Leia: Pola Oloixarac

Ilustração feita com exclusividade por Malu Risi

Após seu ovacionado romance de estreia As Teorias Selvagens, a escritora argentina Pola Oloixarac publica um segundo romance que conserva atualidade em termos de publicação e temática.

Aclamada como “a Musa da Flip” da edição de 2011, a autora cruza biologia, tecnologia e cultura pop para promover uma perspectiva quase dantesca da sociedade atual em Las Constelaciones Oscuras (“As constelações escuras”, em tradução livre). Ainda inédito no Brasil, a obra promete lançar uma nova luz sobre o impacto da internet e do capital na vida dos indivíduos: seria de fato possível escapar das influências cibernéticas capitalistas atuais? Quem seriam os novos agentes da mudança social no atual cenário de desenfreado desenvolvimento tecnológico?

[caption id="attachment_13277" align="aligncenter" width="720"] Livro “Las Constelaciones Ocuras”, de Pola Oloixarac (via)[/caption]

Conservando um senso de humor que lhe é próprio, assim como a paixão pelo Rock e pela filosofia clássica, Oloixarac desenrola a vida de Cássio, um Hacker envolvido em um ambicioso projeto de mapeamento genético que funde biologia e internet em um só sistema, mas que se desilude com o potencial revolucionário cibernético, rapidamente corrompido pelo capital.

É dessa forma que a autora mostra o que há de mais obscuro das luzes que são emitidas pela tecnologia: não é mais possível desvencilhar o humano da web, e muito menos o controle político-biológico do poder do capital. As metáforas e comparações com fenômenos celestes resgatam a sensação de que tudo aquilo que está ocorrendo é inevitável – ou que tudo é grande demais para que apenas um indivíduo ou um pequeno grupo de indivíduos possa gerar uma mudança de impacto.

Contudo, o livro revoluciona não só a maneira com a qual o leitor irá perceber o mundo após sua leitura, como também as próprias direções da carreira da autora. Diferentemente de As Teorias Selvagens, Las Constelaciones Oscuras tem uma pretensão internacional muito clara: os personagens são de diversas partes do mundo, não somente argentinos, e a ficção científica se fortalece frente à “crônica de costumes” que foi “Teorias”.

O que permanece são questões essenciais que definem o estilo da autora, como o evidente esforço de pesquisa para a confecção da obra, as imagens que permeiam as páginas e ilustram o romance, o interesse pelas “ovelhas negras” do corpo social, e a temática da juventude e seus episódios típicos – o descobrimento da sexualidade, a pornografia, o envolvimento político das personagens e as referências musicais e culturais que fazem parte dessa fase da vida.

[caption id="attachment_13280" align="aligncenter" width="400"] A escritora Pola Oloixarac[/caption]

Se Oloixarac já havia se consagrado enquanto a nova voz da literatura argentina com seu primeiro romance, Constelaciones… traz um novo momento de sua carreira e demonstra a paixão que a autora tem pela literatura – e pela biologia.

Com uma temática mais concentrada e desenvolvida, a teia de aranha que foi seu primeiro romance é substituída por um romance com começo, meio e fim históricos e bem divididos, o que também demonstra a capacidade da escritora de trabalhar com diferentes formas e linhas narrativas. É entre nomes científicos, guerras cibernéticas e espetáculos de luzes celestes e terrestres que a autora confecciona um verdadeiro trabalho artístico – e sinaliza que tudo aquilo que vier de sua autoria terá muita qualidade.

[separator type="thin"]

Ilustração feita com exclusividade por Malu Risi.

Escrito por
Mais de Júlia Rocha

Sobre Barbies e Playboys

Nos últimos dias muito tem se falado da importância dos novos corpos e cores da Barbie. Tradicionalmente retratada como uma jovem completamente dentro de um padrão irreal, inclusive em termos biológicos, a reviravolta no mercado da boneca fez um favor a todas as meninas e trouxe às lojas bonecas pequenas, altas, magras e curvilíneas. Brancas, negras, orientais. Cabelos coloridos, crespos, escuros.

O impacto disso sobre a autoimagem das mulheres é claro: agora é possível se ver de maneira mais fiel no mercado, e como a boneca é referência de beleza, sentir-se bonita pode ter se tornado 1% mais fácil hoje em dia. Pois bem, aqui eu gostaria que ficássemos com uma ideia na cabeça: a representação dos corpos diferentes no mercado é importante, e a pressão dos consumidores foi a grande responsável para essa mudança. Pela primeira vez estamos vendo a representação feminina de forma mais amistosa. Será?

A “Playboy” também sofreu pressão dos seus consumidores e se viu obrigada a reestruturar por completo a ideia da revista: “pouca nudez, mais conteúdo”. A grande variedade de pornôs disponíveis na internet fez com que a nudez explícita da revista se tornasse desnecessária – melhor uma mulher gemendo e sendo penetrada do que uma apenas com “cara de safada”, não é mesmo? A gratuidade do pornô online, portanto, foi a grande ruína da “Playboy”.

Os homens pararam de consumir nudez impressa para consumir violência contra a mulher pela internet. O vídeo é muito mais agressivo e satisfatório do que uma foto inofensiva: o gozo vem mais rápido e de forma mais barata, afinal de contas, tempo é dinheiro, minha gente (até o tempo de se masturbar). Aqui, mais uma ideia: o mercado, assim como vimos no caso da Barbie, se adaptou, e essa cara moderna da revista não veio pela exigência de seus leitores por uma revista mais humana, mas sim porque os mesmos passaram a se entediar com peitos e bucetas que não se mexem, não gritam, não reagem.

Há milhares de problemas em tudo isso, a começar pelas mudanças empregadas pela revista visando o aumento de mercado. Irei começar com esse discurso da necessidade de se modernizar que a “Playboy” vem empregando, principalmente com um falso propósito de se tornar “mais inclusiva às mulheres”. Durante anos, a “Playboy” dá de ombros à dignidade e ao bem estar feminino, propagando apenas conteúdo de natureza masculina e objetificadora da figura feminina (o padrão loira, branca e magra, que vimos na Barbie todo esse tempo, foi a capa da revista por décadas). O que será, então, que fez a revista rever esse processo? Dica: não foram as intensas manifestações que vivemos na “Primavera Feminista”.

O que fez a revista mudar de visual e foco foi o fato dos homens estarem consumindo pornografia cada vez mais cedo – e apenas na internet. A capa da “nova era” da revista, que simula uma selfie sensual no Snapchat, mostra o esforço desmedido da revista em conquistar o público jovem. Por jovem, entenda-se: pré-adolescentes de 13 anos. Como se não bastasse aos adolescentes estarem expostos a um conteúdo pornográfico altamente violento às mulheres e traumatizante a todos, agora a revista disponibilizará nudez impressa também.

A “Playboy”, portanto, apenas complementa o mercado pornográfico que já é vitimizador da figura feminina, vendendo uma nudez que não será paga, já que as meninas não receberão cachê por posarem nuas. Ou seja, as mulheres são duplamente punidas nesse caso: não recebem pelo próprio trabalho, sob uma perspectiva de que “nudez não se compra” (mas se vende e se consome, editores da “Playboy”?), e ainda têm suas imagens objetificadas – mesmo que sem retoques de Photoshop.

Nem o tom “jovem” da revista deve ser visto como uma grande novidade. Além de continuar sendo uma engrenagem do mercado pornográfico, a revista ajuda a perpetuar a pedofilia e a “cultura da novinha”. Essa nova capa remete ao Snapchat, campo digital largamente utilizado por adolescentes para sua comunicação. O que antes era uma maneira interessante de transmitir ao amigo como havia sido seu dia se tornou na mais nova ferramenta de pornografia do mercado. Além disso, as mulheres com caras inocentes, completamente depiladas, sempre existiram nas capas e spreads da revista, a diferença é que agora ela conseguiu voltar ao mundo digital. O visual jovem da “Playboy” não é novidade nenhuma: ele sempre esteve lá, transformando mulheres maduras em bonecas púberes como a própria Barbie aqui citada. Em outras palavras: a “Playboy” nunca esteve tão pedófila.

O ponto principal é: as indústrias fazem o possível e o impossível para se readequarem constantemente ao mercado. A Barbie e a “Playboy” estão inclusas nessa história. Ainda que de maneiras diferentes, ambas lucram (e muito) com a objetificação feminina (no caso da Barbie, um objeto literal). Além dos diferentes impactos que bonecas e revistas pornográficas podem causar nas mulheres (que, de fato, são incomparáveis), ambas não fizeram mais do que sua função: se adequar ao seu novo mercado. A diferença, é que a função da “Playboy” continua a mesma, que é promover prazer masculino heterossexual e lucrar em cima das mulheres. Só que agora o lucro será muito maior, já que a revista não dará um centavo de cachê às moças que mostram seus corpos nus nas capas.

Leia mais
" />