Ultrapassando os limites da cor

Passing” de Nella Larsen é uma novela sobre identidade. Sobre conhecer e desconhecer uma identidade. Sobre o jogo entre possibilidades de se ter diferentes identidades em uma pessoa só.

Na década de 1920 nos Estados Unidos, a “color line”, linha de limite entre negros e brancos, era um tema bastante delicado. Nesse contexto, negros de pele mais clara e de descendência mista praticavam algo chamado “passing”. Em uma sociedade, em que raça determinava quem podia ou não frequentar certos lugares, ter determinados empregos e morar em um bairro lá ou aqui, “passing” era quase como uma forma de sobrevivência. Como é o caso de uma das principais personagens da novela.

O livro de Nella Larsen, publicado em 1929, conta a história das amigas de infância Irene Redfield e Claire Kendry. Duas mulheres com passados iguais e um presente muito parecido, tirando alguns detalhes. As duas foram criadas no bairro de maioria afro-americana Harlem, em Nova York. Até que a morte do pai de Claire fez com que ela desaparecesse da vizinhança, o que despertou fofocas dos moradores.
PassingA novela é toda narrada em terceira pessoa pela visão de Irene, que na primeira página do livro, se mostra nervosa ao receber uma carta. O envelope com a mensagem de Claire a lembra de um encontro, por acaso, anos atrás, em Chicago. As duas estavam no terraço do Hotel Drayton, em um dia quente de verão. Era um lugar onde ambas não poderiam estar, mas estavam. A pela mais clara das duas mulheres afro-americanos as faziam passar por mulheres brancas. Ninguém mais ali sabia que elas estavam “passing”, apenas as duas. Ambas tinham conhecimento da origem uma da outra. A possibilidade de “pass” por uma pessoa de outra raça não era conhecida pelos brancos – e, só por isso, ela era possível.

Para quem lê a novela e não conhece o conceito de “passing”, a identidade racial de Irene não fica clara nas primeiras páginas. É somente no segundo capítulo que Nella Larsen revela que Irene é uma mulher negra de pele mais clara. A novela em si está “passing”, de certa forma. E é isso que a faz tão interessante.

Mesmo que ambas possam passar por mulheres brancas, apenas Claire precisa disso para sobreviver. Irene mora em Harlem, onde é bastante ativa dentro da comunidade negra. Ela é casada com o médico Brian, também afro-americano, e tem dois filhos. Irene vive sua identidade racial em sua casa, em seu bairro, em sua comunidade. Já Claire é casada com John Bellew, um homem branco bastante racista e que não faz ideia de que sua esposa tenha descendências afro-americanas. Claire esconde sua identidade racial e ignora os discursos preconceituosos do marido. Mesmo assim, ela não tem medo de ser descoberta.

Esse é outro ponto importante na novela. As duas amigas têm personalidades muito diferentes. Irene é séria, contida, controlada. Tive uma matéria sobre Leituras Feministas e Queer na minha faculdade e discutimos semanas sobre Passing e suas personagens. A professora observou que Irene tenta constantemente passar a ideia de uma mulher respeitável, séria, de classe média, também numa tentativa de ir contra aquele estereótipo da mulher negra super sexualizada – na época, havia essa ideia de que a mulher negra era sensual, selvagem sexualmente e objeto de desejo dos homens brancos. Por isso, para se aproximar do conceito de “mulher branca”, Irene tinha que mostrar um comportamento contrário a essa ideia de o que era ser uma mulher negra.

Claire, diferente da amiga, é uma mulher solta, simpática, sexy, sempre animada e que gosta de se aventurar sem pensar nos riscos. O mais interessante é que Irene parece ter mais liberdade em sua vida do que Claire, pois não tem segredos a guardar. Mas ela não vive essa liberdade plenamente. Já Claire, mesmo correndo riscos de que o Mrs. Bellew descubra suas origens, vai a eventos e bailes da comunidade negra e anseia por viver essa identidade “blackness” que lhe foi limitada.

A história gira em torno dessa relação de amizade entre as duas mulheres. Mas muitas questões ficam no ar o tempo todo. Alguns enxergam uma atração física de Irene por Claire, pela forma como a descreve – como uma mulher linda e sensual – e fica obcecada pela amiga. Também tem uma questão de traição no meio da trama. Irene começa a suspeitar de que Brian a está traindo com Claire, já que os dois passam muito tempo juntos. Mas nada disso é esclarecido em nenhum momento do romance.

Roubando mais uma vez a fala da minha professora, dá pra dizer a obra de Nella Larsen é uma novela sobre knowing and not-knowing. E é exatamente isso que faz a prática do passing possível. O saber mas não saber exatamente, como no caso de John Bellew, que acreditava saber tudo sobre sua esposa, mas que não conhece seu passado. É um livro que coloca o tempo todo a questão do que é afinal blackness and whitness – o que são essas identidade? O que significa ser negro ou branco? O que é afinal essa “color line”? Isso não é respondido no livro, mas fica nas nossas cabecinhas pensantes.
 
[caption id="attachment_3908" align="aligncenter" width="450"]A escritora Nella Larsen A escritora Nella Larsen[/caption]  
Acredito também que Nella Larsen colocou muito de sua experiência de vida na novela. Nascida em Chicago, a autora também tinha descendência mista: afro-caribenha e dinamarquesa. Larsen morou em Nova York e, por um tempo, no bairro de suas protagonistas, o Harlem.

Infelizmente, não encontrei o livro em português, somente em inglês. Talvez ainda não tenha sido traduzido… Mas a linguagem em inglês até que é bem fácil e o livro não é longo. Ou seja, super recomendável pra quem gosta de novelas feministas mais clássicas (e quer treinar seu inglês!).
 
[separator type="thin"] Imagem de capa feita a partir da edição do livro pela African/American Library

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Escrito por
Mais de Débora Backes

Casadas e grávidas ao mesmo tempo

Ao checar a minha timeline do Facebook em busca de coisas interessantes (o que quase nunca tem), vi a postagem de uma amiga. O título do texto me chamou a atenção logo de cara e o abri para ler: “My Wife and I are (both) Pregnant” (Minha esposa e eu estamos (ambas) grávidas, seria a tradução em português). Pensei: “Que sorte! E que coragem! Ter dois bebês ao mesmo tempo deve ser difícil. Mas deve ser bom por um lado, exatamente porque AS DUAS estão grávidas AO MESMO TEMPO”.

Mas claro que duas mulheres grávidas, casadas, vivendo na mesma casa não é tão simples como possa parecer. Depois de ler a matéria da New York Magazine percebi quantas coisas e diferentes sentimentos isso poderia implicar.

Lendo a história do casal Kate e Emily, vi que a coisa é muito mais complicada do que simplesmente “que bom, finalmente alguém vai entender EXATAMENTE porque estou me sentindo assim ou assim ou assado… E vai me ajudar!” Explico, do começo.

Kate e Emily começaram a tentar a gravidez após se casarem. Na clínica de fertilização, a médica escolheu Emily, por ser a mais jovem do casal, para tentar as inseminações. Mas Kate se viu querendo algo que, até então, não tinha tanta certeza que desejava: ela queria ficar grávida. Ambas concordaram e as tentativas começaram. Depois de seis meses tentando com Kate, a médica sugeriu que era a hora de Emily! “Você tá louca? E se as duas ficarem grávidas?”, perguntou Kate. “Ah, as chances disso acontecer são muito pequenas”, respondeu a médica.

Pronto. Emily engravidou na primeira tentativa, deixando Kate feliz mas meio frustrada. Kate já estava no meio do tratamento, e a gravidez de Emily ainda estava muito no início e qualquer coisa poderia acontecer, então a médica decidiu fazer mais uma inseminação em Kate. E pá! O resultado para Kate também foi positivo!

O relato é contado da perspectiva das duas separadamente. O que é interessante, pois ambas ficam livres para falar de seus sentimentos (algumas vezes de frustração pela gravidez ser mais fácil para uma do que para a outra) e dos esforços para se ajudar mutuamente. No momento do parto, como em alguns outros, ambas tentam não mostrar fraqueza nem pena, apesar de estarem se colocando em um esforço físico e emocional enorme para ajudar a parceira. Isso que é o lindo da história! Elas sabem das dificuldades uma da outra e, por isso mesmo, fazem de tudo para se apoiar da melhor forma possível.

 

 
Acho que uma das falas de Kate define bem a situação do casal durante os nove meses:

Os prós e contras de ter sua esposa, outra mulher, passando pela gravidez, trabalho de parto e maternidade ao mesmo tempo, é que você não consegue evitar comparações. Minha gravidez estava três semanas atrás da de Emily. Ela ia sentir algo que algumas semanas depois eu também iria sentir. Teve coisas muito parecidas, mas outras que eram tipo, ‘uau, espera um minuto, porque seus mamilos estão assim e os meus estão assim?!’

Mais adiante ela fala que o processo só funcionou porque o sentimento de pena estava proibido entre as duas: “Acho que o clichê da gravidez é que a esposa reclama muito. Mas qual é o sentido? Você reclama porque você quer que sintam pena. Você quer que a outra pessoa fale ‘Oh, baby, eu vou cuidar de você’. Nós não podíamos fazer isso. Não tínhamos energia para sentir pena! Os prós é que ambas sentíamos as mesmas coisas e tínhamos alguém que nos compreendia, mas sem sentir pena. Tinha empatia, mas sem pena!”

As duas se organizaram em tudo. Desde as tarefas domésticas, como quem vai cozinhar e lavar roupa na semana, até nas preparações antes do parto – afinal, a mala pro hospital tinha que estar pronta, já que a qualquer momento, uma delas podia entrar em trabalho de parto! Nunca passou pela minha cabeça até ler o texto, mas é claro que nenhuma das duas podia fazer tarefas pesadas! E aí, como faz se a pessoa que mora com você, e deveria te ajudar nesse momento, está tão cansada e com dores quanto você? O casal contou muito com ajuda de parentes e amigos (por sorte!).

A gravidez foi só uma parte do processo que as duas enfrentaram e ainda vão enfrentar juntas. Os meninos Reid e Eddie nasceram saudáveis e lindos! Depois do nascimento, as duas se encontram diante desse mundo novo que é a maternidade, em que não serão somente mães do filho que geraram biologicamente, mas do filho da esposa. E há aí o desafio em se conectar com os dois filhos igualmente, sem escolher o próprio como favorito.

A história me chamou atenção por muitos motivos, mas o principal: pela perspectiva de duas mulheres passando pelo mesmo processo, ao mesmo tempo, e por revelar como, mesmo assim, gravidez e maternidade são coisas complexas. Terminei a leitura com a impressão de que a gravidez não ficou mais fácil ou mais difícil pelas duas estarem, de fato, juntas nessa. Pelos relatos, há certas dificuldades que talvez outros casais (em que só uma delas estivesse grávida) não tivessem, mas outras coisas positivas também. No final, o que importa é que os dois garotos serão criados com muito amor por duas mulheres fortes (e com uma baita história pra contar sobre o seu nascimento).

 


Imagem feita com exclusividade por Bárbara Malagoli (Baby C)

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A novela é toda narrada em terceira pessoa pela visão de Irene, que na primeira página do livro, se mostra nervosa ao receber uma carta. O envelope com a mensagem de Claire a lembra de um encontro, por acaso, anos atrás, em Chicago. As duas estavam no terraço do Hotel Drayton, em um dia quente de verão. Era um lugar onde ambas não poderiam estar, mas estavam. A pela mais clara das duas mulheres afro-americanos as faziam passar por mulheres brancas. Ninguém mais ali sabia que elas estavam “passing”, apenas as duas. Ambas tinham conhecimento da origem uma da outra. A possibilidade de “pass” por uma pessoa de outra raça não era conhecida pelos brancos – e, só por isso, ela era possível.

Para quem lê a novela e não conhece o conceito de “passing”, a identidade racial de Irene não fica clara nas primeiras páginas. É somente no segundo capítulo que Nella Larsen revela que Irene é uma mulher negra de pele mais clara. A novela em si está “passing”, de certa forma. E é isso que a faz tão interessante.

Mesmo que ambas possam passar por mulheres brancas, apenas Claire precisa disso para sobreviver. Irene mora em Harlem, onde é bastante ativa dentro da comunidade negra. Ela é casada com o médico Brian, também afro-americano, e tem dois filhos. Irene vive sua identidade racial em sua casa, em seu bairro, em sua comunidade. Já Claire é casada com John Bellew, um homem branco bastante racista e que não faz ideia de que sua esposa tenha descendências afro-americanas. Claire esconde sua identidade racial e ignora os discursos preconceituosos do marido. Mesmo assim, ela não tem medo de ser descoberta.

Esse é outro ponto importante na novela. As duas amigas têm personalidades muito diferentes. Irene é séria, contida, controlada. Tive uma matéria sobre Leituras Feministas e Queer na minha faculdade e discutimos semanas sobre Passing e suas personagens. A professora observou que Irene tenta constantemente passar a ideia de uma mulher respeitável, séria, de classe média, também numa tentativa de ir contra aquele estereótipo da mulher negra super sexualizada – na época, havia essa ideia de que a mulher negra era sensual, selvagem sexualmente e objeto de desejo dos homens brancos. Por isso, para se aproximar do conceito de “mulher branca”, Irene tinha que mostrar um comportamento contrário a essa ideia de o que era ser uma mulher negra.

Claire, diferente da amiga, é uma mulher solta, simpática, sexy, sempre animada e que gosta de se aventurar sem pensar nos riscos. O mais interessante é que Irene parece ter mais liberdade em sua vida do que Claire, pois não tem segredos a guardar. Mas ela não vive essa liberdade plenamente. Já Claire, mesmo correndo riscos de que o Mrs. Bellew descubra suas origens, vai a eventos e bailes da comunidade negra e anseia por viver essa identidade “blackness” que lhe foi limitada.

A história gira em torno dessa relação de amizade entre as duas mulheres. Mas muitas questões ficam no ar o tempo todo. Alguns enxergam uma atração física de Irene por Claire, pela forma como a descreve – como uma mulher linda e sensual – e fica obcecada pela amiga. Também tem uma questão de traição no meio da trama. Irene começa a suspeitar de que Brian a está traindo com Claire, já que os dois passam muito tempo juntos. Mas nada disso é esclarecido em nenhum momento do romance.

Roubando mais uma vez a fala da minha professora, dá pra dizer a obra de Nella Larsen é uma novela sobre knowing and not-knowing. E é exatamente isso que faz a prática do passing possível. O saber mas não saber exatamente, como no caso de John Bellew, que acreditava saber tudo sobre sua esposa, mas que não conhece seu passado. É um livro que coloca o tempo todo a questão do que é afinal blackness and whitness – o que são essas identidade? O que significa ser negro ou branco? O que é afinal essa “color line”? Isso não é respondido no livro, mas fica nas nossas cabecinhas pensantes.
 

 
Acredito também que Nella Larsen colocou muito de sua experiência de vida na novela. Nascida em Chicago, a autora também tinha descendência mista: afro-caribenha e dinamarquesa. Larsen morou em Nova York e, por um tempo, no bairro de suas protagonistas, o Harlem.

Infelizmente, não encontrei o livro em português, somente em inglês. Talvez ainda não tenha sido traduzido… Mas a linguagem em inglês até que é bem fácil e o livro não é longo. Ou seja, super recomendável pra quem gosta de novelas feministas mais clássicas (e quer treinar seu inglês!).
 

Imagem de capa feita a partir da edição do livro pela African/American Library

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