Mulheres não assistem pornô. Mulheres não se excitam com pornografia. Errado! Muito errado! Talvez mulheres assistam menos pornô – supostamente – porque não existam pornôs suficientes que as representem. Que saibam atingir e representar o prazer feminino em sua beleza e complexidade. Mas isso está mudando, amigas! Graças às criativas mentes femininas, queer, trans, etc da indústria erótica. Algumas dessas mentes brilhantes e revolucionárias estiveram na Premiação de Pornô Feminista, PorYes, que ocorreu lindamente no sábado, dia 17 de outubro, em Berlim.
Que mulheres são representadas de forma machista em filmes pornôs não é novidade e disso todo mundo que tem o mínimo de senso e que já assistiu pornografia uma vez na vida já se ligou. Mulheres são retratadas como passivas, objetos que estão lá para proporcionar prazer ao homem. Os corpos seguem um padrão de peitos grandes ou gigantes, bundas grandes e vaginas depiladas. Enquanto isso os homens são retratados muitas vezes como agressivos, insensíveis, com corpos mega malhados e pênis gigantescos. São imagens que pouco correspondem à realidade dos espectadores. Isso sem falar nas situações por vezes ridículas que resultam em sexo.
Foi numa tentativa de mudar isso e oferecer uma alternativa fora da pornografia mainstream é que os pornôs feministas surgiram. Neles, as mulheres são o público alvo e são representadas como seres ativos que exploram sua sexualidade de diferentes formas – como é de fato na vida real! E o mais importante: os cenários são montados para contar histórias em que tudo acontece de forma consensual e prazerosa pra todos os lados (enquanto muitos pornôs mainstream exploram a violência contra a mulher como um fetiche).
A premiação PorYes foi criada em 2009 pela comunicadora e especialista em sexo e anatomia feminina Dr. Laura Meritt, com objetivo de apoiar essa revolução feminista contra a pornografia sexista e mainstream. O evento acontece de dois em dois anos em Berlim e premia diretores, atores, produtores que consigam, com seus trabalhos, representar e alcançar o prazer feminino. São pessoas que influenciam a indústria de filmes eróticos de forma positiva. Os esforços para trazer o pornô mais próximo das mulheres foram surgindo dentro do Sex-Positive Movement e Sex-Positive Feminism que, entre outras coisas, abrange o sexo como algo saudável, consensual e que deve ser explorado de forma positiva e prazerosa a todos. Nessa experimentação de coisas novas, incluem-se também novas tendências criativas de pornografia, que explorem o imaginativo erótico – e por que não? – o prazer feminino.
Achei lindo o que Laura Meritt falou ao apresentar o PorYes 2015, que teve como tema principal esse ano a transexualidade: “Trans é ultrapassar fronteiras, não só de personalidade, mas das normas de gênero e de corpo. É sair de categorias limitadas, colocadas por muitas produções pornográficas, como do que é um corpo bonito ou sexy e do que é ‘sexo bonito’”. Esqueça padrões de beleza esperados e gêneros engavetados em xx e xy ou whatever. Esqueça também aquele “good looking sex”. Nos pornôs feministas da mostra, padrões de beleza e gênero são quebrados com muita criatividade.
Logo depois da abertura feita por Laura e Ula Stöckl, cineasta pioneira na produção de filmes por mulheres para mulheres, foram passadas algumas cenas de um filme com uma mulher gordinha em uma cadeira de rodas que é masturbada por outra mulher; na próxima cena, outra mulher se senta em um pênis de borracha amarrado na perna da mulher na cadeira de rodas. A cena acontece em um cenário simples – a sala de estar de uma casa que parece até meio velha – e as atrizes não correspondem a nenhum padrão de beleza da indústria pornô – são gordinhas e tem marcas no corpo, como cicatrizes. Essas cenas são mostradas para exemplificar o que está sendo produzido fora da pornografia mainstream.
Outro exemplo de produção alternativa são os filmes da primeira premiada da noite, Jennifer Lyon Bell. A diretora holandesa fundou a produtora de filmes eróticos Blue Artichoke Films, em que trabalha com o que é chamado de realismo emocional (emotional realism). O negócio é fazer a cena parecer o mais real possível, com emoções reais. “Sexo pode acontecer em diferentes contextos emocionais, não só de amor romântico, ou girly love, mas de nervosismo, alegria, excitação, etc”, diz Jennifer. Por isso, em seus filmes, as cenas de sexo acontecem em meio a uma relação entre os indivíduos – não necessariamente amorosa, de amizade, ou etc, mas algo que os liga por uma emoção – sejam eles completos desconhecidos ou não. Com técnicas como shot-reverse shot, que vai em volta focando no rosto e expressões dos personagens, e facial reaction shots, os filmes de Jennifer Lyon Bell tentam fazer com que os espectadores se sintam parte do ato. Essas são coisas presentes em seu filme premiado “Silver Shoes”, que conta três histórias relacionadas a um par de sapatos prateados e intercala cenas de sexo hetero, lésbico e de masturbação feminina.
O filme “Want some Oranges”, da dinamarquesa Goodyn Green, também me chamou muito a atenção na premiação. Uma das mulheres da cena está grávida e exerce o papel dominante, usando um cinto com a prótese de um pênis, com outra mulher. “Isso é para mostrar a mulher grávida em outro papel, um papel não convencional, e isso também é um fetiche”, explica Goodyn Green. Sobre o processo de filmagem, ela diz que monta a cena e deixa a câmera rodar. “O mais importante é os atores terem química entre eles, daí tudo vai acontecendo meio que por acidente”, diz a diretora e fotógrafa.
Mais premiados da noite foram Gala Vanting, Buck Angel e Jiz Lee. A australiana Gala Vanting é entusiasta de BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) e produtora de filmes artísticos que exploram a imaginação erótica. Buck Angel, “the man with a pussy”, foi um dos pioneiros a fazer filmes pornôs como um homem trans. Ele explica que no início ninguém queria filmar com ele por o considerarem uma aberração, mas ele não se importou e criou sua própria produtora com filmes pornôs estrelando homens e mulheres trans. Buck Angel chorou ao fazer o discurso de agradecimento pelo prêmio PorYes 2015, quando falou de seu ativismo para passar conhecimento sobre transexualismo transexualidade e obter mais respeito aos transexuais.
Jiz Lee, que concedeu uma entrevista inteirinha para o Ovelha, recebeu o prêmio por último. Jiz Lee se considera pessoa genderqueer ou não-binária, ou seja, não se identifica como homem nem mulher ou como os dois. Os filmes em que atua representam isso muito bem, ao ultrapassar limitações de conceitos de mulher, homem, hetero ou homossexualidade. Recentemente, Jiz Lee lançou o livro “Coming Out as a Porn Star”, em que são contadas histórias de pessoas que trabalham na indústria pornô: como elas chegaram até ali, o porquê, o que elas fazem e como assumiram isso, ou não, para o mundo.
Ir na premiação foi uma experiência além das minhas expectativas. Em algumas poucas horas, conheci um mundo inteiro de coisas novas que exploram a sexualidade feminina de forma muito positiva e de mil e uma formas diferentes! O negócio é esquecer barreiras, categorias, padrões, e pensar no prazer. Sai de lá com esperança numa sociedade que discrimine menos a sexualidade feminina e grite mais: Viva la Vulva!*
* As garotas do Sex-Positive-Movement usam essa expressão para exaltar a sexualidade feminina e empoderar nossas vaginas. Laura Meritt saudou o público na abertura do PorYes 2015 com essa frase.
Mulheres não assistem pornô. Mulheres não se excitam com pornografia. Errado! Muito errado! Talvez mulheres assistam menos pornô – supostamente – porque não existam pornôs suficientes que as representem. Que saibam atingir e representar o prazer feminino em sua beleza e complexidade. Mas isso está mudando, amigas! Graças às criativas mentes femininas, queer, trans, etc da indústria erótica. Algumas dessas mentes brilhantes e revolucionárias estiveram na Premiação de Pornô Feminista, PorYes, que ocorreu lindamente no sábado, dia 17 de outubro, em Berlim.
Que mulheres são representadas de forma machista em filmes pornôs não é novidade e disso todo mundo que tem o mínimo de senso e que já assistiu pornografia uma vez na vida já se ligou. Mulheres são retratadas como passivas, objetos que estão lá para proporcionar prazer ao homem. Os corpos seguem um padrão de peitos grandes ou gigantes, bundas grandes e vaginas depiladas. Enquanto isso os homens são retratados muitas vezes como agressivos, insensíveis, com corpos mega malhados e pênis gigantescos. São imagens que pouco correspondem à realidade dos espectadores. Isso sem falar nas situações por vezes ridículas que resultam em sexo.
Foi numa tentativa de mudar isso e oferecer uma alternativa fora da pornografia mainstream é que os pornôs feministas surgiram. Neles, as mulheres são o público alvo e são representadas como seres ativos que exploram sua sexualidade de diferentes formas – como é de fato na vida real! E o mais importante: os cenários são montados para contar histórias em que tudo acontece de forma consensual e prazerosa pra todos os lados (enquanto muitos pornôs mainstream exploram a violência contra a mulher como um fetiche).
A premiação PorYes foi criada em 2009 pela comunicadora e especialista em sexo e anatomia feminina Dr. Laura Meritt, com objetivo de apoiar essa revolução feminista contra a pornografia sexista e mainstream. O evento acontece de dois em dois anos em Berlim e premia diretores, atores, produtores que consigam, com seus trabalhos, representar e alcançar o prazer feminino. São pessoas que influenciam a indústria de filmes eróticos de forma positiva. Os esforços para trazer o pornô mais próximo das mulheres foram surgindo dentro do Sex-Positive Movement e Sex-Positive Feminism que, entre outras coisas, abrange o sexo como algo saudável, consensual e que deve ser explorado de forma positiva e prazerosa a todos. Nessa experimentação de coisas novas, incluem-se também novas tendências criativas de pornografia, que explorem o imaginativo erótico – e por que não? – o prazer feminino.
Achei lindo o que Laura Meritt falou ao apresentar o PorYes 2015, que teve como tema principal esse ano a transexualidade: “Trans é ultrapassar fronteiras, não só de personalidade, mas das normas de gênero e de corpo. É sair de categorias limitadas, colocadas por muitas produções pornográficas, como do que é um corpo bonito ou sexy e do que é ‘sexo bonito’”. Esqueça padrões de beleza esperados e gêneros engavetados em xx e xy ou whatever. Esqueça também aquele “good looking sex”. Nos pornôs feministas da mostra, padrões de beleza e gênero são quebrados com muita criatividade.
Logo depois da abertura feita por Laura e Ula Stöckl, cineasta pioneira na produção de filmes por mulheres para mulheres, foram passadas algumas cenas de um filme com uma mulher gordinha em uma cadeira de rodas que é masturbada por outra mulher; na próxima cena, outra mulher se senta em um pênis de borracha amarrado na perna da mulher na cadeira de rodas. A cena acontece em um cenário simples – a sala de estar de uma casa que parece até meio velha – e as atrizes não correspondem a nenhum padrão de beleza da indústria pornô – são gordinhas e tem marcas no corpo, como cicatrizes. Essas cenas são mostradas para exemplificar o que está sendo produzido fora da pornografia mainstream.
Outro exemplo de produção alternativa são os filmes da primeira premiada da noite, Jennifer Lyon Bell. A diretora holandesa fundou a produtora de filmes eróticos Blue Artichoke Films, em que trabalha com o que é chamado de realismo emocional (emotional realism). O negócio é fazer a cena parecer o mais real possível, com emoções reais. “Sexo pode acontecer em diferentes contextos emocionais, não só de amor romântico, ou girly love, mas de nervosismo, alegria, excitação, etc”, diz Jennifer. Por isso, em seus filmes, as cenas de sexo acontecem em meio a uma relação entre os indivíduos – não necessariamente amorosa, de amizade, ou etc, mas algo que os liga por uma emoção – sejam eles completos desconhecidos ou não. Com técnicas como shot-reverse shot, que vai em volta focando no rosto e expressões dos personagens, e facial reaction shots, os filmes de Jennifer Lyon Bell tentam fazer com que os espectadores se sintam parte do ato. Essas são coisas presentes em seu filme premiado “Silver Shoes”, que conta três histórias relacionadas a um par de sapatos prateados e intercala cenas de sexo hetero, lésbico e de masturbação feminina.
O filme “Want some Oranges”, da dinamarquesa Goodyn Green, também me chamou muito a atenção na premiação. Uma das mulheres da cena está grávida e exerce o papel dominante, usando um cinto com a prótese de um pênis, com outra mulher. “Isso é para mostrar a mulher grávida em outro papel, um papel não convencional, e isso também é um fetiche”, explica Goodyn Green. Sobre o processo de filmagem, ela diz que monta a cena e deixa a câmera rodar. “O mais importante é os atores terem química entre eles, daí tudo vai acontecendo meio que por acidente”, diz a diretora e fotógrafa.
Mais premiados da noite foram Gala Vanting, Buck Angel e Jiz Lee. A australiana Gala Vanting é entusiasta de BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) e produtora de filmes artísticos que exploram a imaginação erótica. Buck Angel, “the man with a pussy”, foi um dos pioneiros a fazer filmes pornôs como um homem trans. Ele explica que no início ninguém queria filmar com ele por o considerarem uma aberração, mas ele não se importou e criou sua própria produtora com filmes pornôs estrelando homens e mulheres trans. Buck Angel chorou ao fazer o discurso de agradecimento pelo prêmio PorYes 2015, quando falou de seu ativismo para passar conhecimento sobre transexualismo transexualidade e obter mais respeito aos transexuais.
Jiz Lee, que concedeu uma entrevista inteirinha para o Ovelha, recebeu o prêmio por último. Jiz Lee se considera pessoa genderqueer ou não-binária, ou seja, não se identifica como homem nem mulher ou como os dois. Os filmes em que atua representam isso muito bem, ao ultrapassar limitações de conceitos de mulher, homem, hetero ou homossexualidade. Recentemente, Jiz Lee lançou o livro “Coming Out as a Porn Star”, em que são contadas histórias de pessoas que trabalham na indústria pornô: como elas chegaram até ali, o porquê, o que elas fazem e como assumiram isso, ou não, para o mundo.
Ir na premiação foi uma experiência além das minhas expectativas. Em algumas poucas horas, conheci um mundo inteiro de coisas novas que exploram a sexualidade feminina de forma muito positiva e de mil e uma formas diferentes! O negócio é esquecer barreiras, categorias, padrões, e pensar no prazer. Sai de lá com esperança numa sociedade que discrimine menos a sexualidade feminina e grite mais: Viva la Vulva!*
* As garotas do Sex-Positive-Movement usam essa expressão para exaltar a sexualidade feminina e empoderar nossas vaginas. Laura Meritt saudou o público na abertura do PorYes 2015 com essa frase.
Cena de um dos filmes da diretora Jiz Lee, "Threat".
Mulheres não assistem pornô. Mulheres não se excitam com pornografia. Errado! Muito errado! Talvez mulheres assistam menos pornô – supostamente – porque não existam pornôs suficientes que as representem. Que saibam atingir e representar o prazer feminino em sua beleza e complexidade. Mas isso está mudando, amigas! Graças às criativas mentes femininas, queer, trans, etc da indústria erótica. Algumas dessas mentes brilhantes e revolucionárias estiveram na Premiação de Pornô Feminista, PorYes, que ocorreu lindamente no sábado, dia 17 de outubro, em Berlim.
[caption id="attachment_7241" align="alignnone" width="1024"] Jennifer Lyon Bell e Buck Angel conversam antes do início da premiação[/caption]
Que mulheres são representadas de forma machista em filmes pornôs não é novidade e disso todo mundo que tem o mínimo de senso e que já assistiu pornografia uma vez na vida já se ligou. Mulheres são retratadas como passivas, objetos que estão lá para proporcionar prazer ao homem. Os corpos seguem um padrão de peitos grandes ou gigantes, bundas grandes e vaginas depiladas. Enquanto isso os homens são retratados muitas vezes como agressivos, insensíveis, com corpos mega malhados e pênis gigantescos. São imagens que pouco correspondem à realidade dos espectadores. Isso sem falar nas situações por vezes ridículas que resultam em sexo.
Foi numa tentativa de mudar isso e oferecer uma alternativa fora da pornografia mainstream é que os pornôs feministas surgiram. Neles, as mulheres são o público alvo e são representadas como seres ativos que exploram sua sexualidade de diferentes formas – como é de fato na vida real! E o mais importante: os cenários são montados para contar histórias em que tudo acontece de forma consensual e prazerosa pra todos os lados (enquanto muitos pornôs mainstream exploram a violência contra a mulher como um fetiche).
[caption id="attachment_7253" align="aligncenter" width="621"] Cena do filme “Touch”, uma co-produção de Gala Vanting[/caption]
A premiação PorYes foi criada em 2009 pela comunicadora e especialista em sexo e anatomia feminina Dr. Laura Meritt, com objetivo de apoiar essa revolução feminista contra a pornografia sexista e mainstream. O evento acontece de dois em dois anos em Berlim e premia diretores, atores, produtores que consigam, com seus trabalhos, representar e alcançar o prazer feminino. São pessoas que influenciam a indústria de filmes eróticos de forma positiva. Os esforços para trazer o pornô mais próximo das mulheres foram surgindo dentro do Sex-Positive Movement e Sex-Positive Feminism que, entre outras coisas, abrange o sexo como algo saudável, consensual e que deve ser explorado de forma positiva e prazerosa a todos. Nessa experimentação de coisas novas, incluem-se também novas tendências criativas de pornografia, que explorem o imaginativo erótico – e por que não? – o prazer feminino.
[caption id="attachment_7252" align="alignnone" width="1024"] Cena do filme “Shutter”, dirigido por Goodyn Green[/caption]
Achei lindo o que Laura Meritt falou ao apresentar o PorYes 2015, que teve como tema principal esse ano a transexualidade: “Trans é ultrapassar fronteiras, não só de personalidade, mas das normas de gênero e de corpo. É sair de categorias limitadas, colocadas por muitas produções pornográficas, como do que é um corpo bonito ou sexy e do que é ‘sexo bonito’”. Esqueça padrões de beleza esperados e gêneros engavetados em xx e xy ou whatever. Esqueça também aquele “good looking sex”. Nos pornôs feministas da mostra, padrões de beleza e gênero são quebrados com muita criatividade.
Logo depois da abertura feita por Laura e Ula Stöckl, cineasta pioneira na produção de filmes por mulheres para mulheres, foram passadas algumas cenas de um filme com uma mulher gordinha em uma cadeira de rodas que é masturbada por outra mulher; na próxima cena, outra mulher se senta em um pênis de borracha amarrado na perna da mulher na cadeira de rodas. A cena acontece em um cenário simples – a sala de estar de uma casa que parece até meio velha – e as atrizes não correspondem a nenhum padrão de beleza da indústria pornô – são gordinhas e tem marcas no corpo, como cicatrizes. Essas cenas são mostradas para exemplificar o que está sendo produzido fora da pornografia mainstream.
[caption id="attachment_7248" align="alignnone" width="997"] Cena do filme “Silver Shoes”, de Jennifer Lyon Bell[/caption]
Outro exemplo de produção alternativa são os filmes da primeira premiada da noite, Jennifer Lyon Bell. A diretora holandesa fundou a produtora de filmes eróticos Blue Artichoke Films, em que trabalha com o que é chamado de realismo emocional (emotional realism). O negócio é fazer a cena parecer o mais real possível, com emoções reais. “Sexo pode acontecer em diferentes contextos emocionais, não só de amor romântico, ou girly love, mas de nervosismo, alegria, excitação, etc”, diz Jennifer. Por isso, em seus filmes, as cenas de sexo acontecem em meio a uma relação entre os indivíduos – não necessariamente amorosa, de amizade, ou etc, mas algo que os liga por uma emoção – sejam eles completos desconhecidos ou não. Com técnicas como shot-reverse shot, que vai em volta focando no rosto e expressões dos personagens, e facial reaction shots, os filmes de Jennifer Lyon Bell tentam fazer com que os espectadores se sintam parte do ato. Essas são coisas presentes em seu filme premiado “Silver Shoes”, que conta três histórias relacionadas a um par de sapatos prateados e intercala cenas de sexo hetero, lésbico e de masturbação feminina.
[caption id="attachment_7259" align="alignnone" width="1024"] Jennifer Lyon Bell recebe prêmio pelo filme “Silver Shoes” [/caption]
O filme “Want some Oranges”, da dinamarquesa Goodyn Green, também me chamou muito a atenção na premiação. Uma das mulheres da cena está grávida e exerce o papel dominante, usando um cinto com a prótese de um pênis, com outra mulher. “Isso é para mostrar a mulher grávida em outro papel, um papel não convencional, e isso também é um fetiche”, explica Goodyn Green. Sobre o processo de filmagem, ela diz que monta a cena e deixa a câmera rodar. “O mais importante é os atores terem química entre eles, daí tudo vai acontecendo meio que por acidente”, diz a diretora e fotógrafa.
[caption id="attachment_7244" align="alignnone" width="1024"] Goodyn Green ganha prêmio por tematizar androginia em seus projetos[/caption]
Mais premiados da noite foram Gala Vanting, Buck Angel e Jiz Lee. A australiana Gala Vanting é entusiasta de BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) e produtora de filmes artísticos que exploram a imaginação erótica. Buck Angel, “the man with a pussy”, foi um dos pioneiros a fazer filmes pornôs como um homem trans. Ele explica que no início ninguém queria filmar com ele por o considerarem uma aberração, mas ele não se importou e criou sua própria produtora com filmes pornôs estrelando homens e mulheres trans. Buck Angel chorou ao fazer o discurso de agradecimento pelo prêmio PorYes 2015, quando falou de seu ativismo para passar conhecimento sobre transexualismo transexualidade e obter mais respeito aos transexuais.
[caption id="attachment_7243" align="alignnone" width="1024"] Gala Vanting fala sobre seus projetos como cineasta e entusiasta de BDSM[/caption]
[caption id="attachment_7245" align="alignnone" width="1024"] Buck Angel recebe prêmio por sua contribuição na causa LGBT[/caption]
[caption id="attachment_7249" align="alignnone" width="683"] Buck Angel foi pioneiro como homem trans na indústria pornô[/caption]
Jiz Lee, que concedeu uma entrevista inteirinha para o Ovelha, recebeu o prêmio por último. Jiz Lee se considera pessoa genderqueer ou não-binária, ou seja, não se identifica como homem nem mulher ou como os dois. Os filmes em que atua representam isso muito bem, ao ultrapassar limitações de conceitos de mulher, homem, hetero ou homossexualidade. Recentemente, Jiz Lee lançou o livro “Coming Out as a Porn Star”, em que são contadas histórias de pessoas que trabalham na indústria pornô: como elas chegaram até ali, o porquê, o que elas fazem e como assumiram isso, ou não, para o mundo.
[caption id="attachment_7247" align="alignnone" width="1024"] Cena de um dos filmes de Jiz Lee que foi mostrada na premiação[/caption]
Ir na premiação foi uma experiência além das minhas expectativas. Em algumas poucas horas, conheci um mundo inteiro de coisas novas que exploram a sexualidade feminina de forma muito positiva e de mil e uma formas diferentes! O negócio é esquecer barreiras, categorias, padrões, e pensar no prazer. Sai de lá com esperança numa sociedade que discrimine menos a sexualidade feminina e grite mais: Viva la Vulva!*
[caption id="attachment_7246" align="alignnone" width="1024"] Premiados reunidos ao final da noite[/caption]
* As garotas do Sex-Positive-Movement usam essa expressão para exaltar a sexualidade feminina e empoderar nossas vaginas. Laura Meritt saudou o público na abertura do PorYes 2015 com essa frase.
Era uma quarta-feira à noite e eu resolvi me aventurar numa festa de salsa na Tanzhaus NRW, uma escola de dança em Düsseldorf, na Alemanha. Por mais engraçado que isso possa parecer, eu nunca havia dançado salsa até vir para cá, há mais ou menos um ano, e ainda não danço bem, mas me arrisco. Acanhada pela desenvoltura dos dançarinos, resolvi apenas observar à beira da pista. Alguns rapazes se candidataram como meus parceiros de dança, mas neguei a proposta. Minha vergonha ainda impedia a tentativa. Um deles ficou para conversar, mesmo depois de ter o convite negado. Conversamos um pouco em alemão e, como é de costume – até pelo meu sotaque ao falar alemão -, ele logo notou que eu era estrangeira. “É, sou brasileira”, respondi. “Como eu pensava. Dá para perceber pela sua bunda que você vem da América Latina. Você tem uma bunda muito bonita. Uma bunda típica de brasileira”.
Senti-me reduzida a uma bunda. Exatamente isso. Como se o meu “ser brasileira” fosse definido pelo tamanho da minha bunda, pela minha aparência física, pela cor dos meus olhos e cabelos.
O que, ao seu ver, deveria ser um elogio foi o motivo de um grande desconforto em toda aquela situação. Sem saber direito o que falar e sem acreditar no que acabava de ouvir, conversei mais um pouco e segui meu rumo para o outro lado do salão. Não sei se somente pela falta de tempo, ou por coincidência, nunca mais voltei àquele lugar para bailar salsa.
Senti-me reduzida a uma bunda. Exatamente isso. Como se o meu “ser brasileira” fosse definido pelo tamanho da minha bunda, pela minha aparência física, pela cor dos meus olhos e cabelos. Parece que se eu não tivesse um corpo assim ou assado, não poderia levar o carimbo de “latina” ou de “brasileira”. Afinal, você não é uma brasileira completa sem aqueles típicos atributos físicos que a terra abençoada Brasil te deu, certo? Ah, não é bem assim…
Incomodada, comentei sobre minha experiência com algumas amigas brasileiras que também vivem do lado de cá do oceano. Não fiquei surpresa ao saber que muitas já haviam ouvido coisas do tipo. Os comentários não estão sempre só relacionados ao corpo, mas a outras coisas classificadas como “típico” da feminilidade brasileira. “Ué, você nasceu no Brasil e não sabe sambar?”, “Cadê o rebolado brasileiro?”, “Você não quer me ensinar alguns passos de samba… Na minha casa… Só a dois?”. Esses comentários revelam as expectativas dos gringos sobre a mulher brasileira. Sobre como ela se comporta, como ela dança, como ela flerta – ou espera receber uma cantada – e como ela se parece ou deve parecer.
O machismo nacional nos transformou em atração turística, assim como cachoeiras ou a fauna do Brasil.
Isso tudo ficou mais claro pra mim durante a Copa do Mundo no Brasil, que acompanhei da Alemanha mesmo. As propagandas referentes ao evento do ano me causavam grande incômodo e certa vergonha alheia. Eram comuns as imagens de mulheres morenas em trajes de carnaval, exibindo seus corpos sarados e sua “beleza exótica” que os europeus tanto admiram. Em um caso específico que me chamou atenção, vi a figura de uma mulher morena com a camisa do Brasil, e um alemão ao seu lado, usando a camisa da Alemanha – nunca vi a imagem de um homem brasileiro com uma mulher alemã em propagandas. Para alguns, poderiam ser simples imagens e vídeos, mas a mensagem que eu recebi foi a seguinte: “ei, gringo! Quando você chegar no Brasil é isso que você vai encontrar. E você pode conquistar uma dessas pra você”.
PorYes, que ocorreu lindamente no sábado, dia 17 de outubro, em Berlim.
Que mulheres são representadas de forma machista em filmes pornôs não é novidade e disso todo mundo que tem o mínimo de senso e que já assistiu pornografia uma vez na vida já se ligou. Mulheres são retratadas como passivas, objetos que estão lá para proporcionar prazer ao homem. Os corpos seguem um padrão de peitos grandes ou gigantes, bundas grandes e vaginas depiladas. Enquanto isso os homens são retratados muitas vezes como agressivos, insensíveis, com corpos mega malhados e pênis gigantescos. São imagens que pouco correspondem à realidade dos espectadores. Isso sem falar nas situações por vezes ridículas que resultam em sexo.
Foi numa tentativa de mudar isso e oferecer uma alternativa fora da pornografia mainstream é que os pornôs feministas surgiram. Neles, as mulheres são o público alvo e são representadas como seres ativos que exploram sua sexualidade de diferentes formas – como é de fato na vida real! E o mais importante: os cenários são montados para contar histórias em que tudo acontece de forma consensual e prazerosa pra todos os lados (enquanto muitos pornôs mainstream exploram a violência contra a mulher como um fetiche).
A premiação PorYes foi criada em 2009 pela comunicadora e especialista em sexo e anatomia feminina Dr. Laura Meritt, com objetivo de apoiar essa revolução feminista contra a pornografia sexista e mainstream. O evento acontece de dois em dois anos em Berlim e premia diretores, atores, produtores que consigam, com seus trabalhos, representar e alcançar o prazer feminino. São pessoas que influenciam a indústria de filmes eróticos de forma positiva. Os esforços para trazer o pornô mais próximo das mulheres foram surgindo dentro do Sex-Positive Movement e Sex-Positive Feminism que, entre outras coisas, abrange o sexo como algo saudável, consensual e que deve ser explorado de forma positiva e prazerosa a todos. Nessa experimentação de coisas novas, incluem-se também novas tendências criativas de pornografia, que explorem o imaginativo erótico – e por que não? – o prazer feminino.
Achei lindo o que Laura Meritt falou ao apresentar o PorYes 2015, que teve como tema principal esse ano a transexualidade: “Trans é ultrapassar fronteiras, não só de personalidade, mas das normas de gênero e de corpo. É sair de categorias limitadas, colocadas por muitas produções pornográficas, como do que é um corpo bonito ou sexy e do que é ‘sexo bonito’”. Esqueça padrões de beleza esperados e gêneros engavetados em xx e xy ou whatever. Esqueça também aquele “good looking sex”. Nos pornôs feministas da mostra, padrões de beleza e gênero são quebrados com muita criatividade.
Logo depois da abertura feita por Laura e Ula Stöckl, cineasta pioneira na produção de filmes por mulheres para mulheres, foram passadas algumas cenas de um filme com uma mulher gordinha em uma cadeira de rodas que é masturbada por outra mulher; na próxima cena, outra mulher se senta em um pênis de borracha amarrado na perna da mulher na cadeira de rodas. A cena acontece em um cenário simples – a sala de estar de uma casa que parece até meio velha – e as atrizes não correspondem a nenhum padrão de beleza da indústria pornô – são gordinhas e tem marcas no corpo, como cicatrizes. Essas cenas são mostradas para exemplificar o que está sendo produzido fora da pornografia mainstream.
Outro exemplo de produção alternativa são os filmes da primeira premiada da noite, Jennifer Lyon Bell. A diretora holandesa fundou a produtora de filmes eróticos Blue Artichoke Films, em que trabalha com o que é chamado de realismo emocional (emotional realism). O negócio é fazer a cena parecer o mais real possível, com emoções reais. “Sexo pode acontecer em diferentes contextos emocionais, não só de amor romântico, ou girly love, mas de nervosismo, alegria, excitação, etc”, diz Jennifer. Por isso, em seus filmes, as cenas de sexo acontecem em meio a uma relação entre os indivíduos – não necessariamente amorosa, de amizade, ou etc, mas algo que os liga por uma emoção – sejam eles completos desconhecidos ou não. Com técnicas como shot-reverse shot, que vai em volta focando no rosto e expressões dos personagens, e facial reaction shots, os filmes de Jennifer Lyon Bell tentam fazer com que os espectadores se sintam parte do ato. Essas são coisas presentes em seu filme premiado “Silver Shoes”, que conta três histórias relacionadas a um par de sapatos prateados e intercala cenas de sexo hetero, lésbico e de masturbação feminina.
O filme “Want some Oranges”, da dinamarquesa Goodyn Green, também me chamou muito a atenção na premiação. Uma das mulheres da cena está grávida e exerce o papel dominante, usando um cinto com a prótese de um pênis, com outra mulher. “Isso é para mostrar a mulher grávida em outro papel, um papel não convencional, e isso também é um fetiche”, explica Goodyn Green. Sobre o processo de filmagem, ela diz que monta a cena e deixa a câmera rodar. “O mais importante é os atores terem química entre eles, daí tudo vai acontecendo meio que por acidente”, diz a diretora e fotógrafa.
Mais premiados da noite foram Gala Vanting, Buck Angel e Jiz Lee. A australiana Gala Vanting é entusiasta de BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) e produtora de filmes artísticos que exploram a imaginação erótica. Buck Angel, “the man with a pussy”, foi um dos pioneiros a fazer filmes pornôs como um homem trans. Ele explica que no início ninguém queria filmar com ele por o considerarem uma aberração, mas ele não se importou e criou sua própria produtora com filmes pornôs estrelando homens e mulheres trans. Buck Angel chorou ao fazer o discurso de agradecimento pelo prêmio PorYes 2015, quando falou de seu ativismo para passar conhecimento sobre transexualismo transexualidade e obter mais respeito aos transexuais.
Jiz Lee, que concedeu uma entrevista inteirinha para o Ovelha, recebeu o prêmio por último. Jiz Lee se considera pessoa genderqueer ou não-binária, ou seja, não se identifica como homem nem mulher ou como os dois. Os filmes em que atua representam isso muito bem, ao ultrapassar limitações de conceitos de mulher, homem, hetero ou homossexualidade. Recentemente, Jiz Lee lançou o livro “Coming Out as a Porn Star”, em que são contadas histórias de pessoas que trabalham na indústria pornô: como elas chegaram até ali, o porquê, o que elas fazem e como assumiram isso, ou não, para o mundo.
Ir na premiação foi uma experiência além das minhas expectativas. Em algumas poucas horas, conheci um mundo inteiro de coisas novas que exploram a sexualidade feminina de forma muito positiva e de mil e uma formas diferentes! O negócio é esquecer barreiras, categorias, padrões, e pensar no prazer. Sai de lá com esperança numa sociedade que discrimine menos a sexualidade feminina e grite mais: Viva la Vulva!*
* As garotas do Sex-Positive-Movement usam essa expressão para exaltar a sexualidade feminina e empoderar nossas vaginas. Laura Meritt saudou o público na abertura do PorYes 2015 com essa frase.