Estante das minas: Elena Ferrante

Sempre fui adepta a não saber muita coisa sobre os autores dos livros que lia. Mesmo depois de entrar para a Faculdade de Letras e isso se tornar, de certa forma, imprescindível, nunca me apeguei o suficiente a datas, histórias, nomes, escalas sociais nas quais os autores estavam inseridos. Sei que essas informações influenciam totalmente um texto, que a história por trás do autor é o principal background para um romance e até mesmo para uma poesia, mas o mistério em volta de um autor sempre me seduziu mais.

Conheço pessoas curiosas, que se jogam na vida do autor, leem biografias, fofocas, dados, buscam fotos. Mas essa pessoa, definitivamente, não sou eu. Já li autoras achando que eram autores, já li poesias sem saber quem havia escrito. Beira um prazer esse véu que cobre os meus livros. E foi nesse clima que li o primeiro livro da escritora Elena Ferrante, A amiga genial. Eu não sabia nada sobre a autora, apenas que sua escrita era maravilhosa e que o livro fazia parte de uma tetralogia. SPOILER: Mal sabia eu que não haveria nada para saber.

Eu, que adoro o suspense do próximo volume, me joguei inteira no livro. Foi inevitável me apaixonar. Elena Ferrante escreve de maneira reta e direta, sem rodeios, mas, ao mesmo tempo, imersa em um mar de sentimentos inexplicáveis. Fui lendo e sendo imersa em uma rotina italiana, pobre, marginal e interiorana. Era como ler o dia a dia de outro lugar, um lugar onde eu mesma poderia ter vivido de tão intensa que é a maneira como Elena descreve cada situação e sentimento despertado na trama.

A tetralogia ficou conhecida como Série Napolitana. O primeiro volume, A amiga genial, se passa em uma vizinhança pobre de Nápoles em 1950. A ambientação me fez lembrar do subúrbio carioca e seus estigmas, o que me prendeu ainda mais a essa narrativa. A história relata a amizade entre duas meninas extremamente diferentes uma da outra, Lila e Lenu, mas que sentem uma intensa amizade, muitas vezes até dolorida. Quem cumpre o papel de narradora no livro é Elena Greco, a Lenu, personagem homônima à autora, que fez com que muitas pessoas cogitassem que o livro fosse uma autobiografia.

–Obrigada, mas a certa altura a escola termina.”

–Não para você: você é minha amiga genial, precisa se tornar a melhor de todos, homens e mulheres.

>> A amiga genial.

Mas é aí que mora o mistério que fez com que me apaixonasse ainda mais pela história e por Elena Ferrante: há mais de 20 anos o mercado literário agoniza com o total mistério que paira sobre a autora. Elena Ferrante nada mais é que um pseudônimo de uma escritora italiana que jamais revelou seu rosto e seu nome verdadeiro. Diversas foram as buscas e hipóteses. A última delas é que Elena Ferrante seria uma professora italiana chamada Marcella Marmo. Mas a professora jura de pés juntos que não se trata dela. Sendo assim, para a minha felicidade, o mistério continua.

Pareceu-me – formulado com as palavras de hoje – que não apenas sabia dizer bem as coisas, mas que estivesse desenvolvendo um dom que eu já conhecia: melhor do que fazia quando menina, tomava os fatos e os transformava com naturalidade em eventos cheios de tensão; reforçava a realidade enquanto a reduzia em palavras, injetava-lhes energia.

>> A amiga genial.

Quando saí daquele estado de dormência que o livro me causou, resolvi buscar algumas informações sobre a autora e foi quando soube de toda essa história que a cerca. Mais um motivo para mergulhar nisso tudo, Elena Ferrante não só escreveu uma linda história com altas doses de suspense como também transformou sua própria vida em uma história digna de perder horas a fio fazendo pesquisas. Em uma entrevista, Elena soltou uma frase que aqueceu meu coração: O romance não precisa de seu autor depois de escrito. Essa defesa que a autora faz de seu anonimato resume muito a minha ideia de que não preciso ter informações sobre o autor, de que o texto é uma obra independente.

Havia algo de insustentável nas coisas, nas pessoas, nos prédios, nas ruas, que somente reinventando tudo, como num jogo, se tornava aceitável.

– A amiga genial.

Além disso, Elena Ferrante também traz à tona o tópico literatura feminina. A autora diz já ter se preocupado com o fato de ser mulher e confessa ter acreditado que para escrever era necessário escrever como um homem. Foi só após conhecer o feminismo e grandes autoras mulheres que ela encontrou sua forma de escrever: livre do estigma machista da verdadeira literatura, aquela escrita por homens. E esse é mais um dos motivos do porquê devemos ler mais e mais mulheres, para que a força dessas grandes autoras traga ainda mais ânimo para nós, pequenas leitoras (e às vezes escritoras também).

O segundo livro da Série Napolitana, A história do novo sobrenome, acaba de ser lançado no Brasil e já estou louca para ler. Você pode encontrar os dois volumes na Amazon. Eles foram lançados pela lindinha Biblioteca Azul, numa edição simples, mas muito poderosa.

Leiam Elena Ferrante, meninas, uma mulher apenas misteriosíssima assim merece um espaço na sua estante!

 

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