Quero ser: Bruna Pereira

Ovelhas, esse é mais um texto da série Quero Ser, uma série que surgiu da vontade de falarmos mais sobre as carreiras e as trajetórias profissionais de mulheres que têm carreiras incríveis. A entrevistada de hoje é a Bruna Pereira. Ela é formada em Relações Internacionais, tem Mestrado em Sociologia e atualmente cursa Doutorado na mesma área e tá pesquisando relacionamentos afetivo-sexuais de mulheres negras.

Nesta entrevista conversamos sobre várias coisas (mesmo)! A Bruna conta como ir pra universidade foi importante para ela, sobre como as mulheres negras universitárias lidam com muito isolamento intelectual (além de racismo e machismo), sobre o racismo presente na academia e como se posicionar contra ele.

A Bruna também é coordenadora do Grupo de Estudos Mulheres Negras na UnB e fala de como ele se tornou um importante espaço para reflexão para mulheres negras, que quase sempre chegam ao grupo traumatizadas por experiências anteriores na universidade. A gente também aprende um pouco sobre o mestrado da Bruna – que é sobre violência doméstica contra mulheres negras.

Leiam que tá incrível!

 


 
OVELHA: Será que você pode me contar um pouco da sua história? Quem você é, de onde veio, o que você faz?

Bruna Pereira: Eu nasci e cresci em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Fiz a Graduação em Relações Internacionais na Unesp e depois morei por 4 anos na capital paulista. Em 2011, me mudei para Brasília para cursar o Mestrado em Sociologia na UnB. Nessa altura, eu já tinha interesse em estudar relações de gênero e tive um primeiro contato com o feminismo negro. Atualmente, curso o Doutorado em Sociologia, também na UnB, e pesquiso relacionamentos afetivo-sexuais de mulheres negras. Além disso, coordeno o Grupo de Estudos Mulheres Negras, na mesma universidade, e sou Coordenadora das Atividades Formativas (mesas-redondas, conferências e oficinas) do Latinidades – Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha.

OVELHA: Como você escolheu sua área de atuação? Por quê escolheu estudar Relações Internacionais? Quando você entrou na universidade, já pretendia seguir uma carreira acadêmica? Como se envolveu com a temática de gênero? Como começou a estudar as temáticas relacionadas às mulheres negras?

Bruna Pereira: Sempre gostei muito de ler e de estudar, e achava que iria para a área de Exatas: Química, Engenharia. Ou talvez Biologia. Mas eu gostava também das Ciências Humanas. Na verdade, foi bem difícil para mim escolher o caminho que seguiria, então acho que o curso Relações Internacionais, por ter disciplinas bem diversificadas, me pareceu uma opção: eu poderia ter acesso a uma gama mais amplas de temas e estudos. E tinha também uma curiosidade muito grande por compreender as lógicas internas das sociedades. Só mais tarde, quando já estava no Mestrado, entendi que sempre tinha me identificado com as Ciências Sociais. Sabe como são essas coisas em nossas famílias: poucos/as já tinham ido para a universidade e, mesmo tendo acesso a uma boa educação escolar, eu não entendia muito bem o que se fazia na Antropologia ou na Sociologia. Então demorei um pouco para me encontrar. Não me arrependo: acho que a formação diversificada me trouxe perspectivas diferentes de análise e a possibilidade de ver para além das fronteiras das disciplinas.

OVELHA: Você concluiu sua graduação na UNESP em 2005, né? Como foi o processo de entrada na Universidade? O racismo e o machismo estão presentes nas trajetórias acadêmicas de muitas de nós, mulheres negras. Você teve/tem que lidar com isso nas instituições que você frequentou/frequenta? Se sim, como foi essa experiência?

Bruna Pereira: Isso mesmo, me formei em 2005. Ir para a universidade foi, para mim, importantíssimo: fiz algumas das minhas mais sólidas amizades, tive que lidar (com os/as colegas) com as dificuldades de compor a primeira turma do curso, conheci e integrei movimentos sociais, descobri que gostava de temas e disciplinas que antes desprezava, tive acesso a todo um mundo de conhecimento e a alguns excelentes professores. Foi um período em que horizontes se expandiram, portas se abriram e muitas coisas ganharam um novo sentido.

Porém, como sabemos bem, o racismo e o machismo fazem parte de nossas experiências também nas universidades.

Como eu vinha de uma cidade muito branca e tinha estudado em escola particular, convivi com mais negros/as na graduação – principalmente, de outros cursos – do que em qualquer período anterior da minha vida escolar. Então sentia um certo alívio, o que não significa que não tenha passado por discriminação e racismo. Porém, pela primeira vez, havia um grupo mais amplo com o qual podia me identificar. E sofríamos também muito com o machismo, pois havia um estuprador que atacava estudantes em Franca e os discursos da direção do campus e da polícia eram extremamente reacionários e conservadores, e responsabilizar as vítimas era a regra.

No Mestrado e no Doutorado, meus interesses de pesquisa têm sido cada vez mais direcionados para estudar raça e racismo (em intersecção com gênero), e isso tem muito a ver com as situações que vivemos cotidianamente nas universidades. O meu departamento pode ser considerado relativamente progressistas quanto a alguns assuntos, sobretudo na questão racial: há alguns anos, temos ações afirmativas para acesso à pós-graduação; alguns/mas professores/as e alguns/as colegas brancos/as são grandes aliados/as.

No entanto, como muitas vezes acontece nos setores politicamente progressistas da sociedade brasileira, me parece que existe uma acomodação por parte dos/as brancos/as, um sentimento de que a “justiça já foi feita”, uma expectativa de que nós, estudantes negros/as, nos contentemos com as medidas tomadas.

Então, é bem frequente que mesmo alguns/mas dos/as aliados/as apresentem resistência quando apontamos deficiências nessas medidas ou então quando indicamos outros problemas enormes, tais como: a reprodução sistemática e não problematizada do racismo pela bibliografia canônica, a ausência de autores/as negros/as nos programas de disciplinas, o desconhecimento dos/as professores/as sobre intelectuais negros/as (que resulta em uma orientação empobrecida e racialmente enviesada àqueles/as que querem estudar relações raciais), a composição racial do quadro docente, os comentários racistas de professores/as, a baixa expectativa de orientadores/as quanto a estudantes negros/as (e uma orientação consequentemente menos dedicada), entre muitos outros.

Parece haver uma fixação em modelos antigos de relações raciais entre negros/as e brancos/as, em que brancos/as esperam (ou exigem) a nossa gratidão por apoiarem algumas poucas medidas anti-racistas, francamente insuficientes.

No meu caso, quis terminar todas as disciplinas no primeiro ano do doutorado, e isso teve muito a ver com a bibliografia do curso. As pessoas negras muitas vezes não estão presentes, como autoras ou nos textos, e sabemos que, quando não há referência à raça, fala-se sobretudo a respeito das experiências de pessoas brancas. Quando aparecem, estão submetidas a desgraças e sofrimentos desumanos, exclusivamente, alimentando o regozijo e a perversidade racistas.

Na bibliografia brasileira, são frequentes as caracterizações racistas dos/as negros/as, que ainda pior, são naturalizadas com o argumento de que os autores são “homens do seu tempo”. Interessante notar como essa desculpa não cede nem mesmo quando apresentamos intelectuais negros/as de proeminência que produziram no mesmo período e que circularam nos mesmos espaços dos que estão sendo absolvidos.

 

Nos últimos tempos, tenho sofrido especialmente com práticas que nos confinam e aos nossos trabalhos na caixinha da “diversidade”, ou que tratam o trabalho de estudantes brancos/as como relacionado a questões “universais” e os nossos, como “específicos” e “pouco objetivos” – em suma, ruins ou de importância reduzida; com o fato de ser taxada de agressiva, raivosa e afins – estereótipo frequentemente atribuído a mulheres negras – por questionar pressupostos, argumentos, bibliografia ou falas racistas; por ser considerada arrogante, quando me recuso a ocupar os espaços ou a desempenhar à risca os papéis que a supremacia branca delega aos/às negros/as na academia. Eu poderia realmente acreditar que tais acusações estão relacionadas à minha postura pessoal, personalidade etc., não fosse o fato de que elas são recorrentes na experiência de muitas outra pessoas negras nas universidades (e também fora delas).

OVELHA: Vi que você produziu muito sobre a violência doméstica e familiar contra mulheres negras. Como você resolveu pautar esse assunto? Por que esse era um tema importante pra você? Compartilha com a gente algumas das suas conclusões na temática?

Bruna Pereira: Eu sempre me interessei por temas relacionados a (in)justiça social. Então, a discussão sobre as hierarquias e desigualdades com base no gênero logo me chamaram a atenção, justamente quando se internacionalizava a demanda por criminalização da violência doméstica no Brasil, quando eu terminava a graduação. No decorrer dos anos, os dados disponibilizados sobre a questão aumentaram, qualificando um quadro que já sabíamos que era grave. Quando resolvi fazer o mestrado, eu queria pesquisar o funcionamento das delegacias especializadas em atendimento a mulheres, mas descobri que há existiam alguns estudos sobre a questão. Mas tinha outra questão que eu não via, nunca, na bibliografia de referência: a menção à raça/cor das mulheres (ou dos homens) e, principalmente, não se abordavam possíveis dinâmicas violentas em sua articulação com o racismo. E isso contradizia, e muito, minha experiência como mulher negra. Achei que o tema merecia um olhar mais detalhado.

Na minha dissertação, fiz um estudo exploratório, ou seja, eu procurava indicar que existem dinâmicas racializadas/racistas na violência doméstica contra mulheres negras, indicando que existe, aí, uma questão, e que ela merece atenção tanto da parte de cientistas sociais quanto das políticas públicas. Afinal, não se pode definir como violência doméstica contra mulheres somente aquelas dinâmicas que restringem os direitos de um grupo específico de mulheres (brancas), e que também afetam as mulheres negras. Dessa forma, deixa-se de lado formas significativas de violência que afetam as vidas do maior grupo populacional de mulheres no Brasil (negras). E, assim, não se pode mesmo compreender como as políticas públicas têm funcionado para proteger mulheres brancas – ainda que continuem sujeitas à violência patriarcal -, mas não mulheres negras, como indicam o aumento contínuo das taxas de homicídios para mulheres negras e redução para mulheres brancas. 

É preciso que se deixe de entender as mulheres negras como “especificidades” – ou seja, um desvio em relação à experiência das mulheres brancas.

Também é necessário que se deixe de abordar a questão racial e o racismo, dentro da discussão sobre gênero, como “e as mulheres negras sofrem mais”. Temos que adotar uma abordagem integral da nossa existência e das violências a que estamos sujeitas, e qualificá-las. De forma resumida, alguns dos achados são: que a raça/cor do/a filho/a toma parte de dinâmicas violentas; que é frequente que homens que estabelecem uniões estáveis com mulheres negras de pele escura tenham a expectativa (nunca enunciada) de que elas sejam as provedoras principais da unidade doméstica (eles deixam de trabalhar) – e isso nem é visto como violência doméstica; a associação do exercício do trabalho remunerado à “virtude feminina”, para além da regulação da sexualidade, no caso das mulheres negras.

OVELHA: Você é coordenadora do Grupo de Estudos Mulheres Negras da UnB, certo? Como é esse trabalho?

Bruna Pereira: O Grupo é uma das minhas paixões. Ele não funciona exatamente como outros grupos acadêmicos, até porque o perfil das pessoas que ocupam esses espaços é diferente do nosso. Gosto de dizer que ele é um espaço de autoformação para mulheres negras: os textos são escolhidos pelo grupo, e o debate é conduzido por pessoas diferentes, a cada reunião. Os encontros são quinzenais e abertos a todas as pessoas negras interessadas – embora tenhamos a presença quase exclusiva de mulheres negras. O grupo é bastante variável. Para além da função formativa, o grupo tem alguns outros papéis importantes, como articular uma rede de mulheres negras na universidade; promover a troca de afeto e acolhimento frente às situações racistas que vivenciamos na universidade e nas nossas vidas em geral; criar um espaço seguro para o exercício da fala e da reflexão para mulheres negras, que quase sempre chegam ao grupo traumatizadas por experiências anteriores na universidade, e com muita dificuldade de assumir sua voz e compartilhar seus pensamentos.

OVELHA: Nós vivemos em um contexto de constante menosprezo do intelecto das mulheres negras. É sabido que, ao longo de suas trajetórias educacionais, meninas negras são pouco estimuladas a seguirem carreiras acadêmicas. Além disso, espaço escolar é hostil às meninas negras, que são expulsas e repreendidas com mais frequência. Como resultado, temos um número ainda reduzido de mulheres negras seguindo carreiras acadêmicas. Como você acha que podemos quebrar esse ciclo? Que oportunidades fizeram a diferença pra você?

Bruna Pereira: Eu acho que, na maioria das vezes, o racismo e o machismo realmente expulsam ou afastam as mulheres negras do estudo. Eu faço parte de um grupo restrito, mas significativo, de mulheres negras que tentam compensar o racismo estudando muito. Muitas vezes, nos cobramos demais. E experimentamos constantemente um isolamento intelectual – além do racismo e do machismo – nas universidades. Porém, a satisfação de encontrar pessoas na mesma situação e trocar com elas é sempre muito gratificante. As pessoas negras que estão nas universidades geralmente encontram apoio afetivo e orientação intelectual de outras pessoas negras – um/a professor/a, um/a amigo/a, um/a debatedor/a de um trabalho em um congresso. Aí encontramos temas e textos que fazem muito sentido, e pode ser que passemos realmente a gostar das possibilidades da vida acadêmica – ao menos comigo, foi assim. Então eu acho que o caminho é aumentar e fortalecer essa rede, institucionalizá-la, pois temos que criar espaços e condições para a nossa inserção e ocupar os espaços que abrimos, com nossas (diversas) perspectivas, prioridades e produções.


Quero ser!

Quero ser é uma série de entrevistas feita com mulheres poderosas que se destacaram em suas profissões ou em suas empreitadas como empreendedoras, cientistas ou acadêmicas. Precisamos de mais referências para meninas e mulheres! Clique aqui para ler as outras entrevistas.
 

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