Como lidar com uma situação machista

Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez (Não Sou Emily)
... e não sair perdendo. Um caso passivo agressivo de machismo no ambiente de trabalho.

[ aperte o play para ler enquanto escuta esse som da Madonna ]

 
Uma das minhas melhores amigas está passando por uma daquelas situações “não é você, sou eu” no trabalho. Ela está fazendo parte de um programa de trainee de uma grande empresa em que eles selecionam alguns profissionais para treiná-los e talvez contratá-los no fim do programa de cerca de 90 dias. Dois terços do programa se foi e em uma das avaliações um dos coordenadores perguntou se ela tinha certeza que ela queria seguir aquela carreira mesmo (em TI, vamos dizer assim), já que a sua personalidade seria incompatível com o tipo de trabalho que eles fazem ali.

Na hora que ela me contou fiquei com uma raiva fodida. Primeiro pensei, ótimo, melhor assim, vaza logo, eles não te curtem, não te merecem. Depois pensei, se eles não querem estender o contrato dela, deveriam deixar claro se é por questões profissionais. Como “não achamos que você trabalha no nosso esquema”. Mas o buraco, claro, é mais embaixo. Quando o coordenador a chamou pra conversar, ele não disse “a sua personalidade pode te atrapalhar nessa carreira”. Ele disse: “Você tem certeza que quer trabalhar com isso? A sua personalidade é muito ‘bubbly’ e não combina com esse tipo de trabalho”.

Atenção aqui. “Bubbly” é uma palavra em inglês que, quando relacionada a personalidade refere-se a alguém muito risonho, animado, otimista. E mais importante, é uma característica feminina. No Urban Dictionary, as hashtags relacionadas são #bubbly #women #personality #girl #chick. De cinco palavras, três se referem a “mulher”. Aqui no Quora, as meninas explicam que “bubbly” e algum muito feliz, como elas às vezes, e os caras falam de meninas (ou da mãe de um deles, no caso). Até a WikiHow te ensina a como ser uma pessoa mais sociável e ter um personalidade “bubbly” com ilustrações de meninas em busca de ser mais atraente. Sério.

Preciso falar explicitamente que ela sofre aqui com um caso passivo agressivo de machismo no ambiente de trabalho? Poderia traduzir isso como “ter essas qualidades femininas não é legal. Guarde elas no bolso e volte aqui com um sorriso contido e muita vontade de colaborar”. (Não vou nem entrar no mérito de ele inferir que sabe mais sobre a vida dela do que ela própria, ja que a personalidade dela deveria ter levado ela a outro tipo de trabalho, de acordo com ele, o sabe-tudo).

Veja bem, se ela falar pra eles “vocês estão sendo sexistas falando que a minha personalidade é muito extravagante”, eles vão responder “Tá vendo, drama. Como queríamos demonstrar”. “Nós não somos machistas, você que não se enquadra aqui”. Fora o medo de sair queimada no mercado. Como lidar com uma situação dessas?

Eu não tenho uma receita mágica, talvez nem a ideal. Eu sofri muito com machismo no meu ultimo trabalho em redação, no qual apesar de mais da metade dos jornalistas serem mulheres, só os meninos iam pra rua fazer coisa legais (na divisão de pautas, as meninas ficavam cuidando das burocracias e publicações em tempo real, não interessava se elas eram boas nisso ou não). Não interessava se eu sabia mais de um assunto que o outro repórter, “ele tem mais jeito”, vai ele. E eu ainda dava meus contatos pro cara, afinal, trabalho em equipe e o que interessa. Enfim, mas isso não é o assunto desse texto. O assunto mesmo e como eu deveria ter lidado com isso, e como a minha amiga pode lidar melhor com a situação dela.

Eu tenho um vídeo preferido quando se fala de racismo, e esse vídeo e de um cara, um ativista norte-americano, que tem um trabalho muito foda contra o racismo, o Jay Smooth. Pode parecer uma divergência aqui, mas nesse vídeo ele fala sobre como confrontar alguém que diz algo racista. Primeiro, você deve ter em mente que o que você deve questionar e o que a pessoa disse, e não quem a pessoa e. Isso é importante porque são coisas totalmente diferentes.

E aquela história do “essa piada é racista (ou homofóbica)” e “imagina! eu tenho vários amigos negros (gays)”. Não interessa se a pessoa é casada com outra pessoa negra, ou tem um filho ou filha gay, o que interessa é que ela fez uma piada ofensiva. E isso te machucou, te prejudicou. O ponto não e dizer “ei cara, você é racista”, por que isso é uma discussão retórica. O que é preciso dizer e “essa piada e escrota, racista”. Nas palavras traduzidas livremente do discurso de Smooth, “quando alguém rouba a minha carteira, eu vou persegui-lo e pegar a minha carteira de volta, não estou interessado em saber se ele se sente como um ladrão no fundo da sua alma. Eu quero fazê-lo responsável pelo o que ele fez. (…) É preciso fazer cada pessoa ser responsável pelo impacto das suas palavras e ações. Eu não me importo com quem você é, mas sim com as suas ações”.

Foda-se se a pessoa e o presidente do grupo de inclusão feminina na sua empresa. Se ele ou ela falar ou fizer algo discriminatório, é preciso ser dito.

E é assim que eu acho que questões de discriminação de minorias devem ser lidas no dia-a-dia. Foda-se se a pessoa e o presidente do grupo de inclusão feminina na sua empresa. Se ele ou ela falar ou fizer algo discriminatório, é preciso ser dito. E não to aqui incentivando brigas. E pra ser (e da pra ser) educado e questionar: “o que vc quer dizer com “bubbly”? Isso não é um trabalho para uma garota?” Eu sei que é complicado se sentir como a pessoa problematizadora, mas é preciso se impor para evitar que só você saia perdendo de situações assim. Acho que é importante dizer aqui que você já está em desvantagem, você já é a parte prejudicada. Se você souber lidar e expor isso de ser humano para ser humano, você (e a sociedade), só tem a ganhar.

Outras sugestões? Estou aberta a mais abordagens não violentas, por favor, me deem mais ideias. Mas salvem a violência contra as instituições, não contra pessoas. Vamos explodir o patriarcado, não o pai de família rs. Paz.
 


Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez (Não Sou Emily).

Tags relacionadas
,
Mais de Natália Peixoto

Tomar ou não tomar pílula? Eis a questão

Uma vez, na faculdade de jornalismo, bati boca com um professor que insistia que a pílula era uma invenção do capitalismo para permitir a entrada da mulher no mercado de trabalho ao adiar ou evitar a gravidez. Ela também regula o ciclo menstrual, permitindo jornadas mais consistentes. Fiquei irritadíssima, primeiro porque eu não concordava, segundo porque eu não conseguia argumentar contra aquele homem tão respeitado entre as figuras da esquerda jornalística.

A minha memória, uma sádica, me fez lembrar desse momento de mal estar quando uma amiga me disse que queria saber mais sobre pílulas. Ela disse que se achava mal informada, e eu só conseguia pensar “quem sou eu pra falar qualquer coisa”.

Pensei de novo e vi que o que eu sei mesmo é que o importante mesmo é buscar estar bem informada, e pra mim isso significa se sentir um pouquinho desconfortável com aquilo que você sabe, mesmo tendo pesquisado bastante. Achar que não sabe o suficiente é sempre bom.

Parei de tomar pílula ano passado, após 14 anos de uma relação de só ganhos, inclusive ganho de peso. Comecei a tomar assim que menstruei porque eu engordava muito a cada ciclo e tinha muita acne, e a gineco na época me passou Selene. Nunca troquei, nunca tive reação além da retenção de peso e tive duas pausas desastrosas, horrendas. E foi justamente pensando nessas pausas que decidi parar.

Toda a minha vida reprodutiva foi regulada pelo mesmo hormônio artificial e isso me incomodou bastante de repente. Quando comecei a tomar, não me conhecia, não sabia nem que iria odiar Física pra sempre, imagina se saberia o que aquela bula dizia pra mim. No fim, nem sabia como o meu corpo funcionava sozinho. Estudando e lendo sobre feminismo, especificamente sobre as ativistas da saúde feminina na América do Norte, comecei a me questionar porque eu tomava um remédio tão forte por tanto tempo. Decidi parar e foi caótico. Fiquei 4 meses sem menstruar e, quando meu ciclo voltou ao normal, queria matar uns três para aliviar toda a raivinha que crescia no meu coração. Mas pronto, pronto. Passou, passou.

Voltando às ativistas de saúde feminina da década de 1960, é imprescindível falar do livro “Our Bodies, Ourselves” (Nossos corpos, nós mesmos), que salvo engano não tem edição em português. O livro é um almanaque confiável com tudo que é dúvida sobre a biologia feminina escrito pelas incríveis do grupo BWHBC, ou Boston Women’s Health Book Collective.

Our-Bodies-Ourselves-2011-cover

Outra musa minha, a jornalista Barbara Seaman, escrevia numa revista norte-americana também nos anos 1960 quando percebeu uma correlação altíssima de reclamações de inchaço, ganho de peso, depressão, queda de libido e trombose com a ingestão da recém lançada pílula anticoncepcional. Picada pelo bichinho “tem uma história aqui”, ela fuçou e fuçou e descobriu que os remédios eram vendidos sem as informações de efeitos colaterais na bula. Os médicos achavam que as mulheres não precisavam se preocupar com isso. Barbara e diversas outras mulheres levaram o problema pros salões do Senado dos Estados Unidos, que mudaram a lei, obrigando as farmacêuticas incluírem a bula nas caixinhas, com tudo o que seria importante.

E ainda hoje tomamos hormônio sem saber seus efeitos colaterais. Quem nunca emendou cartelas pra evitar ficar menstruada? E se arrependeu no mês seguinte, mas fez de novo meses ou anos depois. No caso da suspensão da menstruação por até anos seguidos, que é moda entre as meninas da nossa geração seja por pílulas contínuas ou por injeção, ainda não há estudos que dizem se há segurança ou riscos a médio e longo prazo. Mesmo assim, qual é o médico que nega quando a gente pede “doutor, não quero mais menstruar. Me passa aquela pílula que a minha amiga toma?”

O que se sabe com certeza é que a ingestão de certos hormônios estão ligados ao surgimento do câncer de mama em mulheres com ou sem histórico da doença na família.

Estudos mostram que mulheres que tomam contraceptivo oral têm mais riscos de desenvolver câncer de mama, especialmente se esses contraceptivos foram de alta concentração de estrogênio (950 microgramas de etinilestradiol ou 80 microgramas de mestranol) ou com média concentração de estrogênio (30 e 35 microgramas de etinilestradiol ou 50 microgramas de mestranol). A Selene, que eu tomava, é de média concentração. O risco, segundo os estudos, voltam à média após a interrupção do uso. Fora as varizes, coágulos, tromboses, enxaquecas, queda de libido…

No caso do câncer de mama, as reposições hormonais na época da menopausa também são aterrorizadoras.

Moral da história? Leia, leia, leia, leia tudo o que você puder antes de decidir pelo seu método anticoncepcional, seja ele só pra prevenir uma gravidez ou pra cuidar da acne, das TMPs, etc. Encha sua médica de perguntas, cada corpo é de um jeito e o que funciona pra mim pode não funcionar pra você. Seu corpo, suas decisões, suas regras. E se possível, fique em cima do seu histórico familiar. A combinação doenças cardiovasculares + pílula + cigarro é uma bomba relógio.

E o que eu diria para o professor do início do texto, se a discussão fosse hoje? A pílula libertou a mulher da maternidade e casamentos obrigatórios, mas ela é sim fruto de um sistema que privilegia o poder e o prazer masculino. Seja esse homem de direita, esquerda ou a passeio.

 

P.S.: Algumas das referências desse texto:

Confirmada ligação entre câncer de mama e terapia hormonal
Menstrual Suppression Is Too Risky an Experiment

Pill That Eliminates the Period Gets Mixed Reviews
“Your Silence Will Not Protect Yourself”, da Bonnie Spanier, em Feminist Science Studies
“Health Care Activists”, da Kathryn Ratcliff, em Women and Health: Power, Technology, Inequality and Conflict in a Gendered World
 

Leia mais