A energia e sedução do Warpaint

Passei vários dias tentando falar com alguma integrante do Warpaint. Conforme a turnê do grupo avançava por 2014, a assessoria me dava um novo telefone de hotel. A guitarrista e vocalista Emily Kokal foi quem me atendeu quando a pauta já estava perto de ser derrubada.

Elas estavam divulgando bastante o novo “Warpaint”, segundo trabalho de estúdio, que é ainda mais etéreo e sofisticado do que “The Fool” (2010). Com guitarras menos aparentes e mais elementos eletrônicos, “Warpaint” marca a entrada da baterista Stella Mozgawa e a volta da configuração de quatro mulheres no grupo.

O Warpaint nasceu em Los Angeles, em 2004, a partir da amizade entre Emily e a também guitarrista e vocalista Theresa Wayman. Muito além dos cabelos incríveis, elas são interessantes porque mostram boa intenção para construir uma identidade artística única e “sexy”, termo que elas gostam de usar.

Para chegar à delicada atmosfera do mais recente disco, elas procuraram uma sensualidade própria. “Acho que isso é algo que temos uma facilidade intuitiva para comunicar, talvez porque somos quatro mulheres. Se prestar atenção nas letras, batidas ou linhas de baixo, elas refletem essa sensualidade”, disse Emily certa vez ao The Guardian.

Em 2011, o grupo esteve no Brasil para dois shows (uma festa fechada no Beco 203, em São Paulo, e uma apresentação no Circo Voador, no Rio). Enquanto uma nova data por aqui não aparece, resta esperar pelo lançamento do documentário artístico que está sendo feito pelo marido da baixista Jenny Lee Lindberg, o videomaker Chris Cunningham, que mostra a banda em turnê.

Leia abaixo a conversa rápida com Emily Kokal (publicada originalmente no portal iG).

iG: A gravação do segundo disco gerou ansiedade em vocês?
Emily Kokal: Nós temos muita sorte. Quando começamos, não tínhamos a Stella na banda, ela não gravou o primeiro disco com a gente (a baterista Stella Mozgawa entrou em 2009). Estivemos em turnê com a Stella, tocamos umas 300 músicas juntas, mas nunca compusemos um disco com ela. Todo esse tempo entre discos nós tocamos muito ao vivo. Quando chegou a hora de fazer o novo álbum, como nunca tínhamos feito músicas com ela, sentimos como se esse fosse o primeiro. Tínhamos muita energia e criatividade guardadas, tantas músicas foram surgindo, por isso fomos tão sortudas nesse sentido.

iG: Vocês têm poucas covers no repertório de shows. Preferem focar apenas nas músicas próprias?
Emily Kokal: Na verdade, isso acontece porque não conseguimos ter muito tempo para ensaiar, porque estamos em turnê o tempo todo. Quando temos a chance de nos juntar para um ensaio, normalmente preferimos aproveitar para tornar as novas músicas ainda melhores.

iG: Quando será lançado o documentário sobre a banda?
Emily Kokal: Ainda não sei, mas acho que ele gostaria de filmar mais. O Chris tem filmado essa turnê enquanto o novo disco está sendo divulgado. Não é um documentário convencional, é mais um filme artístico. Ele une ideias à parte visual e imagina como as canções seriam em forma de imagens. Nossa música fica mais como uma trilha sonora.

iG: Desde o começo do grupo vocês já tinham em mente como deveria ser o clima das músicas do Warpaint?
Emily Kokal: Acho que nossa sonoridade é um reflexo da quantidade de tempo em que estamos tocando juntas. Depois de três anos com a banda, estávamos prestes a desenvolver o nosso som. O que acontece (quando compomos) é que fazemos jams juntas, é como acontece com muitos músicos, em geral. Dedicamos bastante tempo a isso e, se estiver faltando algo, continuamos até ficarmos confortáveis com o nosso som, essa sonoridade que nos caracteriza.

iG: Você chegou a ter influências das riot grrrls (movimento de bandas de rock feminista populares dos anos 1990) quando começou a ouvir rock?
Emily Kokal: Nunca fui da cena das riot grrrls ou estive em bandas assim, mas minha mãe colecionava muitos discos, ela costumava ter de tudo. Havia algumas mulheres que tocavam em grupos de rock populares nos anos 1990 que ouvia, como um pouco de Cranberries (da vocalista Dolores O’Riordan), Garbage (Shirley Manson), Hole (Courtney Love), No Doubt (Gwen Stefani). Elas estavam bastante nas rádios daquela época.

iG: Você tem outros projetos além do Warpaint?
Emily Kokal: Tenho feito muita música sozinha. Acho que todas nós temos outras ideias que são diferentes da banda. Talvez em alguns anos eu lance alguma coisa solo. É bem diferente do que faço com o Warpaint, tem bases bem mais eletrônicas, é mais centrado nas batidas.


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