Bela, Recatada e do Lar, minha orelha!

Aí que um grande veículo de comunicação foi lá e fez um perfil da Marcela Temer, mulher do ainda vice-presidente Michel Temer. A reportagem a mostra como sendo uma moça “bela, recatada e do lar”. Até aí tudo bem. Ela pode ser o que ela bem quiser. Aliás, os comentários misóginos que ela sofreu quando apareceu pela primeira vez na grande mídia, na época da posse da presidente Dilma, foram de embrulhar o estômago.

O problema não é a Marcela. Cada mulher deve seguir o modelo que mais lhe agrada. O problema é a exaltação do padrão de vida que ela escolheu como sendo O mais adequado para mulheres. Dizem que ela é uma “mulher de sorte” por ter um marido romântico que a levou para jantar no mês passado. *Nhó *Escorre uma lágrima. Por ser uma mulher bela, que se veste bem, que é low profile… #ANossaGraceKelly QUE SORTE DO TEMER, não é mesmo?

[caption id="attachment_10517" align="aligncenter" width="964"]cerveja queimada Em vez de foto, eles podiam logo ter ilustrado com uma publi dos anos 50. *”Não se preocupe, querida. Você não queimou a cerveja!”[/caption]

 

Chega! Apenas parem!

Ninguém aguenta mais. E graças à Deusa, a internet tem deixado isso bem claro nos últimos dias. Um tsunami de fotos maravilhosamente cagadas invadiram as redes zombando dos padrões aceitados pela #TradicionalFamíliaBrasileira. A hashtag #BelaRecatadaEDoLar virou um dos assuntos mais comentados no Twitter nesta quarta-feira (20/04). E claro que as melhores já viraram Tumblr porque a internet é magnânima.

Este post do Face resume bem o porquê de tudo isso ser machista:

que lokura
Pra terminar, as fotos mais Belas, Recatadas e do Lar de algumas Ovelhas.

barbaramalagoli

barbarawagner
fernandagarcia raphaela_salles

nina tais_bravo estelarosa

anna

Ah, e tó mais essa playlist pra dançar usando saias de tons claros no joelho.

 

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Mais de Ovelha

Dia da visibilidade bissexual

 
Estar escrevendo esse post hoje é uma espécie de artimanha do destino.

Vamos começar do começo: essa semana me vi repentinamente tomada por um vendaval. Ele me possuiu tamanhamente que não consegui descansar por um minuto sequer e me vi possessa como não ficava desde o colegial, quando conhecia algum livro/filme/banda nova, ou, talvez, desde que conheci o feminismo cinco anos atrás. O que aconteceu essa semana foi que, pela primeira vez na vida, comecei a pesquisar a bissexualidade. Pesquisar mesmo, pesquisar coletivos, textos teóricos, todas aquelas coisas que a gente faz quando se reconhece em um movimento ou uma comunidade e se apaixona.

Só que. Só que, eu me identifico como bissexual desde os quatorze anos. Faz doze anos isso. Doze. Hesitei no meu vendaval. Por que ele demorou doze anos para chegar? E mais. Alguns dos meus melhores amigos são bissexuais. Porém, nunca conversamos sobre isso, sobre a comunidade, as nossas dores e vitórias e todas aquelas coisas que conversamos quando nos reconhecemos um no outro. Engraçado, pensei. Quando comecei a me entender por feminista a única coisa que fazia, cem por cento do tempo, era falar sobre feminismo com as pessoas, ainda mais com minhas amigas, e ainda mais com minhas amigas feministas, em busca de criar uma comunidade em torno de mim que refletisse minhas necessidades, em busca de entender melhor, de criar meu próprio feminismo, etc. – basicamente, em busca de me tornar um ser físico presente e visível como feminista. Então por que isso não aconteceu em relação à minha sexualidade? Quanto mais eu pensava sobre o assunto, mais aterrorizada eu ficava. E logo entendi o que aconteceu.

Lembrei de quase todas as conversas que já tive com heterossexuais a respeito de bissexualidade. Apesar de conhecer muitos HT bacanas que não falam isso, a opinião parece ser geral. “Bissexual não existe” me diziam. “A pessoa só tá criando coragem pra se assumir gay ou passando por uma fase.” Mas eu não sou gay, eu pensava, lutando contra a vontade de abanar minha mão na frente do rosto da pessoa para ver se ela estava ou não me enxergando.

Corta para quando conheci o feminismo. Sendo mulher e não me identificando como HT, acabei caindo no nicho das lésbicas/bissexuais. Apesar de conhecer muitas lésbicas bacanas que não falam isso, a opinião parece ser geral. “Não existe bifobia” me diziam. Que é um discurso que cabe muito bem com o discurso hétero, já que se não existem bissexuais, então claro que não existe bifobia. RISOS fim da piada (alô gaslight!). Pior, se me sentia desconfortável com os comentários bi-fóbicos, automaticamente me reprimia, já que me sentia uma traídora por fazer mimimi do preconceito das irmãs.

O que aconteceu é que, é obvio que nunca conversei com ninguém a respeito da bissexualidade, que nunca tentei me estabelecer como indivíduo existente bissexual. Ao meu redor, de todas as comunidades que eu integrava (mesmo as comunidades de suposta resistência contra o patriarcado e a normatividade), ouvia ou que a bissexualidade não existe, ou que ela não é válida – ao menos, não tão válida quanto outras sexualidades. Como se as pessoas no mundo só conhecessem a opção A ou B, e a partir do momento que você não se encaixa em nenhuma das duas, você passa a não ter voz ou a não existir. Ou, em outras palavras, a partir do momento que você não se encaixa em um padrão de relacionamento monossexual, você não existe. Você passa a ser uma espécie de subgrupo, que serve só para fazer volume (“lésbicas/bissexuais”), mas que na hora do vamo-ver é considerado café com leite, como alguém que não conta “de verdade”. Esse tipo de postura faz com que ocorra o que chamamos de apagamento bissexual, em que você convence toda uma parcela da sociedade de que ela não existe, que a luta dela não é tão importante quanto outras, que ela está de mimimi só porque as reivindicações dela são diferentes das suas, ou porque você não passa pelas situações que ela passa e, portanto, não reconhece a validade daquilo. (convenhamos que pessoas heterossexuais e homossexuais geralmente não sofrem preconceito dos parceiros ou da comunidade própria – ou sendo, lésbicas da comunidade lésbica e héteros da comunidade hétero – pela sexualidade deles). Gente, isso nos soa familiar? Não é exatamente o que o patriarcado racista classista faz com a luta feminista todos os dias?

Uma mulher bissexual não precisa estar em um relacionamento com outra mulher para ser bissexual e sofrer bi-fobia, do mesmo jeito que uma lésbica solteira continua lésbica sujeita a lesbofobia. Se eu namoro um homem, continuo bi (não hétero), se eu namoro uma mulher continuo bi (não lésbica). E outra coisa: o preconceito que as mulheres bissexuais enfrentam perante a sociedade não é relativizado em relação às lésbicas, e assumir isso não significa apagar lesbofobia, significa apenas reconhecer que essa merda de homofobia afeta a todas nós. Não existe uma placa na testa das bissexuais dizendo “Oi sou bissexual também fico com homens, ok?” que impede o patriarcado de atacar quando vê duas mulheres andando na rua de mãos dadas. Isso sem contar o preconceito que as mulheres bi enfrentam no meio HT, onde são vistas como objetos de fetiche ou pior, namoradas que tem o duplo potencial de trair o macho e que, por isso, precisam ser vigiadas e corrigidas. O que todas as comunidades precisam entender é que todas as vivências são diferentes, são específicas, mas isso não as torna inferiores ou menos válidas ou menos dolorosas. Chega de submeter a vivência bissexual ao gaslighteamento!

Estatisticamente, bissexuais são a sexualidade com taxa mais alta de suicídio, doenças mentais e ocorrência de estupro. Para se ter uma ideia, em uma pesquisa de 2010, foram registradas ocorrências de estupro em 35% das mulheres hétero, 44% das lésbicas e 61% das mulheres bissexuais americanas. Quando contei para uma amiga minha bissexual que eu ia escrever esse post para o dia da visibilidade bissexual, ela me respondeu: “Sinceramente, o dia da visibilidade bi é uma piada na comunidade LGBT”. Nós duas concordamos tristemente. Que bela piada essa. Talvez, vendo essas estatísticas, possamos passar a existir aos olhos da sociedade monossexual. Se nós não existimos, que pelo menos o nosso sangue derramado exista.

Eu disse lá em cima que eu estar escrevendo esse post hoje é uma espécie de artimanha do destino. Que bela coincidência que foi eu estar me vendo como pessoa bissexual na sociedade (em vez de só na minha esfera pessoal) justamente na semana da visibilidade bissexual. Eu perceber que essa minha sensação de inadequação, de apagamento, de quero me encontrar mas não sei onde estou, vem comigo procurar algum lugar mais calmo (…) tenho quase certeza que eu não sou daqui não é um reflexo da minha sexualidade insuficiente (alô gaslight!) e sim da sociedade monossexista que eu estou integrando. De uma sociedade heterossexual que me rejeita, mas também de uma sociedade homossexual que me rejeita. Gente, o B tá lá, juro que to vendo ele no LGBT. Vocês não?

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perfil da Marcela Temer, mulher do ainda vice-presidente Michel Temer. A reportagem a mostra como sendo uma moça “bela, recatada e do lar”. Até aí tudo bem. Ela pode ser o que ela bem quiser. Aliás, os comentários misóginos que ela sofreu quando apareceu pela primeira vez na grande mídia, na época da posse da presidente Dilma, foram de embrulhar o estômago.

O problema não é a Marcela. Cada mulher deve seguir o modelo que mais lhe agrada. O problema é a exaltação do padrão de vida que ela escolheu como sendo O mais adequado para mulheres. Dizem que ela é uma “mulher de sorte” por ter um marido romântico que a levou para jantar no mês passado. *Nhó *Escorre uma lágrima. Por ser uma mulher bela, que se veste bem, que é low profile… #ANossaGraceKelly QUE SORTE DO TEMER, não é mesmo?

 

Chega! Apenas parem!

Ninguém aguenta mais. E graças à Deusa, a internet tem deixado isso bem claro nos últimos dias. Um tsunami de fotos maravilhosamente cagadas invadiram as redes zombando dos padrões aceitados pela #TradicionalFamíliaBrasileira. A hashtag #BelaRecatadaEDoLar virou um dos assuntos mais comentados no Twitter nesta quarta-feira (20/04). E claro que as melhores já viraram Tumblr porque a internet é magnânima.

Este post do Face resume bem o porquê de tudo isso ser machista:

que lokura
Pra terminar, as fotos mais Belas, Recatadas e do Lar de algumas Ovelhas.

barbaramalagoli

barbarawagner
fernandagarcia raphaela_salles

nina tais_bravo estelarosa

anna

Ah, e tó mais essa playlist pra dançar usando saias de tons claros no joelho.

 

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