Um tapa na autoestima com Frances Cannon

Frances Cannon
Simples e motivacionais, seus desenhos ajudam a dar um boost na autoestima e confiança das mulheres

Dia desses estava eu naquele passeio sem volta chamado Pinterest, quando me deparei com uns desenhos simples, mas muito incríveis com mensagens empoderadoras. Claro que segui por aquele atalho sem volta e fui clicando cada vez mais e achando cada vez mais imagens incríveis da mesma artista. Quando consegui sair do Pinterest, acabei caindo no Google para descobrir quem era Frances Cannon, a artista de desenhos tão necessários e simples. Acabei apaixonada, mais um passeio sem volta. Minha vontade foi sair mandando as ilustrações de Frances (minha miga já ela) para todas as minhas amigas.

Frances Cannon é uma jovem artista de 24 anos, que cresceu na Tailândia ao lado dos seus pais. Atualmente, Frances estuda arte em Melbourne na Austrália. Frances conta em uma entrevista que seus desenhos começaram como pequenos lembretes para si mesma, uma forma de se encorajar a aceitar o próprio corpo e tratar a si mesma com mais carinho e amor. Como a grande maioria das mulheres, Frances não tem um corpo capa de revista. Seu caminho para romper com os padrões e iniciar sua própria revolução foi sua arte. O resultado são desenhos simples, diretos e muito necessários.

 

 
De pequenas notas para si mesma, seus desenhos acabaram ganhando o mundo e se mostrando excelentes ferramentas para outras mulheres caminharem em rumo a aceitação de seus corpos. Foi assim que cheguei até Frances Cannon. Como eu falava, em uma das minhas buscas pelo labirinto do Pinterest, me deparei com um desenho e uma frase que mexeram comigo. No desenho aparecia a seguinte frase: “Olá, corpo. Você está ótimo hoje e eu prometo te tratar com amor”. A imagem era tão simples e tão amável, que fiquei desconcertada. Levantei da cadeira e me olhei no espelho: Sim, meu corpo é ótimo, é ele quem me leva para tantos lugares incríveis, é ele quem experimenta a vida comigo, é através dele que sinto cada pequena molécula desse mundo.


Frances Cannon nos relembra da necessidade de olhar para si mesmas com afeto. Um corpo perfeito é aquele que sustenta seus sonhos e não aquele que agrada uma sociedade com padrões totalmente deturpados. Com desenhos que levam mensagens positivas buscando a aceitação dos corpos femininos, Frances começou em si uma pequena revolução.

A vontade de mandar mensagens com desenhos de Frances Cannon para minhas amigas segue tão forte que achei melhor reunir aqui os desenhos dessa artista tão fundamental. Com 24 anos, Frances Cannon já salvou muita autoestima por aí. Como ela mesma diz:

“Todos os meus desenhos são lembretes diários (para mim e para os outros) de que é normal ter funções corporais, é normal ter emoções, é normal ter corpos diferentes do padrão de beleza da sociedade. É normal ser humano.”

Segura esse tapa na autoestima, garota!

É super normal ser você mesma!

 

 
Você poder conferir o trabalho da Frances Cannon aqui e dar aquele like esperto na página do Facebook dela. Se quiser saber mais sobre ela, abaixo linkamos algumas entrevistas (em inglês):

    Using illustration to combat taboos around the female body

    Interview with artist Frances Cannon

    Frances Cannon And The Push For Body Positivity In Art

 

Mais de Estela Rosa

Claude Cahun e as “Heroínas” desconhecidas

Desde fevereiro de 2015 estou em uma empreitada de só ler livros escritos por mulheres. Nesse meio tempo, já respondi às mais variadas perguntas, indo desde “Você pode me indicar alguns livros?” até “Você não sente falta de ler autores homens?”. Mas a grande pergunta a ser respondida nesses quase dois anos deveria ser: “O quanto isso mudou a sua vida?” E posso responder essa pergunta falando de uma autora que conheci fazendo buscas de novas autoras para ler, a Claude Cahun “heroína desconhecida”, poeta, narcisa, ensaísta, andrógina, contista, feminista indefinida, jornalista, humanista eventual, panfletária, amiga dos gatos, epistoleira, dândi, memorialista, simbolista, atriz, naturista, criadora de objetos, individualista, fotógrafa, surrealista, ativista política, idealista, esteta, resistente, mítica, peça única, como consta em seu perfil.

A melhor coisa de ter entrado nesse esquema ~exclusivista feminazi~ (risos) foi a amplitude que passei a dar às minhas pesquisas e buscas por autores para ler. É muito fácil chegar até um autor homem novo, ele é indicado em todos os livros, posts de blog, outdoors de ônibus, buscas no Google e até mesmo na porta do CCBB vendendo poesia. Eles caem no nosso colo como sempre, arrojados invadindo o espaço e conquistando, como bandeirantes, os olhares de seus leitores. Talvez seja só comigo, mas sinto que com as mulheres é diferente, as indicações funcionam em esquema de receitas secretas de família: uma amiga que passa pra outra que passa pra outra que passa pra outra. Restringir meu objetivo de leitura, na verdade, me fez ampliar meus cliques e pesquisas, chegando até esta artista única que é a Claude Cahun.

Nascida em 1894, em Nantes, na França, Lucy Schwob, como foi registrada em seu nascimento, produziu em diversos meios artísticos entre as décadas de 1920 e 1940. Mais conhecida por seus autorretratos e fotomontagens, Claude Cahun também se dedicou à escrita e publicou textos em revistas literárias europeias, dando origem a esse conjunto de histórias nomeado “Heroínas”. Mas o que mais me chamou atenção nesta artista multifoco não foi sua produção, mas sim a falta de divulgação e de conhecimento sobre o seu trabalho.

Quando cheguei até o livro, lançado através de um crowdfunding pela A Bolha Editora, acreditei piamente se tratar de uma nova autora. Com um projeto gráfico lindão, o livro soa super atual, principalmente pela temática: são dezesseis contos que retratam uma nova perspectiva de diversas figuras femininas famosas de fabulas ou mitologias antigas. Claude Cahun faz uma leitura atravessada destas figuras impactantes, como Maria ou Cinderella, e ataca com sua ironia refinada e ácida.

Corrigindo a história e dando voz a essas personagens, a autora nos traz uma nova perspectiva sobre o papel da mulher nos contos de fada e nas mitologias. Ou seja: Claude Cahun, em 1920, já era uma figura feminista marcante, que desafiava os padrões de gênero não só em sua escrita, como também em sua vida. A edição do livro, bastante completa, traz um posfácio do filósofo François Leperlier, que descreve precisamente a aura dos textos de Claude:

A intenção é clara, ela é irônica e subversiva ao se atacar à imagem da mulher como apresentada nos contos e mitos; uma tentativa de corrigir e reescrever biografias fabulosas, fazendo oposição às versões admitidas, conformes e banalizadas com outras versões inesperadas, rebeldes, cáusticas e irreverentes.

– François Leperlier

A escolha do nome Claude, feita aos 22 anos, não foi à toa: a possibilidade de ter um nome que abarcasse os dois gêneros era essencial para sua obra. Com uma aparência andrógina, considerando-se gênero neutro, e uma escrita ácida, Claude fez da sua vida sua obra e conquistou um espaço revolucionário quando muitas mulheres sequer pensavam em escrever.

Mas por que não falamos mais sobre Claude Cahun? O livro “Heroínas”, editado pela A Bolha, conta com uma introdução essencial para entender a figura de Claude Cahun. A também escritora Nathanaël, na introdução do livro, faz uma análise muito acertada dessa figura múltipla e traz à tona o esquecimento de uma artista talentosérrima:

(…) foi por muito tempo presumida como derrotada em combate, apagando-se alegremente dos registros históricos a fim de se confundir no anonimato… não fosse esse salvamento intempestivo de uma obra que, caso contrário, ficaria dedicada ao esquecimento e cujos rastros nos chegam hoje para além até das línguas que lhe eram próprias.

Nathanaël

Esquecidos, os textos de Claude Cahun, redigidos em diversas línguas, foram resgatados nos anos 80, caindo novamente no esquecimento e sendo trazidos à tona, em uma edição francesa, em 2006. Mas o que torna tudo ainda mais curioso é que Claude Cahun era uma presença importante e fundamental para autores que construíram o Surrealismo. Amiga de Henri Michaux, Andre Breton e George Bataille, Cahun participou de diversos movimentos e organizações surrealistas, integrando também movimentos políticos e lutando ativamente contra a o Nazismo que crescia na Europa. Acaba presa em 1944, junto a sua eterna companheira e amante, Marcel Moore, e são condenadas à morte. Conseguem fugir, mas atribui-se a morte de Claude Cahun a este período presa, por conta de sua saúde debilitada.

Uma mulher com uma trajetória tão intensa e à frente de seu tempo, presente em movimentos artísticos e políticos, foi apagada de nossa história sem dó. Fico me perguntando o quanto conhecer Claude Cahun e sua história pode mudar a nossa concepção do que é ser mulher, a concepção de gênero, e como podemos nos colocar frente ao mundo. “Heroínas” acaba sendo um testemunho de como suas ideias são fundamentais para a construção da nossa força enquanto mulheres. Em uma das histórias, Cahun dá voz a Margarida, personagem de Fausto, de Goethe, e questiona diversos estigmas atribuídos às mulheres:

Uma mulher que tem lá seus desejos é mesmo um monstro? Será minha culpa? Quando esse mal começou, eu era muito jovem, jovem demais para entender.

Claude Cahun

É preciso ler essas mulheres, tão vanguarda ainda hoje em dia. Evoluímos muito, mas ao mesmo tempo muito pouco, e é ao se deparar com esse tipo de apagamento e resgate que percebemos a necessidade de preencher os mais diversos buracos da nossa história enquanto mulheres. Não se trata de não termos participado da história, com feitos importantes, se trata da história ainda ser escrita apenas por quem nos oprime e apaga: homens. É preciso conhecer nossa história, é preciso ler “Heroínas” de Claude Cahun, é preciso reescrever nossa trajetória tão cheia de lacunas.

Você encontra o livro “Heroínas” através da loja online da Editora A Bolha e também na loja física, que fica no mesmo prédio da Comuna, no Rio de Janeiro (Rua Sorocaba, 585 – Botafogo). Além disso, você pode seguir A Bolha Editora no Facebook e ficar por dentro dos lançamentos, sempre bem bacanas.

E antes de começar a ler o livro, vem cá dar o play nessa playlist mara inspiradas nas “Heroínas” de Claude Cahun.

 

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