A febre do clareamento de pele

Colagem com anúncio indiano do creme clareador da Garnier
O racismo por trás desse "ideal de beleza"

No ano passado, uma esteticista de um salão de beleza em São Paulo sugeriu que eu comprasse um creme clareador de pele. Disse que apostava que “meu namorado ia gostar muito”. Obviamente nunca mais voltei nesse salão lixo. O que pode parecer só um comentário absurdo de uma esteticista racistona é, na verdade, a expressão de uma tendência péssima de popularização de produtos de branqueamento de pele.
Já há alguns anos procedimentos para clarear a pele se tornaram febre em muitos países do Caribe, da África e da Ásia. Na Nigéria, o país onde a prática de clarear a pele é mais difundida, 77% das mulheres usam algum tipo de produto de branqueamento. No Togo, o número chega a 59%.

Essa prática se tornou comum como consequência da predominância quase total de padrões culturais e estéticos majoritariamente brancos. A maioria das referências de sucesso e de beleza são mulheres brancas. Para se ter uma ideia, quando você digita “mulher bonita” na pesquisa de imagens do Google, o resultado é esse:
 
[caption id="attachment_15689" align="alignnone" width="1349"] Resultado: Apenas mulheres brancas[/caption]  
E quando digitamos “mulher bem-sucedida”, o resultado foi esse aqui:
 
[caption id="attachment_15690" align="alignnone" width="1348"] Resultado: Várias mulheres brancas e apenas uma mulher negra[/caption]  
A Marie-Claire foi até a Jamaica e fez uma matéria bem interessante sobre o tema. Lá, o desejo por uma pele mais clara não é um fenômeno recente. O historiador Christopher Charles, Ph.D., que ensina psicologia política na University of the West Indies tem pesquisado muito o tema. “[Clareamento de pele] é sobre seguir padrões de beleza ditados pelo eurocentrismo”, diz Charles. “É uma resposta a anos de doutrinação colonial que vem sendo transmitida através da socialização desde a independência”.
 
[caption id="attachment_15692" align="alignnone" width="1600"] Mulheres jamaicanas que usaram produtos para clarear a pele, por Marlon James[/caption]  
Esses produtos, usados por muita gente, são super nocivos. Preocupado com os efeitos desses produtos na saúde da população, Ghana recentemente baniu a importação de todos os produtos que contém elementos clareadores, como a hidroquinona. Dencia, uma das cantoras pop mais populares da Nigéria, lançou um creme chamado “Whitenicious”, que promete uma pele mais clara em até sete dias. A própria cantora faz uso do “””cosmético””” e expôs a pele a essa substâncias perigosíssimas – que comprovadamente causam câncer.
 
[caption id="attachment_15691" align="alignnone" width="658"] Antes (2011) e depois (2014) da Dencia[/caption]  
Essa onda de produtos não é problemática apenas por ser absolutamente insalubre e perigosa. Mas principalmente porque ela é TOTALMENTE racista.

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Para quem quiser saber mais sobre o tema, além dos links no texto, deixo as indicações abaixo:

– Série de reportagens feita pela revista gal-dem.
– Curta metragem ‘Yellow Fever’, da queniana Ng’endo Mukii.
– Texto do The Guardian sobre clareamento na Índia.
– Texto da Al Jazeera sobre clareamento na Nigéria.
– Artigo do New York Times sobre a indústria do clareamento.

 

Mais de Bárbara Paes

Por mais mulheres na programação

Tem muita menina por aí que adoraria estudar computação, aprender mais sobre programação e trabalhar com tecnologia, mas a participação feminina no mercado de TI ainda é super pequena. Pra ter uma ideia, dos 7.339 formados em ciências da computação em 2010, apenas 1091 (14,8%) eram programadoras, segundo o Inep. Em 2015, de um total de 330 ingressantes do curso de Computação da USP, apenas 38 eram mulheres.

Muitas vezes, essa disparidade é encarada de forma naturalizada, como se homens fossem biologicamente mais aptos a se envolverem com tecnologia. Mas sabemos que essa é uma realidade que foi construída socialmente. Muitas das pioneiras da computação eram mulheres, e por muito tempo o número de mulheres estudando o assunto crescia mais rápido que o número de homens. Nesse artigo da NPR, entendemos que na década de 80, ao mesmo tempo em que a participação das mulheres no campo da computação começou a diminuir, os computadores passaram a ser comercializados mais amplamente, sendo promovidos como brinquedos “para meninos”.

 
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Hoje em dia, filmes e séries continuam a retratar o mercado de TI como um espaço quase que exclusivamente masculino. Além da falta de referências femininas nas áreas de exatas, vivemos em um cenário em que poucas escolas incentivam suas alunas a programarem. Isso tudo acaba invisibilizando a existência de mulheres programadoras e inibindo que mais meninas se envolvam com a área.

 
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Considerando o quão importante é a programação para o empoderamento feminino, surge o Minas Programam, uma iniciativa que quer ajudar a desconstruir a noção de que os homens são mais aptos a programar. O projeto vai promover um curso de formação básica para mulheres que queiram saber mais sobre programação, mas não sabem por onde começar.

No dia 1º de agosto, às 17h, vai rolar o Debate #MinasProgramam, uma conversa com mulheres incríveis que trabalham com tecnologia. Vai ser um espaço para compartilhar experiências, falar de desigualdade de gênero, e construir coletivamente o curso de programação que acontecerá durante o segundo semestre.

Se você tá com vontade de aprender a programar ou quer saber mais sobre mulheres e tecnologia, você pode acompanhar o Minas Programam pelo Facebook e pelo Twitter.

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