Reflexões de uma Mãe Solo de primeira viagem

Ilustração feita com exclusividade por Thais Erre Felix.
É bom quando alguém diz que você é foda porque se vira pra criar o filho sozinha? É. Mas maravilhoso mesmo é quando alguém chega e oferece ficar com ele pra você jantar ou tomar banho.

Sempre fui do tipo control freak levemente aventureira e muito independente, resultado, imagino, da combinação astral que é ter o sol brilhando no centauro e o ascendente no super-crítico-responsável-às-vezes-psycho-e-insuportavelmente-metódico virgem. Por isso, imagine o mix de emoções (envolvendo basicamente surpresa e desespero) quando, em 2014, me descobri germinando o que naquele momento me pareceu ser a semente da ineficácia contraceptiva combinada com a capacidade da vida de me pegar por trás e botar de quatro pra dançar com uma tonelada nas costas – nesse caso, no útero.

Fui solo desde o dia um de gestação, e ainda que alguns amigos tenham me acompanhado e até sentado em volta do meu xixi para, pela segunda vez, constatarmos que eu estava mesmo grávida, e que minha família tenha me dado amor e suporte via ligações interurbanas, eu segurei a onda sozinha.

Das ideias mirabolantes e busca por um aborto seguro até a decisão por um parto domiciliar, passando pelas noites de histeria ouvindo o cover de Paths of Victory da Cat Power e as de alegria sentindo bolhinhas divertidas se agitarem e explodirem dentro de mim, era só eu. E eu poderia fazer uma longa narrativa sobre como aprendi desde então a assoprar e assobiar com farofa na boca, das tantas vezes que terminei o dia rindo ou chorando porque tinha conseguido mais um dia, mas na realidade não paro de pensar nas outras infinitas vezes que fui atingida pela perguntinha mágica que parece impossível de calar:

Mas e o pai?

 

Com o tempo, percebi que essa questão perseguia não só a mim, mas a 99,9% das mães solos. Sempre, sempre, sempre a ausência do pai vira pauta. Nem sempre é um diálogo horrível e desconfortável, obviamente. Mas é um assunto recorrente. E de tanto ouvir e falar sobre isso, percebi que na real a questão não é a ausência do pai, mas a ausência de uma rede de apoio e o fato de que o mundo é muito pouco amigável e empático com as mães – casadas, included.

Quantas mães tiveram que voltar ao trabalho quando seus filhos ainda eram nenéns, aturaram a falta de flexibilidade nos horários de labuta e a intolerância do chefe que, muitas das vezes, também tinha filhos, mas não conseguia entender as necessidades delas? Quantas foram demitidas após o período de estabilidade pós licença maternidade? Outro cenário comum são mães que por não terem com quem deixar seus filhos, saem do emprego e passam a viver a maternidade full time enquanto o marido sustenta as conta de casa – isso quando são casadas. Imagina como ficam as que não são? Aí tem sempre alguém com aquela ideia que “nunca” foi pensada antes: põe na creche! Falando pela realidade carioca, o esquema creche se divide entre torcer pra ser sorteado numa municipal ou vender os rins pra pagar uma particular – isso tudo supondo que essa mãe não tenha um poder aquisitivo extraordinário porque se ela tiver, de boas pagar dois mil e quinhentos reais por quatro horas diárias, né?

Quantas mães terão que terceirizar a criação dos seus filhos pra poderem ter renda que os sustente? Quantas mães se sentem diariamente massacradas pela maternidade que são obrigadas a viver devido “n” razões? Quantas não tem com quem dividir as dores e alegrias? Quantas carregam a bigorna solitária da culpa de ter que ser responsável o tempo todo?

É bom quando alguém diz que você é foda porque se vira pra criar o filho sozinha? É. Mas maravilhoso mesmo é quando alguém chega e oferece ficar com ele pra você jantar ou tomar banho, ou quando alguém pergunta como você tá e oferece um ombro pra descansar, rir e até chorar.

Ter uma rede de apoio é primordial. Rede de apoio é carinho, é afeto, é suporte, é equilíbrio. Acalenta o coração, nos ajuda para que a gente não precise se desdobrar a ponto de ficar em frangalhos para que tudo dê certo. Pai ausente é o contrário disso. Vamos cuidar umas das outras, e de nossas crianças, ao invés de questionar o paradeiro de um cara que tá ligando bulhufas?


“Mas e o pai?”

Se você leu isso tudo e ainda assim quer saber do pai do meu filho, segue uma lista de opções que criei (plus algumas sugestões de amigos) para nutrir a curiosidade alheia
  1. Eu não vi a cara dele, nem perguntei o nome.
  2. Ele é famoso e casado, decidimos não registrar para preservar sua identidade.
  3. Fiz inseminação artificial, por isso, não sobrou dinheiro pra creche.
  4. Ele é procurado pela Interpol.
  5. Morreu de overdose um dia antes do registro
  6. Ele é astronauta, está numa missão espacial desde 2015.
  7. Ele é príncipe, perderia a herança se registrasse filho de plebéia. Fizemos acordo.
  8. Saber que seria pai lhe causou um derrame e ele está em coma desde então.
  9. Se soubessem no Seminário…
  10. Fiz barriga de aluguel e nunca vieram buscar a criança.
  11. Isso é obra do Boto Cor de Rosa.
  12. O divino Espírito Santo atacou novamente.
  13. Era muito curioso, matei.
  14. Daddy é uma mulher que vive nos EUA.
  15. Já ouviu falar em partenogênese?
  16. Fui abduzida e engravidada por seres extra-terrestres.
  17. Insira aqui sua sugestão que responde decentemente WHERE IS PAPAI?

Ilustração feita com exclusividade por Thais Erre Felix.

Escrito por
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