A perseguição de ativistas no Egito

Ilustração exclusiva de Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)

Azza Soliman é um nome conhecido no Egito. A advogada e líder feminista tem feito um trabalho significativo na vida de muitas mulheres que vivem em uma cultura que ignora suas vozes. Seu corajoso empenho foi interrompido nesta quarta-feira, dia 7 de dezembro, quando Azza foi levada presa de sua casa no Cairo, capital do Egito.

Sem pronunciamento oficial do governo egípcio, as acusações contra a ativista – se é que existem – ainda não são claras.

Azza Soliman é mais uma entre os muitos ativistas de ONGs que vem sendo perseguidos no Egito. “A prisão de Azza desmascara a animosidade do governo não só com os defensores dos direitos humanos em geral, mas com movimentos feministas independentes no Egito”, disse Mohamed Lofty, da Comissão Egípcia por Direitos e Liberdades, ao The Guardian.

Azza é a fundadora do Centro de Assistência Legal para Mulheres Egípcias (CEWLA, sigla do nome em inglês Center for Egyptian Women’s Legal Assistence), uma organização não governamental fundada em 1995 com o objetivo de ajudar mais ativamente mulheres em casos de violência ou discriminação de gênero.

CEWLA tem como um de seus focos os crimes de honra – crimes cometidos para “limpar a honra da família” –, um tema tratado como tabu em sociedades do Oriente Médio.

A líder feminista já estava sendo perseguida há algum tempo pelo governo militar que rege o país desde a deposição de Mohamed Morsi, em 2013. Depois de testemunhar o assassinato da ativista socialista Shaimaa al-Sabbagh, Azza foi submetida a julgamento.

Shaimaa foi morta a tiros por um policial, enquanto participava de um protesto pacífico em memória das centenas de mortos durante as revoltas da Primavera Árabe que opuseram o governo autoritário de Hosni Mubarak.

No dia 19 de novembro deste ano, Azza foi impedida, já no aeroporto de Cairo, de viajar para fora do país, o que iniciou uma mobilização na internet em sua defesa. Pouco depois, ela descobriu que sua conta pessoal e a de sua organização haviam sido congeladas. Na quarta-feira, dia 7, a ONG tuitou sobre o mandato de prisão contra Azza Soliman.

Horas depois, a ONG publicou no seu Twitter que o juiz do caso havia decidido por um valor de fiança de 20.000 libras egípcias (cerca de 3.640 reais) pela soltura de Azza Soliman.

Não é de hoje que o governo comandado pelas Forças Armadas tenta calar ativistas de direitos humanos. Já temos como exemplo a triste morte de Shaimaa, documentada em fotos e vídeos e testemunhada por policiais que nem sequer chamaram uma ambulância enquanto ela sofria nos braços de seus amigos. Mas além de matar e prender ativistas, o governo vem comandando uma investigação contra várias ONGs que, segundo eles, estariam recebendo fundos de organizações estrangeiras para semear o caos no país.

Com essa desculpa, um tribunal egípcio congelou, em setembro deste ano, os bens de cinco conhecidos ativistas de direitos humanos e três ONGs. Tais ações abrem portas para acusações criminais contra essas corajosas pessoas e até a eventuais condenações a prisão perpétua.

O pior de tudo é que, desde novembro deste ano, uma lei sobre o trabalho de ONGs, aprovada pelo parlamento, dá base legal para a intervenção do Estado no trabalho de organizações. De acordo com a lei, grupos egípcios e estrangeiros estão proibidos de se envolver em ações políticas ou que prejudiquem a segurança nacional, a ordem pública, a moral pública ou a saúde pública. Alguém pode me dizer como é possível fazer avanços em direitos humanos e em direitos das mulheres sem se envolver em questão políticas? A lei é uma clara tentativa de calar opiniões divergentes e manter um conservadorismo político.

A situação de instabilidade política no Egito é um dos motivos que move o trabalho de organizações não governamentais e de ativistas como Azza e Shaimaa. Mas também o motivo para sua perseguição.

Após as revoltas em 2011, o governo autoritário de 30 anos de Hosni Mubarak chegou ao fim. Com as eleições no ano seguinte, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, se tornou o primeiro presidente eleito após a esperada abertura política. Seu governo não durou muito e, em 2013, ele foi deposto do governo por um golpe militar. Durante esses anos de instabilidade, várias ONGs estrangeiras foram fechadas e 45 membros dessas organizações receberam ordem de prisão, incluindo 15 norte-americanos que deixaram o Egito.

Enquanto o mundo ocidental se preocupa com seus próprios problemas – ou vê a questão de direitos humanos como desnecessária ou já resolvida –, no Oriente Médio lutar por direitos humanos virou questão de vida ou morte. A nós resta pedir liberdade para Azza Soliman e torcer para que ela consiga voltar com segurança a fazer seu lindo trabalho pelas mulheres árabes.

Liberdade à Azza Soliman!

 

*Boa parte das informações para este texto foram tiradas desta matéria do Guardian.

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Mais de Débora Backes

Victoria: uma noite, uma garota, um take

Luzes brancas piscando e uma música techno muito alta são os primeiros personagens a aparecer em Victoria, filme alemão feito em Berlim. O cenário não podia ser algo mais berlinense: uma balada techno em um porão escondido, no centro da cidade. Uma garota dança sozinha de olhos fechados, empolgada pelo ritmo house. Prende o cabelo curto e vai ao bar, pede um shot de vodka e tenta puxar papo com o barman. Sem sucesso, ela pega a jaqueta e decidi ir embora. No seu caminho, quatro alemães bêbados – Sonne, Blinker, Boxer e Fuss – tentam passar pelos seguranças que os expulsam pelo nível de embriaguez. Já na rua, Sonne, numa clara tentativa de flertar com a garota, a convida a se juntar a eles: “What’s your name?”. “Victoria”, ela responde sorridente.

A história segue madrugada a dentro pelas ruas de Berlim. Victoria, a protagonista, é uma jovem de Madrid que se mudou para a capital alemã há três meses. Sem muitos amigos em Berlim, em uma única noite, a garota sai com quatro estranhos, é cúmplice no roubo de um carro, é ameaçada com uma arma por gangsters, assalta um banco, pega o cara que curte e se mete no meio de um tiroteio.

O mais interessante é que tudo isso acontece sem pausa, sem cortes. O filme todo foi feito em apenas UM TAKE. O filme levou duas horas e meia sem intervalos para os atores, diretor ou equipe técnica. Antes de assisti-lo, não conseguia imaginar como isso seria possível, mas é realmente assim: tudo acontece em sequência e parece muito real (claro que tudo foi filmado em um bairro só de Berlim). É como se a câmera fossem os olhos de alguém envolvido na trama. Ela se aproxima dos rostos, como se fossem os espectadores que estivéssemos ali observando as expressões de euforia, pânico e tristeza. O modo de filmagem te deixa muitas vezes sem ar pela quantidade de coisas tensas acontecendo.

Além disso, a personagem de Victoria traz algo interessante à história pela sua complexidade. Victoria não é apenas uma good girl going bad, como pode parecer no início do filme, em que ela bebe vodka e tenta timidamente fazer amizade com o barman da balada.

 
victoria 2
 
No começo do filme, eu achava que Victoria era só uma garota inocente tentando ser uma party girl, desesperada em busca de amigos e que, por isso, se deixava levar pelos três estranhos – no início são quarto, mas depois ficam só Boxer, Blinker e Sonne.  Isso, porém, só até a cena do piano dentro da cafeteria, em que ela trabalha e mora. Victoria e Sonne estão conversando e a jovem admite que sabe tocar piano. Curioso, ele pede mostre algo. Ela fecha os olhos e, como se possuída pelas notas, seus dados correm e saltam pelo teclado. É lindo! Nesse momento, pra mim, a personagem ganha uma muita força. Victoria conta, então, que viveu sua adolescência em um conservatório em Madrid, onde tinha que praticar piano sete horas por dia. Devido à extrema competição entre colegas, ela sentia nunca ter feito amigos de verdade ali. Depois da rejeição de seus professores, ela deixa a Espanha e chega na capital alemã. Em nenhum momento ela deixa claro os motivos para ter escolhido a Alemanha – ela não fala alemão e não conhece ninguém em Berlim. Talvez por uma vontade de aventura e de se conhecer longe da realidade que viveu dentro do conservatório musical.  Os motivos de nada ficam claros nesse filme.

Victoria parece ter sido realmente machucada pela rejeição de seus professores de piano. Ela chora escondida depois de terminar sua performance no instrumento, mas não se mostra abalada por isso ao longo do filme. Pelo contrário, ela vai ganhando mais força. Quando questionada por Sonne, Boxer e Blinker se poderia ajuda-los em algo – que é claramente ilegal -, ela não questiona muito e só vai. Como motorista dos rapazes, ela os leva até um estacionamento, onde eles encontram Andi, um gangster que cobra um favor de Boxer. Eles teriam que assaltar um banco naquela manhã e voltar com o dinheiro. A esse ponto, Victoria já está envolvida na história. Sonne tenta, porém, tirá-la da situação e a avisa que ela pode desistir e ir pra casa. Ela não aceita o conselho e decide ir junto e ser a motorista para que os três bandidos amadores executem o assalto.

 
victoria und sonne
 
Nesse momento, o espectador pensa “mas por quê? Por que ela não faz um escândalo, vai embora e deixa eles se f*** sozinhos?!”. Como disse, nenhum motivo fica claro nesse filme e nada é lógico. A complexidade da personagem não deixa suas razões claras. Pode ser que ela faça isso para se provar. Para fazer algo novo. Para testar limites. Por solidariedade aos novos amigos. Por um conjunto de fatores ou por nenhum deles. Às vezes, na vida real, não se precisa de motivos para se fazer esse tipo de loucura e talvez esse seja o caso de Victoria.

 
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Laia Costa (Victoria), atriz de Barcelona, recebeu o Deutscher Filmpreis 2015 de melhor atriz por sua impressionante atuação e talento na improvisação. Em entrevista para o site da revista alemã Spiegel, ela e o diretor Sebastian Schipper explicam que a estrutura do filme e diálogos foram montados no próprio set de filmagem. As cenas foram reconstruídas e mudadas várias vezes até o momento da filmagem. As conversas e interações entre personagens foram acontecendo conforme a câmera corria.

A barreira linguística também teve um papel importante no filme. Laia Costa é espanhola e não fala alemão, assim como sua personagem. E assim como Victoria e os três rapazes, Laia e seus colegas de set se comunicam em inglês. Isso com certeza trouxe mais realidade aos diálogos no filme que são, na maior parte, em inglês. Quando feitos em alemão, Victoria fica confusa – da mesma forma como a própria Laia deve ter ficado.

Nunca tinha visto um filme feito em um só take e achei muito impressionante. Ainda mais pela história, que me deixou super nervosa na cadeira do cinema. Depois de uma madrugada intensa, a garota acaba do mesmo jeito que começou: sozinha pela cidade alemã que nunca dorme. Foi apenas mais uma madrugada em Berlim.

 

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The Guardian.

Azza é a fundadora do Centro de Assistência Legal para Mulheres Egípcias (CEWLA, sigla do nome em inglês Center for Egyptian Women’s Legal Assistence), uma organização não governamental fundada em 1995 com o objetivo de ajudar mais ativamente mulheres em casos de violência ou discriminação de gênero.

CEWLA tem como um de seus focos os crimes de honra – crimes cometidos para “limpar a honra da família” –, um tema tratado como tabu em sociedades do Oriente Médio.

A líder feminista já estava sendo perseguida há algum tempo pelo governo militar que rege o país desde a deposição de Mohamed Morsi, em 2013. Depois de testemunhar o assassinato da ativista socialista Shaimaa al-Sabbagh, Azza foi submetida a julgamento.

Shaimaa foi morta a tiros por um policial, enquanto participava de um protesto pacífico em memória das centenas de mortos durante as revoltas da Primavera Árabe que opuseram o governo autoritário de Hosni Mubarak.

No dia 19 de novembro deste ano, Azza foi impedida, já no aeroporto de Cairo, de viajar para fora do país, o que iniciou uma mobilização na internet em sua defesa. Pouco depois, ela descobriu que sua conta pessoal e a de sua organização haviam sido congeladas. Na quarta-feira, dia 7, a ONG tuitou sobre o mandato de prisão contra Azza Soliman.

Horas depois, a ONG publicou no seu Twitter que o juiz do caso havia decidido por um valor de fiança de 20.000 libras egípcias (cerca de 3.640 reais) pela soltura de Azza Soliman.

Não é de hoje que o governo comandado pelas Forças Armadas tenta calar ativistas de direitos humanos. Já temos como exemplo a triste morte de Shaimaa, documentada em fotos e vídeos e testemunhada por policiais que nem sequer chamaram uma ambulância enquanto ela sofria nos braços de seus amigos. Mas além de matar e prender ativistas, o governo vem comandando uma investigação contra várias ONGs que, segundo eles, estariam recebendo fundos de organizações estrangeiras para semear o caos no país.

Com essa desculpa, um tribunal egípcio congelou, em setembro deste ano, os bens de cinco conhecidos ativistas de direitos humanos e três ONGs. Tais ações abrem portas para acusações criminais contra essas corajosas pessoas e até a eventuais condenações a prisão perpétua.

O pior de tudo é que, desde novembro deste ano, uma lei sobre o trabalho de ONGs, aprovada pelo parlamento, dá base legal para a intervenção do Estado no trabalho de organizações. De acordo com a lei, grupos egípcios e estrangeiros estão proibidos de se envolver em ações políticas ou que prejudiquem a segurança nacional, a ordem pública, a moral pública ou a saúde pública. Alguém pode me dizer como é possível fazer avanços em direitos humanos e em direitos das mulheres sem se envolver em questão políticas? A lei é uma clara tentativa de calar opiniões divergentes e manter um conservadorismo político.

A situação de instabilidade política no Egito é um dos motivos que move o trabalho de organizações não governamentais e de ativistas como Azza e Shaimaa. Mas também o motivo para sua perseguição.

Após as revoltas em 2011, o governo autoritário de 30 anos de Hosni Mubarak chegou ao fim. Com as eleições no ano seguinte, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, se tornou o primeiro presidente eleito após a esperada abertura política. Seu governo não durou muito e, em 2013, ele foi deposto do governo por um golpe militar. Durante esses anos de instabilidade, várias ONGs estrangeiras foram fechadas e 45 membros dessas organizações receberam ordem de prisão, incluindo 15 norte-americanos que deixaram o Egito.

Enquanto o mundo ocidental se preocupa com seus próprios problemas – ou vê a questão de direitos humanos como desnecessária ou já resolvida –, no Oriente Médio lutar por direitos humanos virou questão de vida ou morte. A nós resta pedir liberdade para Azza Soliman e torcer para que ela consiga voltar com segurança a fazer seu lindo trabalho pelas mulheres árabes.

Liberdade à Azza Soliman!

 

*Boa parte das informações para este texto foram tiradas desta matéria do Guardian.

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