Entrevista: Jiz Lee, porn star genderqueer

Jiz Lee por Morgan Weinret

Jiz Lee é porn star! Também é genderqueer ou pessoa não binária, o que significa que não se identifica como homem, nem como mulher (ou como ambos ao mesmo tempo). Como jornalista, descobri isso da pior forma possível, mas também da mais educativa. Foi em uma entrevista que me referi a ela como “mulher” que recebi a correção. Não faz mal, aprendi e aqui estou passando o aprendizado que tive de Jiz Lee adiante.

Mas o que me levou até Jiz Lee foi o seu trabalho na indústria pornô queer. Alguns de seus projetos foram exibidos recentemente na premiação de pornô feminista, PorYes 2015, em Berlim. Jiz Lee não poderia estar mais bem encaixadx na premiação, que tinha como tema a transexualidade – também no sentido de ultrapassar normas de gênero.  Seus filmes pornôs fogem dos padrões, das normas e mostram que todxs podem ser sexy e que sexo e sexualidade têm muito mais variações do que as mostradas na pornografia comercial.

A seguir, a conversa que tive com Jiz Lee para a Ovelha antes da premiação ProYes 2015:

 
OVELHA: Como você começou sua carreira dentro da cena pornô queer e feminista?

JIZ LEE: Não era uma carreira até que minha curiosidade e espírito de aventura sobre trabalhar com pornografia levou a isso. Quando eu comecei há 10 anos, grande parte do meu trabalho era – e ainda é – sobre explorar dinâmicas de como ser sensual em frente à câmera, como se sentir durante a performance, e como se engajar à experiência. É sobre como meu corpo se encaixa no trabalho.

Minha expressão de gênero não é comumente vista como desejável. Como um diretor uma vez me disse, eu não sou “bonita para pornô” (“porn pretty”). E eu não quero ser, o que é algo que eu associo como feminilidade. Eu não sou uma mulher. E não tenho o desejo de ser feminina para o espectador masculino, e isso não faz parte da minha performance sexual. No meu trabalho, eu quero me conectar com a outra pessoa na cena, e compartilhar esse estímulo sexual com quem quer eu esteja assistindo – lembrando que a audiência de filmes pornôs pode ser mais do que homens heteros cis. Espectadores podem ser mulheres cis, mulheres trans, homens trans, ou outras pessoas não binárias, pessoas de todos as orientações, desejos e curiosidades. Espectadores podem ter uma série de corpos e habilidades que ultrapassam a experiência humana.

Corpos na pornografia não precisam ser necessariamente limitados em como eles se parecem ou desempenham.  Eu espero que o meu corpo, fazendo o que me faz bem, consiga fazer algo que as outras pessoas também possam curtir.

 

O: Como foi para você, como uma mulher, se admitir como porn star e expressar sua sexualidade em frente à câmera?

 J.L.: Ressalto que eu não sou uma mulher. Pessoas genderqueer podem se identificar com nenhum dos sexos ou com ambos, independente do que lhes foi atribuído no nascimento. Eu, com certeza, fui socializada como uma mulher e com pressões sociais. E eu ainda sinto isso todos os dias, sendo frequentemente confundida por uma mulher. Mesmo não me parecendo como uma mulher, eu ainda sofro com misoginia – até o homem que parece mais macho pode experienciar misoginia ou interioriza-la a ponto de pressioná-lo a agir e se parecer de alguma forma. Um dos maiores perigos na nossa sociedade é o medo de se parecer com nos mesmos e as consequências desse medo.

Acho que achei liberdade estando no meio, no espaço “outros” de gêneros e sexualidade. Sendo queer, eu senti menos pressão para agir de forma feminina (muitas pessoas gostam de ser femininas e expressar isso de diferentes maneiras, o que é lindo). Porém, para mim, foi um alívio entender que eu não tenho mais que me depilar para provocar desejo sexual como pessoa. Entender que posso ser eu mesmx e ser sexy foi uma revelação.

Sou gratx por conseguir aceitar mais o meu próprio corpo como ele existe, a ama-lo, mantê-lo saudável e honrar minha vida com prazer. Eu encontrei muita alegria na sexualidade e sinto alegria em poder compartilhar isso com os outros.

 

O: Como a pornografia queer e feminista pode ajudar mulheres a expressarem sua sexualidade de forma mais livre, sendo em frente à câmera ou como espectadores?

J.L.: Isso é o espectador que deve decidir. Nós assistimos pornôs de diferentes maneiras e por diferentes motivos (do mesmo modo como fazemos sexos de diferentes maneiras e por diferentes razões). Acho que o melhor conselho é não se envergonhar de sua sexualidade, não ter medo de gostar de assistir pornografia ou de fazer sexo, contando que você possa fazer isso de forma consensual e segura com você mesmo ou com outras pessoas.

Jiz Lee ┬®PollyFannlaf ┬®poryes

O: Você acredita que a pornografia queer e feminista pode vir a desenvolver outra forma com que mulheres são tratadas na indústria de filme adultos que, algumas vezes, pode ser hostil às mulheres?

J.L.: Eu discordo da ideia de que muitas vezes a indústria pornográfica seja um ambiente hostil para mulheres trabalharem. A sociedade normalmente tem essa ideia de estigmas associados a mulheres que são donas de sua própria sexualidade, e a mídia sensacionalista continua a promover estereótipos de que a mulher não é capaz de ter agência sobre sua sexualidade – que para ser hiper sexuais, elas devem ter sido coagidas, drogadas ou vitimizadas. A indústria pode ter uma definição restrita de sexualidade e como expressá-la, e isso pode levar a desigualdades em diferentes níveis (racismo, cissexismo, para dizer alguns), porém pode ser argumentado que a indústria pornográfica tem mais ideais feministas que outros gêneros hollywoodianos, por exemplo. As mulheres estão no controle delas mesmas, do que elas querem fazer nos filmes, e de muitos outros aspectos de suas carreiras – se não, a culpa maior é da sociedade do que da indústria centralizada em sexo.

Eu tento lembrar a todo mundo que não existe essa coisa chamada de “bad porn vs. good porn” e que o trabalho com sexo e feminismo não são coisas opostas. Devemos considerar a pessoa que trabalha em pornôs como um agente de consentimento, não importa qual seja sua interpretação na narrativa do filme (a maioria dos pornôs foi feito em torno de fantasia, assim como Hollywood!). Considere mulheres como sendo adultos capazes de fazer decisões sobre sua sexualidade e sua saúde e isso inclui mulheres adultas trabalhando na indústria pornográfica.

 

O: Um dos seus projetos mais recentes é o livro “Coming Out Like a Porn Star”. Como foi a experiência de ouvir e contar essas histórias – consigo imaginar que muitas dessas pessoas estavam contando suas histórias pela primeira vez?

J.L.: Tenho muito orgulho do “Coming Out like a Porn Star”. Ele tem mais de 50 contribuições. E sim, para a maioria deles, escrever foi uma novidade. O que foi importante para mim foi preservar as vozes dos autores para permitir com que suas histórias fossem contadas de forma honesta. Apesar da diversidade de autores, que trabalham em várias partes da indústria, nós todos já sofremos estigmas. De fato, estigma provou ser um dos nossos maiores obstáculos. As histórias falam sobre isso de maneira engraçada, triste, inspiradora e compartilham nossa humanidade. Acho que isso terá um impacto.

 

O: No seu blog, você escreve que trabalhar com homens cis é algo raro e um dos poucos filmes que você fez foi “Girl/Boy” com Manuel Ferrara. E você também escreve que um dos motivos para isso é que você não se encaixa em certos padrões – como você disse que não se encaixa no padrão “porn pretty”. Mas um dos objetivos de filmes pornôs feministas não é exatamente ir contra esses padrões?

J.L.: Pornô feminista pode ser muitas coisas. Eu acredito que todo pornô pode ter qualidades feministas. Eu vejo feminismo como uma ferramenta analítica que é cedida para discussão. É verdade que muitos diretores que se identificam como feministas tentam fazer trabalhos que diferem da pornografia convencional e comercial – mas eu não chamaria esse último de não feminista, entende? Eu defendo fortemente mais diversidade e que mais tipos de pornografia sejam feitos e celebrados. Quando apenas um tipo de pornografia existe, pinta-se um retrato de quem pode ser sexy e quem não. A verdade é que todos nós somos capazes de ter uma sexualidade feliz e saudável, de ser desejadx e amadx e de nos ver refletidos na mídia dessa forma.

 
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Fotos: Polly Fannlaf © poryes e Morgan Weinert

Escrito por
Mais de Débora Backes

Islândia: o melhor país para mulheres

Enquanto escolas de princesas se preocupam em ensinar meninas a serem belas, recatadas e do lar, em um reino longuínquo o verdadeiro conto de fadas feminista acontece. Em escolas islandesas, garotinhas de apenas três anos aprendem que “ser uma princesa” pode ser o mesmo que ter força e coragem.

É por essas e outras que a Islândia é hoje em dia o melhor lugar para se ser mulher, segundo o relatório Global Gender Gap feito pelo World Economic Forum. Ele avalia as disparidades de gênero, como em níveis de educação, participação na economia, representação política, e seus progressos para mostrar os países com os melhores e piores índices de igualdade de gênero. O Brasil ficou, infelizmente, em 85º lugar nesse ranking.

Em reportagem publicada em outubro de 2016, o The Guardian expõe algumas razões para o exemplar nível de igualdade entre homens e mulheres na Islândia. Em um país com uma população de 330 mil, existem 19 creches e escolas primárias que ensinam meninas a serem empoderadas. Uma delas é a creche Reykjavik, em que bonecas não fazem parte da decoração. “Nós treinamos [nossas meninas] para usar suas vozes. Estamos treinando a sua força física. Estamos treinando elas para serem corajosas”, diz a fundadora da escola, Margrét Pála Ólafsdóttir, ao The Guardian.

Mas as pré-escolas feministas não podem ser o único motivo pelo sucesso da Islândia em se tornar o melhor país do mundo para se ser mulher. Redes de escolas como a Reykjavik começaram a aparecer há menos de 20 anos. Todos os bons resultados em igualdade de gêneros vêm de um longo passado de lutas.

Durante séculos, mulheres islandesas ficaram em casa enquanto seus maridos navegavam oceanos. Sem os homens em casa, elas aprenderam a fazer todas as tarefas antes designadas a eles. Viraram fanzendeiras e aprenderam a caçar, além de dar contas das finanças domésticas e, por fim, das do país.

1975 foi um ano decisivo para as mulheres na Islândia. Depois de anos sendo grandes reponsáveis pelo progresso do país, elas se cansaram de receber pouco reconhecimento pelo trabalho pesado e de não ter suficiente representatividade política – até então, somente nove mulheres preenchiam cadeiras no parlamento. Acompanhando a onda de protestos feministas pelo mundo, as islandesas organizaram um ato no dia 24 de outubro de 1975. Mas não foi só o impacto das 25 mil mulheres reunidas na rua que fez o país parar e prestar atenção nas vozes feministas. Além disso, 90% da população feminina parou seus trabalhos, domésticos e profissionais, pelo dia inteiro. Tudo isso provou o quão indispensável elas eram – e ainda são – para o funcionamento do país.

Cinco anos depois, a Islândia teve sua primeira presidente mulher eleita democraticamente. Vigdis Finnbogadottir governou de 1980 até 1996. Nos anos seguintes, outras mudanças significativas aconteceram. O partido Women’s Alliance (Aliança das Mulheres) foi criado e mulheres ganharam mais representatividade parlamentar. Em 2000, as leis de licença maternidade (ou licença paternal, como é chamada em inglês) ganhou uma versão mais igualitária vigente até hoje. Atualmente, cada um dos pais recebe uma licença remunerada de três meses que não pode ser transferida. Depois desse tempo, eles ganham três meses adicionais para dividir entre eles como quiserem.

Por causa do adicional significativo oferecido pela licença, 90 % dos pais islandeses aceitam tirá-la. Isso mudou a vida em família no país. Assim, não só as mulheres voltam mais rápido para o trabalho depois do parto, mas conseguem retomar seu ritmo normal de trabalho – que tinham antes do nascimento – mais rápido também. Além disso, estudos mostram que mesmo depois dos três meses de licença, pais seguem envolvidos nos cuidados das crianças e da casa.

Mesmo assim, nenhuma terra de contos de fadas é totalmente perfeita. Talvez muito menos as de contos de fadas feministas. A luta contra desigualdade de gêneros continua mesmo em países tão bem avaliados nesse tópico, como a Islândia. Mulheres continuam ganhando 14% menos que os homens e ocupam apenas 22% dos cargos de gerência.

 

As rappers do coletivo de rap feminista Reykjavíkurdætur (também conhecido como Daughters of Reykjavik), Steiney Skuladottir e Bloer Johanusdottir, têm explicações para as desigualdades em um país em que 80% das mulheres trabalham e são 65% da população universitária. As colegas de coletivo acreditam que ainda há muita relutância por parte das mulheres em pedir por salários mais justos. “É como se não quisessemos parecer convencidas. Como se tivessemos que parecer modestas”, diz Bloer.

A experiência na Islândia é um exemplo de como a pressão da população aliada a esforços do governo podem promover mudanças. Entretanto, não pude deixar de me perguntar se as mudanças positivas que levam mulheres na Islândia a terem as mesmas oportunidades que os homens chegam até as mulheres imigrantes.

A organização Multicultural Center (Centro Multicultural), que dá auxílio na integração de imigrantes na Islândia, publicou um estudo em 2014 sobre as discriminações sofridas por imigrantes, em sua grande parte vindos da Polônia e Tailândia. Segundo estátisticas oficiais de 2014, havia até então 732 mulheres e 203 homens de origem tailandesas vivendo na Islândia, e 4462 mulheres e 4909 homens de origem polonesa. O estudo do Centro Multicultural com questionários não foi feito, porém, com essa totalidade dos imigrantes.

Apesar de a Islândia ser um país com baixas taxas de desemprego, o número de imigrantes desempregados por mais de um ano é significativo (o estudo não especificou quantos). 26% dos entrevistados pelo Centro Multicultural apontaram o preconceito étnico como uma das causas para não conseguir emprego. No geral, 61% das mulheres entrevistadas dizem já ter vivido experiências negativas (não só no ambiente de trabalho) na Islândia devido a sua origem étnica.

Apenas 20% das mulheres entrevistadas disseram estar em empregos condizentes com sua educação profissional, enquanto 35% dos homens disseram o mesmo. Algumas das razões para que imigrantes tenham posições inferiores em empresas islandesas ou estejam desempregados são a falta de conhecimento da língua islandesa e a falta de reconhecimento de suas qualificações adquiridas no exterior.

Esses poucos dados já mostram algo que não é relevante só na Islândia, mas em todos os lugares em que se discute feminismo. Feminismo pra quem? Tem que ser pra todas nós. Países desenvolvidos no tema, como a Islândia, tem que levar em consideração cidadãs que não são necessarimente islandesas e as incluir em sua luta. Creio que isso foi o ponto mais difícil do feminismo das décadas passadas e, surpreendetemente, ainda é. E é por essas e outras que não se pode glorificar países europeus achando que o feminismo já obteve seu sucesso pleno aí. Ainda há muito a ser feito por todas nós…

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Jiz Lee é porn star! Também é genderqueer ou pessoa não binária, o que significa que não se identifica como homem, nem como mulher (ou como ambos ao mesmo tempo). Como jornalista, descobri isso da pior forma possível, mas também da mais educativa. Foi em uma entrevista que me referi a ela como “mulher” que recebi a correção. Não faz mal, aprendi e aqui estou passando o aprendizado que tive de Jiz Lee adiante.

Mas o que me levou até Jiz Lee foi o seu trabalho na indústria pornô queer. Alguns de seus projetos foram exibidos recentemente na premiação de pornô feminista, PorYes 2015, em Berlim. Jiz Lee não poderia estar mais bem encaixadx na premiação, que tinha como tema a transexualidade – também no sentido de ultrapassar normas de gênero.  Seus filmes pornôs fogem dos padrões, das normas e mostram que todxs podem ser sexy e que sexo e sexualidade têm muito mais variações do que as mostradas na pornografia comercial.

A seguir, a conversa que tive com Jiz Lee para a Ovelha antes da premiação ProYes 2015:

 
OVELHA: Como você começou sua carreira dentro da cena pornô queer e feminista?

JIZ LEE: Não era uma carreira até que minha curiosidade e espírito de aventura sobre trabalhar com pornografia levou a isso. Quando eu comecei há 10 anos, grande parte do meu trabalho era – e ainda é – sobre explorar dinâmicas de como ser sensual em frente à câmera, como se sentir durante a performance, e como se engajar à experiência. É sobre como meu corpo se encaixa no trabalho.

Minha expressão de gênero não é comumente vista como desejável. Como um diretor uma vez me disse, eu não sou “bonita para pornô” (“porn pretty”). E eu não quero ser, o que é algo que eu associo como feminilidade. Eu não sou uma mulher. E não tenho o desejo de ser feminina para o espectador masculino, e isso não faz parte da minha performance sexual. No meu trabalho, eu quero me conectar com a outra pessoa na cena, e compartilhar esse estímulo sexual com quem quer eu esteja assistindo – lembrando que a audiência de filmes pornôs pode ser mais do que homens heteros cis. Espectadores podem ser mulheres cis, mulheres trans, homens trans, ou outras pessoas não binárias, pessoas de todos as orientações, desejos e curiosidades. Espectadores podem ter uma série de corpos e habilidades que ultrapassam a experiência humana.

Corpos na pornografia não precisam ser necessariamente limitados em como eles se parecem ou desempenham.  Eu espero que o meu corpo, fazendo o que me faz bem, consiga fazer algo que as outras pessoas também possam curtir.

 

O: Como foi para você, como uma mulher, se admitir como porn star e expressar sua sexualidade em frente à câmera?

 J.L.: Ressalto que eu não sou uma mulher. Pessoas genderqueer podem se identificar com nenhum dos sexos ou com ambos, independente do que lhes foi atribuído no nascimento. Eu, com certeza, fui socializada como uma mulher e com pressões sociais. E eu ainda sinto isso todos os dias, sendo frequentemente confundida por uma mulher. Mesmo não me parecendo como uma mulher, eu ainda sofro com misoginia – até o homem que parece mais macho pode experienciar misoginia ou interioriza-la a ponto de pressioná-lo a agir e se parecer de alguma forma. Um dos maiores perigos na nossa sociedade é o medo de se parecer com nos mesmos e as consequências desse medo.

Acho que achei liberdade estando no meio, no espaço “outros” de gêneros e sexualidade. Sendo queer, eu senti menos pressão para agir de forma feminina (muitas pessoas gostam de ser femininas e expressar isso de diferentes maneiras, o que é lindo). Porém, para mim, foi um alívio entender que eu não tenho mais que me depilar para provocar desejo sexual como pessoa. Entender que posso ser eu mesmx e ser sexy foi uma revelação.

Sou gratx por conseguir aceitar mais o meu próprio corpo como ele existe, a ama-lo, mantê-lo saudável e honrar minha vida com prazer. Eu encontrei muita alegria na sexualidade e sinto alegria em poder compartilhar isso com os outros.

 

O: Como a pornografia queer e feminista pode ajudar mulheres a expressarem sua sexualidade de forma mais livre, sendo em frente à câmera ou como espectadores?

J.L.: Isso é o espectador que deve decidir. Nós assistimos pornôs de diferentes maneiras e por diferentes motivos (do mesmo modo como fazemos sexos de diferentes maneiras e por diferentes razões). Acho que o melhor conselho é não se envergonhar de sua sexualidade, não ter medo de gostar de assistir pornografia ou de fazer sexo, contando que você possa fazer isso de forma consensual e segura com você mesmo ou com outras pessoas.

Jiz Lee ┬®PollyFannlaf ┬®poryes

O: Você acredita que a pornografia queer e feminista pode vir a desenvolver outra forma com que mulheres são tratadas na indústria de filme adultos que, algumas vezes, pode ser hostil às mulheres?

J.L.: Eu discordo da ideia de que muitas vezes a indústria pornográfica seja um ambiente hostil para mulheres trabalharem. A sociedade normalmente tem essa ideia de estigmas associados a mulheres que são donas de sua própria sexualidade, e a mídia sensacionalista continua a promover estereótipos de que a mulher não é capaz de ter agência sobre sua sexualidade – que para ser hiper sexuais, elas devem ter sido coagidas, drogadas ou vitimizadas. A indústria pode ter uma definição restrita de sexualidade e como expressá-la, e isso pode levar a desigualdades em diferentes níveis (racismo, cissexismo, para dizer alguns), porém pode ser argumentado que a indústria pornográfica tem mais ideais feministas que outros gêneros hollywoodianos, por exemplo. As mulheres estão no controle delas mesmas, do que elas querem fazer nos filmes, e de muitos outros aspectos de suas carreiras – se não, a culpa maior é da sociedade do que da indústria centralizada em sexo.

Eu tento lembrar a todo mundo que não existe essa coisa chamada de “bad porn vs. good porn” e que o trabalho com sexo e feminismo não são coisas opostas. Devemos considerar a pessoa que trabalha em pornôs como um agente de consentimento, não importa qual seja sua interpretação na narrativa do filme (a maioria dos pornôs foi feito em torno de fantasia, assim como Hollywood!). Considere mulheres como sendo adultos capazes de fazer decisões sobre sua sexualidade e sua saúde e isso inclui mulheres adultas trabalhando na indústria pornográfica.

 

O: Um dos seus projetos mais recentes é o livro “Coming Out Like a Porn Star”. Como foi a experiência de ouvir e contar essas histórias – consigo imaginar que muitas dessas pessoas estavam contando suas histórias pela primeira vez?

J.L.: Tenho muito orgulho do “Coming Out like a Porn Star”. Ele tem mais de 50 contribuições. E sim, para a maioria deles, escrever foi uma novidade. O que foi importante para mim foi preservar as vozes dos autores para permitir com que suas histórias fossem contadas de forma honesta. Apesar da diversidade de autores, que trabalham em várias partes da indústria, nós todos já sofremos estigmas. De fato, estigma provou ser um dos nossos maiores obstáculos. As histórias falam sobre isso de maneira engraçada, triste, inspiradora e compartilham nossa humanidade. Acho que isso terá um impacto.

 

O: No seu blog, você escreve que trabalhar com homens cis é algo raro e um dos poucos filmes que você fez foi “Girl/Boy” com Manuel Ferrara. E você também escreve que um dos motivos para isso é que você não se encaixa em certos padrões – como você disse que não se encaixa no padrão “porn pretty”. Mas um dos objetivos de filmes pornôs feministas não é exatamente ir contra esses padrões?

J.L.: Pornô feminista pode ser muitas coisas. Eu acredito que todo pornô pode ter qualidades feministas. Eu vejo feminismo como uma ferramenta analítica que é cedida para discussão. É verdade que muitos diretores que se identificam como feministas tentam fazer trabalhos que diferem da pornografia convencional e comercial – mas eu não chamaria esse último de não feminista, entende? Eu defendo fortemente mais diversidade e que mais tipos de pornografia sejam feitos e celebrados. Quando apenas um tipo de pornografia existe, pinta-se um retrato de quem pode ser sexy e quem não. A verdade é que todos nós somos capazes de ter uma sexualidade feliz e saudável, de ser desejadx e amadx e de nos ver refletidos na mídia dessa forma.

 

Fotos: Polly Fannlaf © poryes e Morgan Weinert

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