Um anime agridoce: Shirobako

As protagonistas de Shirobako: Imai Midori, Yasuhara Ema, Aoi Miyamori, Sakaki Shizuka e Toudou Misa
As protagonistas de Shirobako: Imai Midori, Yasuhara Ema, Aoi Miyamori, Sakaki Shizuka e Toudou Misa

Uma das vantagens da animação como forma de storytelling é que ela pode criar uma suspensão de realidade muito maior do que em obras feitas com pessoas de carne e osso. Tanto que os animes conquistaram gerações com histórias envolvendo garotas mágicas, robôs com sentimentos, mundos de fantasia ou guerras intergalácticas. No entanto, existe todo um segmento no Japão de animes que tentam retratar o apelo do mundo real – a maioria deles classificamos como ‘slice of life’ – e SHIROBAKO é uma das pérolas do gênero.

Don-don donatsu!
Don-don donatsu!

Quando chegamos nos 20 e poucos anos, uma das primeiras porradas da vida dá é de que nada é simples. Mesmo para os que tem sorte e conseguem sair da adolescência sabendo o que querem fazer da vida, como atingir seus objetivos já é algo difícil. Para quem é jogado no mundo adulto sem um sonho específico, descobrir o que se deseja fazer no futuro enquanto procura estabilidade financeira e emocional é igualmente complicado.

O que eu quero fazer? Qual meu sonho? Como eu chego lá? Será que sou boa o suficiente para isso? Estou satisfeita com o que eu estou fazendo agora? E amanhã? Não existe um manual ou uma resposta única para as decisões que podemos tomar.

Dilemas como esse são abordados em SHIROBAKO, o que talvez seja o motivo para que o anime conquistasse o coração de muita gente.

O anime começa durante o ensino médio. Cinco amigas fazem parte do clube de animação do colégio e sonham em trabalhar com animes um dia. Elas se esforçam durante semanas para produzir uma animação caseira para a feira escolar, enquanto discutem sobre o que fazer após se formarem, o apoio da família ou não. Não parece diferente de outros animes sobre amadurecimento que se passam na época escolar…

Até que pulamos dois anos no futuro e achamos nossas protagonistas penando com as dificuldades da vida adulta.

Ser adulto não é fácil.
Ser adulto não é fácil.

Aoi Miyamori é produtora assistente num estúdio de animação mediano e trabalha tanto que nem tem certeza mais do que realmente deseja fazer. Sakaki Shizuka quer se tornar dubladora em um mercado saturado e não conseguiu um trabalho de destaque até então. Imai Midori é uma universitária que deseja virar roteirista de animes, mas não sabe nem por onde começar. Toudou Misa conseguiu um emprego como animadora 3D, mas suas chances de trabalhar com animes são bem pequenas. Yasuhara Ema é uma animadora novata no mesmo estúdio que Aoi trabalha, mas que vive preocupada com seu progresso artístico enquanto tenta cumprir as puxadas deadlines.

O principal apelo de SHIROBAKO é por ser um anime sobre como se faz anime.

Acompanhamos a rotina do estúdio fictício Musahino Animation durante a produção de um anime original e uma adaptação de mangá. É apresentado todo o processo, desde a criação do storyboard, o desenho dos quadros, edição, efeitos sonoros, dublagens e tudo mais. Conseguem explicar de forma didática e sem usar muitos jargões, deixando claro a importância que cada parte tem no resultado final.
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Assim como também os problemas que podem acontecer durante a produção de um anime. E, acredite, são muitos. Tem certos momentos a produção de cada episódio parece resultado de nada menos que um milagre.

Trabalhar fazendo animes não é uma tarefa fácil. É uma indústria que se baseia em prazos curtos, pouco dinheiro e que sofre com trabalhadores sobrecarregados e mal pagos. Como se isso não fosse desesperador o suficiente, a produção de animes não para de crescer a cada ano. Em 2014 atingiram o recorde, com 422 animações produzidas só para a TV.

Inclusive, esse anime pode assustar num primeiro momento devido a quantidade grande de personagens. São tantos que durante os primeiros episódios aparecem placas com o nome e função de cada um. Por sorte os designs de cada personagem são bem distintos e não é difícil reconhecê-los.

Quantas pessoas fazem um anime? Bem, muitas.
Quantas pessoas fazem um anime? Bem, muitas.

No entanto, SHIROBAKO brilha de verdade é com seus personagens. E ganha ainda mais destaque por ter um núcleo de protagonistas femininas adultas com dilemas reais. Um dos momentos mais tocantes do anime é quando Ema está sofrendo porque sabe que precisa desenhar melhor e mais rápido, caso queira continuar trabalhando no futuro. Porém encontra-se no meio de um bloqueio criativo graças a uma cena difícil. Ela recebe ajuda de uma outra animadora, sua veterana, que a ensina lições valiosas (que acredito que valem para qualquer um que trabalha na indústria criativa).

Na verdade, em quase todos os momentos em que uma das personagens enfrenta uma crise, elas são ajudadas por outras mulheres.

O machismo na indústria também não passa despercebido. Acredito que esse detalhe tenha sido adicionado pela roteirista do anime, Michiko Yotoke (que também escreveu o belíssimo Princess Tutu), que trabalha no campo há décadas.

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Numa indústria tão complicada e cheia de obstáculos, produzindo obras de qualidade duvidosa, talvez o maior desafio que nossas personagens enfrentem seja como continuar lá. Todos os personagens, ou a maioria deles, parecem ser movidos por um otimismo necessário em um mercado de trabalho cruel. SHIROBAKO não esconde os problemas que afetam o mundo dos animes, mas segue em frente desejando fazer melhor.

Apesar disso, minha maior crítica ao anime é o com o design das personagens. Os homens – muitos baseados em pessoas de verdade, como o diretor que é baseado no próprio diretor de verdade do anime – tem diversos tipos de corpos, gordos e magros. Já as mulheres, apesar de serem bem construídas, quando se trata das aparências parecem cópias uma das outras, tirando diferenças de vestiário e cabelo. Claramente optaram por um design que agradasse o público masculino. E, apesar do anime não conter nenhum tipo de fanservice sexual, uma parte considerável do merchandising faz uso do visual fofo das protagonistas.

No fim das contas, SHIROBAKO é recomendado para todas aquelas que já sentiram as dúvidas e angústias da vida adulta. Principalmente se escolheu algo da área artística. É um anime que vira para todas as profissionais que já olharam para a carreira que escolheram e questionaram se realmente vale o esforço de fazer o que ama. O anime responde isso aos poucos, de forma dolorida em alguns momentos, e com um otimismo que faz falta: sim, vale a pena.

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SHIROBAKO está disponível oficialmente no Brasil através do Crunchyroll, uma plataforma de streaming de animes e doramas.

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