Enquanto escolas de princesas se preocupam em ensinar meninas a serem belas, recatadas e do lar, em um reino longuínquo o verdadeiro conto de fadas feminista acontece. Em escolas islandesas, garotinhas de apenas três anos aprendem que “ser uma princesa” pode ser o mesmo que ter força e coragem.
É por essas e outras que a Islândia é hoje em dia o melhor lugar para se ser mulher, segundo o relatório Global Gender Gap feito pelo World Economic Forum. Ele avalia as disparidades de gênero, como em níveis de educação, participação na economia, representação política, e seus progressos para mostrar os países com os melhores e piores índices de igualdade de gênero. O Brasil ficou, infelizmente, em 85º lugar nesse ranking.
Em reportagem publicada em outubro de 2016, o The Guardian expõe algumas razões para o exemplar nível de igualdade entre homens e mulheres na Islândia. Em um país com uma população de 330 mil, existem 19 creches e escolas primárias que ensinam meninas a serem empoderadas. Uma delas é a creche Reykjavik, em que bonecas não fazem parte da decoração. “Nós treinamos [nossas meninas] para usar suas vozes. Estamos treinando a sua força física. Estamos treinando elas para serem corajosas”, diz a fundadora da escola, Margrét Pála Ólafsdóttir, ao The Guardian.
Mas as pré-escolas feministas não podem ser o único motivo pelo sucesso da Islândia em se tornar o melhor país do mundo para se ser mulher. Redes de escolas como a Reykjavik começaram a aparecer há menos de 20 anos. Todos os bons resultados em igualdade de gêneros vêm de um longo passado de lutas.
Durante séculos, mulheres islandesas ficaram em casa enquanto seus maridos navegavam oceanos. Sem os homens em casa, elas aprenderam a fazer todas as tarefas antes designadas a eles. Viraram fanzendeiras e aprenderam a caçar, além de dar contas das finanças domésticas e, por fim, das do país.
1975 foi um ano decisivo para as mulheres na Islândia. Depois de anos sendo grandes reponsáveis pelo progresso do país, elas se cansaram de receber pouco reconhecimento pelo trabalho pesado e de não ter suficiente representatividade política – até então, somente nove mulheres preenchiam cadeiras no parlamento. Acompanhando a onda de protestos feministas pelo mundo, as islandesas organizaram um ato no dia 24 de outubro de 1975. Mas não foi só o impacto das 25 mil mulheres reunidas na rua que fez o país parar e prestar atenção nas vozes feministas. Além disso, 90% da população feminina parou seus trabalhos, domésticos e profissionais, pelo dia inteiro. Tudo isso provou o quão indispensável elas eram – e ainda são – para o funcionamento do país.
Cinco anos depois, a Islândia teve sua primeira presidente mulher eleita democraticamente. Vigdis Finnbogadottir governou de 1980 até 1996. Nos anos seguintes, outras mudanças significativas aconteceram. O partido Women’s Alliance (Aliança das Mulheres) foi criado e mulheres ganharam mais representatividade parlamentar. Em 2000, as leis de licença maternidade (ou licença paternal, como é chamada em inglês) ganhou uma versão mais igualitária vigente até hoje. Atualmente, cada um dos pais recebe uma licença remunerada de três meses que não pode ser transferida. Depois desse tempo, eles ganham três meses adicionais para dividir entre eles como quiserem.
Por causa do adicional significativo oferecido pela licença, 90 % dos pais islandeses aceitam tirá-la. Isso mudou a vida em família no país. Assim, não só as mulheres voltam mais rápido para o trabalho depois do parto, mas conseguem retomar seu ritmo normal de trabalho – que tinham antes do nascimento – mais rápido também. Além disso, estudos mostram que mesmo depois dos três meses de licença, pais seguem envolvidos nos cuidados das crianças e da casa.
Mesmo assim, nenhuma terra de contos de fadas é totalmente perfeita. Talvez muito menos as de contos de fadas feministas. A luta contra desigualdade de gêneros continua mesmo em países tão bem avaliados nesse tópico, como a Islândia. Mulheres continuam ganhando 14% menos que os homens e ocupam apenas 22% dos cargos de gerência.
As rappers do coletivo de rap feminista Reykjavíkurdætur (também conhecido como Daughters of Reykjavik), Steiney Skuladottir e Bloer Johanusdottir, têm explicações para as desigualdades em um país em que 80% das mulheres trabalham e são 65% da população universitária. As colegas de coletivo acreditam que ainda há muita relutância por parte das mulheres em pedir por salários mais justos. “É como se não quisessemos parecer convencidas. Como se tivessemos que parecer modestas”, diz Bloer.
A experiência na Islândia é um exemplo de como a pressão da população aliada a esforços do governo podem promover mudanças. Entretanto, não pude deixar de me perguntar se as mudanças positivas que levam mulheres na Islândia a terem as mesmas oportunidades que os homens chegam até as mulheres imigrantes.
A organização Multicultural Center (Centro Multicultural), que dá auxílio na integração de imigrantes na Islândia, publicou um estudo em 2014 sobre as discriminações sofridas por imigrantes, em sua grande parte vindos da Polônia e Tailândia. Segundo estátisticas oficiais de 2014, havia até então 732 mulheres e 203 homens de origem tailandesas vivendo na Islândia, e 4462 mulheres e 4909 homens de origem polonesa. O estudo do Centro Multicultural com questionários não foi feito, porém, com essa totalidade dos imigrantes.
Apesar de a Islândia ser um país com baixas taxas de desemprego, o número de imigrantes desempregados por mais de um ano é significativo (o estudo não especificou quantos). 26% dos entrevistados pelo Centro Multicultural apontaram o preconceito étnico como uma das causas para não conseguir emprego. No geral, 61% das mulheres entrevistadas dizem já ter vivido experiências negativas (não só no ambiente de trabalho) na Islândia devido a sua origem étnica.
Apenas 20% das mulheres entrevistadas disseram estar em empregos condizentes com sua educação profissional, enquanto 35% dos homens disseram o mesmo. Algumas das razões para que imigrantes tenham posições inferiores em empresas islandesas ou estejam desempregados são a falta de conhecimento da língua islandesa e a falta de reconhecimento de suas qualificações adquiridas no exterior.
Esses poucos dados já mostram algo que não é relevante só na Islândia, mas em todos os lugares em que se discute feminismo. Feminismo pra quem? Tem que ser pra todas nós. Países desenvolvidos no tema, como a Islândia, tem que levar em consideração cidadãs que não são necessarimente islandesas e as incluir em sua luta. Creio que isso foi o ponto mais difícil do feminismo das décadas passadas e, surpreendetemente, ainda é. E é por essas e outras que não se pode glorificar países europeus achando que o feminismo já obteve seu sucesso pleno aí. Ainda há muito a ser feito por todas nós…
Enquanto escolas de princesas se preocupam em ensinar meninas a serem belas, recatadas e do lar, em um reino longuínquo o verdadeiro conto de fadas feminista acontece. Em escolas islandesas, garotinhas de apenas três anos aprendem que “ser uma princesa” pode ser o mesmo que ter força e coragem.
É por essas e outras que a Islândia é hoje em dia o melhor lugar para se ser mulher, segundo o relatório Global Gender Gap feito pelo World Economic Forum. Ele avalia as disparidades de gênero, como em níveis de educação, participação na economia, representação política, e seus progressos para mostrar os países com os melhores e piores índices de igualdade de gênero. O Brasil ficou, infelizmente, em 85º lugar nesse ranking.
Em reportagem publicada em outubro de 2016, o The Guardian expõe algumas razões para o exemplar nível de igualdade entre homens e mulheres na Islândia. Em um país com uma população de 330 mil, existem 19 creches e escolas primárias que ensinam meninas a serem empoderadas. Uma delas é a creche Reykjavik, em que bonecas não fazem parte da decoração. “Nós treinamos [nossas meninas] para usar suas vozes. Estamos treinando a sua força física. Estamos treinando elas para serem corajosas”, diz a fundadora da escola, Margrét Pála Ólafsdóttir, ao The Guardian.
Mas as pré-escolas feministas não podem ser o único motivo pelo sucesso da Islândia em se tornar o melhor país do mundo para se ser mulher. Redes de escolas como a Reykjavik começaram a aparecer há menos de 20 anos. Todos os bons resultados em igualdade de gêneros vêm de um longo passado de lutas.
Durante séculos, mulheres islandesas ficaram em casa enquanto seus maridos navegavam oceanos. Sem os homens em casa, elas aprenderam a fazer todas as tarefas antes designadas a eles. Viraram fanzendeiras e aprenderam a caçar, além de dar contas das finanças domésticas e, por fim, das do país.
1975 foi um ano decisivo para as mulheres na Islândia. Depois de anos sendo grandes reponsáveis pelo progresso do país, elas se cansaram de receber pouco reconhecimento pelo trabalho pesado e de não ter suficiente representatividade política – até então, somente nove mulheres preenchiam cadeiras no parlamento. Acompanhando a onda de protestos feministas pelo mundo, as islandesas organizaram um ato no dia 24 de outubro de 1975. Mas não foi só o impacto das 25 mil mulheres reunidas na rua que fez o país parar e prestar atenção nas vozes feministas. Além disso, 90% da população feminina parou seus trabalhos, domésticos e profissionais, pelo dia inteiro. Tudo isso provou o quão indispensável elas eram – e ainda são – para o funcionamento do país.
Cinco anos depois, a Islândia teve sua primeira presidente mulher eleita democraticamente. Vigdis Finnbogadottir governou de 1980 até 1996. Nos anos seguintes, outras mudanças significativas aconteceram. O partido Women’s Alliance (Aliança das Mulheres) foi criado e mulheres ganharam mais representatividade parlamentar. Em 2000, as leis de licença maternidade (ou licença paternal, como é chamada em inglês) ganhou uma versão mais igualitária vigente até hoje. Atualmente, cada um dos pais recebe uma licença remunerada de três meses que não pode ser transferida. Depois desse tempo, eles ganham três meses adicionais para dividir entre eles como quiserem.
Por causa do adicional significativo oferecido pela licença, 90 % dos pais islandeses aceitam tirá-la. Isso mudou a vida em família no país. Assim, não só as mulheres voltam mais rápido para o trabalho depois do parto, mas conseguem retomar seu ritmo normal de trabalho – que tinham antes do nascimento – mais rápido também. Além disso, estudos mostram que mesmo depois dos três meses de licença, pais seguem envolvidos nos cuidados das crianças e da casa.
Mesmo assim, nenhuma terra de contos de fadas é totalmente perfeita. Talvez muito menos as de contos de fadas feministas. A luta contra desigualdade de gêneros continua mesmo em países tão bem avaliados nesse tópico, como a Islândia. Mulheres continuam ganhando 14% menos que os homens e ocupam apenas 22% dos cargos de gerência.
As rappers do coletivo de rap feminista Reykjavíkurdætur (também conhecido como Daughters of Reykjavik), Steiney Skuladottir e Bloer Johanusdottir, têm explicações para as desigualdades em um país em que 80% das mulheres trabalham e são 65% da população universitária. As colegas de coletivo acreditam que ainda há muita relutância por parte das mulheres em pedir por salários mais justos. “É como se não quisessemos parecer convencidas. Como se tivessemos que parecer modestas”, diz Bloer.
A experiência na Islândia é um exemplo de como a pressão da população aliada a esforços do governo podem promover mudanças. Entretanto, não pude deixar de me perguntar se as mudanças positivas que levam mulheres na Islândia a terem as mesmas oportunidades que os homens chegam até as mulheres imigrantes.
A organização Multicultural Center (Centro Multicultural), que dá auxílio na integração de imigrantes na Islândia, publicou um estudo em 2014 sobre as discriminações sofridas por imigrantes, em sua grande parte vindos da Polônia e Tailândia. Segundo estátisticas oficiais de 2014, havia até então 732 mulheres e 203 homens de origem tailandesas vivendo na Islândia, e 4462 mulheres e 4909 homens de origem polonesa. O estudo do Centro Multicultural com questionários não foi feito, porém, com essa totalidade dos imigrantes.
Apesar de a Islândia ser um país com baixas taxas de desemprego, o número de imigrantes desempregados por mais de um ano é significativo (o estudo não especificou quantos). 26% dos entrevistados pelo Centro Multicultural apontaram o preconceito étnico como uma das causas para não conseguir emprego. No geral, 61% das mulheres entrevistadas dizem já ter vivido experiências negativas (não só no ambiente de trabalho) na Islândia devido a sua origem étnica.
Apenas 20% das mulheres entrevistadas disseram estar em empregos condizentes com sua educação profissional, enquanto 35% dos homens disseram o mesmo. Algumas das razões para que imigrantes tenham posições inferiores em empresas islandesas ou estejam desempregados são a falta de conhecimento da língua islandesa e a falta de reconhecimento de suas qualificações adquiridas no exterior.
Esses poucos dados já mostram algo que não é relevante só na Islândia, mas em todos os lugares em que se discute feminismo. Feminismo pra quem? Tem que ser pra todas nós. Países desenvolvidos no tema, como a Islândia, tem que levar em consideração cidadãs que não são necessarimente islandesas e as incluir em sua luta. Creio que isso foi o ponto mais difícil do feminismo das décadas passadas e, surpreendetemente, ainda é. E é por essas e outras que não se pode glorificar países europeus achando que o feminismo já obteve seu sucesso pleno aí. Ainda há muito a ser feito por todas nós…
Ilustração exclusiva feita por Thais Cortez (a.k.a. Emily)
Enquanto escolas de princesas se preocupam em ensinar meninas a serem belas, recatadas e do lar, em um reino longuínquo o verdadeiro conto de fadas feminista acontece. Em escolas islandesas, garotinhas de apenas três anos aprendem que “ser uma princesa” pode ser o mesmo que ter força e coragem.
É por essas e outras que a Islândia é hoje em dia o melhor lugar para se ser mulher, segundo o relatório Global Gender Gap feito pelo World Economic Forum. Ele avalia as disparidades de gênero, como em níveis de educação, participação na economia, representação política, e seus progressos para mostrar os países com os melhores e piores índices de igualdade de gênero. O Brasil ficou, infelizmente, em 85º lugar nesse ranking.
Em reportagem publicada em outubro de 2016, o The Guardian expõe algumas razões para o exemplar nível de igualdade entre homens e mulheres na Islândia. Em um país com uma população de 330 mil, existem 19 creches e escolas primárias que ensinam meninas a serem empoderadas. Uma delas é a creche Reykjavik, em que bonecas não fazem parte da decoração. “Nós treinamos [nossas meninas] para usar suas vozes. Estamos treinando a sua força física. Estamos treinando elas para serem corajosas”, diz a fundadora da escola, Margrét Pála Ólafsdóttir, ao The Guardian.
Mas as pré-escolas feministas não podem ser o único motivo pelo sucesso da Islândia em se tornar o melhor país do mundo para se ser mulher. Redes de escolas como a Reykjavik começaram a aparecer há menos de 20 anos. Todos os bons resultados em igualdade de gêneros vêm de um longo passado de lutas.
Durante séculos, mulheres islandesas ficaram em casa enquanto seus maridos navegavam oceanos. Sem os homens em casa, elas aprenderam a fazer todas as tarefas antes designadas a eles. Viraram fanzendeiras e aprenderam a caçar, além de dar contas das finanças domésticas e, por fim, das do país.
1975 foi um ano decisivo para as mulheres na Islândia. Depois de anos sendo grandes reponsáveis pelo progresso do país, elas se cansaram de receber pouco reconhecimento pelo trabalho pesado e de não ter suficiente representatividade política – até então, somente nove mulheres preenchiam cadeiras no parlamento. Acompanhando a onda de protestos feministas pelo mundo, as islandesas organizaram um ato no dia 24 de outubro de 1975. Mas não foi só o impacto das 25 mil mulheres reunidas na rua que fez o país parar e prestar atenção nas vozes feministas. Além disso, 90% da população feminina parou seus trabalhos, domésticos e profissionais, pelo dia inteiro. Tudo isso provou o quão indispensável elas eram – e ainda são – para o funcionamento do país.
Cinco anos depois, a Islândia teve sua primeira presidente mulher eleita democraticamente. Vigdis Finnbogadottir governou de 1980 até 1996. Nos anos seguintes, outras mudanças significativas aconteceram. O partido Women’s Alliance (Aliança das Mulheres) foi criado e mulheres ganharam mais representatividade parlamentar. Em 2000, as leis de licença maternidade (ou licença paternal, como é chamada em inglês) ganhou uma versão mais igualitária vigente até hoje. Atualmente, cada um dos pais recebe uma licença remunerada de três meses que não pode ser transferida. Depois desse tempo, eles ganham três meses adicionais para dividir entre eles como quiserem.
Por causa do adicional significativo oferecido pela licença, 90 % dos pais islandeses aceitam tirá-la. Isso mudou a vida em família no país. Assim, não só as mulheres voltam mais rápido para o trabalho depois do parto, mas conseguem retomar seu ritmo normal de trabalho – que tinham antes do nascimento – mais rápido também. Além disso, estudos mostram que mesmo depois dos três meses de licença, pais seguem envolvidos nos cuidados das crianças e da casa.
Mesmo assim, nenhuma terra de contos de fadas é totalmente perfeita. Talvez muito menos as de contos de fadas feministas. A luta contra desigualdade de gêneros continua mesmo em países tão bem avaliados nesse tópico, como a Islândia. Mulheres continuam ganhando 14% menos que os homens e ocupam apenas 22% dos cargos de gerência.
[caption id="attachment_12136" align="aligncenter" width="1600"] As integrantes do grupo de rap feminista Reykjavíkurdætur (via)[/caption]
As rappers do coletivo de rap feminista Reykjavíkurdætur (também conhecido como Daughters of Reykjavik), Steiney Skuladottir e Bloer Johanusdottir, têm explicações para as desigualdades em um país em que 80% das mulheres trabalham e são 65% da população universitária. As colegas de coletivo acreditam que ainda há muita relutância por parte das mulheres em pedir por salários mais justos. “É como se não quisessemos parecer convencidas. Como se tivessemos que parecer modestas”, diz Bloer.
A experiência na Islândia é um exemplo de como a pressão da população aliada a esforços do governo podem promover mudanças. Entretanto, não pude deixar de me perguntar se as mudanças positivas que levam mulheres na Islândia a terem as mesmas oportunidades que os homens chegam até as mulheres imigrantes.
A organização Multicultural Center (Centro Multicultural), que dá auxílio na integração de imigrantes na Islândia, publicou um estudo em 2014 sobre as discriminações sofridas por imigrantes, em sua grande parte vindos da Polônia e Tailândia. Segundo estátisticas oficiais de 2014, havia até então 732 mulheres e 203 homens de origem tailandesas vivendo na Islândia, e 4462 mulheres e 4909 homens de origem polonesa. O estudo do Centro Multicultural com questionários não foi feito, porém, com essa totalidade dos imigrantes.
Apesar de a Islândia ser um país com baixas taxas de desemprego, o número de imigrantes desempregados por mais de um ano é significativo (o estudo não especificou quantos). 26% dos entrevistados pelo Centro Multicultural apontaram o preconceito étnico como uma das causas para não conseguir emprego. No geral, 61% das mulheres entrevistadas dizem já ter vivido experiências negativas (não só no ambiente de trabalho) na Islândia devido a sua origem étnica.
Apenas 20% das mulheres entrevistadas disseram estar em empregos condizentes com sua educação profissional, enquanto 35% dos homens disseram o mesmo. Algumas das razões para que imigrantes tenham posições inferiores em empresas islandesas ou estejam desempregados são a falta de conhecimento da língua islandesa e a falta de reconhecimento de suas qualificações adquiridas no exterior.
Esses poucos dados já mostram algo que não é relevante só na Islândia, mas em todos os lugares em que se discute feminismo. Feminismo pra quem? Tem que ser pra todas nós. Países desenvolvidos no tema, como a Islândia, tem que levar em consideração cidadãs que não são necessarimente islandesas e as incluir em sua luta. Creio que isso foi o ponto mais difícil do feminismo das décadas passadas e, surpreendetemente, ainda é. E é por essas e outras que não se pode glorificar países europeus achando que o feminismo já obteve seu sucesso pleno aí. Ainda há muito a ser feito por todas nós…
Ontem paguei uma passagem de 1 Euro e 90 cents e fui de Berlim ao Brasil. Pelo menos foi essa a sensação ao entrar na casa de shows Huxleys Neue Welt, no bairro descolado de Kreuzberg. Foi ali que a deusa Elza Soares dominou o palco.
Antes do show já se ouvia só português na pista. Mesmo assim, o pessoal se atrapalhava na hora de usar palavras como “com licença” e “desculpa” para passar. Afinal, não é toda noite que se chega assim tão rápido ao Brasil. Mas entre o público majoritariamente brasileiro, claro que havia alguns estrangeiros.
Elza entrou de fininho. Confesso que nem percebi. Foi tudo muito discreto. Quando vi, Elza já estava ali sentada em uma cadeira prateada, segurando um microfone, com sua roupa toda preta, uma saia longa prateada que descia as escadas até a beira do palco, parecendo raízes. Aquele era o seu trono.
“A Mulher do Fim do Mundo” está sendo divulgado em sua turnê pela Europa. Primeiro cantou “Coração do Mar” e, em seguida, a música que dá nome ao seu novo álbum. Seguiu com o “Canal” e “Luz Vermelha” e depois dessas o público já estava bem aquecido. Já estávamos preparados para a força com que Elza nos atingiu ao cantar “a carne mais barata do mercado é a carne neeeegra”. Uma de suas antigas canções com letra muito atual. A cantora com mais de 50 anos de carreira finalizou a música com um “Sou Elza, sou negra, negra, negra!” .
“Dança” e “Firmeza”, também do novo álbum, foram as próximas e ao final da última, já se ouvia um “Fora Temer” vindo o público. O coro ficou forte por alguns segundos, mas logo passou quando Elza pediu silêncio para falar de um assunto muito sério. “Presta atenção, mulherada”, foi o que disse para emendar com a mais marcante de suas novas canções, a “Maria da Vila Matilde”. O subtítulo dessa música fala muito sobre ela: “Porque se a da Penha é brava, imagina a da Vila Matilde”.
Pra quem ainda não escutou, vou citar Elza e dizer “presta atenção, mulherada”. A letra é o enfrentamento corajoso de uma mulher com seu parceiro, em que ela diz o que vai fazer se ele a agredir. O refrão “Cê vai se arrepender, se levantar a mão pra mim” é a marca desse último álbum da musa do samba. Elza sabe disso e parece se orgulhar, pois fez o público cantar essa parte em alto e bom tom com ela. O coro de tantas mulheres dizendo isso passou um sentimento empoderador. E para completar esse momento, veio o conselho da Dona Elza a todas nós: “Mulheres, se liguem! Denunciem! Mulher tem que falar, tem que gritar, gritar, gritar. E gemer só se for de prazer”. Risadas, aplausos e gritos se espalharam pela pista.
Era o efeito Elza Soares no público, que tão longe de casa, se sentia de novo perto daquela brasilidade malandra e corajosa.
A próxima música trouxe uma surpresa. No palco entrou um homem de calça preta e uma camiseta marrom, caminhando, se contorcendo e parecendo confuso. Era o ator e cantor Rubi que acompanha a rainha na interpretação de “Benedita”, uma fera ferida que traz o cartucho na teta, abre a navalha na boca e tem uma dupla caceta. Rubi fazia caras e bocas para o público e ficava sério ao olhar para Elza, como se olhasse para um ser superior.
Depois dos agradecimentos de Elza por sua performance, Rubi deitou a cabeça no colo da cantora. Ela passou a mão em sua cabeça e disse “deixa eu te secar que você está todo molhadinho”, arrancando mais risadas dos brasileiros, únicos que entenderam a piada. Quando a explosão de risos terminou, Elza olhou para Rubi: “Vou te contar uma história…”.
Veio o sambinha “Malandro”, mais uma de suas antigas músicas. Nisso, já estava arriscando uns passinhos de samba. Eu e o pessoal ao meu redor.
Rubi se levantou ao final da música e beijou a mão de Elza. Com ele, todos os músicos se levantaram e se colocaram em volta da cantora. Em postos, de pernas semiabertas e braços ao lado do corpo, pareciam ser seus seguidores. Seus súditos. Elza no meio cantou à capela “Comigo”, em que fala de sua mãe. Para completar o momento que deixou muitos calados na plateia, foi recitado o poema de Murilo Mendes, “Metade Pássaro”, de 1941:
A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas. (…)
Alguns achavam que esse seria o grand finale de uma noite cheia de emoções. Mas ela não poderia sair antes de dizer o que muitos de nós precisavam ouvir em meio a tanta desesperança com a intolerância que se espalha no mundo (com Temer, Trump e partidos de direita radical que crescem na Alemanha)… “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.
Após um bis de “Maria da Vila Matilde”, em que todo mundo cantou junto de novo o refrão, a cantora deixou o palco com onda de aplausos e gritos de “Elza maravilhosa!”.
No dia anterior ao show, tive a oportunidade de ver Elza de pertinho depois da exibição do filme “My Name is Now”, um documentário da diretora Elisabete Campos. O longa não se baseia tanto na vida de Elza – sofrida depois de se casar aos 12 anos, ser chamada nacionalmente de “vadia” por seu relacionamento com Garrincha e perder cinco filhos –, mas na personalidade e música. Elza diz no filme que comeu o pão que o diabo amassou com os pés e, mesmo assim, está aqui, vivendo o agora.
Na Embaixada Brasileira em Berlim, a cantora de 78 anos se dispôs a tirar fotos com os espectadores depois do filme. Sentadinha em uma cadeira, sem se mexer muito e falando até meio baixo, Elza parecia uma senhora tranquila. Não parecia aquele furacão de mulher que vi no documentário. Mas no palco, Elza Soares é outra coisa. Me surpreendeu. Ali, ela estava onde deveria estar. A voz rouca entoada no microfone desperta o furacão. Mesmo fazendo o show sentada, Elza domina o palco, a pista, o público. É uma verdadeira deusa.
Enquanto escolas de princesas se preocupam em ensinar meninas a serem belas, recatadas e do lar, em um reino longuínquo o verdadeiro conto de fadas feminista acontece. Em escolas islandesas, garotinhas de apenas três anos aprendem que “ser uma princesa” pode ser o mesmo que ter força e coragem.
É por essas e outras que a Islândia é hoje em dia o melhor lugar para se ser mulher, segundo o relatório Global Gender Gap feito pelo World Economic Forum. Ele avalia as disparidades de gênero, como em níveis de educação, participação na economia, representação política, e seus progressos para mostrar os países com os melhores e piores índices de igualdade de gênero. O Brasil ficou, infelizmente, em 85º lugar nesse ranking.
Em reportagem publicada em outubro de 2016, o The Guardian expõe algumas razões para o exemplar nível de igualdade entre homens e mulheres na Islândia. Em um país com uma população de 330 mil, existem 19 creches e escolas primárias que ensinam meninas a serem empoderadas. Uma delas é a creche Reykjavik, em que bonecas não fazem parte da decoração. “Nós treinamos [nossas meninas] para usar suas vozes. Estamos treinando a sua força física. Estamos treinando elas para serem corajosas”, diz a fundadora da escola, Margrét Pála Ólafsdóttir, ao The Guardian.
Mas as pré-escolas feministas não podem ser o único motivo pelo sucesso da Islândia em se tornar o melhor país do mundo para se ser mulher. Redes de escolas como a Reykjavik começaram a aparecer há menos de 20 anos. Todos os bons resultados em igualdade de gêneros vêm de um longo passado de lutas.
Durante séculos, mulheres islandesas ficaram em casa enquanto seus maridos navegavam oceanos. Sem os homens em casa, elas aprenderam a fazer todas as tarefas antes designadas a eles. Viraram fanzendeiras e aprenderam a caçar, além de dar contas das finanças domésticas e, por fim, das do país.
1975 foi um ano decisivo para as mulheres na Islândia. Depois de anos sendo grandes reponsáveis pelo progresso do país, elas se cansaram de receber pouco reconhecimento pelo trabalho pesado e de não ter suficiente representatividade política – até então, somente nove mulheres preenchiam cadeiras no parlamento. Acompanhando a onda de protestos feministas pelo mundo, as islandesas organizaram um ato no dia 24 de outubro de 1975. Mas não foi só o impacto das 25 mil mulheres reunidas na rua que fez o país parar e prestar atenção nas vozes feministas. Além disso, 90% da população feminina parou seus trabalhos, domésticos e profissionais, pelo dia inteiro. Tudo isso provou o quão indispensável elas eram – e ainda são – para o funcionamento do país.
Cinco anos depois, a Islândia teve sua primeira presidente mulher eleita democraticamente. Vigdis Finnbogadottir governou de 1980 até 1996. Nos anos seguintes, outras mudanças significativas aconteceram. O partido Women’s Alliance (Aliança das Mulheres) foi criado e mulheres ganharam mais representatividade parlamentar. Em 2000, as leis de licença maternidade (ou licença paternal, como é chamada em inglês) ganhou uma versão mais igualitária vigente até hoje. Atualmente, cada um dos pais recebe uma licença remunerada de três meses que não pode ser transferida. Depois desse tempo, eles ganham três meses adicionais para dividir entre eles como quiserem.
Por causa do adicional significativo oferecido pela licença, 90 % dos pais islandeses aceitam tirá-la. Isso mudou a vida em família no país. Assim, não só as mulheres voltam mais rápido para o trabalho depois do parto, mas conseguem retomar seu ritmo normal de trabalho – que tinham antes do nascimento – mais rápido também. Além disso, estudos mostram que mesmo depois dos três meses de licença, pais seguem envolvidos nos cuidados das crianças e da casa.
Mesmo assim, nenhuma terra de contos de fadas é totalmente perfeita. Talvez muito menos as de contos de fadas feministas. A luta contra desigualdade de gêneros continua mesmo em países tão bem avaliados nesse tópico, como a Islândia. Mulheres continuam ganhando 14% menos que os homens e ocupam apenas 22% dos cargos de gerência.
As rappers do coletivo de rap feminista Reykjavíkurdætur (também conhecido como Daughters of Reykjavik), Steiney Skuladottir e Bloer Johanusdottir, têm explicações para as desigualdades em um país em que 80% das mulheres trabalham e são 65% da população universitária. As colegas de coletivo acreditam que ainda há muita relutância por parte das mulheres em pedir por salários mais justos. “É como se não quisessemos parecer convencidas. Como se tivessemos que parecer modestas”, diz Bloer.
A experiência na Islândia é um exemplo de como a pressão da população aliada a esforços do governo podem promover mudanças. Entretanto, não pude deixar de me perguntar se as mudanças positivas que levam mulheres na Islândia a terem as mesmas oportunidades que os homens chegam até as mulheres imigrantes.
A organização Multicultural Center (Centro Multicultural), que dá auxílio na integração de imigrantes na Islândia, publicou um estudo em 2014 sobre as discriminações sofridas por imigrantes, em sua grande parte vindos da Polônia e Tailândia. Segundo estátisticas oficiais de 2014, havia até então 732 mulheres e 203 homens de origem tailandesas vivendo na Islândia, e 4462 mulheres e 4909 homens de origem polonesa. O estudo do Centro Multicultural com questionários não foi feito, porém, com essa totalidade dos imigrantes.
Apesar de a Islândia ser um país com baixas taxas de desemprego, o número de imigrantes desempregados por mais de um ano é significativo (o estudo não especificou quantos). 26% dos entrevistados pelo Centro Multicultural apontaram o preconceito étnico como uma das causas para não conseguir emprego. No geral, 61% das mulheres entrevistadas dizem já ter vivido experiências negativas (não só no ambiente de trabalho) na Islândia devido a sua origem étnica.
Apenas 20% das mulheres entrevistadas disseram estar em empregos condizentes com sua educação profissional, enquanto 35% dos homens disseram o mesmo. Algumas das razões para que imigrantes tenham posições inferiores em empresas islandesas ou estejam desempregados são a falta de conhecimento da língua islandesa e a falta de reconhecimento de suas qualificações adquiridas no exterior.
Esses poucos dados já mostram algo que não é relevante só na Islândia, mas em todos os lugares em que se discute feminismo. Feminismo pra quem? Tem que ser pra todas nós. Países desenvolvidos no tema, como a Islândia, tem que levar em consideração cidadãs que não são necessarimente islandesas e as incluir em sua luta. Creio que isso foi o ponto mais difícil do feminismo das décadas passadas e, surpreendetemente, ainda é. E é por essas e outras que não se pode glorificar países europeus achando que o feminismo já obteve seu sucesso pleno aí. Ainda há muito a ser feito por todas nós…