O que meus livros me ensinaram sobre amor

Ilustração feita com exclusividade por Thais Erre Felix
De platônico a um amor compartilhado

Sempre fui platônica com meus livros. Amava cheirá-los. Tocá-los. Sentir a aspereza das beiradas das páginas, frescamente cortadas e novas em minhas mãos. Seu ar imaculado me fascinava. Não ousava marcá-los sequer com um lápis, cujos riscos leves são facilmente apagados. Lia com o maior cuidado do mundo, sempre um de cada vez, e depois organizava todos nas minhas estantes, por tema, por cor, por estilo…

Assinava apenas sua folha de rosto, meu nome, a data em que adquiri. Eram meus. Não emprestava jamais. Ciumenta que só. Não gostava de livros de sebo porque vinham com outros nomes, outras histórias. Eu tinha um prazer quase masculino de deflorá-los.

Uma vez emprestei o sétimo volume de uma coleção querida. Me foi devolvida com a lombada curvada, tal qual uma letra c. Meu querido objeto havia estragado sua coluna para que um usurpador pudesse ler. Sem o mesmo carinho que eu, sem a mesma consideração. O recebi de volta em minhas mãos como uma Pietá, indisfarçável meu choque. Voltou pra estante onde periodicamente me olhava, triste, lembrando-me que confiar nem sempre é seguro.

Até que num certo ano, veio minha monografia. A necessidade de ler muitos livros ao mesmo tempo surgiu. Eu precisava fichar, anotar, pesquisar, rever, reler, adicionar notas de rodapé. Não mais podia me dedicar monogamicamente aos meus afetos literários.

Aí aconteceu. O primeiro dia em que fiz uma anotação, a lápis, a ponta gastada pra deixar o grafite pálido e macio pra não marcar as páginas. Receosa e timidamente, corri o instrumento pelo papel. Seu arranhar me produziu um pequeno arrepio. Era isso. Acabou tudo. O encanto se foi. E não parou por aí: não só eu marquei aquele livro, como logo depois o coloquei de lado, abandonado, para consultar um próximo. Que sacrilégio! Lá estava ele me julgando pelo meu ato incompleto, meu coito interrompido e envergonhado de quem não podia se comprometer com ele a longo prazo.

Uns dias depois, uma pilha deles se formava sobre a minha mesa. Uns tinham pequenas batidas e arranhões por caírem no chão ou fazerem atrito com os outros conteúdos da minha mochila. Usados. Marcados. Escritos. Riscados. Grifados. Orgias de caneta esferográfica, lápis e marca texto. Com pequenos tags coloridos colados em suas páginas para indicar pontos importantes. Irreconhecíveis.

Não era mais platônico, nem delicado, nem puro. Tinha se tornado intenso, cheio de vontade, apaixonado, voraz. Até meio bruto. Eu já não me importava em produzir anotações indeléveis sobre suas páginas. Havia esquecido de escrever meu nome em suas folhas de rosto. Não tinham dona nem pátria nem data de aquisição. Mas estavam completamente realizados em sua finalidade.

Alguns amigos se horrorizam quando conto sobre meu novo jeito de me relacionar com eles. Eu sinto que só melhorou. Cada vez que os abro, vejo ali quem eu sou. O que eu pensei quando li, o que me despertou curiosidade, as palavras que eu ainda não conhecia. Ao invés de eu apenas passar a apenas saber de suas histórias, eles passaram a fazer parte da minha.

Hoje os empresto. Vão e voltam de outros lares, outras mãos, outras cabeceiras. Às vezes, demoram a regressar e me preocupo. Os exemplares mais raros ainda me dão ciúme. Uns poucos chegaram a não voltar. Mas não me magoei. Porque quando eles vão, levam suas mensagens pra lugares bem mais relevantes que as minhas prateleiras.

 
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Ilustração feita com exclusividade por Thais Erre Felix.
 

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Quando a indireta vira denúncia

Se tem algum assunto que anda explodindo nas redes sociais nos últimos meses, esse assunto é o empoderamento feminino. Eu gostaria de dizer feminismo, mas uma boa parte desse conteúdo é pasteurizada, embranquecida, esvaziada de militância e livre de gordura para agradar o palato geral. Então fiquemos com empoderamento feminino.

Com a aproximação das festividades de fim de ano, espalhou-se — e acho relevante dizer que ninguém sabe exatamente como — a hashtag #MeuAmigoSecreto. Além do sarcasmo adorável sobre aqueles legítimos panetones de climão servidos todo Natal, a hashtag pipocou no Facebook e no Twitter, expondo casos de machismo, homofobia, xenofobia e outras discriminações.

Mas embora alguns dos posts parecessem claramente indiretas para certos tipos conhecidos (como por exemplo, o Esquerdomacho™), havia uma boa parte que parecia bem direta. Bem contundente. Bem específica. Nesse momento, percebi que esse viral tinha se tornado uma ferramenta para denúncia. Ora, eu mesma tinha publicado três #MeuAmigoSecreto que eram referências claras a pessoas que eu não só eu conheço como já foram muito próximas de mim.

Desde a tarde de ontem, meu feed do Facebook foi tomado pela nova hashtag-epidemia. É triste e assustador. Ao contrário da #PrimeiroAssédio, a #MeuAmigoSecreto tem um quê mais dolorido. Eu vi repetidas vezes posts se referindo a irmãos. Pais. Tios. Amigos. Namorados. Ex-namorados. Avôs. Relatos de estupro, de alienação, de gaslighting, de abandono. Se na #PrimeiroAssédio as mulheres usaram a internet para expor o aspecto precoce e incessante do assédio sexual no espaço público, agora era hora de apontar para os responsáveis pelo que acontecia atrás de portas fechadas. O próprio nome da hashtag é uma referência às pessoas com quem dividimos a ceia de Natal.

 

 
Os amigos, os parentes, os cônjuges. Essas ondas de compartilhamentos de experiências e traumas tem sido um instrumento poderosíssimo para que a gente tenha perspectiva real da dimensão do cenário da violência de gênero. Esse tipo de agressão é velada, não vira caso de polícia (a não ser quando se torna feminicídio, que a mídia insiste em pintar de crime passional). Não é denunciada porque a mulher é coagida a ficar em silêncio — às vezes pelo responsável ou pela própria família. E a gente não faz a menor ideia de como essa violência permeia a vida das mulheres até que aconteçam esses fenômenos onde a gente senta pra contar nossas histórias.

Definitivamente, a pior parte disso tudo é ver como todas tem um caso pra contar. A parte boa, no entanto, é perceber como temos poder de nos articular: estamos criando maneiras de expor estes crimes — e criando maneiras de nos acolher. Essa é e sempre será a grande força de quem precisou destilar resiliência a partir da dor.

 

Arte feita com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy).

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