Uma geladeira e a importância da empatia

Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez a.k.a. Emily

Em 1979, a designer de produtos Patrícia Moore sugeriu em uma reunião que desenvolvessem uma porta de geladeira que pudesse ser aberta facilmente por pessoas com artrite. Após ter a ideia rejeitada – e desdenhada – pelos colegas e chefia, ela — que na época tinha vinte e poucos anos e era uma das poucas mulheres de uma das maiores agências de publicidades americanas — decidiu fazer um experimento sobre empatia. Vestiu-se como uma mulher de 85 anos para entender melhor como poderia ajudar essas pessoas. Não apenas usou roupas e maquiagem como também óculos que borravam sua visão, tampões nos ouvidos para que não pudesse ouvir direito, além de sapatos desnivelados que exigiam que ela usasse uma bengala.

Patricia Moore disfarçada de velha senhora | Wikimedia
Patricia Moore disfarçada de velha senhora | Wikimedia

Em cerca de quatro anos, ela visitou mais de 100 cidades na América do Norte e descobriu diversos obstáculos. Com base nessas experiências, Patrícia foi capaz de projetar uma série de produtos inovadores, como descascadores de batatas, outros utensílios de cozinha e até… portas de geladeiras. Hoje, ela é considerada a fundadora do design “inclusivo”, com produtos projetados para facilitar a vida de pessoas com todos os tipos de deficiência. Atualmente, aos 60 anos, ela trabalha com planejamento de centros de reabilitação para soldados americanos que retornam das guerras com lesões.

Essa é uma história de muito sucesso da empatia. Que é a habilidade de se colocar no lugar dos outros. Em momentos de instabilidade política, ânimos exaltados e, para mim, que imagino que como você, leva o feminismo como um exercício diário de paciência, essa habilidade nunca se fez tão necessária. Para o filósofo Roman Krznaric, que perdeu a fé no velho modelo de mudar a sociedade através dos partidos, da política e das leis, a empatia é a principal ferramenta para mudanças sociais. E ele entende tanto do assunto, que já prestou consultoria para Oxfam e ONU sobre o assunto.

“Precisamos trazer a empatia para fora do domínio da psicologia, não apenas nas relações cotidianas, mas também na cultura”, disse em entrevista ao Independent. A habilidade, enfim, também está sendo muito valorizada no mercado de trabalho, como mostra a matéria de capa do mês da revista Você S/A [disclosure: que eu ajudei a escrever ;)].

“Os elementos que influenciam na maneira de uma pessoa agir e pensar são inúmeros, como sua origem, crença, história de vida e situações pelas quais passou. Dar conta de perceber esses detalhes faz parte dessa qualidade. (…) ‘É colocar uma lente para entender as coisas a partir da perspectiva do outro”, diz Ana Pliopas, do Instituto Hudson, especializado em coaching, em São Paulo. E é natural do ser humano ter essa capacidade. Na psicologia, o contrário de empatia é a psicopatia. ‘Psicopatia é uma disfunção cerebral em que a pessoa é incapaz de sentir emoções’, diz Pamela Magalhães, psicóloga clínica em São Paulo. ‘Existem graus variados e o mais severo é o que pode se tornar perigoso para a sociedade’. À exceção desses casos, todo mundo tem empatia em menor ou maior grau’, diz trecho da matéria da Você S/A.

OLD BUT GOLD

 

EMPATIA x INDIVIDUALISMO

Um estudo feito na Universidade de Michigan revelou, no entanto, enorme declínio nos níveis de empatia nos jovens americanos entre 1980 e hoje. Não há pesquisas nesse sentido sobre a população brasileira (ou pelo menos eu não encontrei, se souber de alguma, por favor, compartilhe nos comentários =) ). Os pesquisadores atribuem o resultado ao fato de mais pessoas morarem sozinhas e passarem menos tempo envolvidas em atividades sociais e comunitárias que promovem a sensibilidade empática. Psicólogos perceberam também uma ‘epidemia de narcisismo’: um em dez americanos exibe traços narcisistas de personalidade que limitam seu interesse pelas vidas de outras pessoas.

A empatia é o antídoto para o individualismo absorto em si mesmo que herdamos do século passado – Roman Krznaric

Encontrei esse dado no livro, “O Poder da Empatia”, do filósofo Roman Krznaric, que estudou o tema de maneira profunda durante 12 anos. Achei o livro gostoso de ler, característica rara nesses tipos de livro. Uma das partes que mais me interessou foi quando Roman foi além da definição básica de empatia. (Ok, ele faz isso o livro inteiro, mas ces entenderam…) De acordo com ele, a empatia pode ser dividida em duas: empatia cognitiva – que é a capacidade de adotar a perspectiva do outro -, e a empatia afetiva – que é a capacidade de compartilhar as emoções do outro. Por isso, é válido refletir. Às vezes, uma pessoa é boa em uma parte da empatia, mas carece da outra. Roman já propõe uma visão um pouco diferente do psicopata. Ele diz que, na verdade, o psicopata tem, sim, empatia, pois tem a capacidade de adotar a perspectiva do outro e é justamente isso que o/a torna extremamente envolvente e sedutor. A carência do psicopata está na empatia afetiva. Zero feelings. Saca? Ele adota a perspectiva do outro mas não compartilha sentimentos, não se sensibiliza, não se abala…

Uma cena icônica de exercício de empatia pode ser vista no episódio o “diabo na escuridão” de 1968 da série Jornada nas Estrelas. Nele, o personagem Spock usa seus poderes para conectar sua mente à de um monstro que estava matando trabalhadores em uma mina. A intenção era entender o que motivava o ato violento. Descobriu que o monstro estava apenas defendendo sua cria que os mineiros estavam pisoteando sem perceber.

Em um episódio de Star Trek, Spock tenta entender as motivações do monstro que mata os omi tudo
Em Star Trek, Spock tenta entender as motivações do monstro que mata os omi tudo

A teoria de Darwin embasa muitos que argumentam que o ser humano é naturalmente competitivo. Mas outros estudos apontam uma tendência de outros seres e do próprio homem à cooperação, e a empatia seria a chave disso. O primatologista holandês Frans de Waal diz que “a empatia é tão básica para a espécia humana e se desenvolve em idade tão precoce (…) que é improvável que ela só tenha emergido quando nossa linhagem se separou da dos macacos. Por causa de nossa ancestralidade compartilhada, podemos aprender sobre a longa história evolucionária da empatia em seres humanos estudando-a em nossos parentes primatas”, diz trecho do livro de Roman. Em um experimento de De Waal, dois macacos foram postos lado a lado e um deles podia escolher entre duas fichas: uma “egoísta”, em que ele ganhava comida mas o parceiro não; e outra “pró-social”, em que ambos os macacos eram recompensados. Com o tempo, os macacos passaram a preferir a ficha social.

Em outro experimento mais recente, cientistas mostraram a foto de um rapaz afro-americano para um grupo de estudantes universitários e pediram que escrevessem uma narrativa curta sobre um dia típico da vida do jovem. Os grupos foram separados em três. O de controle, recebeu essa única informação, enquanto outro recebeu a instrução de fazer o esforço para se livrar de preconceitos estereotípicos sobre a pessoa ao realizar a tarefa. O último recebeu instruções enfáticas sobre adotar uma visão empática: “Imagine um dia na vida desse indivíduo como se você fosse essa pessoa, olhando para o mundo através dos olhos dele e andando pelo mundo em seu lugar”, diz trecho do livro. Os que adotaram essa perspectiva, tiveram atitudes mais positivas em relação ao rapaz, seguidos pelo grupo que suprimiu os preconceitos e por último do grupo de controle. O experimento foi repetido com a foto de um homem branco idoso e teve o mesmo resultado.

Um dos grandes desafios é conseguir criar empatia com pessoas com as quais você não necessariamente se identifica – e nem mesmo conhece direito. “Claro, a ideia não é que você se torne íntimo de todos a sua volta. Além de exaustivo, isso seria impossível. Mas para conseguir desenvolver uma compreensão empática, é necessário estar aberto e disposto a compreender o outro sem colocar suas próprias ideias e opiniões por cima da interação. Isso exige muita sensibilidade, mas também muita inteligência. Até porque, mesmo que você não sinta aquilo que a pessoa sente, pode entender o que se passa.”, diz outro trecho da matéria. Por isso, deixo aqui algumas dicas que encontrei no livro do Roman que podem te ajudar a desenvolver a habilidade da empatia diariamente:


 

//SEIS HÁBITOS DE PESSOAS EXTREMAMENTE EMPÁTICAS

Durante 12 anos, o filósofo Roman Krznaric analisou pesquisas, entrevistou pessoas e estudou “como as pessoas podem expandir o potencial empático”.

1

Acione seu cérebro empático >> Mudar nossas estruturas mentais para reconhecer a empatia está no cerne da natureza humana e pode ser expandida ao longo de nossas vidas.

2

Dê o salto imaginativo >> Fazer um esforço consciente para colocar-se no lugar de outras pessoas – inclusive de nossos “inimigos” – para reconhecer sua humanidade, individualidade e perspectivas.

3

Busque aventuras experienciais >> Explorar vidas e culturas diferentes das nossas por meio de imersão direta, viagem empática e cooperação social.

4

Pratique a arte da conversação >> Incentivar a curiosidade por estranhos e a escuta radical, e tirar nossas máscaras emocionais

5

Viaje em sua poltrona >> Transportarmo-nos para as mentes de outras pessoas com a ajuda da arte, da literatura, do cinema e das redes sociais na internet.

6

Inspire uma revolução >> Gerar empatia numa escala de massa para promover mudança social e estender nossas habilidades empáticas para abraçar a natureza


 

Perguntado sobre como nutrir esse sentimento em épocas de extremismos? Roman disse: “Nutrir empatia em um local cheio de preconceitos é difícil. A saída para isso é alimentar a curiosidade pelo outro. Nós não conversamos com quem não conhecemos. Esse seria um belo exercício de sensibilização. Ficamos muito tempo com pessoas que são como nós”. (Isso também vale para nossa vida online — se é que ainda é possível fazer essa divisão entre vida online e offline, mas enfim…) Deixo de brinde este vídeo da Chimamanda Adichie, em que ela fala um pouco sobre essa questão da bolha e sobre empatia que outros tiveram com ela e que ela também teve com os outros.

É difícil, é cansativo, mas nunca foi tão necessário. Vamos juntas.


 

Para saber mais:

*Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez a.k.a. Emily

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