Uma geladeira e a importância da empatia

Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez a.k.a. Emily

Em 1979, a designer de produtos Patrícia Moore sugeriu em uma reunião que desenvolvessem uma porta de geladeira que pudesse ser aberta facilmente por pessoas com artrite. Após ter a ideia rejeitada – e desdenhada – pelos colegas e chefia, ela — que na época tinha vinte e poucos anos e era uma das poucas mulheres de uma das maiores agências de publicidades americanas — decidiu fazer um experimento sobre empatia. Vestiu-se como uma mulher de 85 anos para entender melhor como poderia ajudar essas pessoas. Não apenas usou roupas e maquiagem como também óculos que borravam sua visão, tampões nos ouvidos para que não pudesse ouvir direito, além de sapatos desnivelados que exigiam que ela usasse uma bengala.

[caption id="attachment_10478" align="aligncenter" width="326"]Patricia Moore disfarçada de velha senhora | Wikimedia Patricia Moore disfarçada de velha senhora | Wikimedia[/caption]

Em cerca de quatro anos, ela visitou mais de 100 cidades na América do Norte e descobriu diversos obstáculos. Com base nessas experiências, Patrícia foi capaz de projetar uma série de produtos inovadores, como descascadores de batatas, outros utensílios de cozinha e até… portas de geladeiras. Hoje, ela é considerada a fundadora do design “inclusivo”, com produtos projetados para facilitar a vida de pessoas com todos os tipos de deficiência. Atualmente, aos 60 anos, ela trabalha com planejamento de centros de reabilitação para soldados americanos que retornam das guerras com lesões.

Essa é uma história de muito sucesso da empatia. Que é a habilidade de se colocar no lugar dos outros. Em momentos de instabilidade política, ânimos exaltados e, para mim, que imagino que como você, leva o feminismo como um exercício diário de paciência, essa habilidade nunca se fez tão necessária. Para o filósofo Roman Krznaric, que perdeu a fé no velho modelo de mudar a sociedade através dos partidos, da política e das leis, a empatia é a principal ferramenta para mudanças sociais. E ele entende tanto do assunto, que já prestou consultoria para Oxfam e ONU sobre o assunto.

“Precisamos trazer a empatia para fora do domínio da psicologia, não apenas nas relações cotidianas, mas também na cultura”, disse em entrevista ao Independent. A habilidade, enfim, também está sendo muito valorizada no mercado de trabalho, como mostra a matéria de capa do mês da revista Você S/A [disclosure: que eu ajudei a escrever ;)].

“Os elementos que influenciam na maneira de uma pessoa agir e pensar são inúmeros, como sua origem, crença, história de vida e situações pelas quais passou. Dar conta de perceber esses detalhes faz parte dessa qualidade. (…) ‘É colocar uma lente para entender as coisas a partir da perspectiva do outro”, diz Ana Pliopas, do Instituto Hudson, especializado em coaching, em São Paulo. E é natural do ser humano ter essa capacidade. Na psicologia, o contrário de empatia é a psicopatia. ‘Psicopatia é uma disfunção cerebral em que a pessoa é incapaz de sentir emoções’, diz Pamela Magalhães, psicóloga clínica em São Paulo. ‘Existem graus variados e o mais severo é o que pode se tornar perigoso para a sociedade’. À exceção desses casos, todo mundo tem empatia em menor ou maior grau’, diz trecho da matéria da Você S/A.

OLD BUT GOLD

 

EMPATIA x INDIVIDUALISMO

Um estudo feito na Universidade de Michigan revelou, no entanto, enorme declínio nos níveis de empatia nos jovens americanos entre 1980 e hoje. Não há pesquisas nesse sentido sobre a população brasileira (ou pelo menos eu não encontrei, se souber de alguma, por favor, compartilhe nos comentários =) ). Os pesquisadores atribuem o resultado ao fato de mais pessoas morarem sozinhas e passarem menos tempo envolvidas em atividades sociais e comunitárias que promovem a sensibilidade empática. Psicólogos perceberam também uma ‘epidemia de narcisismo’: um em dez americanos exibe traços narcisistas de personalidade que limitam seu interesse pelas vidas de outras pessoas.

A empatia é o antídoto para o individualismo absorto em si mesmo que herdamos do século passado – Roman Krznaric

Encontrei esse dado no livro, “O Poder da Empatia”, do filósofo Roman Krznaric, que estudou o tema de maneira profunda durante 12 anos. Achei o livro gostoso de ler, característica rara nesses tipos de livro. Uma das partes que mais me interessou foi quando Roman foi além da definição básica de empatia. (Ok, ele faz isso o livro inteiro, mas ces entenderam…) De acordo com ele, a empatia pode ser dividida em duas: empatia cognitiva – que é a capacidade de adotar a perspectiva do outro -, e a empatia afetiva – que é a capacidade de compartilhar as emoções do outro. Por isso, é válido refletir. Às vezes, uma pessoa é boa em uma parte da empatia, mas carece da outra. Roman já propõe uma visão um pouco diferente do psicopata. Ele diz que, na verdade, o psicopata tem, sim, empatia, pois tem a capacidade de adotar a perspectiva do outro e é justamente isso que o/a torna extremamente envolvente e sedutor. A carência do psicopata está na empatia afetiva. Zero feelings. Saca? Ele adota a perspectiva do outro mas não compartilha sentimentos, não se sensibiliza, não se abala…

Uma cena icônica de exercício de empatia pode ser vista no episódio o “diabo na escuridão” de 1968 da série Jornada nas Estrelas. Nele, o personagem Spock usa seus poderes para conectar sua mente à de um monstro que estava matando trabalhadores em uma mina. A intenção era entender o que motivava o ato violento. Descobriu que o monstro estava apenas defendendo sua cria que os mineiros estavam pisoteando sem perceber.

[caption id="attachment_10480" align="aligncenter" width="1000"]Em um episódio de Star Trek, Spock tenta entender as motivações do monstro que mata os omi tudo Em Star Trek, Spock tenta entender as motivações do monstro que mata os omi tudo[/caption]

A teoria de Darwin embasa muitos que argumentam que o ser humano é naturalmente competitivo. Mas outros estudos apontam uma tendência de outros seres e do próprio homem à cooperação, e a empatia seria a chave disso. O primatologista holandês Frans de Waal diz que “a empatia é tão básica para a espécia humana e se desenvolve em idade tão precoce (…) que é improvável que ela só tenha emergido quando nossa linhagem se separou da dos macacos. Por causa de nossa ancestralidade compartilhada, podemos aprender sobre a longa história evolucionária da empatia em seres humanos estudando-a em nossos parentes primatas”, diz trecho do livro de Roman. Em um experimento de De Waal, dois macacos foram postos lado a lado e um deles podia escolher entre duas fichas: uma “egoísta”, em que ele ganhava comida mas o parceiro não; e outra “pró-social”, em que ambos os macacos eram recompensados. Com o tempo, os macacos passaram a preferir a ficha social.

Em outro experimento mais recente, cientistas mostraram a foto de um rapaz afro-americano para um grupo de estudantes universitários e pediram que escrevessem uma narrativa curta sobre um dia típico da vida do jovem. Os grupos foram separados em três. O de controle, recebeu essa única informação, enquanto outro recebeu a instrução de fazer o esforço para se livrar de preconceitos estereotípicos sobre a pessoa ao realizar a tarefa. O último recebeu instruções enfáticas sobre adotar uma visão empática: “Imagine um dia na vida desse indivíduo como se você fosse essa pessoa, olhando para o mundo através dos olhos dele e andando pelo mundo em seu lugar”, diz trecho do livro. Os que adotaram essa perspectiva, tiveram atitudes mais positivas em relação ao rapaz, seguidos pelo grupo que suprimiu os preconceitos e por último do grupo de controle. O experimento foi repetido com a foto de um homem branco idoso e teve o mesmo resultado.

Um dos grandes desafios é conseguir criar empatia com pessoas com as quais você não necessariamente se identifica – e nem mesmo conhece direito. “Claro, a ideia não é que você se torne íntimo de todos a sua volta. Além de exaustivo, isso seria impossível. Mas para conseguir desenvolver uma compreensão empática, é necessário estar aberto e disposto a compreender o outro sem colocar suas próprias ideias e opiniões por cima da interação. Isso exige muita sensibilidade, mas também muita inteligência. Até porque, mesmo que você não sinta aquilo que a pessoa sente, pode entender o que se passa.”, diz outro trecho da matéria. Por isso, deixo aqui algumas dicas que encontrei no livro do Roman que podem te ajudar a desenvolver a habilidade da empatia diariamente:


 

//SEIS HÁBITOS DE PESSOAS EXTREMAMENTE EMPÁTICAS

Durante 12 anos, o filósofo Roman Krznaric analisou pesquisas, entrevistou pessoas e estudou “como as pessoas podem expandir o potencial empático”.

1

Acione seu cérebro empático >> Mudar nossas estruturas mentais para reconhecer a empatia está no cerne da natureza humana e pode ser expandida ao longo de nossas vidas.

2

Dê o salto imaginativo >> Fazer um esforço consciente para colocar-se no lugar de outras pessoas – inclusive de nossos “inimigos” – para reconhecer sua humanidade, individualidade e perspectivas.

3

Busque aventuras experienciais >> Explorar vidas e culturas diferentes das nossas por meio de imersão direta, viagem empática e cooperação social.

4

Pratique a arte da conversação >> Incentivar a curiosidade por estranhos e a escuta radical, e tirar nossas máscaras emocionais

5

Viaje em sua poltrona >> Transportarmo-nos para as mentes de outras pessoas com a ajuda da arte, da literatura, do cinema e das redes sociais na internet.

6

Inspire uma revolução >> Gerar empatia numa escala de massa para promover mudança social e estender nossas habilidades empáticas para abraçar a natureza


 

Perguntado sobre como nutrir esse sentimento em épocas de extremismos? Roman disse: “Nutrir empatia em um local cheio de preconceitos é difícil. A saída para isso é alimentar a curiosidade pelo outro. Nós não conversamos com quem não conhecemos. Esse seria um belo exercício de sensibilização. Ficamos muito tempo com pessoas que são como nós”. (Isso também vale para nossa vida online — se é que ainda é possível fazer essa divisão entre vida online e offline, mas enfim…) Deixo de brinde este vídeo da Chimamanda Adichie, em que ela fala um pouco sobre essa questão da bolha e sobre empatia que outros tiveram com ela e que ela também teve com os outros.

É difícil, é cansativo, mas nunca foi tão necessário. Vamos juntas.


 

Para saber mais:

*Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez a.k.a. Emily

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Daniela e o povo Tupinambá

E se você fosse responsável por trazer visibilidade aos invisíveis? Daniela Alarcon, antropóloga e jornalista, trabalha desde 2010 com o povo indígena Tupinambá de Olivença. Junto com a cinegrafista e documentarista Fernanda Ligabue, elas estão na reta final da captação de recursos no Catarse para conseguir realizar um documentário sobre a luta desse povo por sua terra, na tentativa de por um holofote em uma situação que a maioria dos brasileiros desconhece.

A jornalista Anna Carolina Rodrigues, colaboradora Ovelha, entrevistou Daniela para saber um pouco mais sobre sua experiência e envolvimento com a causa Tupinambá.
 

 

Como surgiu seu interesse pelo tema indígena e Tupinambá?

Tive contato com esse grupo dos Tupinambá em 2010. Sou formada em Jornalismo, mas tava mudando um pouco de área. Estava muito interessada em Antropologia e História e queria trabalhar com algum tema relacionado à questão indígena contemporânea. Bem naquela época, a situação dos Tupinambá tava muito complicada. Três lideranças foram presas na aldeia onde eu pesquiso, no sul da Bahia, perto do município de Ilhéus. Tava tendo ataque da Polícia Federal direto, então o caso ficou meio conhecido. Eu estava procurando temas de pesquisa para um mestrado e a situação deles estava muito em evidência e acabei indo para lá conhecê-los. Fiz mestrado em Ciências Sociais, na Universidade de Brasília. Eles também tinham interesse no estudo que eu queria desenvolver e aí rolou.

 
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Mas como você foi parar lá?

Na época da graduação eu fazia Jornalismo e cursei outras disciplinas fora, na História, Antropologia, Letras. Acho que comecei a me aproximar desse tema pela literatura, porque comecei a ler alguns autores peruanos, bolivianos, que tem a questão indígena muito presente. Acho que foi por aí. Um de que eu gosto muito, peruano, é o Arguedas. Ele era antropólogo também e isso aparece muito na obra dele. Acho que para os escritores ali da região andina, é difícil escapar desse tema. É muito forte essa identidade. Depois comecei a viajar, a me interessar. O contato no Brasil veio um pouco depois. Fui para Brasília trabalhar na Secretaria de Políticas para Mulheres e lá eu trabalhava com mulheres ribeirinhas, indígenas, quilombolas. E foi aí que eu realmente comecei a ter um contato com a vida real dessas populações no Brasil hoje. Antes eu só lia sobre isso.

 
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Que lugares você visitou?

A trabalho pela Secretaria eu fui pro sul da Bahia. Não só com os Tupinambá, mas também com os Pataxó hã hã hãe.  Além disso, visitei outras regiões, Roraima, por exemplo, que tem a Raposo Serra do Sol, uma terra indígena bem grande na fronteira com a Guiana e com a Venezuela. Fui lá participar de um encontro de mulheres e comecei a me aproximar mais, a entender quais são os principais conflitos que acontecem hoje, quais os direitos indígenas e o que está rolando do ponto de vista político.

 
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O que você viu de mais impressionante em relação à figura feminina nesses povos?

Uma coisa que acho importante e que percebi em diversos contextos é que a violência da entrada do branco nos territórios indígenas atinge as mulheres de uma forma bem particular. Se por um lado atinge o povo inteiro, porque todo mundo perde a terra e o acesso à sua forma de vida. As mulheres são sempre vítimas de estupros, de casamentos indesejados, muitas vezes são levadas para ser empregadas domésticas… Então a condição delas como mulheres faz com que elas sejam vítimas de uma dupla violência. E ao mesmo tempo, hoje tem várias lideranças femininas e mulheres indígenas que se destacam e que estão fazendo um debate de gênero, só que em outros termos. Muitas delas não são mulheres urbanas, é outro contexto. Mas em todos os lugares, vi que elas tentavam construir uma forma própria de lidar com a questão de gênero. Às vezes, mais interessante do que talvez a nossa.

Existe o debate. Tem machismo? Tem… mas ao mesmo tempo, acho que seria bastante autoritário e pouco eficaz que eu, como uma mulher branca, do lado de quem expropriou e roubou a terra, invadiu tudo, impusesse minha visão do que eu acho que são os papéis de gênero, do que é o certo e errado. Acho que é muito mais interessante a gente ter esse diálogo para que as mulheres construam a partir da experiência delas. Até porque elas tem experiências super interessantes. Às vezes, em algumas comunidades o cuidado dos filhos é muito mais partilhado do que na nossa, sabe?  Nos próprios Tupinambá, essa figura da mãe solteira que tem que se “matar” e cuidar do filho sozinha e passa o maior perrengue não existe nessa aldeia que eu pesquiso. A criança é vista como uma responsabilidade de todo mundo. Esse cuidado é muito mais dividido. Essas mulheres trabalham, tem essas atividades comunitárias. É super comum ver homens, um tio, primo, ou irmão, cuidando de um bebê de formas que a gente não costuma ver por aqui.

 

 

Qual história te marcou?

Tem uma história que vamos abordar no filme. Um senhor me contou uma vez que ele estava engajado nesse processo por causa da mãe dele. Ela era nascida e criada ali e ele ainda encontrava na mata ramas de gengibre que ela tinha plantado. Mesmo ela já tendo morrido há alguns anos, aquilo ainda estava ali. Eu achei essa história muito significativa porque a conexão dele com aquela terra passava por esse trabalho da mãe dele ali na mata. Era algo que ainda continuava fazendo uma ligação afetiva dele com o território e que empurrava ele para a luta. A mãe dele tinha sido espacanda por políciais quando ainda era nova. Nos anos 30, houve uma revolta indígena na região que foi bem reprimida. A polícia acabou agredindo a mãe desse senhor enquanto buscava os principais líderes. Essa é só uma das histórias que eu sempre ouço de mulheres que são tidas como figuras que resistiram, apesar de terem sofrido muito. Ficaram na área e são lembradas o tempo todo.

 
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Você disse que as mulheres desenvolvem maneiras próprias de lidar. Pode me dar alguns exemplos?

A memória das mulheres, por exemplo, é muito acionada. Nessa região do sul da Bahia teve uma penetração muito grande de não índios a partir do século 19, porque era região do cacau. Entraram muitos homens brancos ou negros e alguns deles acabaram se casando, ficando por lá e se tornando um povo misturado. Mas geralmente a origem indígena tá no lado materno e isso é muito forte. Isso concede às mulheres que estão lá hoje um papel na sociedade, um peso na condição delas. Como se fossem meio que guardiãs da memória, que foram herdando das mães, avós e bisavós vários conhecimentos tradicionais. Isso coloca elas em uma posição de importância na aldeia. Por exemplo, lá na Serra do Padeiro, tanto a diretora quanto a vice-diretora da escola são mulheres indígenas. São cargos de poder ocupados por mulheres. Não sei sinceramente se todo mundo está de acordo, mas elas são muito respeitadas e conseguiram virar referência. Embora o cacique nessa aldeia seja um homem.

 

 

Por que você decidiu fazer o filme?

Eu já estava trabalhando na região desde 2010. Como eu tinha essa formação anterior de jornalista, eu sempre fazia um esforço de escrever um artigo ou de tentar pautar algum colega para olhar para o que está acontecendo lá. Isso para a gente não ficar falando só na Academia e nos Congressos. Agora, a demarcação lá está parada e a conjuntura da política indigenista brasileira está muito ruim. O Leonardo Sakamoto, da Repórter Brasil, que eu já conhecia da época da USP, tinha comentado de fazer um documentário. Eu tinha achado uma ótima ideia, mas nunca tínhamos tempo, até que de 2013 para 2014 o governo Dilma mandou o exército para lá e fez uma ocupação militar da área dos Tupinambá. A gente, então, achou que era a hora de filmar, que não dava para esperar mais. Queríamos que mais gente soubesse o que estava acontecendo.

 
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Por que fazer sobre os Tupinambá e não sobre outro povo?

Simplesmente porque eu trabalho com eles. Mas o Brasil inteiro é cheio de situações que mereceriam mais visibilidade. Vários outros filmes deveriam ser feitos sobre a questão indígena hoje. Essa situação de expropriação e não garantia de direitos acontece em toda parte.

 

 

Quais seus próximos passos?

Estou morando no Rio de Janeiro há três anos e estou começando um doutorado em antropologia social no Museu Nacional, na UFRJ. Vou continuar estudando a questão dos Tupinambá. No mestrado eu pesquisei as retomadas de terra, dos índios ocuparem as fazendas em regiões que tinham sido tomadas. Eu tinha começado a refletir sobre essa forma de luta e agora quero ler mais teoria, ir pra lá de novo. O que me interessa mais são essas maneiras de luta que os povos indígenas desenvolvem para tentar recuperar o próprio território.

 


 
A captação de recursos no Catarse está na reta final. O projeto tem somente até domingo para conseguir pelo menos mais R$ 1300. Contamos com sua ajuda para doar ou divulgar o documentário.

Leia mais
de paciência, essa habilidade nunca se fez tão necessária. Para o filósofo Roman Krznaric, que perdeu a fé no velho modelo de mudar a sociedade através dos partidos, da política e das leis, a empatia é a principal ferramenta para mudanças sociais. E ele entende tanto do assunto, que já prestou consultoria para Oxfam e ONU sobre o assunto.

“Precisamos trazer a empatia para fora do domínio da psicologia, não apenas nas relações cotidianas, mas também na cultura”, disse em entrevista ao Independent. A habilidade, enfim, também está sendo muito valorizada no mercado de trabalho, como mostra a matéria de capa do mês da revista Você S/A [disclosure: que eu ajudei a escrever ;)].

“Os elementos que influenciam na maneira de uma pessoa agir e pensar são inúmeros, como sua origem, crença, história de vida e situações pelas quais passou. Dar conta de perceber esses detalhes faz parte dessa qualidade. (…) ‘É colocar uma lente para entender as coisas a partir da perspectiva do outro”, diz Ana Pliopas, do Instituto Hudson, especializado em coaching, em São Paulo. E é natural do ser humano ter essa capacidade. Na psicologia, o contrário de empatia é a psicopatia. ‘Psicopatia é uma disfunção cerebral em que a pessoa é incapaz de sentir emoções’, diz Pamela Magalhães, psicóloga clínica em São Paulo. ‘Existem graus variados e o mais severo é o que pode se tornar perigoso para a sociedade’. À exceção desses casos, todo mundo tem empatia em menor ou maior grau’, diz trecho da matéria da Você S/A.

OLD BUT GOLD

 

EMPATIA x INDIVIDUALISMO

Um estudo feito na Universidade de Michigan revelou, no entanto, enorme declínio nos níveis de empatia nos jovens americanos entre 1980 e hoje. Não há pesquisas nesse sentido sobre a população brasileira (ou pelo menos eu não encontrei, se souber de alguma, por favor, compartilhe nos comentários =) ). Os pesquisadores atribuem o resultado ao fato de mais pessoas morarem sozinhas e passarem menos tempo envolvidas em atividades sociais e comunitárias que promovem a sensibilidade empática. Psicólogos perceberam também uma ‘epidemia de narcisismo’: um em dez americanos exibe traços narcisistas de personalidade que limitam seu interesse pelas vidas de outras pessoas.

A empatia é o antídoto para o individualismo absorto em si mesmo que herdamos do século passado – Roman Krznaric

Encontrei esse dado no livro, “O Poder da Empatia”, do filósofo Roman Krznaric, que estudou o tema de maneira profunda durante 12 anos. Achei o livro gostoso de ler, característica rara nesses tipos de livro. Uma das partes que mais me interessou foi quando Roman foi além da definição básica de empatia. (Ok, ele faz isso o livro inteiro, mas ces entenderam…) De acordo com ele, a empatia pode ser dividida em duas: empatia cognitiva – que é a capacidade de adotar a perspectiva do outro -, e a empatia afetiva – que é a capacidade de compartilhar as emoções do outro. Por isso, é válido refletir. Às vezes, uma pessoa é boa em uma parte da empatia, mas carece da outra. Roman já propõe uma visão um pouco diferente do psicopata. Ele diz que, na verdade, o psicopata tem, sim, empatia, pois tem a capacidade de adotar a perspectiva do outro e é justamente isso que o/a torna extremamente envolvente e sedutor. A carência do psicopata está na empatia afetiva. Zero feelings. Saca? Ele adota a perspectiva do outro mas não compartilha sentimentos, não se sensibiliza, não se abala…

Uma cena icônica de exercício de empatia pode ser vista no episódio o “diabo na escuridão” de 1968 da série Jornada nas Estrelas. Nele, o personagem Spock usa seus poderes para conectar sua mente à de um monstro que estava matando trabalhadores em uma mina. A intenção era entender o que motivava o ato violento. Descobriu que o monstro estava apenas defendendo sua cria que os mineiros estavam pisoteando sem perceber.

A teoria de Darwin embasa muitos que argumentam que o ser humano é naturalmente competitivo. Mas outros estudos apontam uma tendência de outros seres e do próprio homem à cooperação, e a empatia seria a chave disso. O primatologista holandês Frans de Waal diz que “a empatia é tão básica para a espécia humana e se desenvolve em idade tão precoce (…) que é improvável que ela só tenha emergido quando nossa linhagem se separou da dos macacos. Por causa de nossa ancestralidade compartilhada, podemos aprender sobre a longa história evolucionária da empatia em seres humanos estudando-a em nossos parentes primatas”, diz trecho do livro de Roman. Em um experimento de De Waal, dois macacos foram postos lado a lado e um deles podia escolher entre duas fichas: uma “egoísta”, em que ele ganhava comida mas o parceiro não; e outra “pró-social”, em que ambos os macacos eram recompensados. Com o tempo, os macacos passaram a preferir a ficha social.

Em outro experimento mais recente, cientistas mostraram a foto de um rapaz afro-americano para um grupo de estudantes universitários e pediram que escrevessem uma narrativa curta sobre um dia típico da vida do jovem. Os grupos foram separados em três. O de controle, recebeu essa única informação, enquanto outro recebeu a instrução de fazer o esforço para se livrar de preconceitos estereotípicos sobre a pessoa ao realizar a tarefa. O último recebeu instruções enfáticas sobre adotar uma visão empática: “Imagine um dia na vida desse indivíduo como se você fosse essa pessoa, olhando para o mundo através dos olhos dele e andando pelo mundo em seu lugar”, diz trecho do livro. Os que adotaram essa perspectiva, tiveram atitudes mais positivas em relação ao rapaz, seguidos pelo grupo que suprimiu os preconceitos e por último do grupo de controle. O experimento foi repetido com a foto de um homem branco idoso e teve o mesmo resultado.

Um dos grandes desafios é conseguir criar empatia com pessoas com as quais você não necessariamente se identifica – e nem mesmo conhece direito. “Claro, a ideia não é que você se torne íntimo de todos a sua volta. Além de exaustivo, isso seria impossível. Mas para conseguir desenvolver uma compreensão empática, é necessário estar aberto e disposto a compreender o outro sem colocar suas próprias ideias e opiniões por cima da interação. Isso exige muita sensibilidade, mas também muita inteligência. Até porque, mesmo que você não sinta aquilo que a pessoa sente, pode entender o que se passa.”, diz outro trecho da matéria. Por isso, deixo aqui algumas dicas que encontrei no livro do Roman que podem te ajudar a desenvolver a habilidade da empatia diariamente:


 

//SEIS HÁBITOS DE PESSOAS EXTREMAMENTE EMPÁTICAS

Durante 12 anos, o filósofo Roman Krznaric analisou pesquisas, entrevistou pessoas e estudou “como as pessoas podem expandir o potencial empático”.

1

Acione seu cérebro empático >> Mudar nossas estruturas mentais para reconhecer a empatia está no cerne da natureza humana e pode ser expandida ao longo de nossas vidas.

2

Dê o salto imaginativo >> Fazer um esforço consciente para colocar-se no lugar de outras pessoas – inclusive de nossos “inimigos” – para reconhecer sua humanidade, individualidade e perspectivas.

3

Busque aventuras experienciais >> Explorar vidas e culturas diferentes das nossas por meio de imersão direta, viagem empática e cooperação social.

4

Pratique a arte da conversação >> Incentivar a curiosidade por estranhos e a escuta radical, e tirar nossas máscaras emocionais

5

Viaje em sua poltrona >> Transportarmo-nos para as mentes de outras pessoas com a ajuda da arte, da literatura, do cinema e das redes sociais na internet.

6

Inspire uma revolução >> Gerar empatia numa escala de massa para promover mudança social e estender nossas habilidades empáticas para abraçar a natureza


 

Perguntado sobre como nutrir esse sentimento em épocas de extremismos? Roman disse: “Nutrir empatia em um local cheio de preconceitos é difícil. A saída para isso é alimentar a curiosidade pelo outro. Nós não conversamos com quem não conhecemos. Esse seria um belo exercício de sensibilização. Ficamos muito tempo com pessoas que são como nós”. (Isso também vale para nossa vida online — se é que ainda é possível fazer essa divisão entre vida online e offline, mas enfim…) Deixo de brinde este vídeo da Chimamanda Adichie, em que ela fala um pouco sobre essa questão da bolha e sobre empatia que outros tiveram com ela e que ela também teve com os outros.

É difícil, é cansativo, mas nunca foi tão necessário. Vamos juntas.


 

Para saber mais:

*Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez a.k.a. Emily

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