Quando a indireta vira denúncia

Arte feita com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy).

Se tem algum assunto que anda explodindo nas redes sociais nos últimos meses, esse assunto é o empoderamento feminino. Eu gostaria de dizer feminismo, mas uma boa parte desse conteúdo é pasteurizada, embranquecida, esvaziada de militância e livre de gordura para agradar o palato geral. Então fiquemos com empoderamento feminino.

Com a aproximação das festividades de fim de ano, espalhou-se — e acho relevante dizer que ninguém sabe exatamente como — a hashtag #MeuAmigoSecreto. Além do sarcasmo adorável sobre aqueles legítimos panetones de climão servidos todo Natal, a hashtag pipocou no Facebook e no Twitter, expondo casos de machismo, homofobia, xenofobia e outras discriminações.

Mas embora alguns dos posts parecessem claramente indiretas para certos tipos conhecidos (como por exemplo, o Esquerdomacho™), havia uma boa parte que parecia bem direta. Bem contundente. Bem específica. Nesse momento, percebi que esse viral tinha se tornado uma ferramenta para denúncia. Ora, eu mesma tinha publicado três #MeuAmigoSecreto que eram referências claras a pessoas que eu não só eu conheço como já foram muito próximas de mim.

Desde a tarde de ontem, meu feed do Facebook foi tomado pela nova hashtag-epidemia. É triste e assustador. Ao contrário da #PrimeiroAssédio, a #MeuAmigoSecreto tem um quê mais dolorido. Eu vi repetidas vezes posts se referindo a irmãos. Pais. Tios. Amigos. Namorados. Ex-namorados. Avôs. Relatos de estupro, de alienação, de gaslighting, de abandono. Se na #PrimeiroAssédio as mulheres usaram a internet para expor o aspecto precoce e incessante do assédio sexual no espaço público, agora era hora de apontar para os responsáveis pelo que acontecia atrás de portas fechadas. O próprio nome da hashtag é uma referência às pessoas com quem dividimos a ceia de Natal.

 

 
Os amigos, os parentes, os cônjuges. Essas ondas de compartilhamentos de experiências e traumas tem sido um instrumento poderosíssimo para que a gente tenha perspectiva real da dimensão do cenário da violência de gênero. Esse tipo de agressão é velada, não vira caso de polícia (a não ser quando se torna feminicídio, que a mídia insiste em pintar de crime passional). Não é denunciada porque a mulher é coagida a ficar em silêncio — às vezes pelo responsável ou pela própria família. E a gente não faz a menor ideia de como essa violência permeia a vida das mulheres até que aconteçam esses fenômenos onde a gente senta pra contar nossas histórias.

Definitivamente, a pior parte disso tudo é ver como todas tem um caso pra contar. A parte boa, no entanto, é perceber como temos poder de nos articular: estamos criando maneiras de expor estes crimes — e criando maneiras de nos acolher. Essa é e sempre será a grande força de quem precisou destilar resiliência a partir da dor.

 

Arte feita com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy).

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  • Sobre a última imagem da galeria: UAU! (Não no sentido bom).
    Difícil acreditar que existam caras que fazem essas coisas, mais difícil ainda acreditar que existam caras que fazem isso com quem está ali do lado. Ta, não é difícil acreditar, é a realidade; é que é tão absurdo que fica difícil acreditar.. entende? Os dois últimos itens da lista da “M” faço deles os meus também…
    E aí eu fico me perguntando como eu deixei esse tipo de coisa acontecer? Porque mesmo não querendo e mesmo dizendo não eu cedi? Pior… porque mesmo eu dizendo “não” continuaram com o que eu não queria?! FODA!

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