Em condições normais de temperatura e pressão, eu sou a primeira pessoa na sala a entrar no TeamHoje na cansativa briguinha de “Jogos Antigos versus Jogos Atuais”. Não é que eu não tenha os meus quadradões favoritos, mas só porque eu fico nostálgica ao som de chiptune isso não significa que aquele jogo-quase-humanamente-impossível-de-mil-novecentos-e-oitenta-e-bananas seja a melhor coisa já criada pela raça humana. Quero acreditar que estamos avançando no entendimento de como games funcionam, tornando suas narrativas mais orgânicas, seu design mais certeiro. O passar dos anos é bom. No entanto, de vez em quando descubro um game que capta bem o espírito retrô de algum gênero em falta – e aí me lembro de como aquelas experiências eram ótimas também; e de como é perfeitamente possível misturar as duas coisas.
Pela segunda vez a brasileira JoyMasher me deixa nesse humor. A primeira foi pouco há mais de um ano atrás, quando joguei Oniken, um side-scroller a la Ninja Gaiden, mas com algumas soluções de game design particularmente modernas e originais. Odallus: The Dark Call, nosso jogo da vez, também tem um feeling oitentista, mas abusa de um estilo exploratório mais próximo de um Castlevania, e mostra que estúdio continuou amadurecendo no meio tempo entre um jogo e outro.
Financiado pelo site de crowdfunding IndieGogo, ele é tudo o que você poderia esperar de um jogo de NES e um pouquinho mais. A trama é propositalmente simples e escala da típica maneira épica dos classicões: o protagonista é Haggis, um caçador que, certo dia, presencia sua vila ser atacada por monstros. Seu filho é sequestrado na confusão e, implacável, Haggis parte numa jornada para recuperá-lo, mesmo que tenha que passar por cima do universo inteiro e enfrentar semidivindades. No percurso, descobre mais sobre o tal Odallus do título, sobre a escuridão que tomou o mundo após o desaparecimento dos deuses e sobre o perigoso vácuo deixado por eles.
Welcome, stranger: O lado bom
Odallus é um jogo para quem sentia saudades daquela experiência de ação em duas dimensões. Se você já teve algum videogame pré-gráficos 3D sabe do que estou falando: ataque inimigos e descubra seus padrões de movimento para derrotá-los, salte por plataformas com precisão, encontre passagens secretas e colete itens para ficar mais forte. Tudo em um caprichado visual pixelado e com uma soundtrack carismática que talvez te lembre de tardes mais simples com os amigos depois da escola, tentando derrotar aquele chefão escrotíssimo.
E apesar de eu estar batendo na tecla de que este é um jogo com uma “cara antiga”, isso não significa que ele seja uma mera cópia de games já existentes. Na verdade, o que Odallus faz muito bem é pegar um estilo em desuso e dar a ele uma cara própria e moderna. Ninguém nega que o jogo se senta sobre o proverbial “ombro de gigantes”, mas seria injusto resumi-lo a isso. Muitos games tentam reproduzir o estilo de outros já aclamados sem compreender o porquê de certas características funcionarem, o que acaba fazendo com que falhem em acertar na mão. Não é o caso de Odallus. Aqui, a história acontece durante o gameplay e não apesar dele – um acréscimo importante se formos considerar a maior parte dos jogos que de fato saíram vinte ou trinta anos atrás. O bom game design garante que o jogo não seja só mais um “derivado” de um Ghosts n’ Goblinsda vida, mas um game que caminha com as próprias pernas.
De quebra, há ainda espaço para uma – enxuta em termos de cutscene, mas sempre presente durante a jogabilidade – narrativa um pouco mais alinhada com contexto de hoje. Ela é repleta de diálogos épicos entre guerreiros musculosos e monstros sanguinários, mas nada nessa meiuca anula a participação de uma vilã poderosa e não objetificada, por exemplo. Sem contar que a “donzela em perigo” a ser resgatada não é, afinal de contas, uma “donzela”, mas sim o filho de nosso protagonista. Pequenos detalhes intencionais que são importantes e que não “estragam a diversão” de ninguém, como se gosta de propagar por aí.
Darkness is calling: O outro lado
Não chega a ser um ponto necessariamente negativo, mas Odallus é um jogo mais difícil do que os que a gente está acostumada a ver no mercado hoje. Na real, para muita gente, essa é justamente a característica que mais atrai.
A questão da dificuldade acima da média também faz parte da aura retrô. Antigamente os games quase sempre eram difíceis: 1- como parte de uma estratégia para te obrigar a gastar mais fichas num fliperama; 2 – para fazê-los durar mais quando ainda eram relativamente curtos e não havia formas de salvar o seu progresso; 3 – por dificuldade de equilibrar desafio e recompensa. Diferente do que diz a opinião popular, portanto, dificuldade alta não torna magicamente um jogo ruim em uma obra-prima. Pelo contrário: muitas vezes ela é resultado de um design falho.
Jogos devem ser propositalmente complicados por uma questão de estilo e unidade, e Odallus na maior parte do tempo oferece uma experiência muito satisfatória neste sentido. Ele é bem menos punitivo que seu antecessor Oniken e a tendência é ir ficando mais fácil conforme você coleta novos itens, pega as manhas nos combates e vai conhecendo os inimigos. No entanto, pode sim ser frustrante se você não está acostumada com o estilo. Vale também dizer que é possível se ter uma boa experiência jogando direto no teclado, mas ele é um game mais agradável quando se tem um controle na mão.
Não é um sentimento universal mas, pessoalmente, acredito que há mérito na sensação de ir gradualmente se sentindo mais forte e cascuda conforme avançamos pelas fases – aquele feeling de lutar de olhos fechados com um inimigo que dava trabalho uma hora atrás, e não apenas porque seu personagem consegue dar pulos mais altos agora, mas porque você entende melhor como os adversários funcionam. É nessa hora que você percebe como é merecido que seu Caçador Bombado seja visto pelo mundo inteiro como “o fodão”, porque você de fato é (e seus dedos calejados provam isso). É o payoff mais satisfatório justamente por causa do esforço para se chegar lá.
Is dangerous to go alone: Em resumo
Odallus: The Dark Call é um jogo de ação que testa de verdade as suas habilidades. Ele recompensa a exploração, possui uma quantidade razoável de cenários e inimigos diferentes, e promete umas boas horas de diversão – provavelmente algo entre 6 e 12 horas.
Se você sentia saudades deste tipo de jogo e quer dar uma força para um estúdio brasileiro, pode obtê-lo na Steam, na página do desenvolvedor e no GOG.com.
Em condições normais de temperatura e pressão, eu sou a primeira pessoa na sala a entrar no TeamHoje na cansativa briguinha de “Jogos Antigos versus Jogos Atuais”. Não é que eu não tenha os meus quadradões favoritos, mas só porque eu fico nostálgica ao som de chiptune isso não significa que aquele jogo-quase-humanamente-impossível-de-mil-novecentos-e-oitenta-e-bananas seja a melhor coisa já criada pela raça humana. Quero acreditar que estamos avançando no entendimento de como games funcionam, tornando suas narrativas mais orgânicas, seu design mais certeiro. O passar dos anos é bom. No entanto, de vez em quando descubro um game que capta bem o espírito retrô de algum gênero em falta – e aí me lembro de como aquelas experiências eram ótimas também; e de como é perfeitamente possível misturar as duas coisas.
Pela segunda vez a brasileira JoyMasher me deixa nesse humor. A primeira foi pouco há mais de um ano atrás, quando joguei Oniken, um side-scroller a la Ninja Gaiden, mas com algumas soluções de game design particularmente modernas e originais. Odallus: The Dark Call, nosso jogo da vez, também tem um feeling oitentista, mas abusa de um estilo exploratório mais próximo de um Castlevania, e mostra que estúdio continuou amadurecendo no meio tempo entre um jogo e outro.
Financiado pelo site de crowdfunding IndieGogo, ele é tudo o que você poderia esperar de um jogo de NES e um pouquinho mais. A trama é propositalmente simples e escala da típica maneira épica dos classicões: o protagonista é Haggis, um caçador que, certo dia, presencia sua vila ser atacada por monstros. Seu filho é sequestrado na confusão e, implacável, Haggis parte numa jornada para recuperá-lo, mesmo que tenha que passar por cima do universo inteiro e enfrentar semidivindades. No percurso, descobre mais sobre o tal Odallus do título, sobre a escuridão que tomou o mundo após o desaparecimento dos deuses e sobre o perigoso vácuo deixado por eles.
Welcome, stranger: O lado bom
Odallus é um jogo para quem sentia saudades daquela experiência de ação em duas dimensões. Se você já teve algum videogame pré-gráficos 3D sabe do que estou falando: ataque inimigos e descubra seus padrões de movimento para derrotá-los, salte por plataformas com precisão, encontre passagens secretas e colete itens para ficar mais forte. Tudo em um caprichado visual pixelado e com uma soundtrack carismática que talvez te lembre de tardes mais simples com os amigos depois da escola, tentando derrotar aquele chefão escrotíssimo.
E apesar de eu estar batendo na tecla de que este é um jogo com uma “cara antiga”, isso não significa que ele seja uma mera cópia de games já existentes. Na verdade, o que Odallus faz muito bem é pegar um estilo em desuso e dar a ele uma cara própria e moderna. Ninguém nega que o jogo se senta sobre o proverbial “ombro de gigantes”, mas seria injusto resumi-lo a isso. Muitos games tentam reproduzir o estilo de outros já aclamados sem compreender o porquê de certas características funcionarem, o que acaba fazendo com que falhem em acertar na mão. Não é o caso de Odallus. Aqui, a história acontece durante o gameplay e não apesar dele – um acréscimo importante se formos considerar a maior parte dos jogos que de fato saíram vinte ou trinta anos atrás. O bom game design garante que o jogo não seja só mais um “derivado” de um Ghosts n’ Goblinsda vida, mas um game que caminha com as próprias pernas.
De quebra, há ainda espaço para uma – enxuta em termos de cutscene, mas sempre presente durante a jogabilidade – narrativa um pouco mais alinhada com contexto de hoje. Ela é repleta de diálogos épicos entre guerreiros musculosos e monstros sanguinários, mas nada nessa meiuca anula a participação de uma vilã poderosa e não objetificada, por exemplo. Sem contar que a “donzela em perigo” a ser resgatada não é, afinal de contas, uma “donzela”, mas sim o filho de nosso protagonista. Pequenos detalhes intencionais que são importantes e que não “estragam a diversão” de ninguém, como se gosta de propagar por aí.
Darkness is calling: O outro lado
Não chega a ser um ponto necessariamente negativo, mas Odallus é um jogo mais difícil do que os que a gente está acostumada a ver no mercado hoje. Na real, para muita gente, essa é justamente a característica que mais atrai.
A questão da dificuldade acima da média também faz parte da aura retrô. Antigamente os games quase sempre eram difíceis: 1- como parte de uma estratégia para te obrigar a gastar mais fichas num fliperama; 2 – para fazê-los durar mais quando ainda eram relativamente curtos e não havia formas de salvar o seu progresso; 3 – por dificuldade de equilibrar desafio e recompensa. Diferente do que diz a opinião popular, portanto, dificuldade alta não torna magicamente um jogo ruim em uma obra-prima. Pelo contrário: muitas vezes ela é resultado de um design falho.
Jogos devem ser propositalmente complicados por uma questão de estilo e unidade, e Odallus na maior parte do tempo oferece uma experiência muito satisfatória neste sentido. Ele é bem menos punitivo que seu antecessor Oniken e a tendência é ir ficando mais fácil conforme você coleta novos itens, pega as manhas nos combates e vai conhecendo os inimigos. No entanto, pode sim ser frustrante se você não está acostumada com o estilo. Vale também dizer que é possível se ter uma boa experiência jogando direto no teclado, mas ele é um game mais agradável quando se tem um controle na mão.
Não é um sentimento universal mas, pessoalmente, acredito que há mérito na sensação de ir gradualmente se sentindo mais forte e cascuda conforme avançamos pelas fases – aquele feeling de lutar de olhos fechados com um inimigo que dava trabalho uma hora atrás, e não apenas porque seu personagem consegue dar pulos mais altos agora, mas porque você entende melhor como os adversários funcionam. É nessa hora que você percebe como é merecido que seu Caçador Bombado seja visto pelo mundo inteiro como “o fodão”, porque você de fato é (e seus dedos calejados provam isso). É o payoff mais satisfatório justamente por causa do esforço para se chegar lá.
Is dangerous to go alone: Em resumo
Odallus: The Dark Call é um jogo de ação que testa de verdade as suas habilidades. Ele recompensa a exploração, possui uma quantidade razoável de cenários e inimigos diferentes, e promete umas boas horas de diversão – provavelmente algo entre 6 e 12 horas.
Se você sentia saudades deste tipo de jogo e quer dar uma força para um estúdio brasileiro, pode obtê-lo na Steam, na página do desenvolvedor e no GOG.com.
Em condições normais de temperatura e pressão, eu sou a primeira pessoa na sala a entrar no TeamHoje na cansativa briguinha de “Jogos Antigos versus Jogos Atuais”. Não é que eu não tenha os meus quadradões favoritos, mas só porque eu fico nostálgica ao som de chiptune isso não significa que aquele jogo-quase-humanamente-impossível-de-mil-novecentos-e-oitenta-e-bananas seja a melhor coisa já criada pela raça humana. Quero acreditar que estamos avançando no entendimento de como games funcionam, tornando suas narrativas mais orgânicas, seu design mais certeiro. O passar dos anos é bom. No entanto, de vez em quando descubro um game que capta bem o espírito retrô de algum gênero em falta – e aí me lembro de como aquelas experiências eram ótimas também; e de como é perfeitamente possível misturar as duas coisas.
Pela segunda vez a brasileira JoyMasher me deixa nesse humor. A primeira foi pouco há mais de um ano atrás, quando joguei Oniken, um side-scroller a la Ninja Gaiden, mas com algumas soluções de game design particularmente modernas e originais. Odallus: The Dark Call, nosso jogo da vez, também tem um feeling oitentista, mas abusa de um estilo exploratório mais próximo de um Castlevania, e mostra que estúdio continuou amadurecendo no meio tempo entre um jogo e outro.
Financiado pelo site de crowdfunding IndieGogo, ele é tudo o que você poderia esperar de um jogo de NES e um pouquinho mais. A trama é propositalmente simples e escala da típica maneira épica dos classicões: o protagonista é Haggis, um caçador que, certo dia, presencia sua vila ser atacada por monstros. Seu filho é sequestrado na confusão e, implacável, Haggis parte numa jornada para recuperá-lo, mesmo que tenha que passar por cima do universo inteiro e enfrentar semidivindades. No percurso, descobre mais sobre o tal Odallus do título, sobre a escuridão que tomou o mundo após o desaparecimento dos deuses e sobre o perigoso vácuo deixado por eles.
Odallus é um jogo para quem sentia saudades daquela experiência de ação em duas dimensões. Se você já teve algum videogame pré-gráficos 3D sabe do que estou falando: ataque inimigos e descubra seus padrões de movimento para derrotá-los, salte por plataformas com precisão, encontre passagens secretas e colete itens para ficar mais forte. Tudo em um caprichado visual pixelado e com uma soundtrack carismática que talvez te lembre de tardes mais simples com os amigos depois da escola, tentando derrotar aquele chefão escrotíssimo.
E apesar de eu estar batendo na tecla de que este é um jogo com uma “cara antiga”, isso não significa que ele seja uma mera cópia de games já existentes. Na verdade, o que Odallus faz muito bem é pegar um estilo em desuso e dar a ele uma cara própria e moderna. Ninguém nega que o jogo se senta sobre o proverbial “ombro de gigantes”, mas seria injusto resumi-lo a isso. Muitos games tentam reproduzir o estilo de outros já aclamados sem compreender o porquê de certas características funcionarem, o que acaba fazendo com que falhem em acertar na mão. Não é o caso de Odallus. Aqui, a história acontece durante o gameplay e não apesar dele – um acréscimo importante se formos considerar a maior parte dos jogos que de fato saíram vinte ou trinta anos atrás. O bom game design garante que o jogo não seja só mais um “derivado” de um Ghosts n’ Goblinsda vida, mas um game que caminha com as próprias pernas.
De quebra, há ainda espaço para uma – enxuta em termos de cutscene, mas sempre presente durante a jogabilidade – narrativa um pouco mais alinhada com contexto de hoje. Ela é repleta de diálogos épicos entre guerreiros musculosos e monstros sanguinários, mas nada nessa meiuca anula a participação de uma vilã poderosa e não objetificada, por exemplo. Sem contar que a “donzela em perigo” a ser resgatada não é, afinal de contas, uma “donzela”, mas sim o filho de nosso protagonista. Pequenos detalhes intencionais que são importantes e que não “estragam a diversão” de ninguém, como se gosta de propagar por aí.
Não chega a ser um ponto necessariamente negativo, mas Odallus é um jogo mais difícil do que os que a gente está acostumada a ver no mercado hoje. Na real, para muita gente, essa é justamente a característica que mais atrai.
A questão da dificuldade acima da média também faz parte da aura retrô. Antigamente os games quase sempre eram difíceis: 1- como parte de uma estratégia para te obrigar a gastar mais fichas num fliperama; 2 – para fazê-los durar mais quando ainda eram relativamente curtos e não havia formas de salvar o seu progresso; 3 – por dificuldade de equilibrar desafio e recompensa. Diferente do que diz a opinião popular, portanto, dificuldade alta não torna magicamente um jogo ruim em uma obra-prima. Pelo contrário: muitas vezes ela é resultado de um design falho.
Jogos devem ser propositalmente complicados por uma questão de estilo e unidade, e Odallus na maior parte do tempo oferece uma experiência muito satisfatória neste sentido. Ele é bem menos punitivo que seu antecessor Oniken e a tendência é ir ficando mais fácil conforme você coleta novos itens, pega as manhas nos combates e vai conhecendo os inimigos. No entanto, pode sim ser frustrante se você não está acostumada com o estilo. Vale também dizer que é possível se ter uma boa experiência jogando direto no teclado, mas ele é um game mais agradável quando se tem um controle na mão.
Não é um sentimento universal mas, pessoalmente, acredito que há mérito na sensação de ir gradualmente se sentindo mais forte e cascuda conforme avançamos pelas fases – aquele feeling de lutar de olhos fechados com um inimigo que dava trabalho uma hora atrás, e não apenas porque seu personagem consegue dar pulos mais altos agora, mas porque você entende melhor como os adversários funcionam. É nessa hora que você percebe como é merecido que seu Caçador Bombado seja visto pelo mundo inteiro como “o fodão”, porque você de fato é (e seus dedos calejados provam isso). É o payoff mais satisfatório justamente por causa do esforço para se chegar lá.
Odallus: The Dark Call é um jogo de ação que testa de verdade as suas habilidades. Ele recompensa a exploração, possui uma quantidade razoável de cenários e inimigos diferentes, e promete umas boas horas de diversão – provavelmente algo entre 6 e 12 horas.
Se você sentia saudades deste tipo de jogo e quer dar uma força para um estúdio brasileiro, pode obtê-lo na Steam, na página do desenvolvedor e no GOG.com.
Acho que a melhor palavra que eu tenho para descrever Missing Translation é “agradável”.
Ãhan. Esse deve ser o game mais agradável que eu jogo em semanas.
Gratuito, simples e tão gracinha, Missing Translation é um jogo redondinho, daqueles que estimulam a exploração e o ato de se perder num mundo curto, mas surpreendentemente carismático. Peguei para jogar numa manhã de sábado antes de colocar as mãos nos freelas-nossos-de-cada-dia, e, duas horas depois, já me sentia mais leve e disposta para começar o dia. Esse jogo me lembrou da experiência de ler um livro de aventuras deitada numa rede: descomprometida, calma e feliz.
Agradável.
A premissa? Você é uma pessoinha comum de saco cheio da velha rotina do acorda-trabalha-vai-dormir até que certo dia é puxada – claro que é – para um mundo paralelo bucólico com trilha sonora de RPG dos anos 1990 (que é linda por sinal). Você se vê em uma pacífica vila com moinhos de vento, nuvens preguiçosas, gatos everywhere e alguns moradores locais para conversar. Mas aí é que está a pegadinha: o idioma pelo qual eles se comunicam é completamente incompreensível! Você pode até ensaiar algumas palavras com o estranho sistema de símbolos que o game te dá, mas é certo que será apenas com muito esforço, observação e tentativa e erro que você será capaz de estabelecer uma conexão com aqueles habitantes. O mundo deles é completamente alienígena para você. E isso é de certa forma um alívio.
Para voltar para casa, será necessário coletar quatro pedras mágicas – claro que são – que se espalharam pelo mundo – claro que sim – depois que você atravessou o portal misterioso. Em termos mecânicos, isso significa completar quatro séries de quebra-cabeças progressivamente mais complicados. Embora os quebra-cabeças em si não representem nada de mais em termos de inovação ou dificuldade, é interessante como eles te colocam em um estado de concentração quase meditativo de encontrar um diálogo entre um processo comunicativo que nunca se completa plenamente com os habitantes e a tarefa semiconsciente de resolver uma charada com respostas possíveis.
(Ou pelo menos foi assim que li.)
O jogo é radical em te lançar em um universo novo retirando de você a capacidade entender e se fazer entender. A sensação de novidade e descoberta é quase infantil. Toda a palavrinha nova é um mistério solucionado e ainda existem “espaços escuros” suficientes neste universo para te causar admiração. O nosso mundo também possui milhares de lugares ocultos, mas as rotinas quase sempre nos fazem esquecer de que existem espaços além dos pavimentados e gastos que percorremos todo santo dia. De tempos em tempos, precisamos lembrar que ainda existe frescor se mudarmos nossas trilhas de vez em quando.
Missing Translation é uma pausa gostosa nessa marcha. Ele acaba na hora certa e não tem a pretensão de mudar a sua vida – mas isso está longe de ser uma coisa ruim. Jogos como ele são os que me lembram por que eu gosto tanto de videogames. São um lembrete de que nem todo jogo precisa ser sobre explosões espaciais e sobreviventes num mundo morto. Ou sobre grandes decisões morais e descobertas que podem mudar toda uma vida. Alguns games podem ser apenas isto: agradáveis.
a brasileira JoyMasher me deixa nesse humor. A primeira foi pouco há mais de um ano atrás, quando joguei Oniken, um side-scroller a la Ninja Gaiden, mas com algumas soluções de game design particularmente modernas e originais. Odallus: The Dark Call, nosso jogo da vez, também tem um feeling oitentista, mas abusa de um estilo exploratório mais próximo de um Castlevania, e mostra que estúdio continuou amadurecendo no meio tempo entre um jogo e outro.
Financiado pelo site de crowdfunding IndieGogo, ele é tudo o que você poderia esperar de um jogo de NES e um pouquinho mais. A trama é propositalmente simples e escala da típica maneira épica dos classicões: o protagonista é Haggis, um caçador que, certo dia, presencia sua vila ser atacada por monstros. Seu filho é sequestrado na confusão e, implacável, Haggis parte numa jornada para recuperá-lo, mesmo que tenha que passar por cima do universo inteiro e enfrentar semidivindades. No percurso, descobre mais sobre o tal Odallus do título, sobre a escuridão que tomou o mundo após o desaparecimento dos deuses e sobre o perigoso vácuo deixado por eles.
Welcome, stranger: O lado bom
Odallus é um jogo para quem sentia saudades daquela experiência de ação em duas dimensões. Se você já teve algum videogame pré-gráficos 3D sabe do que estou falando: ataque inimigos e descubra seus padrões de movimento para derrotá-los, salte por plataformas com precisão, encontre passagens secretas e colete itens para ficar mais forte. Tudo em um caprichado visual pixelado e com uma soundtrack carismática que talvez te lembre de tardes mais simples com os amigos depois da escola, tentando derrotar aquele chefão escrotíssimo.
E apesar de eu estar batendo na tecla de que este é um jogo com uma “cara antiga”, isso não significa que ele seja uma mera cópia de games já existentes. Na verdade, o que Odallus faz muito bem é pegar um estilo em desuso e dar a ele uma cara própria e moderna. Ninguém nega que o jogo se senta sobre o proverbial “ombro de gigantes”, mas seria injusto resumi-lo a isso. Muitos games tentam reproduzir o estilo de outros já aclamados sem compreender o porquê de certas características funcionarem, o que acaba fazendo com que falhem em acertar na mão. Não é o caso de Odallus. Aqui, a história acontece durante o gameplay e não apesar dele – um acréscimo importante se formos considerar a maior parte dos jogos que de fato saíram vinte ou trinta anos atrás. O bom game design garante que o jogo não seja só mais um “derivado” de um Ghosts n’ Goblinsda vida, mas um game que caminha com as próprias pernas.
De quebra, há ainda espaço para uma – enxuta em termos de cutscene, mas sempre presente durante a jogabilidade – narrativa um pouco mais alinhada com contexto de hoje. Ela é repleta de diálogos épicos entre guerreiros musculosos e monstros sanguinários, mas nada nessa meiuca anula a participação de uma vilã poderosa e não objetificada, por exemplo. Sem contar que a “donzela em perigo” a ser resgatada não é, afinal de contas, uma “donzela”, mas sim o filho de nosso protagonista. Pequenos detalhes intencionais que são importantes e que não “estragam a diversão” de ninguém, como se gosta de propagar por aí.
Darkness is calling: O outro lado
Não chega a ser um ponto necessariamente negativo, mas Odallus é um jogo mais difícil do que os que a gente está acostumada a ver no mercado hoje. Na real, para muita gente, essa é justamente a característica que mais atrai.
A questão da dificuldade acima da média também faz parte da aura retrô. Antigamente os games quase sempre eram difíceis: 1- como parte de uma estratégia para te obrigar a gastar mais fichas num fliperama; 2 – para fazê-los durar mais quando ainda eram relativamente curtos e não havia formas de salvar o seu progresso; 3 – por dificuldade de equilibrar desafio e recompensa. Diferente do que diz a opinião popular, portanto, dificuldade alta não torna magicamente um jogo ruim em uma obra-prima. Pelo contrário: muitas vezes ela é resultado de um design falho.
Jogos devem ser propositalmente complicados por uma questão de estilo e unidade, e Odallus na maior parte do tempo oferece uma experiência muito satisfatória neste sentido. Ele é bem menos punitivo que seu antecessor Oniken e a tendência é ir ficando mais fácil conforme você coleta novos itens, pega as manhas nos combates e vai conhecendo os inimigos. No entanto, pode sim ser frustrante se você não está acostumada com o estilo. Vale também dizer que é possível se ter uma boa experiência jogando direto no teclado, mas ele é um game mais agradável quando se tem um controle na mão.
Não é um sentimento universal mas, pessoalmente, acredito que há mérito na sensação de ir gradualmente se sentindo mais forte e cascuda conforme avançamos pelas fases – aquele feeling de lutar de olhos fechados com um inimigo que dava trabalho uma hora atrás, e não apenas porque seu personagem consegue dar pulos mais altos agora, mas porque você entende melhor como os adversários funcionam. É nessa hora que você percebe como é merecido que seu Caçador Bombado seja visto pelo mundo inteiro como “o fodão”, porque você de fato é (e seus dedos calejados provam isso). É o payoff mais satisfatório justamente por causa do esforço para se chegar lá.
Is dangerous to go alone: Em resumo
Odallus: The Dark Call é um jogo de ação que testa de verdade as suas habilidades. Ele recompensa a exploração, possui uma quantidade razoável de cenários e inimigos diferentes, e promete umas boas horas de diversão – provavelmente algo entre 6 e 12 horas.
Se você sentia saudades deste tipo de jogo e quer dar uma força para um estúdio brasileiro, pode obtê-lo na Steam, na página do desenvolvedor e no GOG.com.