Leia: O que eu não li

Tem muito livro bom parado na estante

Não sei quando começou, mas de uns anos para cá comecei a me definir como leitora ávida, daquelas que devoram livros – um por semana, há! -, como se ser leitora fosse uma das características mais marcantes de mim, como se bastasse uma olhadela para todo mundo pensar Nossa, como essa Fabiana é leitora.

O que começou como uma tentativa de me ajudar a lidar com situações difíceis na vida e explorar novos interesses agora acaba por me limitar: a mania de acumular livros para ler algum dia me gera uma cobrança silenciosa e foi na última Feira de Livros da USP que senti que a coisa saiu do controle, me gera ansiedade, pesa nas minhas costas.
 

 
Tsundoku – essa desgraça tem até nome – é a palavra japonesa para o ato de acumular livros não lidos. Minha condição agora tem nome e diagnóstico.

Mas cansei de me sentir envergonhada, cobrada pelas capas-dura e ilustrações bonitas. Cansei de criar planilhas com cronograma de leitura, de distribuir senha para filas preferenciais para os livros mais antigos ou com problemas de mobilidade.

Grito agora a verdade para os quatro cantos: segue abaixo os livros que não li! (Listei só 5 porque ainda quero manter um pouco da dignidade intacta, okay?)
 

 
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1.

Há alguns anos eu li Triologia de Nova York, de Paul Auster (aquele, marido de Siri Hustvetd) e me apaixonei. O livro junta 3 novelas que dividem alguns pontos de contato mas que também podem ser lidas individualmente, narradas num clima noir-meio-thriller, Auster renovou o gênero policial para mim e por isso que me empolguei quando soube que iria lançar um novo romance esse ano, chamado 4 3 2 1. Resolvi dar chance à esse livrão da porra de mais de 800 páginas.

Então, acontece que não li 4 3 2 1, do Paul Auster, quer dizer, não o li inteiro. O romance desdobra 4 versões alternativas da vida do protagonista Archie Ferguson e como suas decisões podem alterar o curso de sua vida. Tentei, li até a metade, criei esquemas para me orientar nas 4 linhas de tempo alternativas, fiz uma árvore genealógica; mas, depois de alguns meses de trabalho dedicado, não consegui afastar a idéia de que o livro estava dando voltas às cegas, tentando reforçar uma tese frágil, meio baseada em horóscopos de jornal e teoria da causalidade e destino. A leitura não sobreviveu nem aos meus instintos curiosos de montar o chato quebra-cabeça das 4 versões dos vários Archies e seus pontos de contato e de quebra. A saber: um deles acaba jogando baseball e outro não.

Parei de ler, mesmo que o livro ainda esteja me olhando no meu criado mudo.

 


2.

Outro que não li foi Contra o dia, de Thomas Pynchon. Tinha acabado de ler o Vício Inerente e fiquei fascinada, que história, que doideira então quis ler mais sobre esse cara obscuro, que não curtia aparecer em público e que foi uma das grandes admirações de David Foster Wallace.

O enredo do livro era bem interessante, “Será um elenco de anarquistas, balonistas, apostadores, magnatas corporativos, entusiastas das drogas, inocentes e decadentes, matemáticos, cientistas loucos, físicos, ilusionistas, espiões, detetives, aventureiras e assassinos profissionais. Com participações especiais de Nikola Tesla, Bela Lugosi e Groucho Marx”, tudo ambientado no início do século XX. Levei o livro comigo para me fazer companhia nas férias, fomos para praia juntos, tomamos drinks, demos gostosas risadas.

Tudo estava indo um pouco empacado, mas relativamente fluido até que, no meio das minhas férias, minha vó morre. O livro, que não teve nem 50 de suas páginas lidas, está com manchas do meu choro até hoje. Não retomei a leitura pela associação. O livro tá descansando na estante da sala até segunda ordem.

 


3.

Depois de alguns meses desse fracasso, comprei o livro lindo da Eleanor Catton, Os Luminares, que tinha a proposta mais perfeita para alguém que tinha acabado de ficar encantada com seu mapa astral e que finalmente entendeu o significado de leão na casa nove. A trama, ambientada na Nova Zelândia na segunda metade do século XIX,  é sobre 12 personagens que – dentro de um contexto da corrida do ouro e de investigação de um assassinato – são regidos por signos do zodíaco ou corpos celestes, que dão nome a cada capítulo.

O resumo do meu fracasso é: não consegui lidar com o grande inconveniente de levar pra cima e pra baixo um livro de 900 páginas. Além disso, tenho uma grande birra por romances históricos, odeio mesmo. E não me atentei a esse detalhe quando o comprei.

 


4.

Um dos meus livros favoritos da vida é Se um viajante numa noite de inverno de Italo Calvino. Tem a quantidade ideal de literatura meta, remix de gêneros literários e não-linearidade que eu adoro. Calvino, junto do Georges Perec – a nova vítima da minha fila preferencial -,  é um dos membros proeminentes da OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle), uma corrente literária que propõe uma escrita livre através da imposição de certas restrições ou constrangimentos, como é o livro O Sumiço, de Perec, que suprimiu de sua narrativa quaisquer palavras que contenham a letra e, uma das letras mais comuns do vocabulário francês.

Pois bem, o livro eleito se mostrou tão hermético – ou eu estava, na época, bizarramente fora do foco – que mal consegui chegar nas 10 primeiras páginas. Veja só, eu nem lembro da sinopse do livro, simplesmente me fechei e me recusei a ler algo tão cerebral assim por um tempo.

 


5.

A sinopse de Como ser duas coisas, de Ali Smith, é super interessante. Dividida em duas partes, a primeira metade do livro conta a história de George, apelido de Georgia, uma adolescente chata e irascível que tem que lidar com a morte de sua mãe; a segunda parte é sobre o pintor Francisco del Cossa, reimaginado aqui como uma menina que assumiu a identidade masculina após a morte da mãe para poder seguir a carreira de pintor.

Tudo estava indo ótimo na primeira metade do livro, os personagens eram interessantes e estranhos o suficientes para prender meu interesse. Mas aí veio a narrativa simulando o estilo renascentista, fragmentada, seguindo um fluxo de consciência que exigia mais amor e concentração do que eu estava disposta a dar. Não teve outra, foi largado.

 


São essas minhas verdades, sou uma leitora incompleta. Espero que, com esse depoimento, outras se juntem à mim para formarmos uma comunidade de Não-Leitores Anônimos para nos apoiarmos durante esses momentos trevosos. 

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Dada: as mulheres do movimento dadaísmo

Enquanto a autoria do famoso readymade de Duchamp, “a Fonte”, é questionada, uma nova exposição examina o trio de mulheres que realmente lideraram o dadaísmo do início do século 20.

 

 
A escultura readymade do urinol de Marcel Duchamp, entitulada “a Fonte”, foi eleita a obra artística mais influente do século 20. Recentemente, no entanto, surgiram dúvidas se Duchamp de fato comprou ou não o urinol e o chamou de arte – muitos historiadores da arte acreditam agora que a famigerada peça foi, na verdade, a obra de  outra artista dadaísta e excêntrica, a baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven. O nome lhe parece familiar? Para muito de nós, provavelmente não. Elsa, apesar da genialidade de seu trabalho e vida, nunca teve a fama nem a notoriedade recebida pelos seus colegas dadaístas homens.

 

 
Sophie Taeuber-Arp, Hannah Hoch e Elsa von Freytag-Loringhoven são três mulheres que foram as principais artistas do movimento vanguarda Dadaísta: um movimento que sempre fora historicamente associado com seus protagonistas masculinos. Apesar da da relativa obscuridade comparado aos nomes como Duchamp ou Manray, essas três mulheres contribuíram significativamente para o dadaísmo, através de obras de arte feitas a partir de uma gama vertiginosamente diversificada de mídias, incluindo colagem, cenografia, têxtil, escultura e objetos-escultura encontrados. Suas práticas incluem até exemplos de arte performática que ainda permanecem notavelmente atuais, apesar de terem quase um século. Esse trio, por muitas vezes esquecido, é o destaque da DADA Differently – traduzido Dada Diferente – uma exposição coletiva no Museu Haus Konstruktiv, em Zurique.

O Dada representou uma quebra radical da compreensão tradicional não só da arte, mas da razão e da própria lógica. Formado na politicamente neutra Suíça como reação aos horrores da Primeira Guerra Mundial, Dada imaginou uma arte tão sem sentido como o mundo em seu entorno. No entanto, apesar de sua sátira inovadora e iconoclastia cultural, Dada permaneceu como um movimento que abrigava e normalizava a misoginia do começo do século 20 assim como outras escolas de vanguarda da época. A marginalização dos trabalhos de Taeuber-Arp, Höch, and von Freytag-Loringhoven refletem isso.

A andrógena von Freytag-Loringhoven foi uma pioneira em performance artística, cuja arte e, crucialmente, vida desafiava ferozmente as convenções burguesas artísticas e morais. Ela ganhou notoriedade por sua estética proto-punk; fotografias mostravam a artista com um sutiã feito de latas de sopa, vestindo um canário enjaulado como colar, ou com seus cabelos raspados tingidos de vermillion. Em 1913, a caminho do cartório para se casar com um barão sem dinheiro, von Freytag-Loringhoven pegou um anel de ferro na rua e declarou ser um Enduring Ornament: um dos primeiros objetos readymade do mundo. Fazendo isso, minou a concepção ocidental do obra de arte como algo necessariamente agradável e única – dois anos antes de Duchamp e Francis Picabia fazerem o mesmo.

 

 

 

 
As fotomontagens de Höch cortam e fatiam imagens da vida contemporânea para criar novos significados enquanto minam compreensões do antigo. Enquanto essa colagens inovadoras tenham recebido aclamação recentemente, outros aspectos de sua prática – como as estranhas bonecas Dada – são menos conhecidos. Com olhos largos e arregalados e atributos sexuais secundários exagerados, as bonecas de pano continham a marca da incisiva sensibilidade crítica de Höch.

 

 

 
Pintora, dançarina e cenógrafa, Taeuber-Arp também subverteu o tradicionalmente feminino meio têxtil para fins mais radicais, criando marionetes articuladas para serem utilizadas em uma peça que integrava dança Dada com o nascente movimento psicanalítico. Fantoches como König Hirsch: Clarissa (1918) eram criados para expressar estados interiores, através do movimento expressivo libertado das restrições da anatomia humana.

 

 

 

 
Zurique foi a cidade na qual o movimento Dada ganhou seu nome e definição em 1916, no famoso cabaré Voltaire. É apropriado então, que em seu aniversário de 100 anos, o movimento nos ofereça a exposição DADA Differently, uma oportunidade para revisitar o Dada sob a luz da contribuição de todos seus membros – não apenas os homens.

 

 
Exposição “DADA Differently: Sophie Taeuber-Arp, Hannah Höch, Elsa von Freytag-Loringhoven”, rola de 25 de fevereiro até 8 de maio de 2016 no Museu Haus Konstruktiv, Zurique


Imagens retiradas daqui: 1 / 2 / 3 / 4

 
 

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