Jiz Lee é porn star! Também é genderqueer ou pessoa não binária, o que significa que não se identifica como homem, nem como mulher (ou como ambos ao mesmo tempo). Como jornalista, descobri isso da pior forma possível, mas também da mais educativa. Foi em uma entrevista que me referi a ela como “mulher” que recebi a correção. Não faz mal, aprendi e aqui estou passando o aprendizado que tive de Jiz Lee adiante.
Mas o que me levou até Jiz Lee foi o seu trabalho na indústria pornô queer. Alguns de seus projetos foram exibidos recentemente na premiação de pornô feminista, PorYes 2015, em Berlim. Jiz Lee não poderia estar mais bem encaixadx na premiação, que tinha como tema a transexualidade – também no sentido de ultrapassar normas de gênero. Seus filmes pornôs fogem dos padrões, das normas e mostram que todxs podem ser sexy e que sexo e sexualidade têm muito mais variações do que as mostradas na pornografia comercial.
OVELHA: Como você começou sua carreira dentro da cena pornô queer e feminista?
JIZ LEE: Não era uma carreira até que minha curiosidade e espírito de aventura sobre trabalhar com pornografia levou a isso. Quando eu comecei há 10 anos, grande parte do meu trabalho era – e ainda é – sobre explorar dinâmicas de como ser sensual em frente à câmera, como se sentir durante a performance, e como se engajar à experiência. É sobre como meu corpo se encaixa no trabalho.
Minha expressão de gênero não é comumente vista como desejável. Como um diretor uma vez me disse, eu não sou “bonita para pornô” (“porn pretty”). E eu não quero ser, o que é algo que eu associo como feminilidade. Eu não sou uma mulher. E não tenho o desejo de ser feminina para o espectador masculino, e isso não faz parte da minha performance sexual. No meu trabalho, eu quero me conectar com a outra pessoa na cena, e compartilhar esse estímulo sexual com quem quer eu esteja assistindo – lembrando que a audiência de filmes pornôs pode ser mais do que homens heteros cis. Espectadores podem ser mulheres cis, mulheres trans, homens trans, ou outras pessoas não binárias, pessoas de todos as orientações, desejos e curiosidades. Espectadores podem ter uma série de corpos e habilidades que ultrapassam a experiência humana.
Corpos na pornografia não precisam ser necessariamente limitados em como eles se parecem ou desempenham. Eu espero que o meu corpo, fazendo o que me faz bem, consiga fazer algo que as outras pessoas também possam curtir.
O: Como foi para você, como uma mulher, se admitir como porn star e expressar sua sexualidade em frente à câmera?
J.L.: Ressalto que eu não sou uma mulher. Pessoas genderqueer podem se identificar com nenhum dos sexos ou com ambos, independente do que lhes foi atribuído no nascimento. Eu, com certeza, fui socializada como uma mulher e com pressões sociais. E eu ainda sinto isso todos os dias, sendo frequentemente confundida por uma mulher. Mesmo não me parecendo como uma mulher, eu ainda sofro com misoginia – até o homem que parece mais macho pode experienciar misoginia ou interioriza-la a ponto de pressioná-lo a agir e se parecer de alguma forma. Um dos maiores perigos na nossa sociedade é o medo de se parecer com nos mesmos e as consequências desse medo.
Acho que achei liberdade estando no meio, no espaço “outros” de gêneros e sexualidade. Sendo queer, eu senti menos pressão para agir de forma feminina (muitas pessoas gostam de ser femininas e expressar isso de diferentes maneiras, o que é lindo). Porém, para mim, foi um alívio entender que eu não tenho mais que me depilar para provocar desejo sexual como pessoa. Entender que posso ser eu mesmx e ser sexy foi uma revelação.
Sou gratx por conseguir aceitar mais o meu próprio corpo como ele existe, a ama-lo, mantê-lo saudável e honrar minha vida com prazer. Eu encontrei muita alegria na sexualidade e sinto alegria em poder compartilhar isso com os outros.
O: Como a pornografia queer e feminista pode ajudar mulheres a expressarem sua sexualidade de forma mais livre, sendo em frente à câmera ou como espectadores?
J.L.: Isso é o espectador que deve decidir. Nós assistimos pornôs de diferentes maneiras e por diferentes motivos (do mesmo modo como fazemos sexos de diferentes maneiras e por diferentes razões). Acho que o melhor conselho é não se envergonhar de sua sexualidade, não ter medo de gostar de assistir pornografia ou de fazer sexo, contando que você possa fazer isso de forma consensual e segura com você mesmo ou com outras pessoas.
O: Você acredita que a pornografia queer e feminista pode vir a desenvolver outra forma com que mulheres são tratadas na indústria de filme adultos que, algumas vezes, pode ser hostil às mulheres?
J.L.: Eu discordo da ideia de que muitas vezes a indústria pornográfica seja um ambiente hostil para mulheres trabalharem. A sociedade normalmente tem essa ideia de estigmas associados a mulheres que são donas de sua própria sexualidade, e a mídia sensacionalista continua a promover estereótipos de que a mulher não é capaz de ter agência sobre sua sexualidade – que para ser hiper sexuais, elas devem ter sido coagidas, drogadas ou vitimizadas. A indústria pode ter uma definição restrita de sexualidade e como expressá-la, e isso pode levar a desigualdades em diferentes níveis (racismo, cissexismo, para dizer alguns), porém pode ser argumentado que a indústria pornográfica tem mais ideais feministas que outros gêneros hollywoodianos, por exemplo. As mulheres estão no controle delas mesmas, do que elas querem fazer nos filmes, e de muitos outros aspectos de suas carreiras – se não, a culpa maior é da sociedade do que da indústria centralizada em sexo.
Eu tento lembrar a todo mundo que não existe essa coisa chamada de “bad porn vs. good porn” e que o trabalho com sexo e feminismo não são coisas opostas. Devemos considerar a pessoa que trabalha em pornôs como um agente de consentimento, não importa qual seja sua interpretação na narrativa do filme (a maioria dos pornôs foi feito em torno de fantasia, assim como Hollywood!). Considere mulheres como sendo adultos capazes de fazer decisões sobre sua sexualidade e sua saúde e isso inclui mulheres adultas trabalhando na indústria pornográfica.
O: Um dos seus projetos mais recentes é o livro “Coming Out Like a Porn Star”. Como foi a experiência de ouvir e contar essas histórias – consigo imaginar que muitas dessas pessoas estavam contando suas histórias pela primeira vez?
J.L.: Tenho muito orgulho do “Coming Out like a Porn Star”. Ele tem mais de 50 contribuições. E sim, para a maioria deles, escrever foi uma novidade. O que foi importante para mim foi preservar as vozes dos autores para permitir com que suas histórias fossem contadas de forma honesta. Apesar da diversidade de autores, que trabalham em várias partes da indústria, nós todos já sofremos estigmas. De fato, estigma provou ser um dos nossos maiores obstáculos. As histórias falam sobre isso de maneira engraçada, triste, inspiradora e compartilham nossa humanidade. Acho que isso terá um impacto.
O: No seu blog, você escreve que trabalhar com homens cis é algo raro e um dos poucos filmes que você fez foi “Girl/Boy” com Manuel Ferrara. E você também escreve que um dos motivos para isso é que você não se encaixa em certos padrões – como você disse que não se encaixa no padrão “porn pretty”. Mas um dos objetivos de filmes pornôs feministas não é exatamente ir contra esses padrões?
J.L.: Pornô feminista pode ser muitas coisas. Eu acredito que todo pornô pode ter qualidades feministas. Eu vejo feminismo como uma ferramenta analítica que é cedida para discussão. É verdade que muitos diretores que se identificam como feministas tentam fazer trabalhos que diferem da pornografia convencional e comercial – mas eu não chamaria esse último de não feminista, entende? Eu defendo fortemente mais diversidade e que mais tipos de pornografia sejam feitos e celebrados. Quando apenas um tipo de pornografia existe, pinta-se um retrato de quem pode ser sexy e quem não. A verdade é que todos nós somos capazes de ter uma sexualidade feliz e saudável, de ser desejadx e amadx e de nos ver refletidos na mídia dessa forma.
Jiz Lee é porn star! Também é genderqueer ou pessoa não binária, o que significa que não se identifica como homem, nem como mulher (ou como ambos ao mesmo tempo). Como jornalista, descobri isso da pior forma possível, mas também da mais educativa. Foi em uma entrevista que me referi a ela como “mulher” que recebi a correção. Não faz mal, aprendi e aqui estou passando o aprendizado que tive de Jiz Lee adiante.
Mas o que me levou até Jiz Lee foi o seu trabalho na indústria pornô queer. Alguns de seus projetos foram exibidos recentemente na premiação de pornô feminista, PorYes 2015, em Berlim. Jiz Lee não poderia estar mais bem encaixadx na premiação, que tinha como tema a transexualidade – também no sentido de ultrapassar normas de gênero. Seus filmes pornôs fogem dos padrões, das normas e mostram que todxs podem ser sexy e que sexo e sexualidade têm muito mais variações do que as mostradas na pornografia comercial.
OVELHA: Como você começou sua carreira dentro da cena pornô queer e feminista?
JIZ LEE: Não era uma carreira até que minha curiosidade e espírito de aventura sobre trabalhar com pornografia levou a isso. Quando eu comecei há 10 anos, grande parte do meu trabalho era – e ainda é – sobre explorar dinâmicas de como ser sensual em frente à câmera, como se sentir durante a performance, e como se engajar à experiência. É sobre como meu corpo se encaixa no trabalho.
Minha expressão de gênero não é comumente vista como desejável. Como um diretor uma vez me disse, eu não sou “bonita para pornô” (“porn pretty”). E eu não quero ser, o que é algo que eu associo como feminilidade. Eu não sou uma mulher. E não tenho o desejo de ser feminina para o espectador masculino, e isso não faz parte da minha performance sexual. No meu trabalho, eu quero me conectar com a outra pessoa na cena, e compartilhar esse estímulo sexual com quem quer eu esteja assistindo – lembrando que a audiência de filmes pornôs pode ser mais do que homens heteros cis. Espectadores podem ser mulheres cis, mulheres trans, homens trans, ou outras pessoas não binárias, pessoas de todos as orientações, desejos e curiosidades. Espectadores podem ter uma série de corpos e habilidades que ultrapassam a experiência humana.
Corpos na pornografia não precisam ser necessariamente limitados em como eles se parecem ou desempenham. Eu espero que o meu corpo, fazendo o que me faz bem, consiga fazer algo que as outras pessoas também possam curtir.
O: Como foi para você, como uma mulher, se admitir como porn star e expressar sua sexualidade em frente à câmera?
J.L.: Ressalto que eu não sou uma mulher. Pessoas genderqueer podem se identificar com nenhum dos sexos ou com ambos, independente do que lhes foi atribuído no nascimento. Eu, com certeza, fui socializada como uma mulher e com pressões sociais. E eu ainda sinto isso todos os dias, sendo frequentemente confundida por uma mulher. Mesmo não me parecendo como uma mulher, eu ainda sofro com misoginia – até o homem que parece mais macho pode experienciar misoginia ou interioriza-la a ponto de pressioná-lo a agir e se parecer de alguma forma. Um dos maiores perigos na nossa sociedade é o medo de se parecer com nos mesmos e as consequências desse medo.
Acho que achei liberdade estando no meio, no espaço “outros” de gêneros e sexualidade. Sendo queer, eu senti menos pressão para agir de forma feminina (muitas pessoas gostam de ser femininas e expressar isso de diferentes maneiras, o que é lindo). Porém, para mim, foi um alívio entender que eu não tenho mais que me depilar para provocar desejo sexual como pessoa. Entender que posso ser eu mesmx e ser sexy foi uma revelação.
Sou gratx por conseguir aceitar mais o meu próprio corpo como ele existe, a ama-lo, mantê-lo saudável e honrar minha vida com prazer. Eu encontrei muita alegria na sexualidade e sinto alegria em poder compartilhar isso com os outros.
O: Como a pornografia queer e feminista pode ajudar mulheres a expressarem sua sexualidade de forma mais livre, sendo em frente à câmera ou como espectadores?
J.L.: Isso é o espectador que deve decidir. Nós assistimos pornôs de diferentes maneiras e por diferentes motivos (do mesmo modo como fazemos sexos de diferentes maneiras e por diferentes razões). Acho que o melhor conselho é não se envergonhar de sua sexualidade, não ter medo de gostar de assistir pornografia ou de fazer sexo, contando que você possa fazer isso de forma consensual e segura com você mesmo ou com outras pessoas.
O: Você acredita que a pornografia queer e feminista pode vir a desenvolver outra forma com que mulheres são tratadas na indústria de filme adultos que, algumas vezes, pode ser hostil às mulheres?
J.L.: Eu discordo da ideia de que muitas vezes a indústria pornográfica seja um ambiente hostil para mulheres trabalharem. A sociedade normalmente tem essa ideia de estigmas associados a mulheres que são donas de sua própria sexualidade, e a mídia sensacionalista continua a promover estereótipos de que a mulher não é capaz de ter agência sobre sua sexualidade – que para ser hiper sexuais, elas devem ter sido coagidas, drogadas ou vitimizadas. A indústria pode ter uma definição restrita de sexualidade e como expressá-la, e isso pode levar a desigualdades em diferentes níveis (racismo, cissexismo, para dizer alguns), porém pode ser argumentado que a indústria pornográfica tem mais ideais feministas que outros gêneros hollywoodianos, por exemplo. As mulheres estão no controle delas mesmas, do que elas querem fazer nos filmes, e de muitos outros aspectos de suas carreiras – se não, a culpa maior é da sociedade do que da indústria centralizada em sexo.
Eu tento lembrar a todo mundo que não existe essa coisa chamada de “bad porn vs. good porn” e que o trabalho com sexo e feminismo não são coisas opostas. Devemos considerar a pessoa que trabalha em pornôs como um agente de consentimento, não importa qual seja sua interpretação na narrativa do filme (a maioria dos pornôs foi feito em torno de fantasia, assim como Hollywood!). Considere mulheres como sendo adultos capazes de fazer decisões sobre sua sexualidade e sua saúde e isso inclui mulheres adultas trabalhando na indústria pornográfica.
O: Um dos seus projetos mais recentes é o livro “Coming Out Like a Porn Star”. Como foi a experiência de ouvir e contar essas histórias – consigo imaginar que muitas dessas pessoas estavam contando suas histórias pela primeira vez?
J.L.: Tenho muito orgulho do “Coming Out like a Porn Star”. Ele tem mais de 50 contribuições. E sim, para a maioria deles, escrever foi uma novidade. O que foi importante para mim foi preservar as vozes dos autores para permitir com que suas histórias fossem contadas de forma honesta. Apesar da diversidade de autores, que trabalham em várias partes da indústria, nós todos já sofremos estigmas. De fato, estigma provou ser um dos nossos maiores obstáculos. As histórias falam sobre isso de maneira engraçada, triste, inspiradora e compartilham nossa humanidade. Acho que isso terá um impacto.
O: No seu blog, você escreve que trabalhar com homens cis é algo raro e um dos poucos filmes que você fez foi “Girl/Boy” com Manuel Ferrara. E você também escreve que um dos motivos para isso é que você não se encaixa em certos padrões – como você disse que não se encaixa no padrão “porn pretty”. Mas um dos objetivos de filmes pornôs feministas não é exatamente ir contra esses padrões?
J.L.: Pornô feminista pode ser muitas coisas. Eu acredito que todo pornô pode ter qualidades feministas. Eu vejo feminismo como uma ferramenta analítica que é cedida para discussão. É verdade que muitos diretores que se identificam como feministas tentam fazer trabalhos que diferem da pornografia convencional e comercial – mas eu não chamaria esse último de não feminista, entende? Eu defendo fortemente mais diversidade e que mais tipos de pornografia sejam feitos e celebrados. Quando apenas um tipo de pornografia existe, pinta-se um retrato de quem pode ser sexy e quem não. A verdade é que todos nós somos capazes de ter uma sexualidade feliz e saudável, de ser desejadx e amadx e de nos ver refletidos na mídia dessa forma.
Jiz Lee é porn star! Também é genderqueer ou pessoa não binária, o que significa que não se identifica como homem, nem como mulher (ou como ambos ao mesmo tempo). Como jornalista, descobri isso da pior forma possível, mas também da mais educativa. Foi em uma entrevista que me referi a ela como “mulher” que recebi a correção. Não faz mal, aprendi e aqui estou passando o aprendizado que tive de Jiz Lee adiante.
Mas o que me levou até Jiz Lee foi o seu trabalho na indústria pornô queer. Alguns de seus projetos foram exibidos recentemente na premiação de pornô feminista, PorYes 2015, em Berlim. Jiz Lee não poderia estar mais bem encaixadx na premiação, que tinha como tema a transexualidade – também no sentido de ultrapassar normas de gênero. Seus filmes pornôs fogem dos padrões, das normas e mostram que todxs podem ser sexy e que sexo e sexualidade têm muito mais variações do que as mostradas na pornografia comercial.
OVELHA: Como você começou sua carreira dentro da cena pornô queer e feminista?
JIZ LEE: Não era uma carreira até que minha curiosidade e espírito de aventura sobre trabalhar com pornografia levou a isso. Quando eu comecei há 10 anos, grande parte do meu trabalho era – e ainda é – sobre explorar dinâmicas de como ser sensual em frente à câmera, como se sentir durante a performance, e como se engajar à experiência. É sobre como meu corpo se encaixa no trabalho.
Minha expressão de gênero não é comumente vista como desejável. Como um diretor uma vez me disse, eu não sou “bonita para pornô” (“porn pretty”). E eu não quero ser, o que é algo que eu associo como feminilidade. Eu não sou uma mulher. E não tenho o desejo de ser feminina para o espectador masculino, e isso não faz parte da minha performance sexual. No meu trabalho, eu quero me conectar com a outra pessoa na cena, e compartilhar esse estímulo sexual com quem quer eu esteja assistindo – lembrando que a audiência de filmes pornôs pode ser mais do que homens heteros cis. Espectadores podem ser mulheres cis, mulheres trans, homens trans, ou outras pessoas não binárias, pessoas de todos as orientações, desejos e curiosidades. Espectadores podem ter uma série de corpos e habilidades que ultrapassam a experiência humana.
Corpos na pornografia não precisam ser necessariamente limitados em como eles se parecem ou desempenham. Eu espero que o meu corpo, fazendo o que me faz bem, consiga fazer algo que as outras pessoas também possam curtir.
O: Como foi para você, como uma mulher, se admitir como porn star e expressar sua sexualidade em frente à câmera?
J.L.: Ressalto que eu não sou uma mulher. Pessoas genderqueer podem se identificar com nenhum dos sexos ou com ambos, independente do que lhes foi atribuído no nascimento. Eu, com certeza, fui socializada como uma mulher e com pressões sociais. E eu ainda sinto isso todos os dias, sendo frequentemente confundida por uma mulher. Mesmo não me parecendo como uma mulher, eu ainda sofro com misoginia – até o homem que parece mais macho pode experienciar misoginia ou interioriza-la a ponto de pressioná-lo a agir e se parecer de alguma forma. Um dos maiores perigos na nossa sociedade é o medo de se parecer com nos mesmos e as consequências desse medo.
Acho que achei liberdade estando no meio, no espaço “outros” de gêneros e sexualidade. Sendo queer, eu senti menos pressão para agir de forma feminina (muitas pessoas gostam de ser femininas e expressar isso de diferentes maneiras, o que é lindo). Porém, para mim, foi um alívio entender que eu não tenho mais que me depilar para provocar desejo sexual como pessoa. Entender que posso ser eu mesmx e ser sexy foi uma revelação.
Sou gratx por conseguir aceitar mais o meu próprio corpo como ele existe, a ama-lo, mantê-lo saudável e honrar minha vida com prazer. Eu encontrei muita alegria na sexualidade e sinto alegria em poder compartilhar isso com os outros.
O: Como a pornografia queer e feminista pode ajudar mulheres a expressarem sua sexualidade de forma mais livre, sendo em frente à câmera ou como espectadores?
J.L.: Isso é o espectador que deve decidir. Nós assistimos pornôs de diferentes maneiras e por diferentes motivos (do mesmo modo como fazemos sexos de diferentes maneiras e por diferentes razões). Acho que o melhor conselho é não se envergonhar de sua sexualidade, não ter medo de gostar de assistir pornografia ou de fazer sexo, contando que você possa fazer isso de forma consensual e segura com você mesmo ou com outras pessoas.
O: Você acredita que a pornografia queer e feminista pode vir a desenvolver outra forma com que mulheres são tratadas na indústria de filme adultos que, algumas vezes, pode ser hostil às mulheres?
J.L.: Eu discordo da ideia de que muitas vezes a indústria pornográfica seja um ambiente hostil para mulheres trabalharem. A sociedade normalmente tem essa ideia de estigmas associados a mulheres que são donas de sua própria sexualidade, e a mídia sensacionalista continua a promover estereótipos de que a mulher não é capaz de ter agência sobre sua sexualidade – que para ser hiper sexuais, elas devem ter sido coagidas, drogadas ou vitimizadas. A indústria pode ter uma definição restrita de sexualidade e como expressá-la, e isso pode levar a desigualdades em diferentes níveis (racismo, cissexismo, para dizer alguns), porém pode ser argumentado que a indústria pornográfica tem mais ideais feministas que outros gêneros hollywoodianos, por exemplo. As mulheres estão no controle delas mesmas, do que elas querem fazer nos filmes, e de muitos outros aspectos de suas carreiras – se não, a culpa maior é da sociedade do que da indústria centralizada em sexo.
Eu tento lembrar a todo mundo que não existe essa coisa chamada de “bad porn vs. good porn” e que o trabalho com sexo e feminismo não são coisas opostas. Devemos considerar a pessoa que trabalha em pornôs como um agente de consentimento, não importa qual seja sua interpretação na narrativa do filme (a maioria dos pornôs foi feito em torno de fantasia, assim como Hollywood!). Considere mulheres como sendo adultos capazes de fazer decisões sobre sua sexualidade e sua saúde e isso inclui mulheres adultas trabalhando na indústria pornográfica.
O: Um dos seus projetos mais recentes é o livro “Coming Out Like a Porn Star”. Como foi a experiência de ouvir e contar essas histórias – consigo imaginar que muitas dessas pessoas estavam contando suas histórias pela primeira vez?
J.L.: Tenho muito orgulho do “Coming Out like a Porn Star”. Ele tem mais de 50 contribuições. E sim, para a maioria deles, escrever foi uma novidade. O que foi importante para mim foi preservar as vozes dos autores para permitir com que suas histórias fossem contadas de forma honesta. Apesar da diversidade de autores, que trabalham em várias partes da indústria, nós todos já sofremos estigmas. De fato, estigma provou ser um dos nossos maiores obstáculos. As histórias falam sobre isso de maneira engraçada, triste, inspiradora e compartilham nossa humanidade. Acho que isso terá um impacto.
O: No seu blog, você escreve que trabalhar com homens cis é algo raro e um dos poucos filmes que você fez foi “Girl/Boy” com Manuel Ferrara. E você também escreve que um dos motivos para isso é que você não se encaixa em certos padrões – como você disse que não se encaixa no padrão “porn pretty”. Mas um dos objetivos de filmes pornôs feministas não é exatamente ir contra esses padrões?
J.L.: Pornô feminista pode ser muitas coisas. Eu acredito que todo pornô pode ter qualidades feministas. Eu vejo feminismo como uma ferramenta analítica que é cedida para discussão. É verdade que muitos diretores que se identificam como feministas tentam fazer trabalhos que diferem da pornografia convencional e comercial – mas eu não chamaria esse último de não feminista, entende? Eu defendo fortemente mais diversidade e que mais tipos de pornografia sejam feitos e celebrados. Quando apenas um tipo de pornografia existe, pinta-se um retrato de quem pode ser sexy e quem não. A verdade é que todos nós somos capazes de ter uma sexualidade feliz e saudável, de ser desejadx e amadx e de nos ver refletidos na mídia dessa forma.
A contemporaneidade do tema e a necessidade de pessoas negras na Europa de se verem representadas lotou a noite de projeção de “Strolling” na Semana de Cinema Feminista de Berlim, que começou no dia 8 de março. O filme da diretora jamaicana-britânica Cecile Emeke gerou um desconforto necessário no público europeu e branco.
O documentário foi montado com episódios de séries feitas por Emeke, em que pessoas negras – imigrantes ou descendentes de imigrantes – falam sobre temas como pós-colonialismo, racismo e identidade, enquanto caminham por suas cidades na Itália, Inglaterra, Holanda, França e Bélgica. A querida Bárbara Paes já falou sobre a talentosa Emeke e suas séries aqui, caso você queira saber mais sobre os diferentes trabalhos da diretora.
Emeke não aparece na série, nem no filme. O interlocutor fala com a câmera, enquanto a cidade ao fundo segue seu ritmo como se os ignorasse. Todos são muito eloquentes e vão direto ao ponto: os europeus exploraram países africanos durante séculos, escravizaram e mataram diversos povos, mas agora não conseguem lidar com os descendentes daqueles que deixaram seus países forçadamente para sobreviver.
Eu queria saber o que eles fariam, se estivessem no lugar dos nossos pais, que vieram pra cá querendo algo melhor pra gente. Eles provavelmente fariam a mesma coisa!
É o que diz uma das mulheres italianas que aparece também na série “Passeggiando” (strolling, em italiano). A mesma diz que se considera italiana, respira a cultura e o idioma, mas, por ser negra, é tratada como estrangeira e se sente atacada pelos discursos atuais anti-imigração.
A questão da identidade é bastante recorrente em “Strolling”. O caso da italiana é o mesmo de outros. O de sempre ser visto como alguém de fora, mesmo que os gestos e idioma já os aproxime mais do país em que cresceram (ou inclusive nasceram) do que do país de seus descendentes. E na Europa isso é muito comum, não só entre negros, mas entre turcos, árabes, latinos…
Na Alemanha, as gerações mais jovens de turcos ainda sofrem com o preconceito, mesmo que tenham nascido e vivido toda sua vida na cidade mais alemã possível. E sofrem por viver em um limite de identidades que não é nem turca, nem alemã. Por essa e por outras, achei ótimo o filme ter sido exibido em Berlim. Mesmo nos círculos não conservadores e de pessoas envolvidas em temas sociais, é difícil se ter uma noção do que é ser descendente de não europeus aqui. Uma coisa é ser imigrante europeu na Alemanha, outra é ser imigrante do leste europeu e outra coisa bem diferente é ser imigrante africano.
Aqui, como nos países em que Emeke fez as entrevistas, pessoas negras são categorizadas rapidamente como estrangeiros. Uma das mulheres entrevistadas pela diretora britânica na Bélgica é americana e vive em Bruxelas. Por ser negra, muitos a perguntam diretamente “de qual país da África você vem?”. Ao que ela responde ser dos Estados Unidos, há pessoas que ainda insistem: “mas de onde vem a sua família? De que país da África eles vêm?”.
Isso mostra a liberdade que os brancos sentem em especular e fazer perguntas ridículas como essas, mesmo sem ter a intenção de ofender. Ou revela uma falta de noção sobre a história do colonialismo e escravidão nas Américas que geraram uma miscigenação forçada entre negros, brancos e indígenas. Ou ainda pior: desvenda o olhar estereotipado que se tem ao redor do mundo sobre como deve ser a aparência norte-americana e europeia, pois, como diz uma das garotas entrevistas na França, “muitas pessoas nem sabem que existem franceses negros”.
“Strolling” é um documentário super necessário e não só em países anteriormente colonizadores. Em lugares, como os Estados Unidos e Brasil, em que a população negra tem uma história de exploração, violência e preconceito, esse tapa na cara que a diretora nos dá também não seria má ideia.
Jiz Lee é porn star! Também é genderqueer ou pessoa não binária, o que significa que não se identifica como homem, nem como mulher (ou como ambos ao mesmo tempo). Como jornalista, descobri isso da pior forma possível, mas também da mais educativa. Foi em uma entrevista que me referi a ela como “mulher” que recebi a correção. Não faz mal, aprendi e aqui estou passando o aprendizado que tive de Jiz Lee adiante.
Mas o que me levou até Jiz Lee foi o seu trabalho na indústria pornô queer. Alguns de seus projetos foram exibidos recentemente na premiação de pornô feminista, PorYes 2015, em Berlim. Jiz Lee não poderia estar mais bem encaixadx na premiação, que tinha como tema a transexualidade – também no sentido de ultrapassar normas de gênero. Seus filmes pornôs fogem dos padrões, das normas e mostram que todxs podem ser sexy e que sexo e sexualidade têm muito mais variações do que as mostradas na pornografia comercial.
OVELHA: Como você começou sua carreira dentro da cena pornô queer e feminista?
JIZ LEE: Não era uma carreira até que minha curiosidade e espírito de aventura sobre trabalhar com pornografia levou a isso. Quando eu comecei há 10 anos, grande parte do meu trabalho era – e ainda é – sobre explorar dinâmicas de como ser sensual em frente à câmera, como se sentir durante a performance, e como se engajar à experiência. É sobre como meu corpo se encaixa no trabalho.
Minha expressão de gênero não é comumente vista como desejável. Como um diretor uma vez me disse, eu não sou “bonita para pornô” (“porn pretty”). E eu não quero ser, o que é algo que eu associo como feminilidade. Eu não sou uma mulher. E não tenho o desejo de ser feminina para o espectador masculino, e isso não faz parte da minha performance sexual. No meu trabalho, eu quero me conectar com a outra pessoa na cena, e compartilhar esse estímulo sexual com quem quer eu esteja assistindo – lembrando que a audiência de filmes pornôs pode ser mais do que homens heteros cis. Espectadores podem ser mulheres cis, mulheres trans, homens trans, ou outras pessoas não binárias, pessoas de todos as orientações, desejos e curiosidades. Espectadores podem ter uma série de corpos e habilidades que ultrapassam a experiência humana.
Corpos na pornografia não precisam ser necessariamente limitados em como eles se parecem ou desempenham. Eu espero que o meu corpo, fazendo o que me faz bem, consiga fazer algo que as outras pessoas também possam curtir.
O: Como foi para você, como uma mulher, se admitir como porn star e expressar sua sexualidade em frente à câmera?
J.L.: Ressalto que eu não sou uma mulher. Pessoas genderqueer podem se identificar com nenhum dos sexos ou com ambos, independente do que lhes foi atribuído no nascimento. Eu, com certeza, fui socializada como uma mulher e com pressões sociais. E eu ainda sinto isso todos os dias, sendo frequentemente confundida por uma mulher. Mesmo não me parecendo como uma mulher, eu ainda sofro com misoginia – até o homem que parece mais macho pode experienciar misoginia ou interioriza-la a ponto de pressioná-lo a agir e se parecer de alguma forma. Um dos maiores perigos na nossa sociedade é o medo de se parecer com nos mesmos e as consequências desse medo.
Acho que achei liberdade estando no meio, no espaço “outros” de gêneros e sexualidade. Sendo queer, eu senti menos pressão para agir de forma feminina (muitas pessoas gostam de ser femininas e expressar isso de diferentes maneiras, o que é lindo). Porém, para mim, foi um alívio entender que eu não tenho mais que me depilar para provocar desejo sexual como pessoa. Entender que posso ser eu mesmx e ser sexy foi uma revelação.
Sou gratx por conseguir aceitar mais o meu próprio corpo como ele existe, a ama-lo, mantê-lo saudável e honrar minha vida com prazer. Eu encontrei muita alegria na sexualidade e sinto alegria em poder compartilhar isso com os outros.
O: Como a pornografia queer e feminista pode ajudar mulheres a expressarem sua sexualidade de forma mais livre, sendo em frente à câmera ou como espectadores?
J.L.: Isso é o espectador que deve decidir. Nós assistimos pornôs de diferentes maneiras e por diferentes motivos (do mesmo modo como fazemos sexos de diferentes maneiras e por diferentes razões). Acho que o melhor conselho é não se envergonhar de sua sexualidade, não ter medo de gostar de assistir pornografia ou de fazer sexo, contando que você possa fazer isso de forma consensual e segura com você mesmo ou com outras pessoas.
O: Você acredita que a pornografia queer e feminista pode vir a desenvolver outra forma com que mulheres são tratadas na indústria de filme adultos que, algumas vezes, pode ser hostil às mulheres?
J.L.: Eu discordo da ideia de que muitas vezes a indústria pornográfica seja um ambiente hostil para mulheres trabalharem. A sociedade normalmente tem essa ideia de estigmas associados a mulheres que são donas de sua própria sexualidade, e a mídia sensacionalista continua a promover estereótipos de que a mulher não é capaz de ter agência sobre sua sexualidade – que para ser hiper sexuais, elas devem ter sido coagidas, drogadas ou vitimizadas. A indústria pode ter uma definição restrita de sexualidade e como expressá-la, e isso pode levar a desigualdades em diferentes níveis (racismo, cissexismo, para dizer alguns), porém pode ser argumentado que a indústria pornográfica tem mais ideais feministas que outros gêneros hollywoodianos, por exemplo. As mulheres estão no controle delas mesmas, do que elas querem fazer nos filmes, e de muitos outros aspectos de suas carreiras – se não, a culpa maior é da sociedade do que da indústria centralizada em sexo.
Eu tento lembrar a todo mundo que não existe essa coisa chamada de “bad porn vs. good porn” e que o trabalho com sexo e feminismo não são coisas opostas. Devemos considerar a pessoa que trabalha em pornôs como um agente de consentimento, não importa qual seja sua interpretação na narrativa do filme (a maioria dos pornôs foi feito em torno de fantasia, assim como Hollywood!). Considere mulheres como sendo adultos capazes de fazer decisões sobre sua sexualidade e sua saúde e isso inclui mulheres adultas trabalhando na indústria pornográfica.
O: Um dos seus projetos mais recentes é o livro “Coming Out Like a Porn Star”. Como foi a experiência de ouvir e contar essas histórias – consigo imaginar que muitas dessas pessoas estavam contando suas histórias pela primeira vez?
J.L.: Tenho muito orgulho do “Coming Out like a Porn Star”. Ele tem mais de 50 contribuições. E sim, para a maioria deles, escrever foi uma novidade. O que foi importante para mim foi preservar as vozes dos autores para permitir com que suas histórias fossem contadas de forma honesta. Apesar da diversidade de autores, que trabalham em várias partes da indústria, nós todos já sofremos estigmas. De fato, estigma provou ser um dos nossos maiores obstáculos. As histórias falam sobre isso de maneira engraçada, triste, inspiradora e compartilham nossa humanidade. Acho que isso terá um impacto.
O: No seu blog, você escreve que trabalhar com homens cis é algo raro e um dos poucos filmes que você fez foi “Girl/Boy” com Manuel Ferrara. E você também escreve que um dos motivos para isso é que você não se encaixa em certos padrões – como você disse que não se encaixa no padrão “porn pretty”. Mas um dos objetivos de filmes pornôs feministas não é exatamente ir contra esses padrões?
J.L.: Pornô feminista pode ser muitas coisas. Eu acredito que todo pornô pode ter qualidades feministas. Eu vejo feminismo como uma ferramenta analítica que é cedida para discussão. É verdade que muitos diretores que se identificam como feministas tentam fazer trabalhos que diferem da pornografia convencional e comercial – mas eu não chamaria esse último de não feminista, entende? Eu defendo fortemente mais diversidade e que mais tipos de pornografia sejam feitos e celebrados. Quando apenas um tipo de pornografia existe, pinta-se um retrato de quem pode ser sexy e quem não. A verdade é que todos nós somos capazes de ter uma sexualidade feliz e saudável, de ser desejadx e amadx e de nos ver refletidos na mídia dessa forma.