Estante das Minas: Adília Lopes

Como eu disse aqui na Ovelha, na minha primeira participação, faz mais ou menos um ano que me dedico à leitura de escritoras mulheres. Já fui da autoajuda à poesia, do romance à teoria, e continuo nessa empreitada para fortalecer nosso mercado literário e para me fortalecer também, né, por que não?

Faz uns dois meses, uma grande amiga me perguntou se, ao só ler mulheres, eu não sentia falta dos autores homens, se um Mia Couto não me causava saudades. Nem titubeei ao dizer que não. Depois de conversarmos mais sobre isso, ela acabou mudando de ideia… E gosto de pensar que foi porque viu minha estante de livros e abriu o primeiro livro de poesia que entreguei a ela: a Antologia de poemas da Adília Lopes.

[caption id="attachment_10385" align="aligncenter" width="408"]Adília e gato, como não amar? Adília e gato, como não amar?[/caption]

Foi essa mesma amiga, depois de perceber o quanto estava atravessada pela dúvida em relação às escritoras mulheres, que me sugeriu que eu divulgasse o que eu andava lendo. Muitas vezes eu acabava falando do livro que estava lendo no meu próprio Facebook e via como outras mulheres se empolgavam na discussão, então por que não expandir isso? Foi assim que entrei em contato, de novo, com as Ovelhas maravilhosas e me propus a escrever sobre mulheres na literatura. Sei que muito do que vai sair aqui estará imerso nessa paixão louca que tenho pelos livros, mas acho que isso também faz parte da admiração e da sororidade, então tá tudo certo.

E nada mais justo do que começar falando dessa poeta fabulosa que é a Adília Lopes, que foi justamente quem me ajudou a dar o pontapé inicial nessa troca deliciosa entre mulheres. Conheci a Adília ainda na época da faculdade, através de um professor de Literatura Portuguesa. Ele, acompanhando meus gostos, me disse que a Adília se tornaria minha paixão. E assim foi. Logo no primeiro poema fiquei tonta, zonza, imersa nesse universo português tão simples e tão envolvente.

No more tears foi o primeiro poema que li da Adília e foi daquelas leituras que te deixam parada alguns minutos, absorvendo toda as camadas que a poeta lança ao falar de algo tão simples e corriqueiro como a infância:

No more tears
Quantas vezes me fechei para chorar

na casa de banho da casa de minha avó

lavava os olhos com shampoo

e chorava

chorava por causa do shampoo

depois acabaram os shampoos

que faziam arder os olhos

no more tears disse Johnson & Johnson

as mães são filhas das filhas

e as filhas são mães das mães

uma mãe lava a cabeça da outra

e todas têm cabelos de crianças loiras

para chorar não podemos usar mais shampoo

e eu gostava de chorar a fio

e chorava

sem um desgosto sem uma dor sem um lenço

sem uma lágrima

fechada à chave na casa de banho

da casa da minha avó

onde além de mim só estava eu

também me fechava no guarda-vestidos

mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro

nunca ninguém viu um vestido a chorar

 

In: O decote da dama de espadas, 1988

Em seu poema, ela coloca não só o lugar da criança, como o lugar da criança mulher, atravessada pela mãe, pelos cabelos, pelas lágrimas e pelos vestidos, aqueles que não choram.

Adília Lopes é o codinome de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira que nasceu em Lisboa, no dia 20 de abril de 1960. Ela publica seus primeiros poemas em 1984, mas se consagra como escritora a partir de 1985, quando começa uma série de publicações que a levaram a ser conhecida por toda parte em Portugal. Por conta de uma história curiosa de psicose esquizoafetiva, muito citada em seus poemas, Adília larga a primeira faculdade que cursa, Física, por uma indicação médica. Após um tempo afastada dos estudos, passa a se dedicar à Literatura e Linguística (graças à Deusa).

Fedra está apaixonada

por Hipólito

Hipólito não está apaixonado

por Fedra

Fedra enforca-se

Hipólito morre

num acidente

 

Dido está apaixonada

por Eneias

Eneias não está apaixonado

por Dido

Dido oferece uma espada

a Eneias

Eneias esquece-se da espada

quando se vai embora

Dido suicida-se

com a espada esquecida

por Eneias

 

Um desgosto de amor

atirou-me para um

curso de dactilografia

consolo-me

a escrever automaticamente

o pior são os tempos livres

 

In: Sete rios entre campos, 1999

 

Obviamente, Adília se tornou uma das minhas poetas favoritas. Afinal de contas, não dá para não se apaixonar por alguém que se autodenomina uma “freira poetisa barroca” e faz poesia sobre o cotidiano de uma maneira delicada e marcante.

É possível achar muitos outros poemas da Adília Lopes espalhados pela internet, mas, se você é daquelas que ama livros e vai querer ler tudo de cabo a rabo, corre pra comprar logo, porque essa Antologia que citei foi publicada no Brasil pela Cosac Naify em parceria com a 7Letras, na coleção Ás de Colete. Por conta do encerramento das atividades da Cosac, é provável que o livro esgote em breve. E não se sabe quando haverá uma reedição, infelizmente. :(

Com o fogo não se brinca

porque o fogo queima

com o fogo que arde sem se ver

ainda se deve brincar menos

do que com o fogo com fumo

porque o fogo que arde sem se ver

é um fogo que queima muito

e como queima

muito

custa mais

a apagar

do que o fogo com fumo

 

In: Um jogo bastante perigoso, 1985.

 

Leiam Adília Lopes, meninas! Vamos celebrar essas mulheres incríveis que produzem intensamente e falam também intensamente sobre ser mulher. <3

Mais de Estela Rosa

OUÇA: Playlists do Cartoon Network

Nunca escondi de ninguém meu vício pelos desenhos do Cartoon Network. Mesmo quando adolescente sem TV por assinatura em casa, acompanhava por outros canais (meio atrasada, mas acompanhava) os desenhos produzidos pelo canal. Que atire a primeira pedra a menina que nunca se identificou com a personalidade de uma das três Super Poderosas.

Pois bem, crescemos eu e o Cartoon, e continuo apaixonada. A nova geração de desenhos do Cartoon (Apenas um show, Gumball, Hora de Aventura, Steven Universe e agora as maravilhosas Meninas Super Poderosas) voltou com tudo e o canal segue evoluindo de acordo com o seu público. E, claro, o Cartoon se jogou de vez na era do Facebook: em sua página, acompanham todos os tipos de memes, virais e piadas que surgem, é diversão garantida, além de informações sobre os desenhos, claro.

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Conforme acompanhava o crescimento do Cartoon Network nessa nova fase, fui percebendo como os desenhos passaram a se debruçar mais sobre as meninas, moças e mulheres durante os episódios. Enquanto antigamente o grande ponto feminino da programação eram as Meninas Super Poderosas, agora temos outras personagens fortíssimas como Marceline e Princesa Jujuba, Princesa Caroço e as Crystal Gems. Já rolou, inclusive, semanas inteiras de programação voltada para garotas, com o título Girl Power. Eles estão surfando com tudo na onda do empoderamento feminino! GO, GIRL!

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Unindo essa onda maravilhosa de acompanhar a moda das ~redes~ mais essa nova postura sobre as meninas, o povo fez um canal exclusivo no Spotify, com playlists para personagens dos desenhos como Lindinha, Docinho, Florzinha e Marceline! Nesse exato momento estou ouvindo a playlist incrível da Florzinha que se chama Músicas inspiradoras para líderes importantes. No fone toca M.I.A. – Bad Girls depois de começar no tombamento geral com a Negra Li.

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Pode parecer só mais uma estratégia divertida de marketing do canal, mas criar playlists com músicas tão marcantes voltadas para as meninas é beeem importante. As letras, os ritmos, as mulheres fortes cantando suas vivências traz identificação e reconhecimento. Já não tem mais essa de que só os meninos vão ser heróis, cientistas, vampiros, vilões, agora vai ter espaço para todo mundo. As meninas vão dominando todos os espaços, principalmente a pista!

Pra facilitar, clica aqui embaixo na playlist que tem a ver com a sua vibe, ó:

Lindinha – Unicórnios, Arco-Íris e Outras Coisas Fofas

Docinho – Bate-cabeça Superpoderoso

Florzinha – Músicas Inspiradoras para Líderes Importantes

Marceline – As Rainhas do Grito

 

Se quiser seguir o perfil deles no Spotify, você pode clicar aqui: Cartoon Network Brasil no Spotify.

E agora me despeço de vocês com a playlist da Marce, tocando aquele Queens of the Stone Ages esperto. Chama a mãe, a filha, as migas, e bora bater cabeça, gente!

marceline-guitarra

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na minha primeira participação, faz mais ou menos um ano que me dedico à leitura de escritoras mulheres. Já fui da autoajuda à poesia, do romance à teoria, e continuo nessa empreitada para fortalecer nosso mercado literário e para me fortalecer também, né, por que não?

Faz uns dois meses, uma grande amiga me perguntou se, ao só ler mulheres, eu não sentia falta dos autores homens, se um Mia Couto não me causava saudades. Nem titubeei ao dizer que não. Depois de conversarmos mais sobre isso, ela acabou mudando de ideia… E gosto de pensar que foi porque viu minha estante de livros e abriu o primeiro livro de poesia que entreguei a ela: a Antologia de poemas da Adília Lopes.

Foi essa mesma amiga, depois de perceber o quanto estava atravessada pela dúvida em relação às escritoras mulheres, que me sugeriu que eu divulgasse o que eu andava lendo. Muitas vezes eu acabava falando do livro que estava lendo no meu próprio Facebook e via como outras mulheres se empolgavam na discussão, então por que não expandir isso? Foi assim que entrei em contato, de novo, com as Ovelhas maravilhosas e me propus a escrever sobre mulheres na literatura. Sei que muito do que vai sair aqui estará imerso nessa paixão louca que tenho pelos livros, mas acho que isso também faz parte da admiração e da sororidade, então tá tudo certo.

E nada mais justo do que começar falando dessa poeta fabulosa que é a Adília Lopes, que foi justamente quem me ajudou a dar o pontapé inicial nessa troca deliciosa entre mulheres. Conheci a Adília ainda na época da faculdade, através de um professor de Literatura Portuguesa. Ele, acompanhando meus gostos, me disse que a Adília se tornaria minha paixão. E assim foi. Logo no primeiro poema fiquei tonta, zonza, imersa nesse universo português tão simples e tão envolvente.

No more tears foi o primeiro poema que li da Adília e foi daquelas leituras que te deixam parada alguns minutos, absorvendo toda as camadas que a poeta lança ao falar de algo tão simples e corriqueiro como a infância:

No more tears
Quantas vezes me fechei para chorar

na casa de banho da casa de minha avó

lavava os olhos com shampoo

e chorava

chorava por causa do shampoo

depois acabaram os shampoos

que faziam arder os olhos

no more tears disse Johnson & Johnson

as mães são filhas das filhas

e as filhas são mães das mães

uma mãe lava a cabeça da outra

e todas têm cabelos de crianças loiras

para chorar não podemos usar mais shampoo

e eu gostava de chorar a fio

e chorava

sem um desgosto sem uma dor sem um lenço

sem uma lágrima

fechada à chave na casa de banho

da casa da minha avó

onde além de mim só estava eu

também me fechava no guarda-vestidos

mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro

nunca ninguém viu um vestido a chorar

 

In: O decote da dama de espadas, 1988

Em seu poema, ela coloca não só o lugar da criança, como o lugar da criança mulher, atravessada pela mãe, pelos cabelos, pelas lágrimas e pelos vestidos, aqueles que não choram.

Adília Lopes é o codinome de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira que nasceu em Lisboa, no dia 20 de abril de 1960. Ela publica seus primeiros poemas em 1984, mas se consagra como escritora a partir de 1985, quando começa uma série de publicações que a levaram a ser conhecida por toda parte em Portugal. Por conta de uma história curiosa de psicose esquizoafetiva, muito citada em seus poemas, Adília larga a primeira faculdade que cursa, Física, por uma indicação médica. Após um tempo afastada dos estudos, passa a se dedicar à Literatura e Linguística (graças à Deusa).

Fedra está apaixonada

por Hipólito

Hipólito não está apaixonado

por Fedra

Fedra enforca-se

Hipólito morre

num acidente

 

Dido está apaixonada

por Eneias

Eneias não está apaixonado

por Dido

Dido oferece uma espada

a Eneias

Eneias esquece-se da espada

quando se vai embora

Dido suicida-se

com a espada esquecida

por Eneias

 

Um desgosto de amor

atirou-me para um

curso de dactilografia

consolo-me

a escrever automaticamente

o pior são os tempos livres

 

In: Sete rios entre campos, 1999

 

Obviamente, Adília se tornou uma das minhas poetas favoritas. Afinal de contas, não dá para não se apaixonar por alguém que se autodenomina uma “freira poetisa barroca” e faz poesia sobre o cotidiano de uma maneira delicada e marcante.

É possível achar muitos outros poemas da Adília Lopes espalhados pela internet, mas, se você é daquelas que ama livros e vai querer ler tudo de cabo a rabo, corre pra comprar logo, porque essa Antologia que citei foi publicada no Brasil pela Cosac Naify em parceria com a 7Letras, na coleção Ás de Colete. Por conta do encerramento das atividades da Cosac, é provável que o livro esgote em breve. E não se sabe quando haverá uma reedição, infelizmente. :(

Com o fogo não se brinca

porque o fogo queima

com o fogo que arde sem se ver

ainda se deve brincar menos

do que com o fogo com fumo

porque o fogo que arde sem se ver

é um fogo que queima muito

e como queima

muito

custa mais

a apagar

do que o fogo com fumo

 

In: Um jogo bastante perigoso, 1985.

 

Leiam Adília Lopes, meninas! Vamos celebrar essas mulheres incríveis que produzem intensamente e falam também intensamente sobre ser mulher. <3

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