Cobertura Ovelha: Casa TPM

 

Domingo: Karol, Bê Gondar e Baby C

Feminismo e diversidade em falta

 

Bê Gondar

Ao ser convidada para ir ao evento (ou, cobrir o evento) fiquei com o pé atrás por algumas questões. Primeiro porque pensei, como um evento que se propõe ser feminista, pode ser patrocinado por um banco? Ou mesmo uma empresa de produtos de beleza? Ou ainda patrocinado por qualquer empresa que fosse, já que feminismo é um movimento social e é política e não um clube da luluzinha. Mas então eu dei uma olhada no site e descobri a jogada de mestre! Em nenhum momento se declara como um evento feminista. Aí claro que rolou a licença poética de poderem fazer praticamente o que quiserem, como ter o mestre de cerimônias um homem, como chamarem mulheres para palpitar sobre um assunto, mas um homem com doutorado para averiguar a relevância das palpitadas, fazer o show de um homem no primeiro dia. Ou seja, até então ~ nada novo sob o sol ~, por enquanto não há nada para ~ celebrar a condição (condição, gente, jura?) feminina contemporânea.

 
[caption id="attachment_6276" align="aligncenter" width="752"]Fernando Luna, mestre de cerimônia da Casa TPM Fernando Luna, mestre de cerimônia da Casa TPM[/caption]
 
O espaço onde ocorreu o evento foi em um bairro nobre de São Paulo com pouco acesso à transportes públicos. No evento havia 95% de pessoas brancas, talvez seja maior essa porcentagem, sou muito ruim em matemática. A maioria das pessoas negras estavam trabalhando no evento. De convidadas então, apenas uma mulher negra convidada para falar sobre consumo na periferia, mas que a conversa acabou se tornando uma contação de vivências no geral, extremamente foda.

 
[caption id="attachment_6251" align="aligncenter" width="768"]R-I-C-A-! R-I-C-A-![/caption]
 

Baby C

O lugar foi muito bem escolhido, ambiente agradável, apesar de não ter muitas negras e meninas estilosas… pelo menos não tinha muito carão! As comidinhas foram fofas (porém sem muita opção vegetariana) e o espaço foi bem organizado.

Podia ter alguma ação sobre feminismo, vegetarianismo ou qualquer ismo além de apenas marcar e seus produtos.

 
[caption id="attachment_6248" align="aligncenter" width="769"]Lúdico, né? Lúdico, né?[/caption]
 
[caption id="attachment_6250" align="aligncenter" width="1024"]Tipo Maria Antonieta, sabe? Tipo Maria Antonieta, sabe?[/caption]
 
[caption id="attachment_6249" align="aligncenter" width="1024"]Muito amor, boas vibes Muito amor, boas vibes[/caption]
 

Karol

Sempre achei o evento uma ótima ideia da revista, pois eles sabem o quanto o público é questionador e o quanto isso aproxima as leitoras da revista, podendo debater as pautas pessoalmente, juntas… Não poderíamos definir como um evento feminista pois a própria revista não é, mas a presença feminista é grande e também provocadora, muitas vezes cobrando que algumas pautas sejam mais elaboradas, o que enriquece alguns debates.

Também achei que nos outros anos o evento atraiu um público mais diversificado, mas esse ano, infelizmente, não senti a mesma coisa. Talvez porque os temas escolhidos (tecnologia e consumo, respectivamente debatidos no sábado e no domingo) não tragam pautas para a realidade de mulheres negras e periféricas, por exemplo. Soube que isso foi debatido no primeiro dia da casa, mas infelizmente não pude comparecer para comentar.

Sobre as atividades na casa, foi um programa agradável para fazer com as amigas, os patrocinadores proporcionam ideias legais.

 

Ovelhinhas! 💗

A photo posted by Karoline Gomes (@karolgms) on

 

Debates estranhos e falta de profundidade

 

Bê Gondar

Creio que a condição feminina ainda esteja muito enraigada à reprodução e à compras porque os primeiros temas tiveram esses focos. O primeiro tema no domingo foi sobre consumo, uma conversa um pouco desastrosa que no final criticou minimamente a moda fast fashion mas não concluiu que deveríamos freiar o consumo, que infelizmente ficou muito focado em moda, mas consumo deveria ser mais abrangente, mas ~ como era um evento pra mulher, né, vamos por moda ~ e como é um evento com um monte de empresa que visa lucro, não vamos falar nada sobre freiar, não!

 

Baby C

A primeira palestra do domingo foi HORRENDA. O papo foi muito cômico e machista com frases soltas do tipo: “Mas mulher compra né, gente?”, como se fosse um programa da GNT de mau gosto. Ao invés de tratarem o assunto com seriedade, foi uma palhaçada. No final, a convidada/atriz que era considerada “shopaholic”, disse: “Eu sei que a Zara tem trabalho escravo na sua produção, mas quando estou lá eu esqueço disso” – e todos caem na risada. Foi péssimo, ela foi glamurizada e tentava justificar seu consumo desenfreado com ligações emocionais, todos deram muita risada e acharam ela “FOFA”. Muito de mau gosto.

 
[caption id="attachment_6253" align="aligncenter" width="700"]facepalm facepalm[/caption]
 

Karol

O painel “Consumo na periferia” compensou, trazendo Eliane Dias, empresária do grupo Racionais, para falar da realidade na favela com muita representatividade.

 
[caption id="attachment_6258" align="aligncenter" width="690"]Eliane Dias rainha, o resto nadinha Eliane Dias rainha, o resto nadinha[/caption]
 
O debate seguinte, “Produzir sem destruir”, também foi muito esclarecedor, embora mais uma vez não se pensa na mulher periférica e no quanto é difícil para todas assumirem o estilo de vida a ser incentivado ali.

 

Baby C

As outras duas que eu vi foi daquela negra maravilhosa, Eliane Dias, que né, sem comentários.
Foi mais tapa na cara (o que eu senti falta nas palestras e debates do evento). O último debate, “Produzir sem destruir”, foi maravilhoso. Todas as mulheres do palco lindas, por mim todas deveriam ser assim, glamurizando o NÃO CONSUMISMO às mulheres concientes e estilosas presentes, do jeito delas.

 
[caption id="attachment_6254" align="aligncenter" width="700"]Pamela Magpale, da Insecta Shoes, roubou o palco e nossos corações Pamela Magpali, da Insecta Shoes, roubou o palco e nossos corações[/caption]
 

Bê Gondar

Outras mesas foram muito produtivas, como a “Produzir sem Destruir” – e agora sim tínhamos uma conversa real sobre consumo e sobre críticas sobre consumo no geral, na minha opinião, talvez a melhor mesa do dia. Se bem que pode ter dado uma empatada com a mesa ‘Criança e Consumo’, um assunto seríssimo que chegou sendo abordado da pior forma possível pela entrevistadora: – “Quem aí é mãe?”

Pô miga, jura que esse assunto deva estar somente na mesa para mães ou futuras mães? Esse assunto é de extrema importância para pais, para mães, para professores, médicxs, diretorxs, designers, publicitárixs, para todes! Muitas pessoas se levantaram ao ouvirem esse chamado e um das melhores discussões ficou com o menor número de platéia, uma pena.

No final do dia, tenho mais críticas do que elogios, sim. No final do dia, era muito perceptível que o evento foi feito para uma classe alta de mulheres dentro do padrão. No final do dia, era o clube da luluzinha, sim. Temas como sexualidade da mulher, orientação sexual, temas relacionados à saúde como aborto seguro, mercado de trabalho, equidade e papel de gênero, violência doméstica ou micro machismo (já estaria ótimo), a mulher objeto na propaganda, enfim… Parece que a ~ condição ~ feminina contemporânea ainda está relacionada com temas que não são frívolos mas que são estigmatizados e de qualquer forma seria bom fazer essa quebra ou talvez mesmo essa discussão, ou seja, questões relacionadas ao consumo de moda (inclusive rolou crítica a homens consumistas, não dá pra entender mesmo), reprodução, sempre focando na condição da mulher branca, silenciando vivências e profissionais negras.

A festa estava linda, o show foi legal, a decoração estava incrível, a casa era maravilhosa, eu estava com as pessoas mais agradáveis do planeta, mas de todo meu coração, espero que a nossa ‘condição’ seja mais engajada politicamente no futuro, precisamos celebrar as conquistas, mas nunca esquecer as pautas principais.

 
[caption id="attachment_6255" align="aligncenter" width="774"]As cinco ovelhitas num momento descontrol. Bruna Bento está atrás da câmera, fazendo o clique. As cinco ovelhitas num momento descontrol. Bruna Bento está atrás da câmera, fazendo o clique.[/caption]
 
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Todas as fotos e GIFs por Nina Grando, Bárbara Malagoli e Bruna Bento.
 

 

Publicado por

Ovelha

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3 thoughts on “Cobertura Ovelha: Casa TPM”

  1. Achei a fala da Bia Granja extremamente problemática, reduzindo tudo à feminilidade, como sempre. E o gamer gate, que temos falado tanto por aí? E a história do pink vader que acabou de aparecer? Falar que as mulheres têm medo de falar na internet pra não serem vistas como feias ou pouco femininas chega a parece brincadeira com a nossa cara. As mulheres têm medo de falar na internet porque, assim como na sociedade real, não somos ouvidas. E para além de não sermos ouvidas, somos perseguidas, ameaçadas, temos nosso emocional e psicológico abalados porque as pessoas ainda acham que mulheres devem ficar caladas, porque quais as chances de um canal de uma menina falando sobre quadrinhos ou games ser atacado por nerdinhos machistas de merda? Muitas.
    Enfim, gosto muito dela, mas fica essa reflexão aí.

    1. Bela reflexão, Jordana. Esse “medo” das minas pode parecer fútil na superfície, mas tem todo esse peso do machismo e da crítica patriarcal violenta em cima das minas. As mulheres não só não são ouvidas como são caladas. Então dá medo mesmo. Eu sou uma dessas mulheres que teme por a cara pra bater em frente à câmera por conta de todo esse clima hostil dos haters.

  2. Achei o evento (no domingo, que compareci) um super desperdício de oportunidade de debater verdadeiramente qualquer um dos temas. A não ser pelo “produzir sem destruir”, que trouxe informação, opinião fundamentada e avanço na conversa, as apresentações foram rasas. A primeira palestra, com a atriz, foi um circo (!) sobre guarda-roupas enormes, moda baratinha (alô???? “esqueço que tem trabalho escravo”?????) e auto-perdão porque quem sabe nossos filhos serão mais conscientes! E “consumo na periferia”, foi de doer: nenhuma palavra sobre consumo além de “tá foda”. De verdade achei a coisa tão mal conduzida que, no fim, parecia mais 15 minutos para a Elaine Dias falar sobre como criou os filhos do que a mínima reflexão sobre a periferia – totalmente apartada do evento, em tempo.

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