Girl in a Band: mágoas e roquenrou

Antes de saber o que era feminismo, muito antes, a maioria dos meus ídolos, especialmente os musicais, eram mulheres. Desde nova, 14/15 anos, eu já gostava muito de Portishead, Sleater Kinney, Bulimia, Janis Joplin, Nico, Patti Smith (entre muitas outras), baixava uma música por vez no KasaA e demorava para cacete (vou fazer trintão esse ano). Os cd’s gravados iam de mão em mão, numa festa, numa viagem, e assim é como eu conhecia música nova.

Assumidamente, só comecei a gostar de Sonic Youth depois dos meus 24 anos, que perda de tempo! Hahaha! Apesar de ser muito fã de Nirvana e dos cd’s mais barulhentos com guitarras sujas e distorcidas, Sonic Youth era barulhento e dissonante demais para mim. Mas me apresentaram dois cd’s que faziam menos distorção e aí com um pouco mais de paciência eu pude ouvir as letras e fiquei fascinada. Os cd’s eram Rather Ripped e Sonic Nurse, eu acho que ouvia o Rather Ripped umas 20 vezes por dia, sem brincadeira, quando eu piro numa parada, esse é o meu jeitinho, risos. De qualquer forma, foi o cd que abriu as portas do Sonic Youth na minha vida.

 

[caption id="attachment_8497" align="aligncenter" width="700"] não gostava mas pagava muito pau pra essa ilustra, queria ter a camiseta mas nunca tive, haha – capa do disco Goo![/caption]

 

Eu tive a oportunidade de ir no último show do Sonic Youth pois estava morando em São Paulo. Amigos meus iriam pro SWU de qualquer forma, carona eu tinha, mas um namoro meu tinha acabado exatamente naquele dia. Antes do término, o plano era ir ao show, esse meu namorado que havia me apresentado a banda e imaginem, exatamente quando você vira fãzáça, ela vem tocar no seu estado! Mas no final acabei não indo, estava chateada, sem forças para produzir a ida para um show naquele estado, e no final, meu ex-namorado foi ao show e eu não. Nunca vou me perdoar por isso, hahaha!

Quando eu soube que Kim Gordon iria escrever um livro, pensei, caralho preciso comprar assim que sair. Quero ler em inglês, pensei, como tenho o privilégio de saber falar e ler em inglês, não queria passar novamente pela saia justa da tradução mal feita como foi no livro da Patti Smith. Em que o nome do livro ‘Just Kids’ virou “Só Garotos”. Com essas paradas de tradução, sempre me vem à cabeça ‘O Poderoso Chefão’, hahaha, se você parar para pensar, é bem engraçado tipo, chefão de video-game, sei lá. Tradução é uma parada muito difícil mermo.

 

[caption id="attachment_8498" align="aligncenter" width="452"] Livro da Patti Smith, muito bão[/caption]

 

Depois de um tempo (em que o livro não estava em minhas mãos porque não achava em inglês), amigas do Rio organizaram amigo secreto de livros agora no final de 2015. Na real não era um amigo secreto, levamos vários livros e colocamos na mesa e quem se interessasse que pegasse o livro. Eu levei uma caixa de livros e voltei com uma caixa (coração quentinho). Um dos livros em cima da mesa era o da Kim Gordon em inglês, minha amiga Elisa queria e sabia que eu também queria o livro, mas como eu estava me mudando do Rio, ela deixou eu levar o livro, hahaha. Obrigada Elisa, te amo miga!

 

[caption id="attachment_8500" align="aligncenter" width="401"] (risos)[/caption]

 

Finalmente me mudei e abri a primeira página. Eu sabia que aquelas 273 páginas precisariam ser bem administradas porque eu poderia ficar mal caso eu terminasse o livro muito rápido e/ou tivesse uma má relação com ele. O que não foi o caso, o tempo foi perfeito, foi rápido mas estava bom e me forcei a fazer pausas dramáticas para aproveitar a nova cidade e manter a dosagem perfeita, hahaha.

 

[infobox maintitle="A partir de agora é spoiler forte" subtitle="" bg="red" color="black" opacity="on" space="30" link="no link"]

 

No livro, Kim conta sua história desde criança, um pouco sobre a história dos pais dela, do irmão que sofre de esquizofrenia e o conturbado convívio em que a doença proporcionou a todos. A descrição do clima político entre as épocas que vão perpassando o livro, é maravilhosa. O clima estranho de quando Manson andava solto por Los Angeles, e como isso influenciou ela ao longo da sua vida, ela chega a citar Manson e seu bando (Revolution 9) umas 4 ou 5 vezes durante o livro. Eu gosto muito como ela descreve a Califórnia, acho que é como qualquer californiano prodígio descreveria, me lembrei muito da banda Best Coast, de pessoas que tem cabelo loiro por causa do sol e daqueles vídeos de skate em piscinas vazias em casas abandonadas.

 

Best Coast falando sobre a Califórnia e até o nome da banda é sobre isso, haha

 

O momento da adolescência e transição para fase adulta de Kim foi muito ligado às artes no geral e à busca infinita de qualquer artista pro seu porto, muita miçanga, minha gente de humanas! Kim vai passando por diferentes escolas de arte, uma que inclusive ficava em Toronto, no Canadá. Além das diferentes escolas, ela passa por diferentes sub-empregos para conseguir se sustentar, quem nunca. Não sei o porquê empregos como garçonete são categorizados como sub-empregos, te dizer que foi o melhor emprego que eu tive na minha vida apesar de pagar pouco, deve ser por isso, hahaha.

Quando depois que a Kim foi embora do Canadá e voltou pra Califórnia, ela resolveu ir de carro com um amigo até Nova Iorque, eu fiz essa viagem, me identifiquei demais. É excitante a forma que ela descreve Nova Iorque, a forma que o Sonic Youth foi sendo criado, como ela conheceu o Thurston Moore, como as músicas eram compostas, é tão realista que você nem sequer se lembra que pode ter um segundo ou terceiro ponto de vista dessa história. Parece que você está lá, vendo tudo acontecer. Me lembrei muito do livro da Patti Smith, a visão de duas meninas de outros lugares (se bem que a Patti Smith era da roça, foi muito mais impactante pra ela) chegando numa cidade em que seus ídolos estavam todos ali, e você sentia em que ali era o momento de se estar, as coisas estavam acontecendo.

 

[caption id="attachment_8504" align="aligncenter" width="500"] mandando vê[/caption]

 

Claro né, fazendo um recorte de momento/país aqui, revolução hippie, Panteras Negras, primeira (segunda?) onda do feminismo, revolução musical, nascimento do punk (há [muitas] controvérsias), no wave, ‘faça amor não faça guerra’, CBDB, LSD, tudo junto e misturado e você ainda podia se esbarrar com o Basquiat e Andy Wahrol andando na rua. Entrar num bar underground pra cacete e ver a Nico cantar com o Velvet Underground, apenas excitante.

Durante todas as partes do livro, desde criança, adolescente, início da fase adulta, Kim descreve como é ser uma mulher em diversas atividades. Como e quais são as complicações de ser a menina/mulher da banda acaba sendo metafórico para ser mulher em diversos ambientes. Um exemplo é que desde cedo ela já se interessava por moda/figurino porque sua mãe era costureira e fazia suas roupas. Ela levou esse interesse com ela, mais tarde até chegou a abrir uma marca com uma amiga. Mas na real onde eu quero chegar é que ser uma mulher numa banda e se vestir de x forma ou y, poderia afetar vendas e/ou como a banda e ela seriam vistos.

 

[caption id="attachment_8502" align="aligncenter" width="500"] mandando vê II[/caption]

 

O feminismo é presente na vida de Kim e ela faz meio desse livro para expor diversas situações no grande estilo #meuamigosecreto e #minhaamigasecreta. Dá pra sentir quando o sentimento está sendo dosado por causa da filha enquanto ela fala de Thurston e quando o sentimento voa sem freios porque ela precisa tirar aquilo do peito. Da mesma forma como quando ela se pronuncia diretamente à Courtney Love, sem freios, sem medo, a chamando de interesseira e mal caráter, ‘a train wreck’. Apesar de não curtir expor mulheres e ver/ler sobre isso, senti que Kim já havia pensado se o faria ou não e resolveu fazer, pelo passado das duas, pelo passado de seu amigo Kurt Cobain e para respaldar Kathleen Hanna (que foi agredida por Courtney, sem motivos aparentes).

 

[caption id="attachment_8503" align="aligncenter" width="450"] essa frase é do Kurt Cobain, mas amay o gif, hahaha. Na verdade a Kim produziu o primeiro cd do Whole, então não foi falsiane[/caption]

 

Não cabe a mim julgar essa situação e essa exposição, é uma autobiografia e ela escolheu incluir conscientemente esses trechos e eu compreendi, mas o que me encucou foi outra coisa. Se você não sabe até agora que o motivo da separação de Kim e Thurston foi uma traição (e tudo o que vem com isso, não somente o fato isolado), TEJE AVISADE. O lance é que apesar dela colocar o Thurston como maior ‘culpado’ na situação, ela azucrinou a mulher com quem ele a traiu, até por demais, na minha opinião. Como se a mulher tivesse poderes especiais e transformasse os ~ coitadinhos dos homens ~ em peões de seu tabuleiro de xadrez (sei lá, inventei agora, comecei a jogar xadrez [de novo], haha).

Agora voltando, o feminismo é presente no livro e na vida dela e no trabalho dela, contando a própria experiência dela, entendendo como o mundo funciona para uma mulher, para uma mulher numa banda ~ de sucesso, mas há uma situação de opressão entre a Kim e a mulher com quem o ex-marido dela a traiu. Há uma exposição desnecessária de uma mulher anônima e a Kim utiliza a fama dela para fazer isso. Isso não gostei, bem diferente de trocar farpas com a Courtney Love que não há situação hierárquica de opressão, a meu ver pelo menos, posso estar errada, claro! De qualquer forma, ser consciente de reprodução de machismo é um trabalho diário, em algum nível, a maioria de nós faz.

 

[caption id="attachment_8501" align="aligncenter" width="320"] trecho da música Kool Thing[/caption]

 

Na verdade eu também não curti uma carta aberta que ela escreveu para a Karen, cantora do The Carpenters. A carta foi publicada numa revista e tem um tom psicanalítico nada legal, como se ela quisesse ajudar alguém que não pediu ajuda. Não entendi o porquê ela quis incluir isso no livro, mas quem sou eu? Hahaha. Essas foram as partes de que não gostei no livro, mas agora vamos falar de coisa boa, vamos falar de cogumelo do sol.

 

Clipe do Sonic Youth em que a Kathleen Hanna participa

 

Não quero acabar essa resenha com essa torta de climão, o livro é muito bom, além de Sonic Youth e muitíssimo além de traições. Ela fala sobre a traição e o fim do casamento enfaticamente apenas nas últimas 30 páginas do livro, pra você ter uma ideia. Então, não quero deixar passar a impressão de que é um livro inteiro sobre descarrego. É e não é, é de uma forma natural, como se uma amiga estivesse te contando sua história, você se sente próxima dela, por isso é difícil julgar, porque dá pra sentir que o grau de sinceridade e entrega é de alguém que passou por um problema que fez a vida mudar completamente e por mais que o tempo tenha passado, é como se ainda estivesse em processo de digestão. Afinal, foram 27 anos de casamento, de banda, uma filha que é muito amada pelos dois, o que são 5 anos passados diante de tantas coisas significativas?

 

[caption id="attachment_8506" align="aligncenter" width="277"] Kim, Coco e Thurston[/caption]

 

Kim escreve como ela tocou baixo, de forma crua, sincera, alto nível de entrega pessoal. Descreveu os movimentos ao longo das décadas, como Riot Grrrl e grunge no início da década de 90 de forma excitante. Falou sobre o seu envolvimento pessoal e profissional com pessoas que são meus ídolos como a banda Pixies e ter aberto para Neil Young numa turnê. Consegui me imaginar naquela festinha dos sonhos, sabe? Aquele backstage de festival em que todos estão reunidos, comendo porcarias e dividindo o banheiro porco. Você se sente ali, fazendo parte de tudo aquilo junto com ela. Sendo a mulher da banda, ou a miga dela, ao menos, haha.

[caption id="attachment_8507" align="aligncenter" width="500"] aquela coisa né, não é seu aniversário, mas tá de parabéns, risos[/caption]

 

No final, só tenho a agradecer, porque mulheres não têm tantas ídolas assim, nós não ocupamos ainda suficientemente espaços que são esperados ser ocupados por homens. Nossas resistências ainda são ocupações políticas e a vida da Kim e toda a sua arte foram e são uma grande ocupação. Fazer música dissonante, fazer arte, escrever, ser mãe, expor, etc. Ainda há de se esperar grandes coisas dela, sem a menor dúvida.

[caption id="attachment_8508" align="aligncenter" width="531"] inda por cima retweetou meu tuíte pra ela, fofi <3[/caption]

 

Mais de Bárbara Gondar

Assista: The OA

Não sei vocês, mas eu já sou fã da Brit Marling faz alguns anos. Desde que vi Another Earth (2011) fiquei fascinada pela história, pela atuação e pela própria Brit (bff) quando descobri que tinha sido ela quem havia escrito o roteiro do filme (em conjunto com o Zal Batmanglij, também em The OA). Logo depois assisti The East (2013), também escrito por ela, e Sound of my Voice (2011).

Esse último foi o que eu menos gostei e, ainda assim, muitas coisas interessantes. Inclusive, muitas coisas relacionadas com The OA, muitas mesmo. Acho que ela também não deve ter ficado muito satisfeita com o final e quis elaborar mais a ideia (pretensiosa, eu? risos). Inclusive uma sequência de movimentos de saudação, tão ~ infantis quanto a construção dos Movimentos em The OA.

Segue o trailer, vejam o que vocês acham.

Quando soube que ela havia feito (escrito e produzido) uma série, fiquei super feliz, fazia anos que não ouvia o nome dela. Apesar de ter lido críticas contundentes vindas de amigos próximos, fui logo assistir.

Não esperava nada menos vindo dela. Continua a mesma linha de raciocínio de sempre, traz problematizações reais e fortes, assuntos sérios dentro de de um universo que é ao mesmo tempo fantástico e realista. Uma direção de arte maravilhosa, com uma ambientação muito natural, uma narrativa fluída, trilha sonora boa, é muito bem amarrado. #táamarrado

Pessoalmente achei a série um ode à excelente narrativa. Coisas maravilhosas que só a mágica do cinema pode nos trazer tão bem, inclusive eu acredito que The OA seja um filme de 8 horas, haha. A série pode ser contemplada de diferentes formas, de acordo com a expectativa e ideologia do espectador. Explico.

Caso você seja uma pessoa cética, a história é sobre uma superação de trauma e tudo o que pode discorrer dentro disso, histórias justificadas, personagens fictícios, muitos detalhes. Mas o melhor é que, durante toda a história, você pode fazer essa construção tranquilamente na sua cabeça e editar o que foi real e o que foi imaginário, sendo cético ou não. Até porque, o roteiro traz todas as peças para que isso aconteça, o psicólogo do FBI e a aceitação de Nina/Prairie/OA sobre suas deliberações, os livros embaixo da cama etc.

Trata também de pessoas acreditarem em fantasias e ilusões dependendo do seu estado de vulnerabilidade para suprir alguma necessidade. Ou seja, ter um apoio moral, psicológico e físico, um tipo de pertencimento e acolhimento.

Muito provavelmente, se você é uma dessas pessoas mais céticas, os movimentos trazidos e executados pelos personagens foram infantis e podem até ter beirado o ridículo, o que pode ter culminado na distração do atirador no final da série e permitiu que ele fosse desarmado.

O que eu acredito desse tipo de interpretação da narrativa é que a nossa vida segue essa mesma linha. Acredito que nós também fazemos movimentos ridículos, nossas rotinas, nossas manhas, nossos trabalhos, nossos relacionamentos, sexo, tudo é uma composição de movimentos que nos levam a outros lugares, coisas e sentimentos. Acredito também que todos nós em algum estado de vulnerabilidade nos abrimos para ser pertencidos, acolhidos, que seja por um grupo e/ou uma religião, e/ou tantas outras coisas mais. Por isso, acredito que essa série, mesmo que a pessoa seja muito cética, possa fazer alusões à narrativa do dia a dia, do mortal, do material com base no fantástico e continuar sendo boa.

Não é uma medida de saúde mental para ser bem ajustado em uma sociedade que está muito doente.

Caso você não seja uma pessoa cética, a série é o que ela realmente apresenta, a vivência de um trauma com uma base mística, com um aninhamento em algo agnóstico, apresentando uma experiência diferente de pós-morte para cada pessoa. Isso eu achei incrível. Uma representação feminina, com aparência indiana e falando árabe, um ser superior, a Kathun. Mas vai para muito além de algo místico-religioso, misturando uma maravilhosa ficção científica, falando sobre outras dimensões e de sentimentos de forma subjetiva e linda.

Fiquei apaixonada pela escolha de colocar pessoas com experiência de quase-morte com alguma capacidade de fazer algo com excelência, como a música, tocar algum instrumento, cantar com uma potência sentimental muito grande etc. Isso porque as artes, de alguma forma, nos tiram da nossa rotina maçante e nos colocam em algum estado alfa. Quem nunca se pegou viajando vendo alguma apresentação de dança ou música ou lendo um livro, uma poesia/poema, olhando um quadro? É difícil expressar esses sentimentos tão subjetivos e eu acredito que a série fez isso com maestria.

O mais interessante, na minha opinião, é que não interessa a forma que você tenha escolhido acreditar em como a história tenha se desdobrado porque, para a personagem principal, tudo aquilo foi verdade. Para os personagens secundários, pode ser que não além do aninhamento e pertencimento, mas ela viveu aquilo de forma intensa, assim como todos os outros. Inclusive, ela faz tudo para poder se reencontrar com o Homer, homem que também é mantido em cativeiro junto com ela e mais 4 pessoas. Nina/Prairie/OA mesma diz que não é o desfecho de um trauma, é o início de uma história.

A história apresenta realidades super pesadas: uma criança que sofreu um acidente e ficou cega, precisou imigrar para sobreviver, perdeu um pai, foi vendida pela tia, foi adotada por um casal e teve imensos problemas psicológicos, precisou tomar remédio a vida toda, foi sequestrada e mantida em cativeiro por 7 anos, tentou escapar, apanhou, voltou a enxergar. Depois de livre, não conseguiu se adaptar ao mundo real e foi contar sua história para pessoas extremamente vulneráveis, e tudo isso, todo esse concentrado de vida real, foi diluído em 8 episódios da forma mais linda possível. Ainda temos as histórias dos personagens secundários que lidam com suicídio (Jesse) e falecimento (DDA) de parentes próximos, transexualidade (BUCK), bullying (STEVE), pressão da sociedade por ser não-branco e precisar fazer tudo perfeito para tentar se igualar num privilégio branco (Alfonso) e o ataque à escola no final. São todos temas atuais que foram colocados de forma explícita e ao mesmo tempo muito bem colocados, naturalmente colocados.

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Sinceramente, não sei se espero ou não uma segunda temporada. Claro que, por causa do ~ capitalismo selvagem, tudo vai depender da aceitação do público. Mas como eu disse, já está tudo tão bem amarrado que seria muito difícil continuar a história com sua dubiedade por mais episódios. Mas boto fé na menina, vamos ver o que acontece. Pra finalizar, quero dizer que eu amei o final e chorei pra cacete, parece que eu saí da história por dois minutos e assisti a um espetáculo de dança, pra depois voltar à não-realidade, mas realidade da série. Como em outra dimensão, haha. Ah, claro, sua percepção do final fica inteiramente por sua conta dependendo de como você acredita ou não na sucessão dos fatos! E não é só sobre ser cético ou não, é a mistura de tudo e todas as suas variáveis. <3 ~ #migasualouca #doubleinception

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Portishead, Sleater Kinney, Bulimia, Janis Joplin, Nico, Patti Smith (entre muitas outras), baixava uma música por vez no KasaA e demorava para cacete (vou fazer trintão esse ano). Os cd’s gravados iam de mão em mão, numa festa, numa viagem, e assim é como eu conhecia música nova.

Assumidamente, só comecei a gostar de Sonic Youth depois dos meus 24 anos, que perda de tempo! Hahaha! Apesar de ser muito fã de Nirvana e dos cd’s mais barulhentos com guitarras sujas e distorcidas, Sonic Youth era barulhento e dissonante demais para mim. Mas me apresentaram dois cd’s que faziam menos distorção e aí com um pouco mais de paciência eu pude ouvir as letras e fiquei fascinada. Os cd’s eram Rather Ripped e Sonic Nurse, eu acho que ouvia o Rather Ripped umas 20 vezes por dia, sem brincadeira, quando eu piro numa parada, esse é o meu jeitinho, risos. De qualquer forma, foi o cd que abriu as portas do Sonic Youth na minha vida.

 

 

Eu tive a oportunidade de ir no último show do Sonic Youth pois estava morando em São Paulo. Amigos meus iriam pro SWU de qualquer forma, carona eu tinha, mas um namoro meu tinha acabado exatamente naquele dia. Antes do término, o plano era ir ao show, esse meu namorado que havia me apresentado a banda e imaginem, exatamente quando você vira fãzáça, ela vem tocar no seu estado! Mas no final acabei não indo, estava chateada, sem forças para produzir a ida para um show naquele estado, e no final, meu ex-namorado foi ao show e eu não. Nunca vou me perdoar por isso, hahaha!

Quando eu soube que Kim Gordon iria escrever um livro, pensei, caralho preciso comprar assim que sair. Quero ler em inglês, pensei, como tenho o privilégio de saber falar e ler em inglês, não queria passar novamente pela saia justa da tradução mal feita como foi no livro da Patti Smith. Em que o nome do livro ‘Just Kids’ virou “Só Garotos”. Com essas paradas de tradução, sempre me vem à cabeça ‘O Poderoso Chefão’, hahaha, se você parar para pensar, é bem engraçado tipo, chefão de video-game, sei lá. Tradução é uma parada muito difícil mermo.

 

 

Depois de um tempo (em que o livro não estava em minhas mãos porque não achava em inglês), amigas do Rio organizaram amigo secreto de livros agora no final de 2015. Na real não era um amigo secreto, levamos vários livros e colocamos na mesa e quem se interessasse que pegasse o livro. Eu levei uma caixa de livros e voltei com uma caixa (coração quentinho). Um dos livros em cima da mesa era o da Kim Gordon em inglês, minha amiga Elisa queria e sabia que eu também queria o livro, mas como eu estava me mudando do Rio, ela deixou eu levar o livro, hahaha. Obrigada Elisa, te amo miga!

 

 

Finalmente me mudei e abri a primeira página. Eu sabia que aquelas 273 páginas precisariam ser bem administradas porque eu poderia ficar mal caso eu terminasse o livro muito rápido e/ou tivesse uma má relação com ele. O que não foi o caso, o tempo foi perfeito, foi rápido mas estava bom e me forcei a fazer pausas dramáticas para aproveitar a nova cidade e manter a dosagem perfeita, hahaha.

 

 

No livro, Kim conta sua história desde criança, um pouco sobre a história dos pais dela, do irmão que sofre de esquizofrenia e o conturbado convívio em que a doença proporcionou a todos. A descrição do clima político entre as épocas que vão perpassando o livro, é maravilhosa. O clima estranho de quando Manson andava solto por Los Angeles, e como isso influenciou ela ao longo da sua vida, ela chega a citar Manson e seu bando (Revolution 9) umas 4 ou 5 vezes durante o livro. Eu gosto muito como ela descreve a Califórnia, acho que é como qualquer californiano prodígio descreveria, me lembrei muito da banda Best Coast, de pessoas que tem cabelo loiro por causa do sol e daqueles vídeos de skate em piscinas vazias em casas abandonadas.

 

Best Coast falando sobre a Califórnia e até o nome da banda é sobre isso, haha

 

O momento da adolescência e transição para fase adulta de Kim foi muito ligado às artes no geral e à busca infinita de qualquer artista pro seu porto, muita miçanga, minha gente de humanas! Kim vai passando por diferentes escolas de arte, uma que inclusive ficava em Toronto, no Canadá. Além das diferentes escolas, ela passa por diferentes sub-empregos para conseguir se sustentar, quem nunca. Não sei o porquê empregos como garçonete são categorizados como sub-empregos, te dizer que foi o melhor emprego que eu tive na minha vida apesar de pagar pouco, deve ser por isso, hahaha.

Quando depois que a Kim foi embora do Canadá e voltou pra Califórnia, ela resolveu ir de carro com um amigo até Nova Iorque, eu fiz essa viagem, me identifiquei demais. É excitante a forma que ela descreve Nova Iorque, a forma que o Sonic Youth foi sendo criado, como ela conheceu o Thurston Moore, como as músicas eram compostas, é tão realista que você nem sequer se lembra que pode ter um segundo ou terceiro ponto de vista dessa história. Parece que você está lá, vendo tudo acontecer. Me lembrei muito do livro da Patti Smith, a visão de duas meninas de outros lugares (se bem que a Patti Smith era da roça, foi muito mais impactante pra ela) chegando numa cidade em que seus ídolos estavam todos ali, e você sentia em que ali era o momento de se estar, as coisas estavam acontecendo.

 

 

Claro né, fazendo um recorte de momento/país aqui, revolução hippie, Panteras Negras, primeira (segunda?) onda do feminismo, revolução musical, nascimento do punk (há [muitas] controvérsias), no wave, ‘faça amor não faça guerra’, CBDB, LSD, tudo junto e misturado e você ainda podia se esbarrar com o Basquiat e Andy Wahrol andando na rua. Entrar num bar underground pra cacete e ver a Nico cantar com o Velvet Underground, apenas excitante.

Durante todas as partes do livro, desde criança, adolescente, início da fase adulta, Kim descreve como é ser uma mulher em diversas atividades. Como e quais são as complicações de ser a menina/mulher da banda acaba sendo metafórico para ser mulher em diversos ambientes. Um exemplo é que desde cedo ela já se interessava por moda/figurino porque sua mãe era costureira e fazia suas roupas. Ela levou esse interesse com ela, mais tarde até chegou a abrir uma marca com uma amiga. Mas na real onde eu quero chegar é que ser uma mulher numa banda e se vestir de x forma ou y, poderia afetar vendas e/ou como a banda e ela seriam vistos.

 

 

O feminismo é presente na vida de Kim e ela faz meio desse livro para expor diversas situações no grande estilo #meuamigosecreto e #minhaamigasecreta. Dá pra sentir quando o sentimento está sendo dosado por causa da filha enquanto ela fala de Thurston e quando o sentimento voa sem freios porque ela precisa tirar aquilo do peito. Da mesma forma como quando ela se pronuncia diretamente à Courtney Love, sem freios, sem medo, a chamando de interesseira e mal caráter, ‘a train wreck’. Apesar de não curtir expor mulheres e ver/ler sobre isso, senti que Kim já havia pensado se o faria ou não e resolveu fazer, pelo passado das duas, pelo passado de seu amigo Kurt Cobain e para respaldar Kathleen Hanna (que foi agredida por Courtney, sem motivos aparentes).

 

 

Não cabe a mim julgar essa situação e essa exposição, é uma autobiografia e ela escolheu incluir conscientemente esses trechos e eu compreendi, mas o que me encucou foi outra coisa. Se você não sabe até agora que o motivo da separação de Kim e Thurston foi uma traição (e tudo o que vem com isso, não somente o fato isolado), TEJE AVISADE. O lance é que apesar dela colocar o Thurston como maior ‘culpado’ na situação, ela azucrinou a mulher com quem ele a traiu, até por demais, na minha opinião. Como se a mulher tivesse poderes especiais e transformasse os ~ coitadinhos dos homens ~ em peões de seu tabuleiro de xadrez (sei lá, inventei agora, comecei a jogar xadrez [de novo], haha).

Agora voltando, o feminismo é presente no livro e na vida dela e no trabalho dela, contando a própria experiência dela, entendendo como o mundo funciona para uma mulher, para uma mulher numa banda ~ de sucesso, mas há uma situação de opressão entre a Kim e a mulher com quem o ex-marido dela a traiu. Há uma exposição desnecessária de uma mulher anônima e a Kim utiliza a fama dela para fazer isso. Isso não gostei, bem diferente de trocar farpas com a Courtney Love que não há situação hierárquica de opressão, a meu ver pelo menos, posso estar errada, claro! De qualquer forma, ser consciente de reprodução de machismo é um trabalho diário, em algum nível, a maioria de nós faz.

 

 

Na verdade eu também não curti uma carta aberta que ela escreveu para a Karen, cantora do The Carpenters. A carta foi publicada numa revista e tem um tom psicanalítico nada legal, como se ela quisesse ajudar alguém que não pediu ajuda. Não entendi o porquê ela quis incluir isso no livro, mas quem sou eu? Hahaha. Essas foram as partes de que não gostei no livro, mas agora vamos falar de coisa boa, vamos falar de cogumelo do sol.

 

Clipe do Sonic Youth em que a Kathleen Hanna participa

 

Não quero acabar essa resenha com essa torta de climão, o livro é muito bom, além de Sonic Youth e muitíssimo além de traições. Ela fala sobre a traição e o fim do casamento enfaticamente apenas nas últimas 30 páginas do livro, pra você ter uma ideia. Então, não quero deixar passar a impressão de que é um livro inteiro sobre descarrego. É e não é, é de uma forma natural, como se uma amiga estivesse te contando sua história, você se sente próxima dela, por isso é difícil julgar, porque dá pra sentir que o grau de sinceridade e entrega é de alguém que passou por um problema que fez a vida mudar completamente e por mais que o tempo tenha passado, é como se ainda estivesse em processo de digestão. Afinal, foram 27 anos de casamento, de banda, uma filha que é muito amada pelos dois, o que são 5 anos passados diante de tantas coisas significativas?

 

 

Kim escreve como ela tocou baixo, de forma crua, sincera, alto nível de entrega pessoal. Descreveu os movimentos ao longo das décadas, como Riot Grrrl e grunge no início da década de 90 de forma excitante. Falou sobre o seu envolvimento pessoal e profissional com pessoas que são meus ídolos como a banda Pixies e ter aberto para Neil Young numa turnê. Consegui me imaginar naquela festinha dos sonhos, sabe? Aquele backstage de festival em que todos estão reunidos, comendo porcarias e dividindo o banheiro porco. Você se sente ali, fazendo parte de tudo aquilo junto com ela. Sendo a mulher da banda, ou a miga dela, ao menos, haha.

 

No final, só tenho a agradecer, porque mulheres não têm tantas ídolas assim, nós não ocupamos ainda suficientemente espaços que são esperados ser ocupados por homens. Nossas resistências ainda são ocupações políticas e a vida da Kim e toda a sua arte foram e são uma grande ocupação. Fazer música dissonante, fazer arte, escrever, ser mãe, expor, etc. Ainda há de se esperar grandes coisas dela, sem a menor dúvida.

 

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