiras foram fechadas e 45 membros dessas organizações receberam ordem de prisão, incluindo 15 norte-americanos que deixaram o Egito.
Enquanto o mundo ocidental se preocupa com seus próprios problemas – ou vê a questão de direitos humanos como desnecessária ou já resolvida –, no Oriente Médio lutar por direitos humanos virou questão de vida ou morte. A nós resta pedir liberdade para Azza Soliman e torcer para que ela consiga voltar com segurança a fazer seu lindo trabalho pelas mulheres árabes.
Liberdade à Azza Soliman!
*Boa parte das informações para este texto foram tiradas desta matéria do Guardian.
José Luis Rugeles que esteve no Festival de Cannes em 2015 e no LAKINO 2015 – Festival de Cinema Latino-americano em Berlim.
Acho que o cinema latino-americano faz muito bem essa coisa de te contar uma história tão dramática, que parece tão irreal, mas que, algumas vezes, é o mais puro retrato da realidade. De uma realidade que parece longe de nós… Assim é a história de Maria que nem se passa tão longe de nós, nas matas da vizinha Colômbia.
Maria é uma garota de – pasmem! – 13 anos que integra como soldada um grupo da guerrilha colombiana. Mesmo com essa pouca idade, a menina, com já certo jeito de mulher, está grávida de um dos soldados de la Guerrilla. E isso é um problema gigante. Não apenas por ser muito nova – isso nem é levado muito em consideração no filme –, mas por ela ser uma mulher soldado e, sendo assim, precisa lutar pelos ideais do grupo e só! Em uma das cenas do filme, no meio da mata, um grupo de mulheres guerrilheiras aguardam sentadas em frente à uma construção precária de madeira. Elas esperam pelo atendimento do médico que apoia o grupo. Maria está sentada na ponta do banco e espera a sua vez, quando uma das mulheres se levanta e diz ao médico “faz três meses que não tenho meu período”. O homem pede que ela levante a camisa de seu uniforme camuflado e apalpa sua barriga. “Ainda está pequeno, vamos retirá-lo”. E sem perguntar em nenhum momento o que ela quer, ele a leva para uma “sala de cirurgia” para fazer o aborto.
“A gravidez é um problema, pois por ser uma jovem soldado, ela deve se preocupar apenas em lutar pelos ideias de la Guerrilla e nada mais”
Maria observa tudo isso quando é chamada por outros soldados. Ela tem uma missão: levar o filho recém-nascido do coronel (porque aparentemente, somente se você tem um filho do coronel, ele pode nascer…) para uma família, num lugar seguro, que cuidará dele. Com isso, Maria adia seu aborto e segue com seu namorado Maurício, que desconhece a gravidez, e outros dois soldados para a missão. Como mulher do grupo, a jovem fica responsável por alimentar, limpar e cuidar da segurança do bebê – o que significa, em certos momentos, fugir de tiroteios com ele no colo ou escondê-lo na mata por algumas horas.
Ao longo da jornada, Maria vai se ligando ao bebê e decide que quer ter seu filho. O filme quase não deixa isso explícito em falas, mas em pequenas ações. No olhar dela para o recém-nascido, na forma como tenta convencer Maurício a pegá-lo no colo, no seu desespero quando precisa deixá-lo sob cuidados de outras pessoas. Muitos desses sentimentos intensos no longa são passados mais por gestos do que por falas. A câmera foca nas mudanças de expressões e comportamentos dos personagens. As cenas são longas e slow. É possível escutar o som dos pássaros, passos na mata, o barulho da água, os tiros. Uma das coisas de que mais gostei foram as filmagens das caminhadas noturnas pela mata. Elas permanecem escuras para dar aquele sentimento de insegurança que os guerrilheiros têm ao andar por matas fechadas, talvez cheias de inimigos.
Talvez um dos momentos mais decisivos do filme seja quando Maria confronta seu namorado e diz que não quer fazer o aborto. Depois de descobrir que a jovem está grávida, ele nem cogita ter o bebê. Após jantar na casa do médico, depois de dias na mata, ele a manda tomar banho e se preparar para fazer o procedimento. Em troca de sua ordem, recebe um “No!”. Ele sobe o tom de voz. “No quiero!”, diz ela. Agressivo, ele impõe autoridade. Maria vai ao banheiro, onde se olha longamente no espelho, talvez imaginando como seria se tivesse outra vida, se pudesse ser mãe daquela criança. Nesse momento, decide fugir.
A esperança dos pobres espectadores acaba quando, depois de andar por dias, ela é encontrada de novo por Maurício. Dali adiante acontecem coisas inesperadas que me fizeram temer por Maria e desejar que eu estivesse ali para ajudá-la (não que eu pudesse fazer muito no meio do mato cercada por guerrilheiros e militares…). E o que mais me intrigou nisso tudo, foi a falta de empatia que a garota grávida de 13 anos recebeu durante sua história. Nenhum personagem, nem mesmo as personagens femininas, como a mulher do coronel que acabara de se tornar mãe, se compadeceram da jovem. Nem a esposa do médico. Ninguém podia ou queria ajudá-la. Mas talvez seja isso que a faz uma personagem tão marcante, com seu jeito quieto, duro e, apesar de tudo, até medroso. Entendi que Maria é uma personagem que representa muitas, por mais clichê que isso possa parecer.
Claro que não serei spoiler de contar o final – porque isso não se faz e não é legal – mas achei o final condizente com o filme. Te dá esperanças em poucos momentos, mas ao mesmo tempo te deixa confusa sobre o que irá acontecer com Maria. O final aberto talvez seja uma maneira de mostrar que histórias como essas têm destinos incertos e não há maneira de prever como elas vão acabar…