Um grupo de mulheres trabalha tirando pedras e tijolos do que parecem ser escombros e os levam em cestas equilibradas sobre as cabeças. Enquanto isso, outras mulheres trabalham em uma fábrica têxtil, concentradas em suas máquinas de costuras. Em um apartamento de classe média, uma mulher dança em frente ao espelho, enquanto outra limpa as janelas da sacada, ouvindo assobios de um operário do prédio da frente. É um prédio em construção, como tantos outros na cidade de Daca, capital de Bangladesh.
“Under Construction” é o segundo filme de Rubaiyat Hossain, uma das poucas mulheres diretoras e roteiristas de Bangladesh, e teve sua estreia na Semana de Cinema Feminista de Berlim. Sem exageros, posso dizer que foi um dos melhores filmes de temática feminista que vi nos últimos tempos. O filme é incrível pela fotografia, roteiro e pela forma como monta críticas à sociedade de Bangladesh de uma perspectiva feminina. A personagem te envolve na história e faz com que você fique querendo saber o que vai acontecer nos diferentes âmbitos de sua vida.
Roya (interpretada pela linda atriz indiana Shahana Goswami) é uma mulher de classe média que tem uma vida confortável em um grande apartamento, uma jovem empregada chamada Monya e um marido que ganha muito bem. Ela é atriz de teatro e atua em “Rakta Karabi” ou “The Red Oleanders”, do dramaturgo Rabindranath Tagore, uma peça bastante tradicional da cultura bengalesa. Roya é Nandini, principal personagem da obra, mas se vê prestes a ser substituída por uma atriz mais jovem. Isso a revolta profundamente.
Seu marido pouco se importa com seu trabalho no teatro. Quando o tema aparece durante o jantar, ele apenas diz que eles deveriam ter um filho e vê isso como decidido, apesar de Roya não expressar nenhum desejo pela maternidade. Fora da vida de casal, a mãe de Roya também a pressiona para que tenha filhos, cuide do marido e esqueça seu trabalho como atriz. A mãe é uma senhora tradicional muçulmana que, em certo momento do filme, chega a dizer à filha que atrizes são putas.
Diante de toda essa pressão, Roya se vê em um conflito consigo mesma e com a sociedade em que vive. A primeira maneira que encontra para colocar isso para fora é tentar mudar as coisas na companhia de teatro. Eles se preparam para receber a visita do grande diretor Imtiaz que gostaria de levar “The Red Oleanders” em uma turnê europeia, mas, para isso, devem deixar a peça mais moderna. Quando questionada sobre como poderiam mudá-la, Roya responde: “Nandini não é uma mulher real, ela é muito perfeita. Nenhuma mulher bengalesa é assim”. Todos seus colegas acham aquilo absurdo. Afinal, como alguém poderia reinterpretar algo tão tradicional como Tagore? Mas Roya não desiste de suas ideias. Ela quer recriar a tradição.
Assim como sua recriação de Nandini, a personagem de Roya também não é a mulher perfeita. Ela continua sendo uma mulher que depende do marido financeiramente, que tem uma empregada e que pode trabalhar como atriz, enquanto muitas outras mulheres em Daca precisam trabalhar em construções ou fábricas têxteis para sobreviver.
Rubaiyat Hossain não esconde que sua personagem pode ser um pouco mimada e mostra suas imperfeições várias vezes durante o longa. Em uma das cenas na casa da mãe de Roya, as duas discutem. Roya argumenta com a senhora que a vida de uma mulher não deve ser voltada somente ao marido e aos filhos. A mãe a confronta dizendo que ela mesma trabalhou para ganhar seu próprio dinheiro e que muitas outras mulheres de sua classe faziam e fazem a mesma coisa. “E você? Você tem boa educação, por que não consegue um emprego de verdade?”. Nesse momento, o mito da heroína que os espectadores viam em Roya se desmonta.
Numa conversa com o público, após a exibição do filme, Rubaiyat explica o porquê de montar sua personagem dessa forma. “Acho que Roya representa a mulher bengalesa contemporânea. Muitas mulheres hoje em dia estão tendo esse tipo de conflito pessoal e com a tradição em Bangladesh em suas cabeças. Roya é uma mulher que está passando por um processo de construção, assim como outras mulheres em Bangladesh”, explica a diretora que escolheu o título “Under Construction” exatamente por isso.
Para a surpresa da jovem diretora, que fez Women Studies e South Asian Studies nos Estados Unidos, a recepção de seu filme foi muito positiva em Bangladesh, principalmente entre as mulheres. “Fizemos uma sessão só para mulheres em Daca e, no final do filme, muitas vieram até mim para dizer como tinham se identificado com Roya”, conta Rubaiyat. Claro que as críticas, principalmente da ala masculina, não deixaram de aparecer. Ela conta que a maioria dos homens saiu em defesa da personagem da mãe de Roya – uma mulher tradicional que trabalhou duro na vida e que acreditava que sua filha deveria se dedicar ao marido, a ter filhos e à religião.
Não é fácil ser mulher
A diretora foi questionada pela organizadora do evento, Karin Fornander, como era ser uma cineasta em Bangladesh. “Bom, não é difícil ser uma diretora mulher em Bangladesh, é difícil ser mulher em Bangladesh!”, respondeu. E isso fica bem claro no filme.
Além de toda a tradição machista que constantemente é jogada na cara de Roya, outras situações deixam bem claro o quão difícil é viver no país sul asiático como mulher. Nas primeiras cenas do filme, a jovem empregada Monya é assediada com assobios e palavras de um operário do prédio da frente, enquanto está dentro de casa, limpando a sacada. Em outro momento, Monya se vira para Roya e diz “você tem sorte de ter um bom marido. Ele não bate em você”. Só isso fazia dele um marido maravilhoso.
Mais adiante, outra referência à frequente violência doméstica sofrida por mulheres no país. Monya engravida e vai viver com o novo marido em um bairro muito pobre em Daca, onde Roya vai visitá-la. Enquanto conversam, as duas ouvem gritos e choros. “O vizinho bate na esposa todos os dias”, diz Monya.
Violência contra mulheres é um caso mais sério em Bangladesh, sendo um dos países com alto número de vítimas femininas de ataques com ácido. Segundo a organização Acid Survivors Foundation, de 1999 até 2015 foram 3.303 casos registrados de ataques com ácido no país. Além disso, mulheres e meninas sofrem com casamentos precoces, violência e assédio sexual, condições inadequadas de trabalho para grávidas… Realmente não é fácil ser mulher por lá.
Bangladesh é lembrado pelo grande número de fábricas têxteis, em que a maior parte dos trabalhadores são mulheres. Segundo a Human Rights Watch, a maioria dos supervisores dessas fábricas são homens, que muitas vezes assediam as funcionárias com comentários de cunho sexual. Pela situação precária para trabalhadoras nessa indústria, seria impossível não fazer referência a ela no filme.
Em vários momentos, as fábricas têxteis aparecem em pano de fundo. Quando Roya caminha pelas ruas de Daca, ela vê homens indo em direção às construções e mulheres em direção às fábricas. No centro da cidade, se vê um anúncio com uma mulher em uma máquina de costura e os dizeres “Maiores colaboradores para a economia nacional”. Mas a referência mais importante é quando Roya está em casa e vê no noticiário o desespero das pessoas diante do colapso do Rana Plaza, tragédia que ocorreu no dia 24 de abril de 2013 e matou mais de 1,1 mil pessoas. Rubaiyat pegou cenas de notícias reais que saíram na época nos canais de TV.
Na minha opinião, a diretora quis, além de criticar tantos aspectos machistas de seu país, atingir o Ocidente, que tanto se beneficia do trabalho de milhares de mulheres nessas fábricas. É difícil não sentir um aperto no peito ao ver as personagens trabalhando em máquinas de costura e, logo depois, o Rana Plaza desmoronando com tantos funcionários lá dentro.
“Under Construction” me surpreendeu positivamente. Há tempos não via um filme que quase não me deixasse piscar diante da tela. Os gestos e expressões faciais de Roya revelam uma mulher em conflito e em um processo complexo de reconstrução. As falas dos personagens, as situações e referências apresentam o machismo de uma cultura oriental que por vezes se assemelha e se afasta do machismo que conhecemos no Ocidente. Finalmente, o filme cumpre seu papel: dar voz às mulheres de Bangladesh.
Um grupo de mulheres trabalha tirando pedras e tijolos do que parecem ser escombros e os levam em cestas equilibradas sobre as cabeças. Enquanto isso, outras mulheres trabalham em uma fábrica têxtil, concentradas em suas máquinas de costuras. Em um apartamento de classe média, uma mulher dança em frente ao espelho, enquanto outra limpa as janelas da sacada, ouvindo assobios de um operário do prédio da frente. É um prédio em construção, como tantos outros na cidade de Daca, capital de Bangladesh.
“Under Construction” é o segundo filme de Rubaiyat Hossain, uma das poucas mulheres diretoras e roteiristas de Bangladesh, e teve sua estreia na Semana de Cinema Feminista de Berlim. Sem exageros, posso dizer que foi um dos melhores filmes de temática feminista que vi nos últimos tempos. O filme é incrível pela fotografia, roteiro e pela forma como monta críticas à sociedade de Bangladesh de uma perspectiva feminina. A personagem te envolve na história e faz com que você fique querendo saber o que vai acontecer nos diferentes âmbitos de sua vida.
Roya (interpretada pela linda atriz indiana Shahana Goswami) é uma mulher de classe média que tem uma vida confortável em um grande apartamento, uma jovem empregada chamada Monya e um marido que ganha muito bem. Ela é atriz de teatro e atua em “Rakta Karabi” ou “The Red Oleanders”, do dramaturgo Rabindranath Tagore, uma peça bastante tradicional da cultura bengalesa. Roya é Nandini, principal personagem da obra, mas se vê prestes a ser substituída por uma atriz mais jovem. Isso a revolta profundamente.
Seu marido pouco se importa com seu trabalho no teatro. Quando o tema aparece durante o jantar, ele apenas diz que eles deveriam ter um filho e vê isso como decidido, apesar de Roya não expressar nenhum desejo pela maternidade. Fora da vida de casal, a mãe de Roya também a pressiona para que tenha filhos, cuide do marido e esqueça seu trabalho como atriz. A mãe é uma senhora tradicional muçulmana que, em certo momento do filme, chega a dizer à filha que atrizes são putas.
Diante de toda essa pressão, Roya se vê em um conflito consigo mesma e com a sociedade em que vive. A primeira maneira que encontra para colocar isso para fora é tentar mudar as coisas na companhia de teatro. Eles se preparam para receber a visita do grande diretor Imtiaz que gostaria de levar “The Red Oleanders” em uma turnê europeia, mas, para isso, devem deixar a peça mais moderna. Quando questionada sobre como poderiam mudá-la, Roya responde: “Nandini não é uma mulher real, ela é muito perfeita. Nenhuma mulher bengalesa é assim”. Todos seus colegas acham aquilo absurdo. Afinal, como alguém poderia reinterpretar algo tão tradicional como Tagore? Mas Roya não desiste de suas ideias. Ela quer recriar a tradição.
Assim como sua recriação de Nandini, a personagem de Roya também não é a mulher perfeita. Ela continua sendo uma mulher que depende do marido financeiramente, que tem uma empregada e que pode trabalhar como atriz, enquanto muitas outras mulheres em Daca precisam trabalhar em construções ou fábricas têxteis para sobreviver.
Rubaiyat Hossain não esconde que sua personagem pode ser um pouco mimada e mostra suas imperfeições várias vezes durante o longa. Em uma das cenas na casa da mãe de Roya, as duas discutem. Roya argumenta com a senhora que a vida de uma mulher não deve ser voltada somente ao marido e aos filhos. A mãe a confronta dizendo que ela mesma trabalhou para ganhar seu próprio dinheiro e que muitas outras mulheres de sua classe faziam e fazem a mesma coisa. “E você? Você tem boa educação, por que não consegue um emprego de verdade?”. Nesse momento, o mito da heroína que os espectadores viam em Roya se desmonta.
Numa conversa com o público, após a exibição do filme, Rubaiyat explica o porquê de montar sua personagem dessa forma. “Acho que Roya representa a mulher bengalesa contemporânea. Muitas mulheres hoje em dia estão tendo esse tipo de conflito pessoal e com a tradição em Bangladesh em suas cabeças. Roya é uma mulher que está passando por um processo de construção, assim como outras mulheres em Bangladesh”, explica a diretora que escolheu o título “Under Construction” exatamente por isso.
Para a surpresa da jovem diretora, que fez Women Studies e South Asian Studies nos Estados Unidos, a recepção de seu filme foi muito positiva em Bangladesh, principalmente entre as mulheres. “Fizemos uma sessão só para mulheres em Daca e, no final do filme, muitas vieram até mim para dizer como tinham se identificado com Roya”, conta Rubaiyat. Claro que as críticas, principalmente da ala masculina, não deixaram de aparecer. Ela conta que a maioria dos homens saiu em defesa da personagem da mãe de Roya – uma mulher tradicional que trabalhou duro na vida e que acreditava que sua filha deveria se dedicar ao marido, a ter filhos e à religião.
Não é fácil ser mulher
A diretora foi questionada pela organizadora do evento, Karin Fornander, como era ser uma cineasta em Bangladesh. “Bom, não é difícil ser uma diretora mulher em Bangladesh, é difícil ser mulher em Bangladesh!”, respondeu. E isso fica bem claro no filme.
Além de toda a tradição machista que constantemente é jogada na cara de Roya, outras situações deixam bem claro o quão difícil é viver no país sul asiático como mulher. Nas primeiras cenas do filme, a jovem empregada Monya é assediada com assobios e palavras de um operário do prédio da frente, enquanto está dentro de casa, limpando a sacada. Em outro momento, Monya se vira para Roya e diz “você tem sorte de ter um bom marido. Ele não bate em você”. Só isso fazia dele um marido maravilhoso.
Mais adiante, outra referência à frequente violência doméstica sofrida por mulheres no país. Monya engravida e vai viver com o novo marido em um bairro muito pobre em Daca, onde Roya vai visitá-la. Enquanto conversam, as duas ouvem gritos e choros. “O vizinho bate na esposa todos os dias”, diz Monya.
Violência contra mulheres é um caso mais sério em Bangladesh, sendo um dos países com alto número de vítimas femininas de ataques com ácido. Segundo a organização Acid Survivors Foundation, de 1999 até 2015 foram 3.303 casos registrados de ataques com ácido no país. Além disso, mulheres e meninas sofrem com casamentos precoces, violência e assédio sexual, condições inadequadas de trabalho para grávidas… Realmente não é fácil ser mulher por lá.
Bangladesh é lembrado pelo grande número de fábricas têxteis, em que a maior parte dos trabalhadores são mulheres. Segundo a Human Rights Watch, a maioria dos supervisores dessas fábricas são homens, que muitas vezes assediam as funcionárias com comentários de cunho sexual. Pela situação precária para trabalhadoras nessa indústria, seria impossível não fazer referência a ela no filme.
Em vários momentos, as fábricas têxteis aparecem em pano de fundo. Quando Roya caminha pelas ruas de Daca, ela vê homens indo em direção às construções e mulheres em direção às fábricas. No centro da cidade, se vê um anúncio com uma mulher em uma máquina de costura e os dizeres “Maiores colaboradores para a economia nacional”. Mas a referência mais importante é quando Roya está em casa e vê no noticiário o desespero das pessoas diante do colapso do Rana Plaza, tragédia que ocorreu no dia 24 de abril de 2013 e matou mais de 1,1 mil pessoas. Rubaiyat pegou cenas de notícias reais que saíram na época nos canais de TV.
Na minha opinião, a diretora quis, além de criticar tantos aspectos machistas de seu país, atingir o Ocidente, que tanto se beneficia do trabalho de milhares de mulheres nessas fábricas. É difícil não sentir um aperto no peito ao ver as personagens trabalhando em máquinas de costura e, logo depois, o Rana Plaza desmoronando com tantos funcionários lá dentro.
“Under Construction” me surpreendeu positivamente. Há tempos não via um filme que quase não me deixasse piscar diante da tela. Os gestos e expressões faciais de Roya revelam uma mulher em conflito e em um processo complexo de reconstrução. As falas dos personagens, as situações e referências apresentam o machismo de uma cultura oriental que por vezes se assemelha e se afasta do machismo que conhecemos no Ocidente. Finalmente, o filme cumpre seu papel: dar voz às mulheres de Bangladesh.
Um grupo de mulheres trabalha tirando pedras e tijolos do que parecem ser escombros e os levam em cestas equilibradas sobre as cabeças. Enquanto isso, outras mulheres trabalham em uma fábrica têxtil, concentradas em suas máquinas de costuras. Em um apartamento de classe média, uma mulher dança em frente ao espelho, enquanto outra limpa as janelas da sacada, ouvindo assobios de um operário do prédio da frente. É um prédio em construção, como tantos outros na cidade de Daca, capital de Bangladesh.
“Under Construction” é o segundo filme de Rubaiyat Hossain, uma das poucas mulheres diretoras e roteiristas de Bangladesh, e teve sua estreia na Semana de Cinema Feminista de Berlim. Sem exageros, posso dizer que foi um dos melhores filmes de temática feminista que vi nos últimos tempos. O filme é incrível pela fotografia, roteiro e pela forma como monta críticas à sociedade de Bangladesh de uma perspectiva feminina. A personagem te envolve na história e faz com que você fique querendo saber o que vai acontecer nos diferentes âmbitos de sua vida.
Roya (interpretada pela linda atriz indiana Shahana Goswami) é uma mulher de classe média que tem uma vida confortável em um grande apartamento, uma jovem empregada chamada Monya e um marido que ganha muito bem. Ela é atriz de teatro e atua em “Rakta Karabi” ou “The Red Oleanders”, do dramaturgo Rabindranath Tagore, uma peça bastante tradicional da cultura bengalesa. Roya é Nandini, principal personagem da obra, mas se vê prestes a ser substituída por uma atriz mais jovem. Isso a revolta profundamente.
Seu marido pouco se importa com seu trabalho no teatro. Quando o tema aparece durante o jantar, ele apenas diz que eles deveriam ter um filho e vê isso como decidido, apesar de Roya não expressar nenhum desejo pela maternidade. Fora da vida de casal, a mãe de Roya também a pressiona para que tenha filhos, cuide do marido e esqueça seu trabalho como atriz. A mãe é uma senhora tradicional muçulmana que, em certo momento do filme, chega a dizer à filha que atrizes são putas.
Diante de toda essa pressão, Roya se vê em um conflito consigo mesma e com a sociedade em que vive. A primeira maneira que encontra para colocar isso para fora é tentar mudar as coisas na companhia de teatro. Eles se preparam para receber a visita do grande diretor Imtiaz que gostaria de levar “The Red Oleanders” em uma turnê europeia, mas, para isso, devem deixar a peça mais moderna. Quando questionada sobre como poderiam mudá-la, Roya responde: “Nandini não é uma mulher real, ela é muito perfeita. Nenhuma mulher bengalesa é assim”. Todos seus colegas acham aquilo absurdo. Afinal, como alguém poderia reinterpretar algo tão tradicional como Tagore? Mas Roya não desiste de suas ideias. Ela quer recriar a tradição.
Assim como sua recriação de Nandini, a personagem de Roya também não é a mulher perfeita. Ela continua sendo uma mulher que depende do marido financeiramente, que tem uma empregada e que pode trabalhar como atriz, enquanto muitas outras mulheres em Daca precisam trabalhar em construções ou fábricas têxteis para sobreviver.
Rubaiyat Hossain não esconde que sua personagem pode ser um pouco mimada e mostra suas imperfeições várias vezes durante o longa. Em uma das cenas na casa da mãe de Roya, as duas discutem. Roya argumenta com a senhora que a vida de uma mulher não deve ser voltada somente ao marido e aos filhos. A mãe a confronta dizendo que ela mesma trabalhou para ganhar seu próprio dinheiro e que muitas outras mulheres de sua classe faziam e fazem a mesma coisa. “E você? Você tem boa educação, por que não consegue um emprego de verdade?”. Nesse momento, o mito da heroína que os espectadores viam em Roya se desmonta.
Numa conversa com o público, após a exibição do filme, Rubaiyat explica o porquê de montar sua personagem dessa forma. “Acho que Roya representa a mulher bengalesa contemporânea. Muitas mulheres hoje em dia estão tendo esse tipo de conflito pessoal e com a tradição em Bangladesh em suas cabeças. Roya é uma mulher que está passando por um processo de construção, assim como outras mulheres em Bangladesh”, explica a diretora que escolheu o título “Under Construction” exatamente por isso.
Para a surpresa da jovem diretora, que fez Women Studies e South Asian Studies nos Estados Unidos, a recepção de seu filme foi muito positiva em Bangladesh, principalmente entre as mulheres. “Fizemos uma sessão só para mulheres em Daca e, no final do filme, muitas vieram até mim para dizer como tinham se identificado com Roya”, conta Rubaiyat. Claro que as críticas, principalmente da ala masculina, não deixaram de aparecer. Ela conta que a maioria dos homens saiu em defesa da personagem da mãe de Roya – uma mulher tradicional que trabalhou duro na vida e que acreditava que sua filha deveria se dedicar ao marido, a ter filhos e à religião.
[caption id="attachment_9793" align="aligncenter" width="648"] Atriz Shahana Goswami e diretora Rubaiyat Hossain falam sobre o filme na Semana de Cinema Feminista de Berlim[/caption]
Não é fácil ser mulher
A diretora foi questionada pela organizadora do evento, Karin Fornander, como era ser uma cineasta em Bangladesh. “Bom, não é difícil ser uma diretora mulher em Bangladesh, é difícil ser mulher em Bangladesh!”, respondeu. E isso fica bem claro no filme.
Além de toda a tradição machista que constantemente é jogada na cara de Roya, outras situações deixam bem claro o quão difícil é viver no país sul asiático como mulher. Nas primeiras cenas do filme, a jovem empregada Monya é assediada com assobios e palavras de um operário do prédio da frente, enquanto está dentro de casa, limpando a sacada. Em outro momento, Monya se vira para Roya e diz “você tem sorte de ter um bom marido. Ele não bate em você”. Só isso fazia dele um marido maravilhoso.
Mais adiante, outra referência à frequente violência doméstica sofrida por mulheres no país. Monya engravida e vai viver com o novo marido em um bairro muito pobre em Daca, onde Roya vai visitá-la. Enquanto conversam, as duas ouvem gritos e choros. “O vizinho bate na esposa todos os dias”, diz Monya.
Violência contra mulheres é um caso mais sério em Bangladesh, sendo um dos países com alto número de vítimas femininas de ataques com ácido. Segundo a organização Acid Survivors Foundation, de 1999 até 2015 foram 3.303 casos registrados de ataques com ácido no país. Além disso, mulheres e meninas sofrem com casamentos precoces, violência e assédio sexual, condições inadequadas de trabalho para grávidas… Realmente não é fácil ser mulher por lá.
Bangladesh é lembrado pelo grande número de fábricas têxteis, em que a maior parte dos trabalhadores são mulheres. Segundo a Human Rights Watch, a maioria dos supervisores dessas fábricas são homens, que muitas vezes assediam as funcionárias com comentários de cunho sexual. Pela situação precária para trabalhadoras nessa indústria, seria impossível não fazer referência a ela no filme.
Em vários momentos, as fábricas têxteis aparecem em pano de fundo. Quando Roya caminha pelas ruas de Daca, ela vê homens indo em direção às construções e mulheres em direção às fábricas. No centro da cidade, se vê um anúncio com uma mulher em uma máquina de costura e os dizeres “Maiores colaboradores para a economia nacional”. Mas a referência mais importante é quando Roya está em casa e vê no noticiário o desespero das pessoas diante do colapso do Rana Plaza, tragédia que ocorreu no dia 24 de abril de 2013 e matou mais de 1,1 mil pessoas. Rubaiyat pegou cenas de notícias reais que saíram na época nos canais de TV.
Na minha opinião, a diretora quis, além de criticar tantos aspectos machistas de seu país, atingir o Ocidente, que tanto se beneficia do trabalho de milhares de mulheres nessas fábricas. É difícil não sentir um aperto no peito ao ver as personagens trabalhando em máquinas de costura e, logo depois, o Rana Plaza desmoronando com tantos funcionários lá dentro.
“Under Construction” me surpreendeu positivamente. Há tempos não via um filme que quase não me deixasse piscar diante da tela. Os gestos e expressões faciais de Roya revelam uma mulher em conflito e em um processo complexo de reconstrução. As falas dos personagens, as situações e referências apresentam o machismo de uma cultura oriental que por vezes se assemelha e se afasta do machismo que conhecemos no Ocidente. Finalmente, o filme cumpre seu papel: dar voz às mulheres de Bangladesh.
Tradução do texto em inglês de Jordan Belamire, que sofreu o assédio
Semana passada, eu fui apalpada em um jogo de realidade virtual. Você sabia que isso podia acontecer? Eu não, mas agora já estou bem ciente disso.
Fui visitar meu cunhado e decidimos testar seu HTC Vive, um sistema de realidade virtual. Meu marido e eu estávamos na sua sala de estar da casa em Redwood. Era um dia idílico de 26 graus e nós três nos revezávamos no Vive.
Era minha vez. Eu dei uma última olhada ao redor da sala antes de colocar o enorme equipamento na cabeça. Com ele, entrei em um mundo muito mais bonito do que eu podia imaginar.
Girei o corpo 360 graus para ver tudo. Me empolguei com as fortalezas medievais cobertas de neve do jogo chamado QuiVr, que você joga no papel de um arqueiro que atira em zumbis. Depois de algumas instruções, encontrei o meu ritmo no jogo. Arco e flecha esticados, a postos e eu fiz minha flecha voar e atravessar o crânio de um demônio. Feito!
Nunca tinha visto uma realidade virtual tão real. Eu fiquei tão encantada que não queria mais sair daquele mundo. Para dar mais realidade à minha experiência, meu cunhado me mostrou como chegar ao topo da torre mais alta do jogo. “Agora ande até sair do parapeito”, ele sugeriu. Eu bem que podia tentar… Fui chegando mais perto da beirada, olhando pra aquela convincente queda de centenas de metros. Meu medo de altura começou a bater dentro de mim, e forte. Fechando os olhos, eu dei um passo para fora do parapeito e… nada aconteceu. Eu não cai! Ao invés disso, eu andei pelo ar. Eu era uma deusa. A realidade virtual tinha me ganhado por completo. Ou, pelo menos, era o que eu achava.
Alguns minutos depois, comecei um novo jogo e escolhi o modo com mais de um jogador, em que outros jogadores aparecem simultaneamente com você no cenário. Cada um deles com uma aparência semelhante a sua: um capacete flutuante segurando um arco em uma mão, enquanto a outra se move livremente. Mantenha essa mão livre em mente…
Enfim, eu estava atirando em zumbis ao lado de outro jogador que tinha o nome de BigBro442. Ele podia me escutar quando eu falava e minha voz era a única coisa que revelava a minha identidade feminina. Fora isso meu avatar era idêntico ao dele.
Entre as ondas de zumbis e demônios, eu ficava esperando o próximo ataque ao lado de BigBro442. De repente, o capacete sem corpo de BigBro442 estava me encarando. Sua mão flutuante se aproximou do meu corpo e ele começou apalpar meu peito virtualmente.
“Para!”, eu gritei. Eu devo ter rido de tão ridícula e vergonhosa era aquela situação. Afinal, mulheres devem ficar de boa e encarar qualquer forma de abuso sexual com uma risadinha. Mas mesmo assim, eu mandei ele parar.
Isso só o atiçou. Mesmo depois que sai de perto, ele me seguiu, fazendo menção de agarrar e beliscar meus peitos. Ele até enfiou a mão na minha vagina virtual e começou a esfrega-la.
E ali estava eu, sendo assediada virtualmente em uma fortaleza medieval, com meu cunhado e meu marido assistindo.
Quando o abuso foi progredindo, minhas piadas ridicularizando BigBro442 se tornaram comentários raivosos, apimentados com obscenidades frustradas. No começo, meu cunhado e marido riram comigo da situação – tudo o que eles podiam ver era o assédio pela tela do computador. Do lado de fora do mundo do QuiVr, o acontecido deve ter parecido engraçado pra eles – e definitivamente irreal.
Lembra quando comentei como aquela queda de centenas de metros parecia ser super real? Pois é. Adivinha só. O assédio virtual pareceu tão real quanto.
Claro que você não está sendo tocada fisicamente, mas é a mesma sensação: você sabe que não está de fato a centenas de metros do chão, mas mesmo assim fica com medo. Meu sentimento de grandeza do início do jogo murchou. Eu passei de uma deusa que caminhava sobre o ar a uma mulher indefesa, perseguida por um avatar chamado BigBro442.
Eu não era uma jogadora tão experiente como BigBro442. Pra todo lugar que eu ia, ele aparecia atrás de mim, pronto pra me tocar assim que a onda de zumbis tivesse terminado. Eu já estava cansada disso! Com um último sinal obsceno, eu tirei o equipamento da minha cabeça e voltei para a sala ensolarada e familiar do meu cunhado. O que foi isso? Eu não durei três minutos no modo com vários jogadores sem ser assediada virtualmente.
O pior é que tudo pareceu muito real, agressivo. Isso pode parecer ridículo para quem nunca esteve na beira de uma queda virtual e olhou pra baixo. Mas se você já esteve, talvez comece entender. A perseguição e o assédio virtual aconteceram há uma semana e eu ainda não consigo parar de pensar nisso.
Agora que o choque passou, tenho me questionado sobre a misoginia incontida criada pelo anonimato no jogo. É fácil desconsiderar as ofensas vulgares de jovens adolescentes, mas eu não acho que isso seja tão raro assim.
Como é possível que meu cunhado tenha jogado com outros jogadores em tempo real, centenas de vezes, sem nenhum incidente do tipo, mas que a minha voz feminina tenha provocado um comportamento tão lascivo em questão de minutos?
Com a Realidade Virtual se tornando cada vez mais real, como podemos decidir qual o limite entre um simples incômodo e um assédio sexual? Eventualmente, vamos precisar de regras para domar o velho oeste dos jogos de RV com jogadores simultâneos. Ou esse vai se tornar mais um lugar em que mulheres não ousam se aventurar?
Mulheres são permitidas, é claro, mas os BigBro442 do mundo vão fazer o possível para que você não queira voltar nunca mais.
Ilustrações feitas com exclusividade por Thais Cortez (Emily).
“Under Construction” é o segundo filme de Rubaiyat Hossain, uma das poucas mulheres diretoras e roteiristas de Bangladesh, e teve sua estreia na Semana de Cinema Feminista de Berlim. Sem exageros, posso dizer que foi um dos melhores filmes de temática feminista que vi nos últimos tempos. O filme é incrível pela fotografia, roteiro e pela forma como monta críticas à sociedade de Bangladesh de uma perspectiva feminina. A personagem te envolve na história e faz com que você fique querendo saber o que vai acontecer nos diferentes âmbitos de sua vida.
Roya (interpretada pela linda atriz indiana Shahana Goswami) é uma mulher de classe média que tem uma vida confortável em um grande apartamento, uma jovem empregada chamada Monya e um marido que ganha muito bem. Ela é atriz de teatro e atua em “Rakta Karabi” ou “The Red Oleanders”, do dramaturgo Rabindranath Tagore, uma peça bastante tradicional da cultura bengalesa. Roya é Nandini, principal personagem da obra, mas se vê prestes a ser substituída por uma atriz mais jovem. Isso a revolta profundamente.
Seu marido pouco se importa com seu trabalho no teatro. Quando o tema aparece durante o jantar, ele apenas diz que eles deveriam ter um filho e vê isso como decidido, apesar de Roya não expressar nenhum desejo pela maternidade. Fora da vida de casal, a mãe de Roya também a pressiona para que tenha filhos, cuide do marido e esqueça seu trabalho como atriz. A mãe é uma senhora tradicional muçulmana que, em certo momento do filme, chega a dizer à filha que atrizes são putas.
Diante de toda essa pressão, Roya se vê em um conflito consigo mesma e com a sociedade em que vive. A primeira maneira que encontra para colocar isso para fora é tentar mudar as coisas na companhia de teatro. Eles se preparam para receber a visita do grande diretor Imtiaz que gostaria de levar “The Red Oleanders” em uma turnê europeia, mas, para isso, devem deixar a peça mais moderna. Quando questionada sobre como poderiam mudá-la, Roya responde: “Nandini não é uma mulher real, ela é muito perfeita. Nenhuma mulher bengalesa é assim”. Todos seus colegas acham aquilo absurdo. Afinal, como alguém poderia reinterpretar algo tão tradicional como Tagore? Mas Roya não desiste de suas ideias. Ela quer recriar a tradição.
Assim como sua recriação de Nandini, a personagem de Roya também não é a mulher perfeita. Ela continua sendo uma mulher que depende do marido financeiramente, que tem uma empregada e que pode trabalhar como atriz, enquanto muitas outras mulheres em Daca precisam trabalhar em construções ou fábricas têxteis para sobreviver.
Rubaiyat Hossain não esconde que sua personagem pode ser um pouco mimada e mostra suas imperfeições várias vezes durante o longa. Em uma das cenas na casa da mãe de Roya, as duas discutem. Roya argumenta com a senhora que a vida de uma mulher não deve ser voltada somente ao marido e aos filhos. A mãe a confronta dizendo que ela mesma trabalhou para ganhar seu próprio dinheiro e que muitas outras mulheres de sua classe faziam e fazem a mesma coisa. “E você? Você tem boa educação, por que não consegue um emprego de verdade?”. Nesse momento, o mito da heroína que os espectadores viam em Roya se desmonta.
Numa conversa com o público, após a exibição do filme, Rubaiyat explica o porquê de montar sua personagem dessa forma. “Acho que Roya representa a mulher bengalesa contemporânea. Muitas mulheres hoje em dia estão tendo esse tipo de conflito pessoal e com a tradição em Bangladesh em suas cabeças. Roya é uma mulher que está passando por um processo de construção, assim como outras mulheres em Bangladesh”, explica a diretora que escolheu o título “Under Construction” exatamente por isso.
Para a surpresa da jovem diretora, que fez Women Studies e South Asian Studies nos Estados Unidos, a recepção de seu filme foi muito positiva em Bangladesh, principalmente entre as mulheres. “Fizemos uma sessão só para mulheres em Daca e, no final do filme, muitas vieram até mim para dizer como tinham se identificado com Roya”, conta Rubaiyat. Claro que as críticas, principalmente da ala masculina, não deixaram de aparecer. Ela conta que a maioria dos homens saiu em defesa da personagem da mãe de Roya – uma mulher tradicional que trabalhou duro na vida e que acreditava que sua filha deveria se dedicar ao marido, a ter filhos e à religião.
Não é fácil ser mulher
A diretora foi questionada pela organizadora do evento, Karin Fornander, como era ser uma cineasta em Bangladesh. “Bom, não é difícil ser uma diretora mulher em Bangladesh, é difícil ser mulher em Bangladesh!”, respondeu. E isso fica bem claro no filme.
Além de toda a tradição machista que constantemente é jogada na cara de Roya, outras situações deixam bem claro o quão difícil é viver no país sul asiático como mulher. Nas primeiras cenas do filme, a jovem empregada Monya é assediada com assobios e palavras de um operário do prédio da frente, enquanto está dentro de casa, limpando a sacada. Em outro momento, Monya se vira para Roya e diz “você tem sorte de ter um bom marido. Ele não bate em você”. Só isso fazia dele um marido maravilhoso.
Mais adiante, outra referência à frequente violência doméstica sofrida por mulheres no país. Monya engravida e vai viver com o novo marido em um bairro muito pobre em Daca, onde Roya vai visitá-la. Enquanto conversam, as duas ouvem gritos e choros. “O vizinho bate na esposa todos os dias”, diz Monya.
Violência contra mulheres é um caso mais sério em Bangladesh, sendo um dos países com alto número de vítimas femininas de ataques com ácido. Segundo a organização Acid Survivors Foundation, de 1999 até 2015 foram 3.303 casos registrados de ataques com ácido no país. Além disso, mulheres e meninas sofrem com casamentos precoces, violência e assédio sexual, condições inadequadas de trabalho para grávidas… Realmente não é fácil ser mulher por lá.
Bangladesh é lembrado pelo grande número de fábricas têxteis, em que a maior parte dos trabalhadores são mulheres. Segundo a Human Rights Watch, a maioria dos supervisores dessas fábricas são homens, que muitas vezes assediam as funcionárias com comentários de cunho sexual. Pela situação precária para trabalhadoras nessa indústria, seria impossível não fazer referência a ela no filme.
Em vários momentos, as fábricas têxteis aparecem em pano de fundo. Quando Roya caminha pelas ruas de Daca, ela vê homens indo em direção às construções e mulheres em direção às fábricas. No centro da cidade, se vê um anúncio com uma mulher em uma máquina de costura e os dizeres “Maiores colaboradores para a economia nacional”. Mas a referência mais importante é quando Roya está em casa e vê no noticiário o desespero das pessoas diante do colapso do Rana Plaza, tragédia que ocorreu no dia 24 de abril de 2013 e matou mais de 1,1 mil pessoas. Rubaiyat pegou cenas de notícias reais que saíram na época nos canais de TV.
Na minha opinião, a diretora quis, além de criticar tantos aspectos machistas de seu país, atingir o Ocidente, que tanto se beneficia do trabalho de milhares de mulheres nessas fábricas. É difícil não sentir um aperto no peito ao ver as personagens trabalhando em máquinas de costura e, logo depois, o Rana Plaza desmoronando com tantos funcionários lá dentro.
“Under Construction” me surpreendeu positivamente. Há tempos não via um filme que quase não me deixasse piscar diante da tela. Os gestos e expressões faciais de Roya revelam uma mulher em conflito e em um processo complexo de reconstrução. As falas dos personagens, as situações e referências apresentam o machismo de uma cultura oriental que por vezes se assemelha e se afasta do machismo que conhecemos no Ocidente. Finalmente, o filme cumpre seu papel: dar voz às mulheres de Bangladesh.