Crazyhead: sobre amigas e demônios

Para aqueles que não sabem, eu tenho uma leve obsessão por séries com temas sobrenaturais. Quando digo leve, bom, estou sendo bastante moderada, e quando digo séries, quero dizer quase qualquer mídia conhecida pela humanidade. Minha preferência costuma englobar conteúdo violento, com humor bem idiota e, de preferência não-misógino. Sei que parece estranho para quem vê de fora, mas dentro do universo do sobrenatural, é até bastante comum vermos essa combinação em séries como Buffy ou livros como The Southern Vampire Mysteries (Charlaine Harris), Women of the Otherworld (Kelley Armstrong), entre outros.

A maior parte das coisas que eu consumo tem uma qualidade duvidosa em vários aspectos e eu tenho plena consciência disso. A Netflix, por sua vez, também tem essa “consciência” e vive me bombardeando com opções de lixos televisivos sobrenaturais que eu, complacentemente, acato e me entretenho por horas a fio. Recentemente me deparei com Crazyhead, nova série na Netflix, achei uma premissa bastante interessante e… bom, nem precisa dizer que foram perdidas algumas madrugadas em claro.

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[infobox maintitle="Aviso de spoiler" subtitle="Se você prefere não saber nadica de nada de uma série antes de assistir, saiba que eu comento alguns acontecimentos e opino sobre alguns detalhes. Mas nada exatamente sobre a trama em si que vá estragar a surpresa de quem assiste (;" bg="red" color="black" opacity="on" space="30" link="no link"]  

Mas que diabos é Crazyhead?

Crazyhead é uma comédia de humor mórbido, com elenco bastante diverso etnicamente, sobre duas garotas inglesas de vinte e poucos anos com poderes paranormais e que caçam demônios. A série cumpre basicamente todos os meus requisitos para entretenimento idiota. Raquel (Susan Wokoma) e Amy (Cara Theobold), as personagens principais, apesar de completamente diferentes, possuem algumas características em comum, sendo a principal serem ambas “videntes”, ou seja, ambas são capazes de ver demônios que possuíram seres humanos.

A história gira entorno da relação entre as duas, sendo todo o mistério sobrenatural nada mais que um pretexto para a amizade aflorar enquanto lidam com questões bastante comuns a jovens mulheres adultas: relacionamentos amorosos, questões familiares, trabalho, adoecimento. Uma coisa bem, assim, hm, Buffy, sabe? Só que mais atual, mais sangrento, sem “monstro da semana”, com humor mais escrachado e com um guarda-roupa muito melhor, muuuito melhor.

Nos 3 minutos iniciais de Crazyhead, parecia que eu estava sendo transportada lááá pra 2011 quando vi Misfits pela primeira vez. Misfits é uma outra dessas várias séries sobrenaturais que eu consumo uma atrás da outra que nem batata frita. É uma série inglesa de 2009 de humor mórbido sobre cinco jovens etnicamente diversos de seus vinte e poucos anos que ganham superpoderes em seu primeiro dia de prestação de serviços comunitários como pena alternativa. O primeiro episódio me remeteu tanto à outra série que eu fui obrigada procurar se era do mesmo criador e, claro, óbvio que era. E, assim como Misfits, esperei que a série fosse de fato muito absurda, violenta, cheia de vergonha alheia (e é!) e que, infelizmente, pecasse um tanto na parte do “não-misógina”. Para minha feliz surpresa, não foi assim!

 

 
 

O que foi bem daora?

Eu me apaixonei perdidamente pela personagem da Raquel, uma mulher extremamente estilosa, desejável, fofa, atlética (ela faz pilates e desce o cacetete nos demônios como ninguém) gorda e negra, e que, a meu ver, foge de qualquer esteriótipo que eu já tenha visto retratado na tevê. É muito refrescante e muito fácil de se relacionar com um personagem que parece de fato uma pessoa de verdade! Ela tem dificuldade de fazer amizades, principalmente por não conseguir explicar a existência de demônios para as outras pessoas, mas ao encontrar Amy, que também os vê, tudo muda e ela ganha a confiança que faltava para ser ainda mais incrível – como se precisasse, não é mesmo?

 

 

Amy é um pouco menos interessante, mas ela tem um bom crescimento durante a série e tenho vontade de saber para onde vai o personagem na próxima temporada. A atriz Cara Theobold (que é dubladora da Tracer, de Overwatch, aliás) é mais padrão da tevê: branca, magra, loira, e seu personagem é uma moça tímida, insegura, desajeitada – já vimos tantas dessas que já perdi a conta – e também não tem muito trato social, mas ao contrário de Raquel, ela já começa a série tendo dois amigos: Suzanne, sua melhor amiga, e Jake, seu colega de trabalho.

Suzanne é retratada (otimamente por Riann Steele) como a amiga bonita, sexy e descolada de Amy que sempre esteve ao seu lado desde a infância, cuidando e dando suporte nas horas de necessidade. A partir do primeiro episódio, essa dinâmica muda completamente e Amy precisa entender como lidar com o fato de que agora ela é quem tem que cuidar dos outros e dela mesma. Já Jake (Lewis Reeves) é um personagem sem muita profundidade (bom, acho que apenas Raquel tem um pouco mais de profundidade), ele é bobo, apaixonado por Amy, mas mesmo rejeitado amorosamente pela amiga, nunca desiste e está sempre ao seu lado, ajudando nas situações mais absurdas possíveis (aka Xander).

 

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Outras coisas superlegais!

Tanto Amy quando Raquel possuem traumas familiares que, aparentemente, não envolvem questões como abusos sexuais ou relacionamentos românticos conturbados, que são clichês usados para personagens femininas em diversas séries e filmes. Temos personagens centrais negros (perceba o plural): Raquel, seu irmão Tyler (Arinzé Kene) e Suzanne. Temos várias mulheres relevantes no elenco – além das já mencionadas, temos a demônia que possuiu Mercy (Lu Corfield), uma mãe solteira que tem todos os problemas de uma mãe solteira, como, por exemplo, ter que contratar uma babá para poder executar os planos malignos de seu superior, ou tirar os bolinhos do forno durante um confronto. Os demônios da série são vilões relativamente complexos, com propósitos e estratégias para conseguir o que eles querem, com personalidades diferentes e alguns parecem até nem ser tão vilões assim.

 

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E, claro, não poderia faltar uma trilha sonora maravilhosa e quase toda encabeçada por mulheres!

Podemos começar por Gin Wigmore com “Kill of the night”, música de abertura simplesmente viciante e super adequada para a trama do filme, e “Devil in me”, que dá o tom frenético que a série pede. Weaves com “Drag me down” e Elle King com “Ex’s & oh’s” acompanham a batida acelerada e o vocal arranhado de Wigmore, dando uma atmosfera arrepiante para a trilha. “Where did you sleep last night”, de Wanda Davis, e “Name in a matchbook”, de Springtime Carnivore, já começam a desacelerar pouco a pouco, mas sem perder sua personalidade marcante. Chegarmos então em Bat for Lashes com “Laura” e na versão mais triste de “Where is my mind” que já ouvi em filmes, que é minha única crítica à trilha. Não existe música mais preguiçosa para falar sobre adoecimento psicológico na história do cinema (a partir dos anos 90). Mas, no meio de tantas pérolas mencionadas acima e outras tão fortes quanto, ela pode passar desapercebida, sem prejudicar o clima.

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Maaaaas…

Claro, nada disso que mencionei anteriormente quer dizer que seja uma série impecável, bem longe disso, aliás. Assim como Misfits, ela parecem ter um problema muito sério com piadinhas homofóbicas. Misfits começou com algumas insinuações sobre a orientação sexual de algum personagem ou utilizando a palavra “gay” como ofensa (insistentemente) e escalou rapidamente para demonstrações explícitas de misoginia, homofobia e transfobia e esse foi obviamente o motivo pelo qual parei de assistir. Tenho muito medo que Crazyhead escale da mesma forma e se transforme num show de horrores, como sua predecessora. Porém, estou torcendo fortemente para uma segunda temporada melhor e mais inclusiva (e que nem absolutamente todo mundo seja hétero, por favor, nessa parte Buffy ainda está ganhando)!

 

 
 

Saca só:


 

Escrito por
Mais de mamutemutante

Assista: Dirk Gently’s Holistic Detective Agency

Sabe aqueles dias em que você levanta da cama e absolutamente nada faz sentido? Aqueles dias em que tudo dá meio errado e a sensação é de que você poderia muito bem ainda estar sonhando? Não sei se todo mundo já teve um desses, eu sei que eu já tive vários… e é exatamente num dia desses que começa a bizarra aventura de Todd Brotzman em Dirk Gently’s Holistic Detective Agency.

Baseada nos livros homônimos de Douglas Adams, Dirk Gently’s Holistic Detective Agency tem o roteiro mais aleatório e caoticamente bem costurado que vi nos últimos tempos! Apesar de pouco ter a ver com a história do livro (e de ter uma ou outra ponta solta que torço fortemente para ser resolvida na próxima temporada), Max Landis, surpreendentemente, acerta em cheio na linguagem utilizada para traduzir visualmente a narrativa fragmentada de Douglas Adams, inserindo novos elementos e personagens fantásticos sem perder sua personalidade.

É uma série verdadeiramente divertida e empolgante! O humor nonsense à la Adventure Time para adultos (não que eu acredite que Adventure Time seja muito para crianças, mas tudo bem) não parte para a ofensa, nem para a escatologia. O roteiro acelerado e cheio de cortes rápidos, brinca o tempo todo com a construção de diálogos absurdos e com a simultaneidade de eventos que, pouco a pouco, se encaixam na trama.

Então chega de enrolação e vamos logo à trama!

Todd (Elijah Wood), um homem branco de 30 e poucos anos de idade é o infeliz proprietário de uma vida tediosa. Ele tenta preencher seu vazio existencial com culpa e com a responsabilidade de ajudar sua irmã e única amiga, Amanda (Hannah Marks), baterista que sofre de uma doença raríssima e terrível chamada “Pararibulitis” (não, esta doença não existe de verdade, eu procurei). Ele é o típico protagonista solitário e perdedor que, na maior parte dos filmes e séries que vemos por aí, encontraria a famigerada “manic pixie dream girl” para dar sentido a sua vida. Porém, em nosso primeiro episódio, Todd não encontra uma garota.

Em vez disso, ele se depara com uma série de eventos bizarros que o levam a Dirk Gently (Samuel Barnett). Ou melhor, Dirk se leva de encontro a Todd e, nem um pouco gentilmente, invade sua casa convencido de que Todd seria uma peça importante na investigação de um assassinato envolvendo um tubarão-martelo em um quarto de hotel (wtf!), um cachorro misterioso, um bilhete de loteria, um minúsculo gatinho e o desaparecimento da filha de um milionário.

Contratado por Patrick Spring (Julian McMahon), um milionário que previu seu próprio assassinato, Dirk é uma espécie de “manic pixie dream girl” numa eterna viagem de ácido. Ao sermos apresentadas ao personagem, sabemos apenas que ele é um detetive holístico, ou seja: ele investiga casos baseando-se na ideia de que todas as coisas do universo estão fundamentalmente interligadas. Dirk (sim, outro homem branco de seus 30 e poucos anos) parece ser capaz de entender relações entre acontecimentos aparentemente desconexos, chegando a resultados sem lógica alguma, que irão, em algum momento, quem sabe, resolver um caso… ou não.

Como uma perfeita “manic pixie dream girl”, Dirk Gently é completamente excêntrico, hiperativo e otimista (e super adorável!). Nada sabemos sobre sua história pregressa a não ser que ele aparece de repente para mudar completamente o rumo da vida de Todd – e, consequentemente, de todos os personagens a sua volta (e que ele vem de uma terra muito distante: a Inglaterra). De modo menos perceptível que seus companheiros e indo na contramão do arquétipo cinematográfico, Dirk também acaba por sofrer transformações com o passar dos episódios.

Além de Dirk e Todd

Paralelamente a Dirk e Todd, temos outra dupla interessante (eu diria que ainda mais interessante,): Bart (Fiona Dourif), uma assassina holística, e Ken (Mpho Koaho), seu… hm… refém? Se Dirk já não fazia o mínimo sentido, Bart com certeza faz menos ainda. Assim como Dirk, ela acredita na interligação de todas as coisas e, partindo desse princípio, entende que seu propósito no universo é o de matar qualquer um que cruze seu caminho. Ken, seu companheiro de aventuras, é um hacker/inventor que se envolveu com criminosos e acabou no meio da trama mais mirabolante de sua vida.

Bart e Ken, por sua vez, têm a grande vantagem de não serem homens brancos (uhu!), mas, aparentemente, há uma razão narrativa para isso: se Dirk é nosso “manic pixie dream boy” e Todd é nosso protagonista padrão, Bart e Ken são suas versões através do espelho e seus eventos se dão de maneira distorcida, complementar e simultânea (e bem menos asséptica) durante a história, culminando em um encontro que muda completamente as regras do jogo.

E essa tal diversidade?

Max Landis, um homem branco de seus 30 e poucos anos (seria um déjà vu?), muito conhecido por criticar abertamente filmes com mulheres protagonistas como Star Wars: The Force Awakens, Ghostbusters e The Arrival e um pouco menos conhecido por escrever roteiros de histórias em quadrinhos e de filmes, não tem experiência em criar personagens diversos. Sua crítica à credibilidade das personagens em tela pode até ter validade em um ou outro ponto, mas Landis falha em perceber seu vício de repetir o mesmo personagem principal à exaustão (e de preferência em duplas… ele adora duplas, aparentemente, e agências do governo) como um elogio juvenil a si mesmo.

American Ultra e Mr. Right, ambos escritos por Landis, são filmes que eu gosto até que bastante, mas se passam nesse estranho universo onde as mulheres são em sua maioria “mocinhas em perigo”, os homens são super heróis e quase todo mundo é branco. Basicamente, o universo que consumimos na mídia desde sempre e não tem absolutamente nada de inovador. Nã-hã! Só repetição atrás de repetição. E pra quem tem mania de criticar filmes alheios como um fanboy magoado em sua conta de twitter, espera-se mais (bixa melhore!).

Mas para a minha feliz surpresa, Dirk Gently’s não é assim!

Sim, temos os mesmos personagens principais de sempre, mas além de Bart e Ken, podemos encontrar outros personagens que fogem bastante dos clichês estadunidenses (e das preferências de Max Landis). Para falar a verdade, são taaaantos personagens na série que poucos vão caber aqui na resenha. Entre Farah Black (Jade Eshete), chefe de segurança da família Spring que, apesar de muito proficiente com uma arma, tem crises de ansiedade e grande dificuldade nas relações interpessoais (a.k.a. Mozão <3); Rowdy 3 (Zak Santiago, Osric Chau, Viv Leacock e Michael Eklund), um quarteto (sim, é um quarteto mesmo) de anarco-punks “vampiros” de bad vibes alheias que moram numa van; e Estevez e Zimmerfield (Neil Brown Jr. e Richard Schiff), policiais encarregados de investigar o desaparecimento da filha do milionário assassinado, temos uma incrível diversidade étnica e de desenvolvimento de personagens muito pouco vista na televisão (exceto por séries como Orange is the New Black, por exemplo).

Landis não faz questão de deixar claro qual é a orientação sexual ou interesse romântico dos personagens, a não ser por algumas breves insinuações durante um ou outro episódio, que podem ser desenvolvidas mais a frente ou não, sem grandes prejuízos narrativos. Em geral, a série se afasta de esteriótipos e as personagens femininas são bem construídas e nem um pouco sexualizadas. Não há de fato relacionamentos amorosos e isso tem relevância alguma para a trama, porém, parcerias e laços de amizade são criados (e desfeitos) durante os episódios, sendo alguns um tanto quanto inusitados.

No meio de todos esses personagens intrigantes e muitos outros mais, quem cerze a trama e conecta todos os pontos é ninguém mais ninguém menos que o tempo. O tempo é a peça chave de toda a narrativa, tanto nos livros, quanto na série – isso porque Dirk Gently’s Holistic Detective Agency foi originalmente baseado no roteiro de dois episódios de Doctor Who, também escritos por Douglas Adams, que nunca foram ao ar. Usando o tempo como fio condutor, Landis faz referência não somente a outras obras de Douglas Adams, mas também a outros clássicos do cinema e da tevê que também usam do mesmo recuso narrativo (vide piadinha sobre o Velho Oeste).

Chegamos ao fim da nossa resenha…

…e, como grande fã de Douglas Adams, escreveria mais um milhão de páginas sobre todas as referências que deixei de fora, sobre todas as coisas que reparei e gostaria de comentar ou sobre o que desejo para a segunda temporada da série, mas deixarei isso pra uma conversa de bar. Escrever uma resenha que fizesse sentido a respeito de uma série que não faz sentido algum (e com mínima inserção de spoilers) foi um mega desafio. Ufa! Agora, vou parar de falar e vocês que tirem suas próprias conclusões (enquanto eu espero a próxima temporada roendo as unhas de ansiedade).

Dá uma olhada:

Leia mais
Para aqueles que não sabem, eu tenho uma leve obsessão por séries com temas sobrenaturais. Quando digo leve, bom, estou sendo bastante moderada, e quando digo séries, quero dizer quase qualquer mídia conhecida pela humanidade. Minha preferência costuma englobar conteúdo violento, com humor bem idiota e, de preferência não-misógino. Sei que parece estranho para quem vê de fora, mas dentro do universo do sobrenatural, é até bastante comum vermos essa combinação em séries como Buffy ou livros como The Southern Vampire Mysteries (Charlaine Harris), Women of the Otherworld (Kelley Armstrong), entre outros.

A maior parte das coisas que eu consumo tem uma qualidade duvidosa em vários aspectos e eu tenho plena consciência disso. A Netflix, por sua vez, também tem essa “consciência” e vive me bombardeando com opções de lixos televisivos sobrenaturais que eu, complacentemente, acato e me entretenho por horas a fio. Recentemente me deparei com Crazyhead, nova série na Netflix, achei uma premissa bastante interessante e… bom, nem precisa dizer que foram perdidas algumas madrugadas em claro.

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Mas que diabos é Crazyhead?

Crazyhead é uma comédia de humor mórbido, com elenco bastante diverso etnicamente, sobre duas garotas inglesas de vinte e poucos anos com poderes paranormais e que caçam demônios. A série cumpre basicamente todos os meus requisitos para entretenimento idiota. Raquel (Susan Wokoma) e Amy (Cara Theobold), as personagens principais, apesar de completamente diferentes, possuem algumas características em comum, sendo a principal serem ambas “videntes”, ou seja, ambas são capazes de ver demônios que possuíram seres humanos.

A história gira entorno da relação entre as duas, sendo todo o mistério sobrenatural nada mais que um pretexto para a amizade aflorar enquanto lidam com questões bastante comuns a jovens mulheres adultas: relacionamentos amorosos, questões familiares, trabalho, adoecimento. Uma coisa bem, assim, hm, Buffy, sabe? Só que mais atual, mais sangrento, sem “monstro da semana”, com humor mais escrachado e com um guarda-roupa muito melhor, muuuito melhor.

Nos 3 minutos iniciais de Crazyhead, parecia que eu estava sendo transportada lááá pra 2011 quando vi Misfits pela primeira vez. Misfits é uma outra dessas várias séries sobrenaturais que eu consumo uma atrás da outra que nem batata frita. É uma série inglesa de 2009 de humor mórbido sobre cinco jovens etnicamente diversos de seus vinte e poucos anos que ganham superpoderes em seu primeiro dia de prestação de serviços comunitários como pena alternativa. O primeiro episódio me remeteu tanto à outra série que eu fui obrigada procurar se era do mesmo criador e, claro, óbvio que era. E, assim como Misfits, esperei que a série fosse de fato muito absurda, violenta, cheia de vergonha alheia (e é!) e que, infelizmente, pecasse um tanto na parte do “não-misógina”. Para minha feliz surpresa, não foi assim!

 

 
 

O que foi bem daora?

Eu me apaixonei perdidamente pela personagem da Raquel, uma mulher extremamente estilosa, desejável, fofa, atlética (ela faz pilates e desce o cacetete nos demônios como ninguém) gorda e negra, e que, a meu ver, foge de qualquer esteriótipo que eu já tenha visto retratado na tevê. É muito refrescante e muito fácil de se relacionar com um personagem que parece de fato uma pessoa de verdade! Ela tem dificuldade de fazer amizades, principalmente por não conseguir explicar a existência de demônios para as outras pessoas, mas ao encontrar Amy, que também os vê, tudo muda e ela ganha a confiança que faltava para ser ainda mais incrível – como se precisasse, não é mesmo?

 

 

Amy é um pouco menos interessante, mas ela tem um bom crescimento durante a série e tenho vontade de saber para onde vai o personagem na próxima temporada. A atriz Cara Theobold (que é dubladora da Tracer, de Overwatch, aliás) é mais padrão da tevê: branca, magra, loira, e seu personagem é uma moça tímida, insegura, desajeitada – já vimos tantas dessas que já perdi a conta – e também não tem muito trato social, mas ao contrário de Raquel, ela já começa a série tendo dois amigos: Suzanne, sua melhor amiga, e Jake, seu colega de trabalho.

Suzanne é retratada (otimamente por Riann Steele) como a amiga bonita, sexy e descolada de Amy que sempre esteve ao seu lado desde a infância, cuidando e dando suporte nas horas de necessidade. A partir do primeiro episódio, essa dinâmica muda completamente e Amy precisa entender como lidar com o fato de que agora ela é quem tem que cuidar dos outros e dela mesma. Já Jake (Lewis Reeves) é um personagem sem muita profundidade (bom, acho que apenas Raquel tem um pouco mais de profundidade), ele é bobo, apaixonado por Amy, mas mesmo rejeitado amorosamente pela amiga, nunca desiste e está sempre ao seu lado, ajudando nas situações mais absurdas possíveis (aka Xander).

 

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Outras coisas superlegais!

Tanto Amy quando Raquel possuem traumas familiares que, aparentemente, não envolvem questões como abusos sexuais ou relacionamentos românticos conturbados, que são clichês usados para personagens femininas em diversas séries e filmes. Temos personagens centrais negros (perceba o plural): Raquel, seu irmão Tyler (Arinzé Kene) e Suzanne. Temos várias mulheres relevantes no elenco – além das já mencionadas, temos a demônia que possuiu Mercy (Lu Corfield), uma mãe solteira que tem todos os problemas de uma mãe solteira, como, por exemplo, ter que contratar uma babá para poder executar os planos malignos de seu superior, ou tirar os bolinhos do forno durante um confronto. Os demônios da série são vilões relativamente complexos, com propósitos e estratégias para conseguir o que eles querem, com personalidades diferentes e alguns parecem até nem ser tão vilões assim.

 

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E, claro, não poderia faltar uma trilha sonora maravilhosa e quase toda encabeçada por mulheres!

Podemos começar por Gin Wigmore com “Kill of the night”, música de abertura simplesmente viciante e super adequada para a trama do filme, e “Devil in me”, que dá o tom frenético que a série pede. Weaves com “Drag me down” e Elle King com “Ex’s & oh’s” acompanham a batida acelerada e o vocal arranhado de Wigmore, dando uma atmosfera arrepiante para a trilha. “Where did you sleep last night”, de Wanda Davis, e “Name in a matchbook”, de Springtime Carnivore, já começam a desacelerar pouco a pouco, mas sem perder sua personalidade marcante. Chegarmos então em Bat for Lashes com “Laura” e na versão mais triste de “Where is my mind” que já ouvi em filmes, que é minha única crítica à trilha. Não existe música mais preguiçosa para falar sobre adoecimento psicológico na história do cinema (a partir dos anos 90). Mas, no meio de tantas pérolas mencionadas acima e outras tão fortes quanto, ela pode passar desapercebida, sem prejudicar o clima.

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Claro, nada disso que mencionei anteriormente quer dizer que seja uma série impecável, bem longe disso, aliás. Assim como Misfits, ela parecem ter um problema muito sério com piadinhas homofóbicas. Misfits começou com algumas insinuações sobre a orientação sexual de algum personagem ou utilizando a palavra “gay” como ofensa (insistentemente) e escalou rapidamente para demonstrações explícitas de misoginia, homofobia e transfobia e esse foi obviamente o motivo pelo qual parei de assistir. Tenho muito medo que Crazyhead escale da mesma forma e se transforme num show de horrores, como sua predecessora. Porém, estou torcendo fortemente para uma segunda temporada melhor e mais inclusiva (e que nem absolutamente todo mundo seja hétero, por favor, nessa parte Buffy ainda está ganhando)!

 

 
 

Saca só:

 

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