Labor emocional, fatiga e autocuidado

Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (Kissy)
O autocuidado é um modo de militância

Labor emocional, ou trabalho emocional, refere-se às maneiras pelas quais pessoas (em sua maioria mulheres e indivíduos racializados) devem gastar constantemente seu tempo e energia em tarefas não remuneradas e não reconhecidas, como educar os outros, preterir seus sentimentos em função de amparar terceiros, precisar ser simpático ou condescendente quando não é o quisto, oferecer apoio emocional sem esperar nada em troca, e ser mártir de sua própria causa.

O termo foi inicialmente usado para explicar o esforço emocional vivido por profissionais no mercado de trabalho que, além de prestar serviço, são obrigados à passar por imposições profissionais e hierárquicas que cerceiam suas liberdades emocionais. Posteriormente, é visto como esses cerceamentos transbordam racismo e sexismo institucionalizado, além de evidenciar que infelizmente as estruturas capitalistas ainda são patriarcais e brancas. Resultando no fato de que mulheres racializadas são aquelas que mais sofrem com a obrigação de trabalhar emocionalmente pelo outro.

Quando é pré-requisito à uma mulher — para assim ser considerada boa profissional — ela também ser sorridente e amável, isso é labor emocional. Quando mulheres racializadas passam diariamente violências raciais e de gênero como parte inerente da corrida trabalhista, isso é labor emocional.

E infelizmente, esse esforço não está isolado ao mercado de trabalho — na verdade — sofremos imposições do tipo desde primeira infância, como quando somos obrigadas à ideia de que meninas são mais maduras que meninos de mesma idade. Mais tarde, esse cenário se evidencia novamente quando em relacionamentos heteronormativos mulheres são mais cobradas de bom senso do que seus parceiros.

E não há nada que uma feminista mais viva do que o labor emocional.

[caption id="attachment_15673" align="alignnone" width="700"] Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (Kissy)[/caption]

Em nosso ativismo, quando de forma impositiva somos colocadas como “as porta-vozes de nossa comunidade”, ou temos o “dever de explicar quais são nossas opressões”, perde-se o viés sincero e honesto que cabe a liberdade de expressão e o direito à interseccionalidade, e começa o trabalho emocional.

Afinal, enquanto muitas vezes nós, mulheres racializadas e ativistas, somos obrigadas à abrir feridas e memórias para nos “explicar”, ou estar com todas nossas pesquisas em dia na ponta da língua porque não podemos nunca errar — ”pois errar uma vez desvalida TODO o discurso”, aquele que demanda nossa comprovação de valor está isento de obrigações e imposições iguais. Ainda, na maioria das vezes o mesmo ainda carrega privilégios imensos em não saber na carne o que é a opressão de gênero e o preconceito racial.

Ou seja, como uma amiga uma vez me explicou: enquanto nós estamos arrancando os cabelos pela paúra emocional que é lidar com ataques cibernéticos, o hater tá tomando sorvete.

O labor emocional ocorre também entre pessoas que compartilham o ativismo, como quando mulheres racializadas necessitam constantemente comprovar valor de suas partilhas interseccionais dentro de um feminismo hegemônico. Ou em vezes no qual as mesmas são criticadas por pulverizar o movimento feminista, quando não se trata de fragmentar o feminismo, mas de organizar espaços de identificação e mobilização.

Há sim diferentes vertentes na militância, porém, isso não pode ser desculpa para falta de auto-crítica, empatia, ou apagamento da interseccionalidade.

Como mulheres racializadas, infelizmente, todas já sofremos alguma forma de violência — seja verbal, emocional, ou física. Assim, a indignação causada pelo discurso de ódio pode ser força motora para alguns, mas para outros é profundamente desestimulante e gatilho, de tal maneira que muitas abandonam o ativismo pelos danos psicológicos, morais e emocionais sofridos. Caso ainda resistamos, a fatiga aumenta.

O cansaço gerado pelo labor emocional têm feito surgir contextos como o “Racial Discussion Fatigue Syndrome” (Síndrome de Fatiga da Discussão Racial), ou também o temo “feminista cansada”. Ficamos exaustas, pois somos humanas. E não somos mais fracas por assumir esse cansaço.

As militância feministas estão cada vez mais plurais em visibilidade e vocalização, isso é uma vitória. Contudo, movimentos contrários provavelmente serão proporcionais, assim, vamos principalmente economizar nossas energias para que o ato de militar não seja sempre profundamente exaustivo. E que consigamos sempre ter forças para — acima de tudo — fazer diferença em nossas comunidades.

Mulheres racializadas não tem o DEVER em explicar suas opressões, VOCALIZAR nossas vivências é nosso direito como indivíduos.

Mulheres racializadas não são bibliotecas de consulta livre 24hrs, nosso conhecimento é sim para ser partilhado, mas demande sempre que terceiros façam suas próprias leituras e estudem por si só. A responsabilidade dessa construção social com maior equidade não é apenas nossa.

Nós representamos sim nossa comunidade, mas além do peso desta não poder ser relegado à poucos ombros, focar em apenas alguns discursos fomenta novos estereótipos. Não nos faça de mártires, ou figuras intocáveis.

Devemos escolher nossas lutas com sabedoria. E não por goela abaixo, e não por ser “nossa obrigação”. Ainda, entenda que há várias formas de militar, precisamos reivindicar nossa saúde emocional e compreensão identitária para identificar aquilo que nos potencializa. Talvez sua vocalização seja mais efetiva em micro-política atuando nos núcleos, talvez seu lugar seja no fronte de passeatas com o megafone, talvez seja fazendo textão nas redes sociais; o ideal é que seja algo que tenha sentido para você, e que não te machuque mais do que beneficie.

Ainda, cito a Anne Quiangala, escritora e ativista, idealizadora do Preta, Nerd & Burning Hell:

O autocuidado livre da lógica do individualismo, que nossa sociedade capitalista impõe, é um modo de militância

Entenda seu existir como corpo-mente-espírito-AND-indivíduo político. Faça cortes necessários com pessoas e situações tóxicas. Se alimente bem e durma bem pelo menos três vezes na semana. Faça um detox mental com altas doses de vídeos de gatos. Apoie suas parceiras, peça mais abraços. Enfim.

É muito importante que estejamos bem para assim estarmos sempre fortes.

 
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Ilustrações feitas com exclusividade por Fernanda Garcia (Kissy)
 

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Cindy Sherman e a subversão da “selfie”

Cindy Sherman é principalmente uma multi-artista. A fotógrafa e diretora nova-iorquina transborda por inúmeras plataformas, e através de um olhar irônico, grotesco e imaginativo diante do cotidiano, utiliza o próprio corpo como base para extravasar e materializar personagens existentes em realidades possíveis porém imaginárias.

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Para personificação de múltiplas personalidades, o processo de Cindy vai desde a experimentação em seu próprio corpo de prostéticos para modificação corporal e maquiagem, até uma pesquisa genuína diante do contexto emocional que circunda tais personas.

Este repertório imagético e psicológico guia a postura, olhar e feições da artista quando está diante das câmeras, o que torna a maioria destes auto-retratos assustadores, na conclusão de que podem ser inúmeras as presenças, porém há apenas uma artista.

Cindy já personificou socialites americanas, divas góticas de Hollywood, palhaços assustadores porém humanos, peruas fashionistas. Ela deixou a mídia e o público horrorizados com seu lado grotesco em uma série de fotografias que apresentavam vômito, secreções corporais e sangue – falsos – em composição plástica.

Se não bastasse, ainda interpretou Maria Callas na ópera “Prima Donna” assinada por Rufus Wainwright, colaborou com marcas como Comme des Garçons, M.A.C e ChanelJohn Waters à entrevistou para o catálogo de sua retrospectiva no MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York – disponível on-line), e em 2011, sua obra “Untitled #96” foi leiloada pelo valor mais alto pago à uma fotografia na história, no valor de $3.89 milhões de dólares. Sendo assim, uma das mais bem pagas artistas mulheres da atualidade.

Quanto mais perfeito o artista, maior é a distância entre o indivíduo que sofre e a mente que cria.

Tradução da citação “[…] but, the more perfect the artist, the more completely separate in him will be the man who suffers and the mind which creates”, T.S. Eliot (1888-1965) em “The Sacred Wood” (1921).

No livro “A Vida dos Artistas” (2009), o crítico norte-americano Calvin Tomkis quota o poeta modernista T.S. Eliot para sucintar quão surpreendente é a imensa calma na pessoa da artista, em relação à sua obra subversiva e que causa desconforto para alguns.

Porém, a multiplicidade de Cindy denota uma mente exaustivamente receptiva, que guia a curadoria cuidadosa em seu olhar para compreender e identificar onde está a expressão contemporânea real de sua obra, ainda, como tudo pode ser subjetivo e possível: as ferramentas, as realidades, a criação em si.

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No início de agosto, Cindy Sherman tornou público sua conta no Instagram – até então privada, mesmo existente desde outubro de 2016 – com dezenas de novas imagens representativas ao seu trabalho, ao meio de muitas outras fotografias cotidianas e relacionadas à sua vida pessoal. Assim, o que torna esse repentino “retorno” emocionante, está exatamente no fato das margens diante do que realmente é o lugar da arte e quais suas plataformas ideais estarem novamente borradas.

O digital expandiu as possibilidades de criação da artista que, além da maquiagem e figurino usados normalmente, agora têm aplicado filtros do Instagram e Snapchat, e também utilizado os app’s Facetune e Perfect365 – segundo o jornal The New York Times – para enriquecer suas personificações e modificações corporais com distorções de efeito fish-eye, maquiagens aplicadas digitalmente por facetrack, multiplicadores de faces, e outros efeitos que beiram o bizarro, e com isso demonstram o quanto a própria artista consegue se reinventar.

High on life

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Seja em auto-retrato ou “selfie”, a obra de Cindy é gigantesca, e igualmente importante é sua representatividade criativa como artista mulher na arte contemporânea e mercado de arte, principalmente na vigência da decaída de estruturas patriarcais que ainda inviabilizam a obra de mulheres artistas.

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Ainda, a internet têm sido principal ferramenta de expansão para jovens criadores, e a possibilidade de embasamento desta plataforma por artistas consagrados, permite que cada vez mais as vias de visibilidade e vocalização sejam plurais e dinâmicas.


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