Na resolução de ler mais escritoras em 2016, uma grande amiga me indicou ler Amanda Palmer, A arte de pedir.
Na verdade, além da resolução, o livro veio num contexto pessoal mais do que necessário. Tinha acabado de perder meu emprego, estava com as horas ociosas para entrar forte naquela espiral de insegurança e auto-flagelação depreciativa que todas conhecemos muito bem. O livro veio e me tirou da bad como poucos livros haviam feito (quem nunca quis ler Harry Potter como se fosse a primeira vez over and over?).
A arte de pedir é uma grande busca pela terceira via, aquela terceira margem do rio que Guimarães tanto falava. Querendo se livrar dos contratos limitadores de grandes gravadoras mas, ao mesmo tempo, querendo sempre a visão para além do alcance que essa artista multimídia é capaz de produzir, Amanda Palmer se joga de corpo e alma para um contato direto com os fãs, promovendo mobilizações, pocket shows e performances que nunca aconteceriam de outra maneira.
Mas comecemos do começo.
Vocalista da banda Dresden Dolls (link videoclip), Amanda Palmer iniciou sua carreira performática como estátua-viva, assumindo o papel da Noiva de dois metros e meio. Performando nas ruas de Massasuchetts, oferecia flores e olhares intensos em trocas de alguns dólares ou mesmo apenas uma interação despida de formalidades. Essa experiência foi marcante o suficiente para ela assumir esse personagem como emprego permanente e serviu também como fonte inspiracional para sua postura artística tanto na banda Dresden Dolls como em sua carreira solo, sem contar que bebeu direto dessa fonte para dar a famigerada palestra TED, A Arte de Pedir ( a partir do qual nasceu esse livro mara).
Dresden Dolls formou-se em meados de 2000, com a dupla Amanda Palmer e Brian Viglione se definindo como uma banda cabaré punk, lançou seu primeiro disco em 2003, A is for acident. Após uma parceira traumática com a gravadora Roadrunner, que resultou no disco Yes, Virginia, Dresden Dolls decidiu atuar de forma independente. Foi a partir dessa experiência que a banda, e mais tarde a própria Amanda Palmer em sua carreira solo, passou a priorizar acima de tudo o contato direto e pessoal com sua comunidade de fãs.
Grande defensora de uma produção artística sem as grandes empresas como mediadoras e limitadoras do processo de criação, produção e disseminação do produto, Amanda Palmer sempre manteve sua base de fãs próxima ao seu coração e sempre conversava, trocava conselhos, sugestões e acomodações pelo twitter ou em seu blog.
Quando resolveu lançar seu 2º disco solo, Theatre is Evil, optou por realizá-lo via financiamento coletivo e conseguiu cerca de U$ 1,192,793,00 pelo Kickstarter, considerado a campanha mais bem sucedida da plataforma até 2012, ano em que o album fora lançado. O financiamento tornou-se um assunto polêmico na carreira de Palmer, sendo acusada de explorar seus fãs, mendigar por dinheiro, ser uma artista narcisista e megalomaníaca.
Na real, me identifico com parte das críticas que Amanda Palmer recebe: é auto-centrada, dependente de atenções, excessivamente performática e expansiva. Sim, ela tem várias característica que me irritam em um artista, mas é maravilhoso ver como ela direciona essa energia um tanto egocêntrica para a construção de algo tão único e honesto e conseguir aproveitar o máximo dessa relação.
De fato, a relação que a cantora tem com seus fãs é difícil de achar em outro lugar: eles abrigam ela e sua banda em suas casas, saem para tomar café juntos, mobilizam sessões ninja de performance na rua durante a turnê. Foi essa relação que viabilizou o financiamento de seu disco pelo Kickstarter e essa mesma relação, agora através do Patreon, que sustenta a carreira de Amanda Palmer até hoje.
Escrito com uma abordagem meio autobiográfica e não-linear, A Arte de pedir discorre sobre o porquê de se pedir ajuda – colaboração e até dinheiro não nos é tão natural quanto pedir pela cadeira vazia da mesa ao lado no restaurante ou por uma caneta para preencher um formulário. Com essa premissa um pouco ingênua, Amanda Palmer defende que pedir é o ato mais humano, intimo e empático que podemos fazer, sem esperar nada em troca, apenas uma conexão despida de imposições. Pedir é um ato vulnerável, que te deixa rendida à rejeição mas que, ao mesmo tempo, oferece uma oportunidade de se relacionar de uma maneira única. Na verdade o que o ato de pedir implica, em termos da indústria cultural, é um tanto revolucionário: a troca direta do artista com seu público, deixando este último a autonomia de pagar, financiar e apoiar a artista.
Com um humor afiado, Palmer mistura histórias sobre os pontos-chave de sua carreira com trechos de sua vida pessoal, as partes sobre seu relacionamento com Neil Gaiman são tão fofos e sinceros que você quer correr para YouTube para ver as entrevistas que eles dão juntos. O livro tem uma abordagem um tanto romântica e eufórica sobre sua relação com os fãs, mas ao mesmo tempo nos fornece uma perspectiva interessantíssima sobre a real capacidade da rede mundial de computadores sobre como aproximar e criar conexões.
Dá até pra sentir um pouco de raiva dessa abordagem romântica e eufórica que Amanda tem não só com os fãs, mas com o mundo. É como se os óculos que ela usa fossem lotados de um otimismo tão ingênuo que fica difícil de acreditar. É fácil pensar que aquilo só pode ser besteira, que é da boca pra fora, mas ao seguir a Amanda nas redes sociais, Twitter e Facebook, você percebe que não, que aquela jogação toda é genuína e muito apaixonante.
Li A arte de pedir logo depois de ler um livro da assistente social e palestrante Brené Brown chamado A coragem de ser imperfeito. Ela, inclusive, escreveu o prefácio do livro da Amanda Palmer. A verdade é que foi um ótimo combo de livros, fora do comum para mim, que falaram de aspectos que sempre encarei como negativos: pedir, confiar, ser vulnerável. Em épocas como a que vivemos, onde tudo muda o tempo todo, é difícil ter otimismo e confiar nos outros, mas é exatamente isso que tanto a Brené quanto a Amanda nos mostram em seus livros: a virtude de ser vulnerável, a virtude de pedir ajuda, a virtude de confiar, mesmo se dando mal depois.
É meio papo de Poliana, uma coisa meio Manic Pixie Dream Girl, aqueles personagem extremamente otimistas de filmes de comédia romântica, mas, ao mesmo tempo, é algo muito corajoso e ousado. Amanda Palmer não só se dá bem do começo ao fim, ela passa por situações suficientes para desanimar e você pensa muitas vezes ao longo do livro que se fosse você no lugar dela, já teria desistido.
A arte de pedir é um livro que vale a pena ler, mesmo que você não seja lá uma pessoa super otimista. Se confrontar com a realidade de alguém que realmente considera a sua própria vida uma obra de arte é praticamente um choque, ainda mais quando você lê a história da perspectiva da própria pessoa. Como disse Brené Brown em seu livro “Viver com ousadia não tem nada a ver com ganhar ou perder. Tem a ver com coragem. […] quando faço uma retrospectiva de minha própria vida e do que viver com ousadia provocou em mim, posso dizer com sinceridade que nada é mais incômodo, perigoso e doloroso do que constatar que estou do lado de fora da minha vida, olhando para ela e imaginando como seria se eu tivesse a coragem de me mostrar e deixar que me vissem.”
Na resolução de ler mais escritoras em 2016, uma grande amiga me indicou ler Amanda Palmer, A arte de pedir.
Na verdade, além da resolução, o livro veio num contexto pessoal mais do que necessário. Tinha acabado de perder meu emprego, estava com as horas ociosas para entrar forte naquela espiral de insegurança e auto-flagelação depreciativa que todas conhecemos muito bem. O livro veio e me tirou da bad como poucos livros haviam feito (quem nunca quis ler Harry Potter como se fosse a primeira vez over and over?).
A arte de pedir é uma grande busca pela terceira via, aquela terceira margem do rio que Guimarães tanto falava. Querendo se livrar dos contratos limitadores de grandes gravadoras mas, ao mesmo tempo, querendo sempre a visão para além do alcance que essa artista multimídia é capaz de produzir, Amanda Palmer se joga de corpo e alma para um contato direto com os fãs, promovendo mobilizações, pocket shows e performances que nunca aconteceriam de outra maneira.
Mas comecemos do começo.
Vocalista da banda Dresden Dolls (link videoclip), Amanda Palmer iniciou sua carreira performática como estátua-viva, assumindo o papel da Noiva de dois metros e meio. Performando nas ruas de Massasuchetts, oferecia flores e olhares intensos em trocas de alguns dólares ou mesmo apenas uma interação despida de formalidades. Essa experiência foi marcante o suficiente para ela assumir esse personagem como emprego permanente e serviu também como fonte inspiracional para sua postura artística tanto na banda Dresden Dolls como em sua carreira solo, sem contar que bebeu direto dessa fonte para dar a famigerada palestra TED, A Arte de Pedir ( a partir do qual nasceu esse livro mara).
Dresden Dolls formou-se em meados de 2000, com a dupla Amanda Palmer e Brian Viglione se definindo como uma banda cabaré punk, lançou seu primeiro disco em 2003, A is for acident. Após uma parceira traumática com a gravadora Roadrunner, que resultou no disco Yes, Virginia, Dresden Dolls decidiu atuar de forma independente. Foi a partir dessa experiência que a banda, e mais tarde a própria Amanda Palmer em sua carreira solo, passou a priorizar acima de tudo o contato direto e pessoal com sua comunidade de fãs.
Grande defensora de uma produção artística sem as grandes empresas como mediadoras e limitadoras do processo de criação, produção e disseminação do produto, Amanda Palmer sempre manteve sua base de fãs próxima ao seu coração e sempre conversava, trocava conselhos, sugestões e acomodações pelo twitter ou em seu blog.
Quando resolveu lançar seu 2º disco solo, Theatre is Evil, optou por realizá-lo via financiamento coletivo e conseguiu cerca de U$ 1,192,793,00 pelo Kickstarter, considerado a campanha mais bem sucedida da plataforma até 2012, ano em que o album fora lançado. O financiamento tornou-se um assunto polêmico na carreira de Palmer, sendo acusada de explorar seus fãs, mendigar por dinheiro, ser uma artista narcisista e megalomaníaca.
Na real, me identifico com parte das críticas que Amanda Palmer recebe: é auto-centrada, dependente de atenções, excessivamente performática e expansiva. Sim, ela tem várias característica que me irritam em um artista, mas é maravilhoso ver como ela direciona essa energia um tanto egocêntrica para a construção de algo tão único e honesto e conseguir aproveitar o máximo dessa relação.
De fato, a relação que a cantora tem com seus fãs é difícil de achar em outro lugar: eles abrigam ela e sua banda em suas casas, saem para tomar café juntos, mobilizam sessões ninja de performance na rua durante a turnê. Foi essa relação que viabilizou o financiamento de seu disco pelo Kickstarter e essa mesma relação, agora através do Patreon, que sustenta a carreira de Amanda Palmer até hoje.
Escrito com uma abordagem meio autobiográfica e não-linear, A Arte de pedir discorre sobre o porquê de se pedir ajuda – colaboração e até dinheiro não nos é tão natural quanto pedir pela cadeira vazia da mesa ao lado no restaurante ou por uma caneta para preencher um formulário. Com essa premissa um pouco ingênua, Amanda Palmer defende que pedir é o ato mais humano, intimo e empático que podemos fazer, sem esperar nada em troca, apenas uma conexão despida de imposições. Pedir é um ato vulnerável, que te deixa rendida à rejeição mas que, ao mesmo tempo, oferece uma oportunidade de se relacionar de uma maneira única. Na verdade o que o ato de pedir implica, em termos da indústria cultural, é um tanto revolucionário: a troca direta do artista com seu público, deixando este último a autonomia de pagar, financiar e apoiar a artista.
Com um humor afiado, Palmer mistura histórias sobre os pontos-chave de sua carreira com trechos de sua vida pessoal, as partes sobre seu relacionamento com Neil Gaiman são tão fofos e sinceros que você quer correr para YouTube para ver as entrevistas que eles dão juntos. O livro tem uma abordagem um tanto romântica e eufórica sobre sua relação com os fãs, mas ao mesmo tempo nos fornece uma perspectiva interessantíssima sobre a real capacidade da rede mundial de computadores sobre como aproximar e criar conexões.
Dá até pra sentir um pouco de raiva dessa abordagem romântica e eufórica que Amanda tem não só com os fãs, mas com o mundo. É como se os óculos que ela usa fossem lotados de um otimismo tão ingênuo que fica difícil de acreditar. É fácil pensar que aquilo só pode ser besteira, que é da boca pra fora, mas ao seguir a Amanda nas redes sociais, Twitter e Facebook, você percebe que não, que aquela jogação toda é genuína e muito apaixonante.
Li A arte de pedir logo depois de ler um livro da assistente social e palestrante Brené Brown chamado A coragem de ser imperfeito. Ela, inclusive, escreveu o prefácio do livro da Amanda Palmer. A verdade é que foi um ótimo combo de livros, fora do comum para mim, que falaram de aspectos que sempre encarei como negativos: pedir, confiar, ser vulnerável. Em épocas como a que vivemos, onde tudo muda o tempo todo, é difícil ter otimismo e confiar nos outros, mas é exatamente isso que tanto a Brené quanto a Amanda nos mostram em seus livros: a virtude de ser vulnerável, a virtude de pedir ajuda, a virtude de confiar, mesmo se dando mal depois.
É meio papo de Poliana, uma coisa meio Manic Pixie Dream Girl, aqueles personagem extremamente otimistas de filmes de comédia romântica, mas, ao mesmo tempo, é algo muito corajoso e ousado. Amanda Palmer não só se dá bem do começo ao fim, ela passa por situações suficientes para desanimar e você pensa muitas vezes ao longo do livro que se fosse você no lugar dela, já teria desistido.
A arte de pedir é um livro que vale a pena ler, mesmo que você não seja lá uma pessoa super otimista. Se confrontar com a realidade de alguém que realmente considera a sua própria vida uma obra de arte é praticamente um choque, ainda mais quando você lê a história da perspectiva da própria pessoa. Como disse Brené Brown em seu livro “Viver com ousadia não tem nada a ver com ganhar ou perder. Tem a ver com coragem. […] quando faço uma retrospectiva de minha própria vida e do que viver com ousadia provocou em mim, posso dizer com sinceridade que nada é mais incômodo, perigoso e doloroso do que constatar que estou do lado de fora da minha vida, olhando para ela e imaginando como seria se eu tivesse a coragem de me mostrar e deixar que me vissem.”
Na resolução de ler mais escritoras em 2016, uma grande amiga me indicou ler Amanda Palmer, A arte de pedir.
Na verdade, além da resolução, o livro veio num contexto pessoal mais do que necessário. Tinha acabado de perder meu emprego, estava com as horas ociosas para entrar forte naquela espiral de insegurança e auto-flagelação depreciativa que todas conhecemos muito bem. O livro veio e me tirou da bad como poucos livros haviam feito (quem nunca quis ler Harry Potter como se fosse a primeira vez over and over?).
A arte de pedir é uma grande busca pela terceira via, aquela terceira margem do rio que Guimarães tanto falava. Querendo se livrar dos contratos limitadores de grandes gravadoras mas, ao mesmo tempo, querendo sempre a visão para além do alcance que essa artista multimídia é capaz de produzir, Amanda Palmer se joga de corpo e alma para um contato direto com os fãs, promovendo mobilizações, pocket shows e performances que nunca aconteceriam de outra maneira.
Mas comecemos do começo.
Vocalista da banda Dresden Dolls (link videoclip), Amanda Palmer iniciou sua carreira performática como estátua-viva, assumindo o papel da Noiva de dois metros e meio. Performando nas ruas de Massasuchetts, oferecia flores e olhares intensos em trocas de alguns dólares ou mesmo apenas uma interação despida de formalidades. Essa experiência foi marcante o suficiente para ela assumir esse personagem como emprego permanente e serviu também como fonte inspiracional para sua postura artística tanto na banda Dresden Dolls como em sua carreira solo, sem contar que bebeu direto dessa fonte para dar a famigerada palestra TED, A Arte de Pedir ( a partir do qual nasceu esse livro mara).
Dresden Dolls formou-se em meados de 2000, com a dupla Amanda Palmer e Brian Viglione se definindo como uma banda cabaré punk, lançou seu primeiro disco em 2003, A is for acident. Após uma parceira traumática com a gravadora Roadrunner, que resultou no disco Yes, Virginia, Dresden Dolls decidiu atuar de forma independente. Foi a partir dessa experiência que a banda, e mais tarde a própria Amanda Palmer em sua carreira solo, passou a priorizar acima de tudo o contato direto e pessoal com sua comunidade de fãs.
Grande defensora de uma produção artística sem as grandes empresas como mediadoras e limitadoras do processo de criação, produção e disseminação do produto, Amanda Palmer sempre manteve sua base de fãs próxima ao seu coração e sempre conversava, trocava conselhos, sugestões e acomodações pelo twitter ou em seu blog.
Quando resolveu lançar seu 2º disco solo, Theatre is Evil, optou por realizá-lo via financiamento coletivo e conseguiu cerca de U$ 1,192,793,00 pelo Kickstarter, considerado a campanha mais bem sucedida da plataforma até 2012, ano em que o album fora lançado. O financiamento tornou-se um assunto polêmico na carreira de Palmer, sendo acusada de explorar seus fãs, mendigar por dinheiro, ser uma artista narcisista e megalomaníaca.
Na real, me identifico com parte das críticas que Amanda Palmer recebe: é auto-centrada, dependente de atenções, excessivamente performática e expansiva. Sim, ela tem várias característica que me irritam em um artista, mas é maravilhoso ver como ela direciona essa energia um tanto egocêntrica para a construção de algo tão único e honesto e conseguir aproveitar o máximo dessa relação.
De fato, a relação que a cantora tem com seus fãs é difícil de achar em outro lugar: eles abrigam ela e sua banda em suas casas, saem para tomar café juntos, mobilizam sessões ninja de performance na rua durante a turnê. Foi essa relação que viabilizou o financiamento de seu disco pelo Kickstarter e essa mesma relação, agora através do Patreon, que sustenta a carreira de Amanda Palmer até hoje.
Escrito com uma abordagem meio autobiográfica e não-linear, A Arte de pedir discorre sobre o porquê de se pedir ajuda – colaboração e até dinheiro não nos é tão natural quanto pedir pela cadeira vazia da mesa ao lado no restaurante ou por uma caneta para preencher um formulário. Com essa premissa um pouco ingênua, Amanda Palmer defende que pedir é o ato mais humano, intimo e empático que podemos fazer, sem esperar nada em troca, apenas uma conexão despida de imposições. Pedir é um ato vulnerável, que te deixa rendida à rejeição mas que, ao mesmo tempo, oferece uma oportunidade de se relacionar de uma maneira única. Na verdade o que o ato de pedir implica, em termos da indústria cultural, é um tanto revolucionário: a troca direta do artista com seu público, deixando este último a autonomia de pagar, financiar e apoiar a artista.
Com um humor afiado, Palmer mistura histórias sobre os pontos-chave de sua carreira com trechos de sua vida pessoal, as partes sobre seu relacionamento com Neil Gaiman são tão fofos e sinceros que você quer correr para YouTube para ver as entrevistas que eles dão juntos. O livro tem uma abordagem um tanto romântica e eufórica sobre sua relação com os fãs, mas ao mesmo tempo nos fornece uma perspectiva interessantíssima sobre a real capacidade da rede mundial de computadores sobre como aproximar e criar conexões.
Dá até pra sentir um pouco de raiva dessa abordagem romântica e eufórica que Amanda tem não só com os fãs, mas com o mundo. É como se os óculos que ela usa fossem lotados de um otimismo tão ingênuo que fica difícil de acreditar. É fácil pensar que aquilo só pode ser besteira, que é da boca pra fora, mas ao seguir a Amanda nas redes sociais, Twitter e Facebook, você percebe que não, que aquela jogação toda é genuína e muito apaixonante.
Li A arte de pedir logo depois de ler um livro da assistente social e palestrante Brené Brown chamado A coragem de ser imperfeito. Ela, inclusive, escreveu o prefácio do livro da Amanda Palmer. A verdade é que foi um ótimo combo de livros, fora do comum para mim, que falaram de aspectos que sempre encarei como negativos: pedir, confiar, ser vulnerável. Em épocas como a que vivemos, onde tudo muda o tempo todo, é difícil ter otimismo e confiar nos outros, mas é exatamente isso que tanto a Brené quanto a Amanda nos mostram em seus livros: a virtude de ser vulnerável, a virtude de pedir ajuda, a virtude de confiar, mesmo se dando mal depois.
É meio papo de Poliana, uma coisa meio Manic Pixie Dream Girl, aqueles personagem extremamente otimistas de filmes de comédia romântica, mas, ao mesmo tempo, é algo muito corajoso e ousado. Amanda Palmer não só se dá bem do começo ao fim, ela passa por situações suficientes para desanimar e você pensa muitas vezes ao longo do livro que se fosse você no lugar dela, já teria desistido.
A arte de pedir é um livro que vale a pena ler, mesmo que você não seja lá uma pessoa super otimista. Se confrontar com a realidade de alguém que realmente considera a sua própria vida uma obra de arte é praticamente um choque, ainda mais quando você lê a história da perspectiva da própria pessoa. Como disse Brené Brown em seu livro “Viver com ousadia não tem nada a ver com ganhar ou perder. Tem a ver com coragem. […] quando faço uma retrospectiva de minha própria vida e do que viver com ousadia provocou em mim, posso dizer com sinceridade que nada é mais incômodo, perigoso e doloroso do que constatar que estou do lado de fora da minha vida, olhando para ela e imaginando como seria se eu tivesse a coragem de me mostrar e deixar que me vissem.”
Você já ouviu sobre a cultura do estupro, mas você já ouviu sobre a cultura da pedofilia?
“Eu sou um pedófilo, mas não sou um monstro.
Sou atraído por crianças mas relutante a agir sobre elas. Antes de me julgar rigorosamente, você estaria disposto a me escutar?
Todd Nickerson”
Caro Todd Nickerson,
No Salon alguns dias atrás, você escreveu esse artigo provocantemente intitulado “Eu sou um pedófilo, mas não sou um monstro”. Provavelmente, um monte de pessoas está agora fazendo perguntas como “Será pedofilia natural?” ou “A pedofilia pode ser curada?”. Mas eu não vou tentar responder a essas perguntas específicas. Em vez disso, eu gostaria de aprofundar esse discurso através do preenchimento de algumas grandes lacunas em seu artigo.
Vamos começar com esta peça que faltava: a grande maioria dos pedófilos são homens. E a maioria das crianças vitimizadas por esses pedófilos que optam por agir sobre seus desejos sexuais são meninas. Este é um grande detalhe para negar a seu público, você não acha? Infelizmente, como enraizado e evidente que o patriarcado é, geralmente é o último detalhe mencionado em conversas dessa natureza – se for mencionado de qualquer modo.
Dito isto, a pedofilia pode parecer um tabu e desprezada pelas massas, mas uma avaliação honesta da nossa cultura em geral revela o contrário. Proponho que a pedofilia seja realmente recompensada e celebrada, e que toda a nossa cultura e compreensão da sexualidade seja construída em torno do que parecem ser os desejos de pedofilia. Eu chamo isso de “Cultura da Pedofilia.”
Na cultura da pedofilia, espera-se que as mulheres mantenham um nível quase impossível de magreza, pré-adolescentes em sua quase andrógina falta de curvatura e gordura corporal. Devido a essa pressão, distúrbios alimentares são abundantes em mulheres jovens, e as mulheres em particular, são alvo ao longo de suas vidas por uma indústria de perda de peso de bilhões de dólares.
Na cultura da pedofilia, a categoria mais acessada do Pornhub é “Teen” (adolescente).”Barely Legal” (quase ilegal), “meninas” em roupas de colegial que usam de tudo, desde “manipulações de virgens”, fantasias de incesto pai e filha, simulação professor-aluna – escreva o que quiser, existe pornografia para isso, e tem sido esgotado milhões e milhões e milhões de vezes. É justo de se pensar se a única coisa que afasta alguns desses espectadores de assistir à pornografia infantil diretamente são as leis de consenso e idade.
Influenciada pela indústria da pornografia, a labioplastia ou ninfoplastia – cirurgia plástica que consiste na remoção de pele dos lábios vaginais -, está rapidamente ganhando popularidade, assim como outros procedimentos, como himenoplastia, que restaura o “aperto” virgin-like para vaginas das mulheres.
Na cultura da pedofilia, as mulheres são pressionadas a se depilar com lâmina ou cera suas regiões inferiores e axilas regularmente. A indústria de cosméticos – novamente, dirigida às mulheres – vende cremes “anti-envelhecimento” e loções que irão tornar a nossa pele “macia como a de um bebê.”
Na cultura da pedofilia, nós casualmente nos referimos a mulheres adultas como “meninas” ou “garotas”. Nós temos uma paralvra especificamente para adolescentes atraentes: jailbait (ninfetas). Mulheres são sexualizada como chicks, kittens e babes.
Na cultura da pedofilia, muitas vezes eu noto homens em público me analisando com os olhos cheios de luxúria, até que vejam os pelos nas minhas pernas – em que ponto, eles recorrem a uma exibição teatral de desgosto. Eu tenho escutado grupos de rapazes em idade universitária falando sobre como eles não vão fazer sexo oral em uma mulher se seus grandes lábios forem muito proeminentes. Um homem que vinha atrás de sexo comigo durante três anos, de repente mudou de ideia quando eu revelei que eu não raspo e não rasparei meus pelos pubianos. Em outras palavras, muitos homens deixam de se sentirem atraídos por mim quando lembram que eu sou uma mulher, e não uma menina.
Certamente todos estes homens, que têm uma “preferência” para as qualidades acima mencionadas em mulheres, não são pedófilos pela definição estrita do termo. Mas parece que um número elevado de homens, provavelmente como resultado do condicionamento cultural profundo, encontram muitas das mesmas coisas atraentes em uma mulher que um pedófilo iria encontrar atraente em uma menina. Pequenos lábios, vaginas apertadas, hímens intactos, pele de bebê macia, membros sem pêlos e vulvas, juventude eterna, pequenos corpos frágeis… Como o usuário do Tumblr reddressalert escreveu: “como é que nós não reconhecemos que esta é essencialmente uma descrição de um bebê ou uma criança?”
De volta ao meu ponto original:
Eu preciso que você, e seus leitores simpatizantes, compreendam esta grave verdade: a pedofilia não é um quase tabu, ou é vergonhoso, ou repulsivo para a sociedade, como você diz que é. Eu queria que fosse. Muito em detrimento das mulheres em todo o mundo, seus desejos são refletidos de volta para você infinitamente, em uma escala global produzido em massa para atender uma demanda sempre crescente. Este mundo de supremacia masculina recebe de braços abertos, e todos os seus desejos são comandados. Ouso dizer que você está mais seguro de ser você mesmo, do que as meninas são.
Você diz “Eu sou um pedófilo, mas não um monstro”, e eu concordo plenamente com você. Você não é um monstro – você é um homem. Um homem bastante comum. Uma representação microcósmica de perversões mais prevalentes do patriarcado. Você não é especial, você não é anômalo, e você não está sozinho. Nem mesmo perto. Sua “orientação sexual” é apenas uma outra manifestação do desejo coletivo de homens para subjugar as fêmeas em uma cruzada para defender a supremacia masculina em todos os custos.
Portanto, se “ser compreensivo e dar apoio” a sua pedofilia envolve aliciamento de homens para erotizar características infantis em mulheres, e ensinando as mulheres a manter a juventude eterna a não agravar a insegurança do sexo masculino, então você não está pedindo o nosso apoio – você está pedindo nossa submissão. E assim como você diz que “não há nenhuma maneira ética de podermos concretizar plenamente os nossos desejos sexuais”, não há nenhuma maneira ética para solicitar a cooperação daqueles de nós que estão ativamente tentando desmantelar o sistema patriarcal que a sua “orientação” representa.
Na resolução de ler mais escritoras em 2016, uma grande amiga me indicou ler Amanda Palmer, A arte de pedir.
Na verdade, além da resolução, o livro veio num contexto pessoal mais do que necessário. Tinha acabado de perder meu emprego, estava com as horas ociosas para entrar forte naquela espiral de insegurança e auto-flagelação depreciativa que todas conhecemos muito bem. O livro veio e me tirou da bad como poucos livros haviam feito (quem nunca quis ler Harry Potter como se fosse a primeira vez over and over?).
A arte de pedir é uma grande busca pela terceira via, aquela terceira margem do rio que Guimarães tanto falava. Querendo se livrar dos contratos limitadores de grandes gravadoras mas, ao mesmo tempo, querendo sempre a visão para além do alcance que essa artista multimídia é capaz de produzir, Amanda Palmer se joga de corpo e alma para um contato direto com os fãs, promovendo mobilizações, pocket shows e performances que nunca aconteceriam de outra maneira.
Mas comecemos do começo.
Vocalista da banda Dresden Dolls (link videoclip), Amanda Palmer iniciou sua carreira performática como estátua-viva, assumindo o papel da Noiva de dois metros e meio. Performando nas ruas de Massasuchetts, oferecia flores e olhares intensos em trocas de alguns dólares ou mesmo apenas uma interação despida de formalidades. Essa experiência foi marcante o suficiente para ela assumir esse personagem como emprego permanente e serviu também como fonte inspiracional para sua postura artística tanto na banda Dresden Dolls como em sua carreira solo, sem contar que bebeu direto dessa fonte para dar a famigerada palestra TED, A Arte de Pedir ( a partir do qual nasceu esse livro mara).
Dresden Dolls formou-se em meados de 2000, com a dupla Amanda Palmer e Brian Viglione se definindo como uma banda cabaré punk, lançou seu primeiro disco em 2003, A is for acident. Após uma parceira traumática com a gravadora Roadrunner, que resultou no disco Yes, Virginia, Dresden Dolls decidiu atuar de forma independente. Foi a partir dessa experiência que a banda, e mais tarde a própria Amanda Palmer em sua carreira solo, passou a priorizar acima de tudo o contato direto e pessoal com sua comunidade de fãs.
Grande defensora de uma produção artística sem as grandes empresas como mediadoras e limitadoras do processo de criação, produção e disseminação do produto, Amanda Palmer sempre manteve sua base de fãs próxima ao seu coração e sempre conversava, trocava conselhos, sugestões e acomodações pelo twitter ou em seu blog.
Quando resolveu lançar seu 2º disco solo, Theatre is Evil, optou por realizá-lo via financiamento coletivo e conseguiu cerca de U$ 1,192,793,00 pelo Kickstarter, considerado a campanha mais bem sucedida da plataforma até 2012, ano em que o album fora lançado. O financiamento tornou-se um assunto polêmico na carreira de Palmer, sendo acusada de explorar seus fãs, mendigar por dinheiro, ser uma artista narcisista e megalomaníaca.
Na real, me identifico com parte das críticas que Amanda Palmer recebe: é auto-centrada, dependente de atenções, excessivamente performática e expansiva. Sim, ela tem várias característica que me irritam em um artista, mas é maravilhoso ver como ela direciona essa energia um tanto egocêntrica para a construção de algo tão único e honesto e conseguir aproveitar o máximo dessa relação.
De fato, a relação que a cantora tem com seus fãs é difícil de achar em outro lugar: eles abrigam ela e sua banda em suas casas, saem para tomar café juntos, mobilizam sessões ninja de performance na rua durante a turnê. Foi essa relação que viabilizou o financiamento de seu disco pelo Kickstarter e essa mesma relação, agora através do Patreon, que sustenta a carreira de Amanda Palmer até hoje.
Escrito com uma abordagem meio autobiográfica e não-linear, A Arte de pedir discorre sobre o porquê de se pedir ajuda – colaboração e até dinheiro não nos é tão natural quanto pedir pela cadeira vazia da mesa ao lado no restaurante ou por uma caneta para preencher um formulário. Com essa premissa um pouco ingênua, Amanda Palmer defende que pedir é o ato mais humano, intimo e empático que podemos fazer, sem esperar nada em troca, apenas uma conexão despida de imposições. Pedir é um ato vulnerável, que te deixa rendida à rejeição mas que, ao mesmo tempo, oferece uma oportunidade de se relacionar de uma maneira única. Na verdade o que o ato de pedir implica, em termos da indústria cultural, é um tanto revolucionário: a troca direta do artista com seu público, deixando este último a autonomia de pagar, financiar e apoiar a artista.
Com um humor afiado, Palmer mistura histórias sobre os pontos-chave de sua carreira com trechos de sua vida pessoal, as partes sobre seu relacionamento com Neil Gaiman são tão fofos e sinceros que você quer correr para YouTube para ver as entrevistas que eles dão juntos. O livro tem uma abordagem um tanto romântica e eufórica sobre sua relação com os fãs, mas ao mesmo tempo nos fornece uma perspectiva interessantíssima sobre a real capacidade da rede mundial de computadores sobre como aproximar e criar conexões.
Dá até pra sentir um pouco de raiva dessa abordagem romântica e eufórica que Amanda tem não só com os fãs, mas com o mundo. É como se os óculos que ela usa fossem lotados de um otimismo tão ingênuo que fica difícil de acreditar. É fácil pensar que aquilo só pode ser besteira, que é da boca pra fora, mas ao seguir a Amanda nas redes sociais, Twitter e Facebook, você percebe que não, que aquela jogação toda é genuína e muito apaixonante.
Li A arte de pedir logo depois de ler um livro da assistente social e palestrante Brené Brown chamado A coragem de ser imperfeito. Ela, inclusive, escreveu o prefácio do livro da Amanda Palmer. A verdade é que foi um ótimo combo de livros, fora do comum para mim, que falaram de aspectos que sempre encarei como negativos: pedir, confiar, ser vulnerável. Em épocas como a que vivemos, onde tudo muda o tempo todo, é difícil ter otimismo e confiar nos outros, mas é exatamente isso que tanto a Brené quanto a Amanda nos mostram em seus livros: a virtude de ser vulnerável, a virtude de pedir ajuda, a virtude de confiar, mesmo se dando mal depois.
É meio papo de Poliana, uma coisa meio Manic Pixie Dream Girl, aqueles personagem extremamente otimistas de filmes de comédia romântica, mas, ao mesmo tempo, é algo muito corajoso e ousado. Amanda Palmer não só se dá bem do começo ao fim, ela passa por situações suficientes para desanimar e você pensa muitas vezes ao longo do livro que se fosse você no lugar dela, já teria desistido.
A arte de pedir é um livro que vale a pena ler, mesmo que você não seja lá uma pessoa super otimista. Se confrontar com a realidade de alguém que realmente considera a sua própria vida uma obra de arte é praticamente um choque, ainda mais quando você lê a história da perspectiva da própria pessoa. Como disse Brené Brown em seu livro “Viver com ousadia não tem nada a ver com ganhar ou perder. Tem a ver com coragem. […] quando faço uma retrospectiva de minha própria vida e do que viver com ousadia provocou em mim, posso dizer com sinceridade que nada é mais incômodo, perigoso e doloroso do que constatar que estou do lado de fora da minha vida, olhando para ela e imaginando como seria se eu tivesse a coragem de me mostrar e deixar que me vissem.”