Tiger Girl: a anti-heroína que você respeita

Um filme sobre uma inesperada amizade entre duas mulheres contrastantes

Uma garota tímida de modos comedidos se depara com o seu completo oposto em uma noite em Berlim. Depois de já meio bêbada de um happy hour com os colegas, Maggie encontra sem querer Tiger – sua salvação e, mais tarde, uma espécie de tormento da sua personalidade contida. A doce jovem de 20 e poucos anos só quer tomar o rumo de casa tranquilamente quando diferentes obstáculos manifestados em forma de figuras masculinas tentam impedi-la. É aí que entra Tiger, uma jovem da mesma idade, moradora de rua, durona e de uma personalidade sem barreiras. Uma verdadeira street fighter.

O plot de “Tiger Girl”, novo filme do diretor alemão Jacob Lass, gira em torno dessa inesperada amizade entre duas mulheres super contrastantes. Tiger não se importa com opiniões alheias e nem tem medo de ninguém. É a típica tough girl. Já Maggie, uma típica sweet girl, não confronta ninguém, mesmo se injustiçada, e quer agradar a todos com seus bons modos. Até mesmo a aparência das duas se diferencia brutalmente: Tiger tem cabelo preto e curto, usa roupas largadas de cores escuras e aparece frequentemente com um taco de beisebol. Maggie – apelidada de Vanilla, a palavra em inglês para baunilha – é loira de cabelos compridos e usa roupas do estilo bem neutro (calça jeans, tênis de pano, um suéter listrado branco e rosa e uma jaqueta verde bebê) e está sempre agarrada a sua bolsa de ombro.

Tiger aparece na vida de Vanilla como uma super-heroína, para salva-la das garras dos metidos a macho que perambulam pela capital alemã. Ela não tem super poderes, como uma força física incrível ou a capacidade de mover coisas com o poder da mente ou voar. Mas tem presença forte e uma habilidade de lutar muito f**, que nos remete a uma super-heroína de filmes de ficção ou HQs.

[caption id="attachment_14941" align="alignnone" width="800"] Tiger é a típica tough girl que não se importa com as opiniões dos outros[/caption]

As cenas de lutas – que acabam não sendo poucas – lembram a estética de cenas de filmes de ação. São golpes rápidos, voadoras e as lutadoras caem no chão para se levantar como se nada tivesse acontecido. Os conflitos físicos em “Tiger Girl” são protagonizados quase que exclusivamente por personagens femininas, que lutam entre si ou saem chutando bundas dos personagens masculinos.

No desenrolar do filme, as personalidades conflitantes das duas mulheres vão se desenvolvendo: hora se encontram em um ponto comum, hora se afastam completamente. Vanilla queria se tornar policial, mas não passou na prova de aceite para escola da polícia. Por isso, se matricula num curso para se tornar segurança porque, segundo ela mesma, “assim também se pode ajudar as pessoas e tal”. Lá, ela descola um uniforme para sua nova amiga Tiger, com o qual ambas ganham uma liberdade nas ruas de fazer qualquer coisa. Afinal, elas “só estão fazendo seu trabalho”. Surge, assim, uma streetgang de duas garotas.

Nesse ponto, a ideia de poder e liberdade toma a cabeça de Vanilla, que nunca tinha se deixado tomar por instintos violentos antes. Com sua mudança radical de personalidade, a atmosfera no filme escala drasticamente e as situações decorrentes saem de controle com rapidez.

[caption id="attachment_14940" align="alignnone" width="800"] Tiger (esquerda) e Vanilla (direita) têm personalidades contrastantes, mas, ao mesmo tempo, bem parecidas[/caption]

Não diria que “Tiger Girl” tem a intenção clara de ser um filme feminista, mas ele brinca bastante com essa ironia dos estereótipos de gênero. Tiger e Vanilla têm comportamentos que normalmente são esperadas de homens. E isso não só nas suas brigas e provocações nas ruas. Em uma cena, as duas se vestem como segurança de shopping e dizem a um passante jovem e bonito que, infelizmente, terão que revistá-lo. Ao leva-lo à salinha dos funcionários, elas o fazem tirar toda a roupa. Mesmo sabendo que isso é na verdade um abuso, os poucos espectadores na sala de cinema em que vi o filme pareceram acharam cena engraçada. Talvez exatamente por ser uma atitude tão inesperado de duas garotas – sendo que uma delas até pouco tempo nem dizia palavrão.

E é principalmente na personalidade de Vanilla que se vê o jogo de imagens de gênero. A garota doce acaba desenvolvendo um comportamento esperado (devido aos estereótipos sociais) de um homem, como agressividade e provocações de violência sem motivo, palavrões, descuidado com a aparência. Quando se torna assim, ela ganha mais confiança por achar impor respeito aos que dela tem medo.

Filmagem no estilo Fogma

Mesmo com as lutas ensaiadas e treinadas previamente, grande parte de “Tiger Girl” foi filmado sem um roteiro fixo. O que se tinha era um esqueleto das cenas, mas os diálogos entre a atriz suíça Ella Rumpf e a alemã/romena Maria Dragus para Tiger e Vanilla, respectivamente, surgiam no set de gravação.

Isso porque o diretor Jacob Lass escolheu gravar seu filme baseado num princípio chamado Fogma, ou Fuck Dogma (fodam-se os dogmas). Já usado em seu longa anterior, “Love Steaks”, com esse conceito o diretor quer se libertar de fórmulas prontas de como se deve fazer filmes e criar sua própria forma de manifestação cinematográfica.

O que pode ter ajudado mesmo nesse processo foi o fato de que as maravilhosas Ella (Tiger) e Maria (Vanilla) têm uma amizade já desde os 16 anos, quando filmaram “Draußen ist Sommer” (“É verão lá fora”) juntas. Ella Rumpf, que ficou conhecida também pelo filme de terror “Raw” da diretora Julia Ducournau, indicou a amiga para o papel de Vanilla e a combinação perfeita se fechou.


 

Escrito por
Mais de Débora Backes

“Private Revolutions”: um filme sobre mulheres jovens, egípcias e revolucionárias

Dentro de um carro pelas ruas de Cairo, capital do Egito, uma mulher de aparência estrangeira (por seus cabelos loiros claros e olhos verdes) olha pela janela, enquanto sua voz ao fundo começa a narrativa em alemão. Alexandra Schneider chegou ao Egito em junho 2011, após os protestos de fevereiro do mesmo ano que tiraram o presidente Hosni Mubarak do poder e deram fim a uma ditadura de 30 anos. Com incertezas e esperanças, os egípcios se preparavam, então, para as primeiras eleições presidenciais depois de anos. Nesse turbilhão de opiniões, demonstrações e debates políticos, a diretora austríaca tinha apenas um objetivo: entender o papel das mulheres na onda de revoluções que tomava o país.

Para isso, ela precisou ouvir diferentes mulheres e entrar em contato com diferentes personagens para construir uma visão sobre a participação das jovens, mulheres egípcias na revolução. E foi aí que ela chegou às quatro protagonistas de seu documentário “Private Revolutions: Youg, Female, Egyptian”, lançado em 2014. Cada uma das quatro mulheres tem histórias diferentes que se assemelham de alguma forma. Pelos preconceitos, pela tradição conservadora ou dificuldades que enfrentam. Como achei todas elas muito fortes e suas histórias incríveis, tentarei fazer uma descrição de cada uma.

Sharbat Abdullah: uma mulher forte e convicta de seus posicionamentos políticos. Ela sempre esteve presente nas demonstrações na Praça Tahrir, mas não sossegou após a queda de Mubarak. Continuou indo às ruas, pedindo o boicote das eleições e mudanças na política egípcia. Sofreu com violência policial, foi presa e viu jovens inocentes morrerem nas ruas pelas mãos dos militares, enquanto protestavam. Mesmo assim, ela não perde a coragem e, apesar da falta de apoio de seu marido, segue militando. Mãe de três meninos, ela faz questão de levar seus filhos para as ruas! Em várias cenas do filme, eles aparecem a ajudando. Seja a distribuindo folhetos ou a defendendo de policiais agressivos – como fez seu filho mais velho antes de apanhar e ser preso pelos mesmos policiais.

 

 
Em uma cena muito marcante, ela discute com vários homens na Praça Tahrir, onde divulgava o boicote às eleições de 2012, e explica com muita eloquência seus ideais políticos. Em outro momento, ela conta que seu filho mais novo apanhou da professora na escola por repetir o discurso político da mãe contra Mubarak. Além disso, ela e a família são hostilizados pelos vizinhos do bairro por seu engajamento político – em uma das cenas do filme, a própria equipe de filmagem é quase expulsa do bairro por estar filmando ali. Isso com certeza a abala emocionalmente, mas mesmo assim ela não desiste da luta. Sua esperança de um país melhor para seus filhos e outros jovens egípcios é o que a move. Para mim, ela é um exemplo de que não precisa fazer parte de uma elite intelectual para fazer revolução! Ela é uma mulher indignada com seu país, que se informa e tem coragem. E isso basta. Ela é um baita exemplo de militância!

Fatema Abouzeid: é uma Muslim Sister. Ela é integrante do partido da Irmandade Mulçumana de posição religiosa e política mais radicais. Fatema trabalhou na campanha de Mohamed Morsi durante as eleições de 2012. Entre o trabalho no partido e os afazeres domésticos, ela monta uma rotina: depois de fazer a primeira prece do dia, às 5h30, ela volta a dormir e levanta de novo por volta das 8h para levar os filhos à escola. Quando volta à casa, tem tempo para trabalhar até às 15h. Depois disso se dedica aos três meninos até eles irem dormir. E depois ao marido, quando ele chega em casa. Fatema é uma mulher tradicional que trabalha e estuda para apoiar seu partido – ela se forma mestre em Ciências Políticas e na cerimônia de entrega do diploma agradece ao seu pai e marido, por terem a autorizado a estudar e a apoiado, e à sua mãe, por rezar por ela. Quando as eleições se aproximam, ela começa a passar mais tempo na sede da campanha. As filmagens, que passam a acontecer lá, são interrompidas a pedido de seus chefes. Em uma cena dentro de seu escritório, Fatema pede cordialmente à diretora que a envie o contrato que assinou para autorizar as filmagens, para que mostre a seus supervisores. Alexandra tenta argumentar, sem sucesso, e é obrigada a desligar a câmera. Mesmo fazendo o que os chefes de Fatema pediram, Alaxandra não consegue mais entrar em contato com ela depois desse dia. A jovem desaparece da vida da diretora e do filme…

 

 
Amani Eltunsi: essa, foi pra mim, uma das mulheres mais inspiradoras do filme (a segunda foi a Sharbat). Tive a sorte de vê-la e ouvir seus comentários no fsk Kino, em Berlim, onde foi feita uma entrevista com ela e com a diretora após o filme. Amani é uma mulher que escolheu enfrentar certas tradições de sua cultura: ela decidiu não se casar, nem ter filhos; ela decidiu questionar a violência contra a mulher, tanto psicológica quanto física; ela decidiu colocar em questão a tradição que obriga jovens a se casarem, e se manterem casadas, mesmo contra sua vontade. A própria Amani sofreu com uma forma de violência imposta pela tradição: quando criança, passou por uma mutilação genital, processo que amputa o clitóris da mulher. O tema é introduzido no filme de forma sutil, em uma conversa da protagonista com outras duas jovens. Na conversa, ela pergunta se ambas foram “circuncidadas”. Ao que elas respondem que sim e contam suas histórias, Amani diz: “vocês sabem que vocês não são obrigadas a fazer isso com suas filhas… a escolha é de vocês”, ambas respondem que não pretendem deixar as filhas passarem por isso. Amani conta depois à diretora, já com certa naturalidade, como sua mãe a levou ao médico e ele fez o procedimento, enquanto outras mulheres a seguravam em uma maca. Ela não sabia do que se tratava até vê-lo com uma espécie de tesoura em mãos.

 

 
Sua história a fez forte e a fez querer mudar o destino de outras mulheres no Egito. A protagonista começou com um programa de rádio online chamado “Só para mulheres” (Banat wa Bas, em árabe), em que dá voz a mulheres para falarem sobre violência doméstica, assédio sexual, questões políticas, etc. Com sua editora, publicou um livro sobre esses temas, tendo histórias de mulheres egípcias como pano de fundo. Infelizmente, as cópias foram queimadas – em um incêndio na sede da editora – após a pose de Morsi, em 2012. Quando a Irmandade Mulçumana é eleita, Amani passa a ser perseguida e tem seu site e páginas no Facebook hackeados e tirados do ar. Sem escolha e com muita dor, resolve ir para Dubai para seguir sua vida e procurar emprego.

May Gah Allah: é talvez uma das mais jovens entre as protagonistas. May faz parte de uma minoria discriminada no Egito: o povo da região da Núbia situada no vale do Rio Nilo. Talvez o preconceito que sofreu durante a vida tenha lhe dado tanta coragem. May larga seu emprego em um banco, motivada em fazer alguma diferença para a sua população. “Eu me perguntei um dia antes de dormir: e se eu morrer amanhã e Deus me perguntar o que eu fiz pelas pessoas, devo dizer a ele que só ganhei dinheiro?”. Com essa questão pessoal, May começa seu projeto. Ela une todos os esforços para construir uma cooperativa para os moradores de sua cidade natal ao sul do Egito. Eu seu projeto de cooperativa, aulas de computação, esportes e atividades de lazer seriam oferecidas a todos – incluindo mulheres e meninas. Em uma das cenas do filme, May, usando uma camiseta com “I love being Black” joga futebol com algumas meninas de sua comunidade e explica como aquilo é novo e importante para elas. Apesar das dificuldades de enfrentar uma tradição muito conservadora com ideias novas, May não desiste e acaba se mudando de volta a sua cidade natal na Núbia para seguir seu sonho.

 

 
As histórias das quatro protagonistas vão se intercalando e a diretora também se faz presente, ao aparecer em algumas cenas ou com sua voz nas entrevistas. Achei o filme bom também por esse aspecto, já que diretora, uma austríaca, não tenta fazer o filme como se fosse uma egípcia. Ela reconhece seu papel como outsider e se apresenta como estrangeira tentando conhecer e entender uma realidade nova.

A gravação do filme durou dois anos e, claro, que nesse meio tempo muita coisa aconteceu na política do país e na vida das protagonistas. Sharbat, que reclamava da falta de apoio do marido, pede o divórcio para seguir sua militância sozinha com seus filhos. Amani que foi perseguida e obrigada a se mudar para Dubai consegue retornar ao Egito, em 2013, após a queda de Morsi e da Irmandade Mulçumana. Hoje ela tem uma editora e lançou uma revista chamada “Ladies 1st”. Orgulhosa, ela contou, em sua curta entrevista em Berlim, que terminou recentemente seu PhD,no qual analisou a violência contra a mulher em séries da televisão egípcia.

May se casou com um homem da sua região e que a apoia no seu projeto na comunidade. Alexandra Schneider conta que nunca mais teve notícias de Fatema desde sua última filmagem na sede do partido. Com a queda de Morsi, integrantes da Irmandade Mulçumana passaram a ser perseguidos. Alexandra acredita que depois disso Fatema tenha saído do país, provavelmente.

 
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O filme apresenta personalidades tão fortes com muita sensibilidade. Ele não aborda diretamente questões como violência doméstica, assédio sexual, discriminação ou casamento obrigatório. Mas muitos pontos relevantes para discussões de gênero são problematizados de forma sutil. Como o casamento, por exemplo. Amani e May questionam diversas vezes as visões de suas famílias de que elas precisam se casar o quanto antes. “As mulheres perguntam quem vai cuidar de mim e me sustentar, se eu não tiver um marido?”, relata May sobre o que viveu em sua comunidade. May se casa depois, mas por escolha própria e com alguém que ela também escolheu. Amani decide se focar exclusivamente em sua carreira, o que para algumas mulheres no Oriente Médio ainda é incomum.

Em pequenos detalhes do filme, percebe-se qual a relação da sociedade com a mulher. Quando May vai a um dos ministérios, terminar a papelada da cooperativa, ela é questionada de onde ela conseguiu as doações e o terreno para construção do prédio. Os responsáveis – todos homens – parecem achar um pouco inacreditável que ela tenha recebido tudo como doação, mas ao que ela diz “meu pai conhece muitas pessoas”, a reação muda: “Ah, então foi por causa do seu pai…” É como se uma mulher sozinha não pudesse ter essas conexões. Em outra cena, Amani discute calmamente em uma livraria, onde apresentava seu livro, com alguns homens que parecem contrariados por seu discurso feminista. Para eles, suas esposas têm que fazer o que eles mandam. Amani reage com muita calma – porque já deve ter se acostumado a ouvir coisas assim – e tenta argumentar com os espectadores, mostrando o lado das mulheres.

Ao final do filme, procurei Amani e a perguntei: a situação das mulheres no Egito melhorou de alguma forma? Ela me respondeu rapidamente que não, apenas havia piorado tendo em vista toda a situação política do país – Morsi foi retirado pelas Forças Armadas e condenado à morte, em maio desse ano. Recentemente o Primeiro-Ministro Ibrahim Mahlab pediu demissão e as próximas eleições legislativas estão marcadas para acontecer em outubro. O futuro do Egito parece incerto, e o das egípcias talvez mais ainda.

Por isso a luta continua. Das protagonistas do filme e de muitas outras mulheres no Egito. Até que as revoluções privadas se tornem uma revolução coletiva de todas as mulheres.

 
Créditos das fotos: © Daniela Praher Filmproduktion`

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