Não, meu afro não está na moda

Cabelo afro não é moda! | Ovelha

Quando falamos em transição capilar, falamos também do esforço de passar meses fazendo cronogramas, texturizações e outras técnicas para lidar com dois tipos de cabelo na cabeça, passando pelo descobrimento de texturas, a paciência para esperar o crescimento, e mesmo o desanimo e vontade de desistência diante das dificuldades e da pressão para alisar, que nunca acaba. É, transição não é fácil, e nunca deveremos dizer que é.

Dito disso, eu gostaria de pontuar: Nenhuma mulher se submete a transição em busca de estar na moda. Para seguir uma tendência de beleza ou das passarelas.

Para ficar mais bonita? Sim. Para se sentir mais bonita? Sim. Depois de ver uma amiga que passou pelo processo, superou todas as dificuldades, e se sente bem apesar de todos os olhares, e julgamentos? Com certeza! Este é um dos maiores incentivos que podemos ter. Mas não passamos pela transição porque está na moda, como tem sugerido a mídia.

Moda implica em manias passageiras, que podem ser questionáveis ou não, que podem combinar ou não com algum tipo de pessoa.

A descoberta do seu cabelo afro, significa também identidade, autoestima recuperada, e uma nova vida. É comum que uma mulher, depois de sentir toda essa satisfação após passar pela transição e recuperar seu cabelo natural, queira incentivar outras a fazerem o mesmo. Logo, iniciam-se grupos, encontros, canais de discussões, tira dúvidas, qualquer coisa que estiver a seu alcance para que outras possam se beneficiar do mesmo.

Não se pode esconder a satisfação de vencer esse período e se encontrar, reconhecer sua identidade, ver como ela tem a ver com sua personalidade, conhecer sua beleza real, e talvez, a quem interessar, encontrar seu estilo a partir disso.

Todo esse movimento pela beleza natural representa uma luta política. Sim, política. Pois como representante desse movimento para outras mulheres, você assume a dificuldade que é o empoderamento, pois haverá também o trabalho da conversa e incentivo para que a mulher não desista dessa luta diante da pressão que mencionei antes.

E esta pressão existe pois ainda vivemos em uma sociedade racista, que aponta o cabelo afro como negativo, e espera uma beleza europeia de todas as mulheres, mesmo daquelas que não nasceram com estas características. Resistir a isso, acordar todos os dias e colocar a cara – e o cabelo! – na rua diante de tanto julgamento, não pode ser nada menos do que uma luta política.

Por isso, tona-se tão ofensivo àquelas que passam pela transição e incentivam a luta de outras, quando nos deparamos com reportagens na mídia, que erraram completamente a interpretação dos movimentos pela beleza natural e de incentivo a transição capilar, achando que todas aquelas mulheres estão ali porque está na moda ter cabelo afro.

Será que estes jornalistas andaram dando uma espiada nas passarelas e revistas de moda recentemente? Será que eles notaram que o cabelo afro está longe dos “must-have” das fashionistas?

Sim, precisamos do apoio da mídia, pois até pouco tempo não se falava em transição capilar, alguns veículos perceberam o barulho feito pelos grandes movimentos em suas páginas na internet, e começaram a destacá-los, consequentemente, mais adeptas a beleza natural começaram a surgir para participar de algo que cuja divulgação e créditos pelo progresso cabiam somente as militâncias que tanto se esforçaram.

Mas a mídia precisa colaborar apontando o porquê dessa busca das mulheres, questionando a imposição do mercado e da sociedade ainda exigindo cabelos lisos, apontando os reais motivos do porque as mulheres buscam pela transição, que para cada uma pode variar e ir além da luta política, mas ser também uma transformação pessoal. E a mídia não colabora vendendo tudo como moda.

Vender o cabelo afro como moda, abre mais portas para a apropriação

Moda implica em manias passageiras, que podem ser questionáveis ou não, que podem combinar ou não com algum tipo de pessoa. Dizer que cabelo afro está na moda, deixa aberto para questionamentos sobre a execução e o uso daquela tendência tão falada, já posso até imaginar as manchetes: “Como ter cachos perfeitos e sem frizz”, “Faça seu cabelo crespo ganhar cachos e definição”, “Até quando de volume combina para o formato do seu rosto?”.

A intenção dos movimentos é justamente não estarmos mais apegadas a estes tipos de regras chatas. Nós paramos de alisar para fugir delas, não entrar em mais delas, não para termos que nos ajustar visualmente para sermos quem realmente somos!

Vender o cabelo afro como moda, abre mais portas para a apropriação, logo o volume será bonito para a pele branca, que já é aceita, e as mulheres negras, que representam a maioria das mulheres em transição, serão excluídas de uma tendência novamente, dessa vez de uma tendência que supostamente criaram. Dizer que cabelo afro é moda, sugere que depois dessa onda, todo este esforço da transição terá sido em vão, pois voltaremos a alisar nossos cabelos e nos preparar para a nova tendência.

O cabelo afro não deve entrar na moda, a moda precisa se ajustar às mulheres de cabelo afro.

 
Fotografia da capa: Keith Major

Mais de Karoline Gomes

As mulheres de Black Sails são relevantes

Sabe quando você gosta tanto de uma série não muito conhecida, e acaba fazendo campanha para todos os seus amigos assistirem? Então… Eu sou assim com Black Sails. Muitas vezes me pego comparando a série com Game Of Thrones e recorrendo aos mesmos argumentos rasos que geralmente são usados para defender a série da HBO. “Você vai gostar. Tem política, ação, sangue, morte e muitos nudes”.

De fato, tirando o fator “magia”, o roteiro de Black Sails tem todos esses elementos. E ainda rola uma abertura com musiquinha legal e chiclete!

 

 
A grande diferença é que a série conta a história de piratas que frequentavam Nassau, capital das Bahamas, no século XVIII. Então se você gosta de histórias reais ou lendas da pirataria, a série da Starz já ganha pontos por reunir personagens como Capitão Flint, Long John Silver e, mais recentemente, Edward Teach, o notório Barba Negra. Nem preciso falar que a produção deixa a franquia de filmes da Disney, Piratas do Caribe, no chinelo, né?

Agora, como estou indicando a série para quem lê Ovelha, sei que posso ir muito além dos argumentos rasos e apresentar um fator ainda mais fortalecedor sobre Black Sails: as personagens femininas.

Já que a comparação com Game Of Thrones acabou sendo feita, é importante apontar que as mulheres não são colocadas como frágeis e em situações vulneráveis apenas por serem mulheres, independentemente do tempo em que vivem e dos riscos que corriam nesse período.

Na série da Starz, as mulheres são de fato relevantes para o contexto político da história e não estão lá para serem resgatadas. Até o fim da terceira temporada (que foi incrível!!!), os roteiristas e produtores da série nunca tiveram que explicar, por exemplo, uma cena de violência desnecessária, como já aconteceu mais de uma vez em GOT. Tudo isso sem apagar o contexto histórico e mostrar que a vida, de fato, não eram nada favorável para as mulheres da época.

Para você saber um pouco mais sobre cada guerreira de Black Sails, criei mini bios sem spoilers! Confira.

 

Eleanor Guthrie

(Atriz: Hannah New)
 
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Para dar vida aos piratas, os roteiristas utilizaram registros históricos ou lendas de livros. Mas para uma figura política fictícia, que lidera a cidade dos contrabandos, nasce uma personagem novinha em folha. Uma mulher.

Eleanor Guthrie não aparece nas lendas e foi criada especialmente para a série. Aos 16 anos, ela herdou o comando de Nassau do pai e lutou para ter o respeito de qualquer um que faça negócios em suas terras. Nenhum alimento é plantado ou nenhuma peça roubada é revendida fora do conhecimento da governadora.

 

Max

(Atriz: Jessica Parker Kennedy)
 
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Ela também é uma personagem criada do zero, com base somente no perfil das prostitutas de Nassau na época do domínio dos piratas. Por isso Max não tem sobrenome.

A evolução da personagem é impressionante. Desde a primeira temporada ela consegue ser relevante para os negócios da cidade. Logo aprendemos mais sobre seu passado de escravidão e conhecemos também o seu poder de liderança.

 

Miranda Barlow

(Atriz: Louise Barnes)
 
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O capitão do navio Walrus, James Flint – personagem originário do livro A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson – é uma das figuras mais importantes para a trama de Black Sails. Mas na segunda temporada, descobre-se que ele não seria tão importante sem a ajuda da esposa, Miranda Barlow.

Não tem nada a ver com aquela baboseira de “por trás de todo grande homem existe uma grande mulher”. Flint e Barlow dividem um passado que origina boa parte da guerra política presente na série e ela prova ser uma personagem muito mais interessante do que a simples cidadã de Nassau que aparenta ser na primeira temporada.

 

Anne Bonny

(Atriz: Clara Paget)
 
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Assim como nas lendas em que é citada, Anne Bonny é apresentada em Black Sails como uma pirata que navega por Bahamas ao lado do marido Jack Rackham. Na série, os dois fazem parte da tripulação do Capitão Charles Vane.

Muito habilidosa com armas de fogo e com a espada, Anne acaba se tornando uma figura solitária, que assusta os outros piratas pela fama de ser uma assassina de sangue frio. Mas, ao longo das temporadas, acabamos conhecendo mais sobre a personalidade da guerreira.

 

A Rainha da Ilha Maroon

(Atriz: Moshidi Motshegwa)
 
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Eu prometi que faria este post sem spoilers, então vou tentar conter a excitação ao falar sobre a Rainha e a Princesa da Ilha Maroon, que surgem na terceira temporada como partes importantíssimas para o roteiro.

O que se sabe na história, é que a Ilha Maroon foi o esconderijo de dezenas de grupos de escravos que fugiram da Espanha e da Inglaterra na mesma época em que Nassau foi tomada pela pirataria. Lá, eles tentavam reconstruir suas vidas e reestabelecer suas tradições africanas.

Na série, qualquer tripulação, pirata ou não, que chega a Maroon precisa prestar contas para a Rainha da Ilha, uma figura misteriosa que comanda o lugar com veemência. A filha dela deve herdar o reinado e já recebe missões políticas importantes, mas mostra ter conflitos internos, principalmente em consequência da infância como escrava.

Por causa do distanciamento que elas mantém de qualquer pessoa de fora da Ilha, os nomes das duas líderes de Maroon ainda não foram revelados na série. Mas, ao que tudo indica, a aproximação da Princesa com o pirata Long John Silver pode quebrar esse mistério. Pesquisando alguns registros históricos, é possível adiantar que a Rainha a qual a série se refere, era conhecida como Nanny.

Já vale a pena assistir todas as temporadas só pela qualidade da série. Mas eu diria que a inclusão da história dos escravos em situação de luta e resistência foi a cereja do bolo para consagrar Black Sails.

Então está esperando o que? Vai lá assistir a série e corre aqui pra contar pra gente o que achou!

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serão excluídas de uma tendência novamente, dessa vez de uma tendência que supostamente criaram. Dizer que cabelo afro é moda, sugere que depois dessa onda, todo este esforço da transição terá sido em vão, pois voltaremos a alisar nossos cabelos e nos preparar para a nova tendência.

O cabelo afro não deve entrar na moda, a moda precisa se ajustar às mulheres de cabelo afro.

 
Fotografia da capa: Keith Major

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