Estereótipos femininos no Terror

... que precisam acabar

Eu descobri recentemente que gosto de filmes de terror. Isso não significa que eu não tenha medo dos filmes – quando eu era criança e sentia medo, quando estava na cama para dormir eu me “fingia de morta”, porque o que alguém iria querer fazer comigo se eu já estou morta, né? Eu era bem medrosa.

Hoje em dia eu não sei o que aconteceu, mas eu peguei gosto pela coisa – muito provavelmente pelas produções de suspense e terror trazerem um ar mágico para o que acontece no dia-a-dia – mesmo que muitas vezes sejam mais verdadeiras do que a própria realidade. O único problema é que tais obras recaem em estereótipos para retratar a figura feminina, como qualquer outro fruto da cultura popular.
Esses estereótipos têm um fruto em comum: a subestimação da maldade feminina. Quantos filmes não têm como raiz da rivalidade feminina o amor por um homem (Alô, Meninas malvadas, estou falando que você)? Acreditar que mulheres não possuem, como qualquer outro ser humano, motivos dos mais diversos para serem más é o primeiro erro dos filmes de modo geral. No gênero “thriller” isso é ainda mais prejudicial, pois a violência feminina vem sempre sensualizada ou infantilizada e, pior, é em sua maioria direcionada a outras mulheres.

Segue, portanto, alguns dos estereótipos:

1. A mulher ultra sensual

Quem nunca cometeu o erro de assistir A Casa de Cera e, logo no início, dar de cara com a Paris Hilton fazendo sexo oral no Robert Ri’chard? Pois é, o primeiro estereótipo que incomoda muito é essa sensualidade exacerbada das mulheres em filme de terror – que é muito pior no caso das mulheres negras. A mulher ultra sensual ou explorará essa sensualidade para atacar enquanto vilã, ou será punida por sua sensualidade.

A Megan Fox, por exemplo, cumpriu seu papel de vilã sensual com grande louvor em Garota Infernal: grande parte de seu trabalho enquanto ~demonha~ consistia em seduzir suas presas, assim como Scarlett Johansson em Sob a Pele. Por outro lado, as mocinhas, principalmente as “scream queens” (garotas cujo principal papel na obra é simplesmente gritar e trazer uma espécie de alívio cômico), são frequentemente punidas por serem “sensuais” – se forem punidas por outras mulheres, será por inveja, como examino no item 2.

Mas a moral é a seguinte: porque uma mulher correndo perigo precisa estar, necessariamente, semi-nua? Ainda não entendi.

2. A invejosa

A vilã invejosa frequentemente desgosta de suas vítimas por elas serem mais populares, queridas, inteligentes ou bonitas. O filme Um Plano Mortal, que conta uma história baseada em fatos reais, por exemplo, explora essa narrativa de meninas jovens que se matam por inveja. Cisne Negro (que nem é tão aterrorizante, mas integra a categoria de terror psicológico) mostra Natalie Portman se envolvendo e, posteriormente, assassinando sua colega de ballet Mila Kunis, por inveja de sua desenvoltura na dança.

O problema dessa abordagem é que ela trata da inveja como algo meramente superficial e vaidoso, não trazendo uma perspectiva real do que é o sentimento de inveja – que nada mais é do que a falta de algo, dentro ou fora de nós. Dessa forma, os filmes que utilizam desse discurso para criarem suas vilãs ajudam a corroborar com a ideia de que nós mulheres estamos frequentemente competindo umas com as outras por motivos fúteis – como homens, nos levando ao item 3.

3. A ciumenta/obcecada

Um dia eu vou entender completamente porque que os homens insistem na narrativa da mulher stalker e psicótica sendo que eles são os verdadeiros possessivos. A verdade é que esse estereótipo, como todos os outros, serve para dar um boost na autoestima masculina. Personagens como Holly de Fica Comigo (filme bastante abaixo da média da Netflix), interpretada por Bella Thorne, fazem com que qualquer homem branco-europeu se sinta especial. A obsessão da menina faz com que ela atinja altos níveis de sadismo – fica até forçado e plausível. A Orfã, que também é um filme pra lá de estranho, mostra a mesma questão, mas de maneira mais interessante (e perversa).

Mas a obsessão pode vir de outras formas também. No clássico Louca Obsessão, Kathy Bates interpreta uma mulher absolutamente apaixonada pela obra de seu escritor favorito – essa obsessão também faz com que ela atinja a crueldade ao máximo.

Esse estereótipo me incomoda particularmente por vender a ideia errada de que mulheres estão sempre à beira de perderem o controle por conta do ciúme – sendo que já é sabido que a maior parte dos chamados “crimes passionais” é cometida por homens”.

 

4. A violentada

De todos os estereótipos, esse é o que mais me atinge. A mulher violentada nos filmes de terror segue a mesma narrativa das mulheres que superam grandes traumas para se tornarem quem são na cultura popular de modo geral. Contudo, nos thrillers a violência que as mulheres sofrem é com frequência mais cruel – ou seja, o estupro e suas consequências são mais gráficos.

Em A Morte do Demônio (um filme já suficientemente violento e aterrorizante), a personagem principal e “vilã”, interpretada por Jane Levy, tem sua possessão concluída ao ser estuprada pelo demônio. Doce Vingança chega a ser o máximo dessa narrativa, já que é um filme que trata somente de uma mulher violentada sexualmente que se vinga de seus agressores um por um – e só.

Apesar de, na maioria dos casos, a mulher ser retratada como heroína depois de sofrer o estupro, isso reforça a ideia de que mulheres precisam de um passado de forte sofrimento para se fortalecerem e se tornarem vitoriosas (o que se repete em Abismo do Medo, mas de maneira diferente). Ou seja, as mulheres não podem ser brilhantes, incríveis e fortes por si só: é necessário sempre um passado violento para coloca-las dignas de um destaque no filme.

 

5. A Possuída

Não tenho nada contra possessão (inclusive tenho até amigos que são), mas enche o saco a vilã de um filme estar frequentemente possuída. Aqui a gente pode botar uma lista extensíssima: O Exorcista, O Exorcismo de Emily Rose, O Último Exorcismo, A Morte do Demônio, e por aí vai. Meu problema com a possessão é que ela é frequentemente usada para justificar comportamentos femininos “sem explicação” – assim como a bruxaria o faz.

A diferença entre a bruxaria e a possessão é que a bruxaria coloca a mulher como agente de sua própria maldade – o que é muito mais interessante do que a personagem em questão se resumir a um corpo possuído. Isso ajuda a reafirmar a teoria de que, profundamente, as mulheres são todas loucas e precisam somente de um estopim para se mostrarem como são realmente – seja um episódio de violência ou um demoninho básico. A questão é: mulheres podem ser tão más quanto homens, então porque sempre empurrar a ideia de que na realidade somos seres angelicais e quando somos más não podemos ser nós mesmas?

Sem falar que filme sobre possessão já deveria ter parado de existir com O Exorcista né?

 

6. A Mãe super-poderosa

Aqui na Ovelha já escrevi um texto sobre como a antologia XX trata da maternidade (e o ônus que a acompanha) de maneira muito interessante. Contudo, no gênero terror cria-se a ideia de que a mãe tem poderes – seja para criar vilões, seja para ser heroína ou vilã.

Em Psicose, Norman Bates é um rapaz obcecado pela sua mãe (principalmente por sua figura), pois ela havia o superprotegido. Outros filmes que incluem a maternidade como uma fábrica de criar vilões são O Bebê de Rosemary e o icônico Carrie: a Estranha (que não deixa de ser um baita filme por isso).
Essa narrativa cria expectativas muito fortes quanto à obrigação e o peso de proteger os filhes que já sente uma mulher. Em Babadook, por exemplo, Amelia é a grande responsável pelo surgimento e a eliminação do monstro, mas assim como Carrie, não deixa de ser um filmaço.

Acredito que o que me incomode de verdade nesses filmes, portanto, seja sua assimetria perante a realidade – e como isso pode ajudar a criar expectativas e papeis desnecessários às mulheres. Não é por se tratar frequentemente de temáticas sobrenaturais que o filme de terror não precise ser dotado de lógica. Muito pelo contrário, para que se atinja um efeito catártico é necessária sim uma relação mínima com o que vivemos – seja literalmente, com narrativas plausíveis, ou subjetivamente, com personagens plausíveis, ainda que metafóricos.


Felizmente, alguns bons filmes com boas personagens femininas merecem destaque. A Bruxa, recentemente lançado, foi largamente aclamado pela crítica. Neon Demon é um filme que lembra muito Cisne Negro e vale a pena ser assistido mais por sua estética do que pela história em si (que recai muito na competição feminina por inveja). Finalmente, minha última indicação seria O Orfanato, de J.A. Bayona (e produzido por Guillermo del Toro, de O Labirinto do Fauno), por tratar de forma poética um tema tão triste que é a solidão de uma mãe que (literalmente) perde seu filho.

Por isso que eu digo: não desistam de filmes de terror! Filmes (que eu particularmente acredito que sejam) ruins, como Jogos Mortais e Uma Noite de Crime não representam o gênero todo! É possível sim sentir medo e assistir a um filme de qualidade que não firam o feminino – e depois podemos fingir-nos de morta na cama, porque vai que, né?

Escrito por
Mais de Júlia Rocha

O que nos ensinam os mestres

Pela primeira vez eu comecei a assistir a uma temporada de Girls e não tive vontade de gritar. Parece que a Lena Dunham está aprendendo aos pouquinhos a ser menos feminista branca e focando mais no potencial dramático e na capacidade de gerar empatia da série.

No terceiro episódio dessa sexta temporada (American Bitch), Hannah visita um autor chamado Chuck Palmer, famoso tanto por seus livros quanto por sua capacidade de se envolver sexualmente com as fãs. Depois de um escândalo no qual ele foi acusado de estupro, Hannah escreveu um texto sobre isso em seu blog apoiando a vítima. Chuck teria, então, convidado Hannah para ir em sua casa confrontá-lo.

Mas o gancho que eu gostaria de aproveitar aqui nem tem tanto a ver com a trama principal (vou retomar o desfecho do episódio mais ao final do texto), mas com um relato de Hannah sobre um abuso sofrido em sua infância. A garota recorda, durante uma conversa com Palmer, de um professor que, quando ela tinha 11 anos, gostava de fazer massagens em seus ombros. Quando, anos mais tarde, ela acusa o professor de assédio para um de seus antigos colegas, ela é taxada de exagerada. E é isso que eu gostaria de discutir aqui: quais os limites da relação professor-aluna e por que é tão difícil denunciar o assédio sofrido de algum professor, instrutor, orientador ou qualquer outra figura que exerça alguma influência sobre nós num nível pedagógico.

Quando eu estava no colégio e quando trabalhava em cursinho, a tensão existente entre alunas e professores era tão presente que dava pra cortar ela com uma faca. De lembranças que me vêm à cabeça agora, me lembro de uma amiga que desistiu de cursar medicina na faculdade que ela queria porque um professor disse que “não respeitava” a instituição. A admiração dela por ele era tão grande que ela desistiu de fazer o curso que ela mais queria por causa dele. Na época era muito fácil falar que ela era trouxa e que estava se deixando levar pela opinião de um cara que ela nunca mais ia ver na vida. Hoje eu olho pra trás e percebo como a influência dos professores pode ser tão grande na gente por dois motivos: (1) eles seduzem sim as alunas, seja de maneira sutil ou não e (2) no ambiente competitivo de um colégio, principalmente às vésperas do vestibular, a aprovação de um professor faz parecer que você está no caminho exato do sucesso acadêmico, além de dar um conforto para alguém que tem que passar sozinha por um período super estressante.

O problema é o seguinte: se os professores não se preocupassem tanto em querer a nossa admiração e não recorressem ao abuso da autoridade que eles têm sobre a gente, nós aprenderíamos muito mais – e ficaríamos mais confiantes com o nosso desempenho acadêmico. Não é possível absorver informação se você tem que constantemente se proteger do abuso de um professor, seja em forma de humilhação ou de apelos sexuais. Trabalhar com ex-professor meu foi tão estressante que eu tive que largar o emprego – ele me xingava constantemente na frente dos alunos, o que ele também fazia na sala de aula quando ainda não era meu colega de profissão. Por outro lado, um professor meu também já me pediu pra tirar a roupa na frente da turma quando soube que eu estava vestindo só o blusão da escola (eu jamais soube como ele ficou sabendo disso, inclusive).

O que eu estou tentando pontuar é que não importa qual tipo de abuso soframos daqueles aos quais, em teoria, devemos respeito, o objetivo é sempre nos colocar pra baixo – mesmo ex-professores continuam agindo como seu professor, mesmo que ele só seja agora um cara xis que vai na mesma padaria que você. Ora, você já é uma mulher adolescente/jovem, que passa o dia inteiro ouvindo cantada na rua, é subestimada intelectualmente por “piadas” feitas na sala de aula e fora dela, não tem como você se sentir confiante nesse espaço. Quando você é educada a acreditar que qualquer forma de cortejo deva ser encarada como carinho, é lógico que se torna difícil identificar e denunciar o assédio, principalmente se você acreditar que fazer isso é desrespeitar a autoridade de alguém – afinal de contas, é a palavra dele, professor letrado, contra a sua, estudante do segundo grau. Pior ainda: de estudante estressada e preocupada com notas e vestibular, tirar você de louca será mais fácil do que tirar doce de criança.

Mas o que pra mim é ainda mais nocivo, e é aqui que eu retomo o final do episódio (que ficou lá em cima, eu sei, mas vai fazer sentido). Já pro final da trama, Chuck se defende com unhas e dentes, explicando como ele jamais poderia ter abusado sexualmente de sua fã e de como ele era a verdadeira vítima na situação – afinal de contas como seria se sua filha descobrisse que na verdade ele é um lixo humano? Pois bem, quando a narrativa está construída pra que você entre na dele (até porque a Hannah também entra) ele dá a sua cartada final: tira seu pinto pra fora e coloca no colo da Hannah pra ela o masturbar.

Além de nojento, esse episódio lança luz sobre uma coisa muito verdadeira: homens brilhantes não podem ser estupradores e nem abusar sexualmente de mulheres. Ora, é muito fácil seduzir uma mulher quando tudo ao nosso redor destrói a nossa auto-estima (afinal de contas, tudo o que a Hannah quer é ser uma boa escritora, e ele pontua constantemente o quão inteligente e engraçada ela é, principalmente na escrita). Pois bem, isso acontece fora das telas também. Apesar de ser visto como um homem desconstruído e arrependido de seus pecados, um ex-professor meu acaba de se casar com uma ex-aluna quase quinze anos mais nova. Veja, o problema aqui não é o relacionamento deles por si só, eles podem se amar muito e serem feitos um para o outro, mas eu acho suspeito que um professor se aproxime dessa forma de sua aluna do cursinho (repito: aluna, não ex-aluna). O professor que me abusou de todas as formas possíveis e imagináveis foi absolvido de tudo por ter respeitado a próxima aluna da qual ele foi atrás.

Eu não acho que seja impossível manter relações saudáveis com professores, orientadores e mestres no geral. Amo meu ex-orientador e queria que ele fosse meu tio, sei lá. Também não estou falando que toda e qualquer menina seja seduzida por professores dessa forma. Estou querendo criticar a forma com a qual professores usam de sua autoridade para assediar e abusar de suas alunas. Criticar como o tom professoral e aquele jeito de só-quero-o-seu-bem-linda pode ser nocivo para o aprendizado das alunas – tanto ou mais do que ser xingada de imbecil em voz alta na frente dos colegas. O ideal seria uma relação de respeito mútuo, que a aluna seja capaz de aprender em um ambiente livre de objetificações e medo – senão sua cabeça, que já tem um milhão de coisas, terá mais uma: o desconforto ou a aparente obrigação de agradar o mestre a qualquer custo.

Esse episódio de Girls ensina como devemos olhar com cautela para os homens que admiramos, e que não devemos nos deixar levar pelo efeito que esses homens podem ter sobre nós. Não precisamos da massagem nos nossos ombros, nem do carinho na perna feito pelo instrutor da auto-escola, nem do professor que chega perto demais pra tirar suas dúvidas. Precisamos menos ainda sermos xingadas a plenos pulmões na sala de aula, ou silenciadas e intelectualmente desmerecidas por um orientador. Precisamos de respeito à nossa condição de estudante – mas principalmente à nossa condição de mulher.

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