Um espaço para ter o controle

Colagem digital por Fernanda Garcia (Kissy)
Existem diferenças importantes entre o "clube do Bolinha" e o "clube da Luluzinha"

Precisamos falar sobre mulheres e videogames. Não adianta sair uma pesquisa apontando que 53,6% dos jogadores de games brasileiros são mulheres se a maioria delas ouviu a vida inteira que games não são para elas, são para os irmãos e primos. Mesmo que elas não acreditem nisso, muitas das pessoas ao redor delas ainda acreditam.

Mudanças de comportamento ocorrem devagar e quem está acostumado a dominar um espaço pode não perceber o que significa exclusão. 

Recentemente, em uma aula de uma faculdade de design, houve uma situação que pareceu um experimento para reafirmar essa realidade:

Três consoles clássicos (um NES, um Atari e um Master) foram colocados à disposição de todos os alunos para um momento de curtição da aula. A ideia era oferecer aos alunos, muitos dos quais nasceram após o lançamento desses consoles, uma oportunidade de interagir com a tecnologia obsoleta e experimentar alguns bons jogos.


 Rostos sorridentes, iluminados pelo reflexo azul do monitor. Um pulo, mais um, e o terceiro enfim chegando a uma plataforma sólida. Uma sonora comemoração se segue.

Parece que todos estão se divertindo jogando Mario Bros. No entanto, quase passa despercebido que há também rostos entediados, olhando para o nada e mexendo no celular. A exultação tem feição masculina e as excluídas são mulheres.

Tão logo os videogames foram ligados, a coagulação dos alunos foi acontecendo: em volta dos consoles, rapazes felizes, exultantes, voltando no tempo em alguns jogos da sua infância; nos cantos das salas, alunas olhando desconfiadas, entediadas e, resumidamente, não se sentindo parte.

Percebendo a diferença de confiança na situação, os professores pararam a jogatina e levantaram a todos os alunos e alunas o motivo da segmentação. Só que aí, mais segmentação surgiu: as alunas apontaram com firmeza que se sentiam marginalizadas. Os alunos não entendendo e afirmando que não entendiam por que elas não se sentiam bem-vindas. Afinal, eles não fizeram nada (ativamente) para excluí-las.

… a maioria delas não se sentia segura para desafiar os rapazes pois não havia experimentado a maioria desses jogos. Afinal, na geração delas eram os irmãos e primos que tinham os consoles. Elas tinham que pedir emprestado e, na maioria das vezes, ouviam um sonoro NÃO.

“Isso é exatamente parte do problema”, afirmaram algumas alunas. Ao se agruparem, os rapazes formaram um “clube do Bolinha” em clima de competição. Nesse ambiente, as garotas se sentiam inseguras, como se, para chegar perto do console, tivessem que provar suas habilidades gamísticas contra os rapazes do grupinho, a fim de mostrar que realmente mereciam estar lá. Enquanto para eles, que já estavam lá, essa posição nunca precisou ser conquistada. Essa era uma responsabilidade que a maioria das garotas ali preferiu não assumir. Afinal, e se elas falhassem? Poderia até não subir o comentário “tinha que ser mulher”, mas elas sabiam que isso ia aparecer na cabeça de muitos.

“Mas todas vocês tinham a liberdade de chegar e pedir o controle”, disseram os rapazes, apontando que eles passariam o controle assim que fosse requisitado.

E quanto mais o assunto avançava, mais clara ficava essa separação, sem nenhum acordo mútuo. Em meio ao discurso das alunas, foi apontado que a maioria delas não se sentia segura para desafiar os rapazes pois não havia experimentado a maioria desses jogos. Afinal, na geração delas eram os irmãos e primos que tinham os consoles. Elas tinham que pedir emprestado e, na maioria das vezes, ouviam um sonoro NÃO.

Foi então proposta a criação de um grupo de jogatina retro exclusivo para garotas.

Os garotos ficaram possessos: como assim criar um espaço em que eles fossem arbitrariamente excluídos?

As garotas responderam que se sentiam excluídas da maioria dos espaços. Homens são a maioria na maioria deles, elas disseram. E, mesmo sem a existência de regras que determinem isso, o “corporativismo masculino” olha para as mulheres como se elas não merecessem estar ali.

Os garotos responderam “nada a ver”, pois não existem regras claramente determinadas que excluem as mulheres desses espaços. Por isso que, para eles, não faz sentido a “sensação” de exclusão por parte das suas colegas, ainda mais como motivo para a criação de um espaço exclusivo para elas.

Para eles, a ideia de exclusão não existe se não há leis e regras que estabelecem isso. Para elas, era mais uma situação resultante da silenciosa segregação sexista que a sociedade impõe, minando qualquer tentativa de pertencimento. Não houve acordo quanto a isso.

O horário do fim da aula chegou. Os rapazes se apressaram para ir para a lanchonete enquanto falavam entre eles o quão bizarra foi a discussão. Já as alunas recolheram suas coisas e saíram silenciosamente pela porta.

Mais uma vez elas tentaram, argumentaram, abriram seus corações. Mais uma vez eles não entenderam.

Essa situação mostra claramente a diferença entre os conceitos de igualdade e equidade social. Igualdade seria o ideal: todo mundo com exatamente as mesmas chances e oportunidades pois todos teriam as mesmas condições desde o começo. Mas nossa sociedade não funciona assim. Ninguém tem exatamente as mesmas condições desde o começo. Algumas pessoas nascem com certas vantagens – como ter dinheiro, ter uma família emocionalmente estável, não sofrer de doenças físicas ou mentais, ter uma aparência de acordo com o padrão de beleza, etc. – que as colocam na frente dessa corrida que é a vida, facilitando cada uma de suas escolhas.

Já que a igualdade não existe na nossa sociedade, olhamos então para a equidade, que tem o princípio de compensar desigualdades dando mais chances e possibilidades para quem sempre teve menos vantagens na vida. Parece justo, né? Só que, para muitos privilegiados, equidade soa como injustiça.

A cena dessa sala de aula é um reflexo disso. Os consoles estavam ali, para qualquer um jogar. Mas apenas um grupo de pessoas se sentia à vontade para ter o controle da situação. Então como podemos fazer com que as mulheres se sintam estimuladas e encorajadas a tomar o controle, cenários e consoles dominados por homens?

Mais de Ovelha

Diário de Viagem: Miwa em Berlim

Berlim nunca foi a cidade dos meus sonhos, mas surgiu a oportunidade de fazer um curso de ilustração durante 10 dias lá e eu fui. Quando eu contava que ia pra lá, a galera me pilhava, falando: “você que morou em NY, vai amar Berlim…” Fui na expectativa de encontrar uma NY alemã e não foi isso que achei. Pra falar bem a verdade, na minha primeira visita à cidade, eu saí de lá com uma impressão meio esquisita. Não gostei muito. Por ter essa expectativa, eu acho que fiquei comparando as duas cidades o tempo todo. O erro!

Acontece que Berlim é uma cidade totalmente diferente de NY por vários motivos:

 

  • Você pode beber na rua, no metrô ou numa casinha de sapê – e a galera bebe pra caramba! Eles andam com garrafas de 600ml (?) e bebem no gargalo mesmo. Vi muita gente bebendo às 8h da manhã. Tudo é motivo pra beber.
  • A cultura de consumo de produtos globalizados, grandes redes e tal, é menor. Eles valorizam muuuito produtos locais. O famoso “Compro de quem faz”.
  • As pessoas são meio frias e às vezes grossas. Se você sorri, muitas vezes eles não sorriem de volta ou não entendem por que você está sorrindo pra elas. Mas não é por maldade, é simplesmente porque eles tão vivendo a vida deles. É cada um no seu quadrado.

 
Daí que fui de novo pra lá em abril e, já conhecendo um pouquinho da cidade, resolvi ir com outros olhos. Dessa vez, quis fazer rolê de quem mora lá, viver como eles viviam e…

me apaixonei pela cidade.

 

 
Foi tipo um segundo date com o lugar, uma segunda chance. E consegui entender um pouco esse jeito deles. Sabe aquele tio meio rabugento mas que no fundo tem um bom coração?  Muitas vezes foi porque a vida simplesmente o fez assim! Então, Berlim é igual.

A cidade parece um pouco com São Paulo (olha eu comparando a coitada mais uma vez): muito cinza, arte urbana, balada, música, comida e mistura de culturas. Mas é uma cidade bem mais barata (pasmem: mesmo em euro, hein), tem bastante verde, vários parques,  o transporte público é ótimo (ok, nesse caso não parece tanto), tudo é muito perto e geral anda de bike.

 

 
O que me fez muito amar a cidade dessa vez é que a galera é muito de boa no estilo de vida. Pra ir na balada, por exemplo, você não precisa se montar toda – aliás, tem balada que se você estiver de salto ou muito make, você nem entra. Você pode se vestir do jeito que quiser, tem gente de todo tipo. E tá tudo bem.

 

 
É uma cidade que realmente não dorme. Todos os dias tem algo pra se fazer, algum lugar pra comer ou beber aberto. Em todos os cantos acontecem feirinhas de comida ou mercados de pulgas. Eles prezam muito pela reutilização das coisas. Tudo é reaproveitável, desde móveis a roupas – ah, e as garrafas de vidro de cervejas que as pessoas compram no mercado são retornáveis. Você coloca numa maquininha e ganha dinheiro em troca. *__*

E tem muito parque, muito mesmo. Ou seja um estilo de vida not fancy. Valorizo!

A cidade também é conhecida por ser um grande polo artístico. Diferente de NY ou Paris, que são consideradas cidades museus, Berlim é considerada uma cidade-instalação-artística. É uma mistura de DIY e experimentações. Pra quem gosta de arte, design, ilustração, é o paraíso! Tem muita loja, galerias, eventos, vernissages e workshops. Não tem como não sair inspirado de lá. Pra trabalhar, no entanto, não é muito bom. São muitos artistas pro mercado. A concorrência é acirrada. Ótimo pra se inspirar e trocar experiência, ruim pra trabalhar e ganhar dinheiro.

Ok, muito blablabla, mas vamos ao que interessa:
 
Onde fiquei: Kreuzeberg, Berlim
Quanto tempo: 15 dias
Com quem: passei um período com uma amiga australiana e um amigo thailandês. No final da viagem, fiquei com meus amigos berlinenses.
Quanto gastei: 650 euros com comida, transporte, cerveja e hostel.
Conclusão: Amor à segunda vista, quero morar lá pra sempre.
 

Highlights! Top 5:

 

  • Urban Spree + Neue Heimat + Mercado de pulgas + vizinhança:

    Vá ao domingo na galeria e loja Urban Spree que fica do lado da estação Warschauer Strasse. Nesse dia, atrás da loja na Revalerstrasse mesmo, rola um mercado de pulgas e feira de comida, a Neue Heimant. Coma uma comidinha, beba uma cervejinha e explore a feirinha que tem um monte de achados. Aproveite e passeie pelas ruas ali perto, tem um monte de loja de roupas, livros, toy art e uns restaurantes bem bons também. Uma vizinhança muito legal para ser explorada.

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  • Photoautomat:

    Qualquer lugar que você ande por Berlim tem aquelas máquinas pra tirar aquelas tripinhas de foto instântanea em P&B. Vá com namorado, com os amigos ou mesmo sozinha. É muito legal!

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    photoautomat
     

  • Döner Kebab > Curry Wurst:

    Esqueça o Curry Wurst, bom mesmo é o Döner Kebab que é carne de cordeiro + pão sírio + vegetais e molhos. Uma explosão de sabor! Melhor comida do mundo. Ah, às vezes eles colocam umas batatinhas fritas no meio. MARAVILHOSO!

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  • Cerveja boa e barata:

    Berliner é ótima e baratinha no mercado. Mas não beba a Berliner Kindl Weisse com um syrup colorido (tem verde e rosa). É uma mistura de uma cerveja azeda e um xarope mega doce. Horrível!

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  • Volkspark Hasenheide, um Parque Kinder Ovo:

    Fui nesse parque só porque era do lado do meu hostel e tava afim de curtir um pouco minha ressaca, deitar na grama, tomar um sol na cara etc. Apenas que chegando lá dentro encontrei camelo, avestruz, pavão, bezerro, pato, um parque de diversões gigante (tinha até aqueles brinquedos com água e mini montanha russa), gente de topless e um lago! Cada passo, uma surpresa. Melhor parque!

 

Todo esse amor me contaminou e acabei criando um mini guia para criativos e curiosos. É um e-book em que dou dicas de como chegar na cidade, como pedir um bom Döner Kebab e algumas lojas, livrarias e galerias pra você gastar seu eurozinhos e se inspirar. Modéstia à parte: tá fofo, tá barato, tá didático, tá alternativo, tá guia gente como a gente. Olha o sample:

 


 

Ah, vai rolar uns vídeos desses lugares no meu canal também.
Se inscreve e não perde.

 

 

E os meus links: Site / Guia / Youtube

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