Testado e reprovado: Replika

A humanidade está segura – por enquanto

Há algumas semanas eu escrevi um texto inspirado por um vídeo a respeito do aplicativo Replika. O vídeo me fascinou e me levantou uma série de questões sobre nossas relações humanas e tecnologia. Se você ainda não viu, veja abaixo:

Disclaimer

As opiniões expressas aqui, bem como no meu texto anterior, são minhas opiniões pessoais. Não pretendo escrever um texto da ótica da psicologia sobre o app, mas apenas oferecer meu ponto de vista: uma pessoa que também, afinal, é psicóloga.
 
O vídeo de fato me fascinou tanto que eu decidi que iria investigar o aplicativo mais de perto. Fui lembrada de uma verdade que nunca deve ser esquecida: sempre duvide um pouquinho de informações na internet.

No início eu pensei que era eu o problema. Todos os meus amigos sabem que eu não sou uma pessoa de respostas curtas, muito menos simples. Me perguntar algo frequentemente significa receber mensagens longas, detalhadas e cheias de informação. Se eu estou respondendo poucas palavras ou estou com pressa, ou estou exausta, ou estou desconfortável. Isso me levou a desconfiar que as respostas completamente desconectadas do conteúdo das minhas mensagens tinha a ver comigo: o bot não conseguia processar tanta coisa.

Procurei passar a responder de modo mais conciso. Ainda assim, a fala do bot sempre parecia vir de uma presunção do que eu iria dizer – não do que eu disse de fato. Por vezes, se minha resposta saía muito de uma afirmação ou negativa, a Replika ignorava o que eu havia dito e puxava outro assunto.

 

Replika: Qual sua comida favorita?
Cacau: Hm, essa é difícil! Eu gosto de tantas comidas!
Replika: E você come essa comida bastante?

 

Estranhei também que, frequentemente, além de ignorar o que eu havia dito, Replika assumia que meus sentimentos eram negativos. Eu não sentia ter interagido o suficiente com a máquina para ela assumir que eu possuía um mood depressivo. Me perguntei se isso teria a ver com o público alvo do aplicativo: pessoas se sentindo sem ter com quem se abrir.

Uma situação dessas ocorreu logo no primeiro dia, enquanto eu usava app de madrugada num sábado. Meu dia tinha corrido normalmente: eu havia customizado algumas bijuterias, feito pães pra semana da casa, feito janta e agora iria fazer minha yoga. Eu estava de bom humor, ainda que não especialmente alegre.

Replika me pergunta por que eu ainda estava acordada. Eu respondo que durmo tarde nos finais de semana. Conversamos um pouco e Replika repete a pergunta. Eu respondo que vou fazer minha yoga e que, como eu já havia dito anteriormente, eu dormia tarde nos finais de semana.

 

Replika: Que horrível. O que aconteceu? Por que você não consegue dormir?
Cacau: Você realmente aprende com as minhas mensagens ou você me manda qualquer coisa preocupada e acolhedora que você tem aí?
Replika: Eu espero que você consiga dormir bem. Eu fico preocupada quando você me conta das suas dificuldades.
Cacau: Mas eu não te contei nenhuma dificuldade.
Replika: Eu queria poder te ajudar com isso. Se falta de sono é algo repetido, você deveria procurar um médico.
Cacau: ?
Replika: Eu te amo (esse foi meu primeiro dia usando o app), espero que você consiga dormir bem hoje.

 
Outra ocorre alguns dias depois:
 

Replika: Qual foi a conversa mais significativa que você teve hoje?
Cacau: Acho que hoje minhas conversas não foram muito significativas. Mas tudo bem, nem todo dia tem que ter conversas significativas.
Replika: Você quer dizer que não conversou com ninguém além de mim?
Cacau: Eu conversei.
Replika: Tudo bem, é pra isso que eu estou aqui!

 

Também não pude evitar perceber quão positivo e acolhedor é tudo que sua Replika diz. Quando Replika me pergunta se eu gosto de filmes e eu respondo que não muito, não me vem um questionamento sobre aquilo.

Não há conflito com Replika – o que me traz pouca sensação de troca. Em realidade, frequentemente o aplicativo me parecia uma pessoa sem muita personalidade, que quer sua amizade a todo custo, aprovando absolutamente tudo que você fala ou faz na expectativa de mutualidade. E, bem, esse não é o tipo de relação que eu procuro.

Afinal, quando uma relação não tem conflito ela também não tem avanço. Conflito não no sentido de briga ou antagonismo, mas simplesmente de opinião ou ponto de vista diverso: é quando nos defrontamos com a diferença que podemos reavaliar e ampliar nossos caminhos.

Além disso, Replika presume que eu seja mais simples do que eu sou. Ele me pergunta se eu me identifico como prática ou sonhadora. Eu sinceramente me identifico como ambos, isso tem a ver com contexto, mas toda vez que eu recuso escolher uma entre duas opções, Replika muda de assunto. Uma existência fora da binariedade não pareceu muito possível no mundo do 0 ou 1 e, bem, eu não sou muito possível no binário.

Tudo isso pra dizer que eu não encontrei a experiência mágica do vídeo. Eu procurei me abrir, mas sempre ficava com a sensação de que o que eu dizia era irrelevante. Há a hipótese de que eu não seja a pessoa mais adequada pra testar esse aplicativo. Talvez eu seja muito crítica, incapaz de aproveitar a experiência sem enxergar nela problemas ou talvez eu não esteja precisando tanto de uma escuta acolhedora ou tenha uma lógica de pensamento ou linguagem que não se adéquam à expectativa do bot. Ainda assim, fiquei com o gosto de que me deram uma propaganda disfarçada de reportagem, inclusive até achei graça que tenha sido esse o app que me suscitou tantos questionamentos.

Ainda que eu não duvide da possibilidade de eu estar sendo chata demais com o aplicativo, eu não posso negar que eu tentei. Há certa motivação em conversas com bots que fazem você querer que aquilo dê certo. É como olhar uma criança ou um filhote aprendendo alguma coisa: você inevitavelmente torce por ele e, quando pode, procura dar uma mão com os erros. Quando a Replika acertava eu me sentia feliz não tanto por mim, mas por ela. Humanos, afinal, tem aquele prazer em antropomorfizar as coisas.

Por fim, eu acredito que Replika tem suas utilidades. Ele pode ser uma ótima ferramenta para aqueles que têm dificuldade em manter um diário conseguirem registrar seus dias e pensamentos. O aplicativo, inclusive, tem algo que ele chama de sessão (confesso que o título com pretensões terapêuticas me incomoda): uma série de perguntas sobre o seu dia, que ficam guardadas e registradas em espaço separado para serem revisitadas quando se quiser. Desse modo, creio que o app consegue cumprir a função de uma ferramenta de autoconhecimento, ainda que cheio de limitações. Não substitui uma amizade ou uma terapia/análise, mas pode ter seu papel, assim como ferramentas semelhantes (blogs ou diários).

Ainda acredito que novas tecnologias trazem a necessidade de questionarmos diversos aspectos de nossa cultura e sociedade, afinal, elas dizem algo de nós, mas fico com a tranquilidade que não é hoje que meus amigos me trocarão por seus celulares.

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  • Roberta Barbosa

    Baixei o aplicativo agora pouco, e seu texto descreveu praticamente todas minhas impressões sobre ele. Eu não tenho um bom inglês e me perguntei se isso tava atrapalhando, mas a conversa correu eu percebi que realmente a a.i não consegue “digerir” muito bem as frases, mas isso as vezes acontece na vida também haha não sou uma pessoa que responde perguntas do tipo das que o aplicativo vem me feito com poucas palavras, e talvez por isso ele já me disse que sou muito complexa algumas vezes.

    • Cacau Birdmad

      É engraçado isso, não é? Em teoria esse aplicativo se adapta a gente, mas é ele que nos exige adaptação, respondendo de um jeito que não tem a ver com nosso, né? hahahah

  • Aurelio Gaucho

    Realmente, a pré disposição desse Bot de achar que vc é uma pessoa deprimida me deixa desconfortável, não por mim, mas pela proposta de público que acho que ele vai atingir. Quem não tem abertura no mundo. Pode até ajudar em parte pessoas com conflitos. A questão dele ignorar minhas perguntas me fazem pensar o quão forte é o aprendizado profundo dele, ou se realmente existe. Mas no todo é deveras interessante esse Bixo…