Uma introvertida perdida na extroversão

Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia a.k.a. Kissy

Cobre o rosto com a franja – um costume adquirido depois de muitos anos. Olha para o chão quando alguém a olha por muito tempo. Confere o celular. Não tem mensagem nenhuma. Não tem nenhuma notificação em rede social. Mas enquanto ficar ali de cabeça baixa olhando para a pequena tela não terá de interagir. Nem fingir rir de piadas bobas dos colegas de sala.

Já ia esquecendo dos fones de ouvido. Tocando aquela playlist escolhida a dedo na noite anterior. Se não escuta o que os outros dizem não é obrigada a responder, certo?

Esse é seu jeito de aguentar ou se esconder da rotina. Não sabe definir muito bem ainda o que é isso, mesmo depois de passar algumas horas por noite em claro dissecando mentalmente cada uma de suas ações do dia.

As pessoas sorriem tão fácil. Brincam tão fácil. Amam tão fácil completos desconhecidos que só tiveram o acaso de estar na mesma hora e no mesmo lugar que elas. Como isso funciona? É uma curiosidade genuína dela.

A garota que carrega sua nuvenzinha de solidão por aí, desgastando seu baldinho de energia a cada meia dúzia de palavras trocas, leu em algum lugar pelos recantos da internet que isso faz parte de ser introvertida.

Conversas fúteis são cansativas. Conhecer novas pessoas é aterrorizante. A intensidade faz parte do pacote de coisas com as quais a maioria não consegue lidar.

Troca facilmente tudo isso por um tempo a mais para ler o livro ao qual está apegada essa semana.  Ou por caminhar na praia tendo só seu cachorro como companhia.

Ela sabe que deveria falar mais. Sorrir mais. Amar mais. Ela sabe que o mundo está cercado de pessoas interessantes – apesar de parecer o contrário na maioria das vezes. Ela sabe que se olhar para um lado por alguns minutos vai encontrar alguém disposto a falar sobre os pintores mais curiosos. Ou uma guria que lhe apresente uma nova banda altamente viciante. Ou que aquele menino também pode gostar de seu super-herói favorito.

No entanto, mesmo sabendo de tudo isso, não consegue evitar ou disfarçar a felicidade sempre que sabe que algum compromisso que envolva interação é cancelado. É um alivio imenso saber que não vai ter que fazer parte de conversas fiadas que não levam a lugar nenhum em nome de quebrar o gelo. Ao invés disso ela está livre para aproveitar em paz horas de netflix.

E não é uma questão que ela não goste de passar um tempo com os amigos.  Mas a necessidade de ficar sozinha fala mais alto. É quase como um chamado da natureza. O problema é que o mundo a sua volta não consegue entender.

Não sabe bem quem inventou uma “regra” de que apenas os extrovertidos serão capazes de se dar bem na vida. Ser algo diferente disso é aceitar os olhares tortos, as inúmeras tentativas de tentar concerta-la por meio de atividades em grupo ou, em casos mais extremos, aceitar que vai ser um fracasso.

Ela tem plena consciência das supostas ótimas oportunidades que está perdendo. Porém, não consegue se forçar a ser de outra forma. Não consegue ser essa outra pessoa que o mundo quer que ela seja. Sente que está mentindo para si se assim for.

 
[caption id="attachment_6056" align="aligncenter" width="700"]Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia a.k.a. Kissy Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia a.k.a. Kissy[/caption]  
Eu sou essa garota. Aquela que não se enquadra em alguns padrões de socialização e que muitas vezes não consegue entender porque as pessoas se forçam tanto a ser o que elas não são em nome da aceitação. Talvez você também seja. Talvez você também já tenha se questionando se o problema não é você depois de algum comentário maldoso sobre o seu modo de ser.

Mas depois de muitas crises existenciais e autoanálise, posso dizer que não. Nós não somos o problema. Mesmo que o ideal da extroversão tente colocar isso em nossas cabeças, nos pressionando para agir de modo diferente de como realmente somos. Mesmo que ser super animado 24 horas por dia seja uma utopia. É esse o padrão esperado. E quando alguém foge desse padrão é desesperador. Assusta saber que alguém é capaz de romper a corrente.

Em alguns momentos dá medo de ser um ponto isolado fora do círculo. No entanto, dentro desse ponto existem infinitas possibilidades de transformar essas diferenças em algo positivo.  Ser introvertido em um mundo que exige a extroversão não é algo ruim como tentam nos fazer acreditar.

Ser introvertido nada mais é do que uma forma diferente ver, reagir e interagir com o mundo. Ser introvertido não é o mesmo que ser depressivo ou antissocial. Esses são transtornos psicológicos que devem ser tratados com a devia atenção. Ser introvertido é traço de personalidade. Não um problema. É algo que faz parte de quem você é. E não existe nada pior do que tentar se negar.
 
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Ilustrações feitas com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)

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Deixa ela brincar de carrinho

Eu dei sorte, muita sorte por sinal, de não ter a infância limitada aquilo que seria ou não apropriado para uma garota fazer. Mesmo sem nenhuma noção do que seria feminismo e enfrentando os próprios complexos, o que é perfeitamente normal, minha mãe me deu desde cedo duas coisas muito preciosas: liberdade e apoio para eu ser aquilo que eu quisesse.

Bem… não vou dizer que ela não tentou. Afinal, ao ser mãe de primeira viagem de uma menina depois dos 40, você meio que segue tudo que as suas amigas fizeram até ali. Compra vestidos com babados fofinhos, barbies, brinquedos rosas. Porque é assim que a coisa funciona, não?

Digamos que aprendemos juntas que não é bem assim que a banda toca. Eu ainda não podia falar, mas já sabia deixar bem claro que não queria aqueles vestidinhos perto de mim. E ela reagiu a todas as minhas “diferenças” da melhor maneira possível ao longo dos anos.

Quando ficou claro que eu não gostava de brincar com bonecas, ela as recolheu e apareceu no dia seguinte com a coleção de bonequinhos dos Cavaleiros do Zódiaco. Os vestidos foram substituídos por camisetas e moletons. Coisas de casinha foram trocadas por uma coleção de carrinhos. Sem contar o apoio a interesses diversos como astronomia, pintura, quadrinhos e esportes.

Até quando fiquei com vergonha de ir para a escola com meu fichário do Batman, numa tentativa tola de me enquadrar a um padrão, ela ficou do meu lado, ao mesmo tempo que dizia que eu não precisava fingir ser o que não era.
 

O grande ponto foi quando, com sete anos, decidi trocar o ballet por karate. Perdi a conta de quantas vezes ela rebateu os comentários maldosos das tias intrometidas de que aquilo não era atividade para uma garota com um “É o que ela gosta. E ela pode fazer o que quiser”.

Não sou nenhuma psicóloga educacional para dizer que essa é forma correta de se educar uma criança. Inclusive nós não somos perfeitas, tivemos nossos próprios defeitos nesses 22 anos de relação. Mas essas escolhas que a minha mãe me deu quando criança foram fundamentais para eu ser a pessoa que sou hoje. Para ser dona das minhas decisões, para não ligar para a opinião alheia e para descobrir o meu rumo na vida.

Então, deixa a menina brincar. Deixa ela se sujar jogando bola. Deixa ela pintar a parede. Deixa ela brincar de carrinho sem dizer que isso é coisa de menino. Desconstrói essa ideia de que ela tem que ser assim ou assado. Esquece essa de ser uma lady. Deixa ela ser uma criança livre que tá conhecendo o mundo sem nenhum complexo.
 

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Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)

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