Sábado: Nina
Mulheres, tecnologia e entrevista com Bia Granja
Fui a única que conseguiu comparecer sábado. Ciente de que seria complicado ficar com um olho no peixe e outro no gato com tanta coisa acontecendo, não consegui me detalhar em todos os debates do dia.
Acredito que a relação das mulheres com a tecnologia é um tema muito rico e que pode ser exploradíssimo, como falar das mulheres que jogam e desenvolvem games, mulheres programadoras, mulheres da engenharia robótica, etc. Porém, o que eu assisti e o que foi proposto me pareceu bastante superficial. Haviam muitos debates com mulheres interessantes, mas que ali no meio da conversa diziam muito pouco. Muitas daquelas poderosas personagens poderiam ter palestras individuais, para falarem sobre seus projetos, seus ofícios. Seria muito mais rico. E aí depois sim, um debate entre todas elas.
[caption id="attachment_6234" align="aligncenter" width="690"]
Mas a Juliana de Faria é uma linda, né.[/caption]
O que parecia era que, para compreender as escolhas das palestrantes, a platéia teria que já pré-conhecê-las das páginas vermelhas (principal entrevista das edições da revista TPM). E, apesar de eu entender a (obrigatória) presença do Fernando Luna, diretor editorial da revista, achei que a presença de homens ali, como do Ronaldo Lemos (colunista da revista Trip) no debate “Empoderamento Feminino na Internet” (!), foram desnecessárias. Não como convidados! Digo como participantes mesmo, dando pitacos sobre as sofrências da mulher. Não estou aqui para dizer se homem pode ou não ser feminista (na minha opinião sim, pode ser simpatizante e concordar com o feminismo, mas como suporte – nunca como protagonista). Só acho que a Casa TPM poderia ser um lugar ideal para o empoderamento feminino, um papo reto de mulher para mulher. Por isso que ter homens ali no palco dando opinião, apresentando, falando ali… hm, não sei. Me corta um pouco a magia.
[caption id="attachment_6231" align="aligncenter" width="960"]
Bia Granja no palco. A-woman![/caption]
Foi bacana ver a Bia Granja, do Youpix, falando, ela é uma mulher incrível por tudo que construiu, uma figura representativa da Internet brasileira. Porém, achei que o ponto ápice da sua palestra – que era justamente apresentar o poder e potencial que a Web traz para grupos oprimidos e nichos – foi muito breve. Tanto que corri atrás dela para ouvir mais suas considerações sobre alguns pontos do que havia falado no palco. Enquanto esperávamos a vez na fila do Los Mendozitos por uma taça de vinho, consegui fazer algumas perguntinhas:
[caption id="attachment_6240" align="aligncenter" width="690"]
De buenas, tomando vinho com a Bia Granja[/caption]
Ovelha: Você falou que o Orkut e o Youtube mostraram o “Brasil de verdade”, possibilitando a expressão do seu povo conectado de forma bastante democrática. Mesmo com o boom dos vlogs, vemos que a maioria dos canais são comandados por homens. Quando olhamos para os canais femininos, percebemos que a grande maioria aborda temas “femininos”, como cabelo ou maquiagem. O que acontece que barra as mulheres de falarem outros assuntos além do estético?
Bia Granja: Acredito que a hesitação (das youtubers) está na própria liberdade de poder discutir outros assuntos que não são os assuntos clichês das mulheres. Eu vejo algumas meninas (youtubers) em games que são grandes, e o maior case pra mim é a Kéfera, que ela é o 4º maior canal no Brasil e aí… só depois do 20º colocado que vemos outra mulher, no caso falando (no canal) sobre beleza. A Kéfera fala palavrão pra caramba, ela xinga todo mundo, ela solta pum, ela arrota, tudo é tão real, é tão legal! Mas acho que as próprias mulheres não conseguem se libertar desse estereótipo. Elas pensam: “Poxa, eu vou ficar arrotando pro Brasil inteiro ver? Pro mundo inteiro ver? Nossa, o que é que vão pensar de mim? Que imagem eu vou construir?”. Então eu acho que as mulheres ainda estão presas a essa imagem “princesinha”, sabe? Elas não se deixam ser… diversas.
Ovelha: Você acredita que num futuro próximo haverão mais Kéferas e JoutJouts?
Bia Granja: Com certeza! Elas são cases. Eu acho a JoutJout sensacional! Eu amo a JoutJout, eu quero ser amiga dela! (risos) Eu acho ela muito legal, ela fala até de temas mais profundos de um jeito muito gostoso. Elas são inspiração. Tudo isso é muito novo, a Internet é muito nova, o Youtube é muito novo, a gente acha que sempre existiu, mas é uma revolução muito nova. Então a gente ainda vai passar por essa fase das cópias, que é bom, faz parte, pra aí depois achar nossas vozes, ir diversificando. Vai vir, é só termos paciência.
Ovelha: Você disse que o site Ego é a materialização do mainstream na Internet. Que é esse jornalismo machista, que fala que as mulheres estão ou muito magras, muito velhas ou muito gordas, mal vestidas, enfim. Mas você também disse que, por outro lado, a Internet é super importante para os nichos, ou seja, pras “minorias”, pro público nerd… seriam os nichos o próximo mainstream?
Bia Granja: A ideia, o conceito de mainstream está se dissolvendo, porque agora a gente tem cada vez mais o que se chama de “nicho com alcance”. Então você tem vários mainstreams. Como o cara do sertanejo que morreu e era master famoso, mas ninguém conhecia [ela diz aqui sobre o cantor Cristiano Araújo]. Quer dizer, ele era gigante porém também não era. Esse é o lance, a Internet mudou bastante essa lógica por conta do on demand. Então eu vou me conectar com o que eu gosto. Por exemplo, se eu curto produção de minhoca, certamente vou encontrar outras pessoas que amem isso também. Isso tem um apelo emocional pra mim que nenhuma novela da Globo vai conseguir combater. Então é uma coisinha desse tamanho, mas pra mim é tão importante que acaba consumindo muito mais do meu tempo. Então é isso, acredito que a gente vai ter muito mais minis-mainstreams, que é até um certo paradoxo.
[separator type=”thin”]
Por fim agradeço meu namorado que foi um chuchu de me acompanhar para me ajudar com fotos e com o registro da entrevista. Tem que ser suporte, sim! Não fez cara feia em nenhum momento (ele nem é disso), muito pelo contrário. Por isso aproveito pra dizer que se a pessoa que você tá junto não te apoia, fica a dica que ela não é legal pra você. Sério.
[separator type=”thin”]
Todas as fotos e GIFs por Nina Grando, Bárbara Malagoli e Bruna Bento.
Achei a fala da Bia Granja extremamente problemática, reduzindo tudo à feminilidade, como sempre. E o gamer gate, que temos falado tanto por aí? E a história do pink vader que acabou de aparecer? Falar que as mulheres têm medo de falar na internet pra não serem vistas como feias ou pouco femininas chega a parece brincadeira com a nossa cara. As mulheres têm medo de falar na internet porque, assim como na sociedade real, não somos ouvidas. E para além de não sermos ouvidas, somos perseguidas, ameaçadas, temos nosso emocional e psicológico abalados porque as pessoas ainda acham que mulheres devem ficar caladas, porque quais as chances de um canal de uma menina falando sobre quadrinhos ou games ser atacado por nerdinhos machistas de merda? Muitas.
Enfim, gosto muito dela, mas fica essa reflexão aí.
Bela reflexão, Jordana. Esse “medo” das minas pode parecer fútil na superfície, mas tem todo esse peso do machismo e da crítica patriarcal violenta em cima das minas. As mulheres não só não são ouvidas como são caladas. Então dá medo mesmo. Eu sou uma dessas mulheres que teme por a cara pra bater em frente à câmera por conta de todo esse clima hostil dos haters.
Achei o evento (no domingo, que compareci) um super desperdício de oportunidade de debater verdadeiramente qualquer um dos temas. A não ser pelo “produzir sem destruir”, que trouxe informação, opinião fundamentada e avanço na conversa, as apresentações foram rasas. A primeira palestra, com a atriz, foi um circo (!) sobre guarda-roupas enormes, moda baratinha (alô???? “esqueço que tem trabalho escravo”?????) e auto-perdão porque quem sabe nossos filhos serão mais conscientes! E “consumo na periferia”, foi de doer: nenhuma palavra sobre consumo além de “tá foda”. De verdade achei a coisa tão mal conduzida que, no fim, parecia mais 15 minutos para a Elaine Dias falar sobre como criou os filhos do que a mínima reflexão sobre a periferia – totalmente apartada do evento, em tempo.