In Between: Um filme sobre mulheres divididas

Já é a quarta vez que a sueca Karin Fornander consegue montar um programa ousado e cheio de polêmicas necessárias para o Berlin Feminist Film Week 2017. Na noite do Dia Internacional da Mulher, o festival deste ano abriu com um filme que já deu o tom pro evento deste ano: interculturalidade e força feminina. “In Between” (ou “Bar Bahar”) da diretora israelense Maysaloun Hamoud é simplesmente maravilhoso e consegue colocar vários temas da questão Israel/Palestina de forma sutil, bonita e interessante.

O longa conta a história de três mulheres palestinas que dividem um apartamento no vibrante centro de Tel Aviv. Salma (Sana Jammelieh) é uma DJ e bartender lésbica. Laila (Mouna Hawa) é uma advogada criminalista que choca à cultura tradicional da cidade com sua liberdade sexual e forma de se vestir. Mas ela não se importa e gosta de relaxar usando drogas e dançando em clubs da cena underground da cidade. Nour é uma garota doce, muçulmana, que estuda Ciências da Computação e está noiva de um homem religioso e conservador, que espera que ela assuma seus deveres de esposa o mais rápido possível.

Maysaloun Hamoud conseguiu criar três personagens de personalidades diferentes, que vão evoluindo ao longo da história e ao final surpreendem por sua coragem. O interessante é que cada uma tem um problema muito associado ao tradicionalismos da sociedade em que estão inseridas: Salma não pode revelar para sua família que é lésbica e enquanto isso seus pais insistem em lhe apresentar pretendentes; Laila se apaixonada por um homem que se diz liberal, mas no fundo tem vergonha de apresenta-la para a família e assumir o relacionamento com uma mulher tão contrária as tradições; e Nour sofre com um noivo abusivo que não aceita que ela viva em um apartamento com duas “putas” e “pecadoras”.

Entre os conflitos pessoais provocados pelo machismo da sociedade árabe-israelense e a liberdade que desfrutam nessa grande cidade, está um conflito de identidade das três mulheres. Um conflito que não é só gerado pelo apego e ao mesmo tempo desejo de se desvencilhar das tradições (como o medo de Laila de não agradar o namorado com sua comida, ao mesmo tempo em que não quer ser vista como uma dona de casa), mas também pelo ser árabe vivendo na segunda maior cidade de Israel.

Há algumas cenas do filme que deixam claro que, mesmo sendo parte da cultura alternativa da cidade, elas ainda são vistas como estrangeiras. Como quando Salma está trabalhando na cozinha de um restaurante e o gerente entra e diz para ela e seus colegas pararem de falar em árabe, pois os clientes achavam isso desagradável. Ou quando a mesma vai buscar emprego em um bar e o bartender lhe pergunta se ela é latina e expressa uma reação desconcertada quando ela responde “não, palestina”. Ou quando em uma loja, Laila e Salma são observadas descaradamente pela vendedora, ao que Salma responde “nós não mordemos, viu”.

O longa de Hamoud é muito sobre isso: o viver entre mundos. De uma forma ou de outra muitas mulheres vivem nessa situação hoje em dia, ao que tentam se libertar das amarras conservadoras, mas não querem perder sua identidade cultural, que está ligada a uma certa tradição.

Acho que por isso fica impossível não simpatizar com essas três corajosas mulheres de “In Between” e não ficar nervosa com cada acontecimento no desenrolar da história. Foi uma escolha acertada para abrir a Semana de Cinema Feminista de Berlim de 2017 e deixar o público extremamente curioso para ver os próximos filmes do programa.

Escrito por
Mais de Débora Backes

Ouça: Angel Haze

Pensa em uma mulher f*. Com uma história de vida pesada. Agora a imagine com um microfone na mão, fazendo rap sobre sua infância e adolescência violentas. Essa é Angel Haze, uma rapper americana, com origens indígena e africana, que nos presenteia com letras marcantes e questionadoras.

Batizada Raeen Angel Wilson, a rapper nasceu em Detroit em 1991, depois que seu pai, envolvido em diferentes gangues, morreu com um tiro no estômago numa briga. Sua mãe era uma índia Cherokee que começou a se relacionar com um pastor da Greater Apostolic Faith, uma vertente americana da igreja pentecostal cristã.

Em um artigo sobre Angel Haze, o jornalista Tom Lamont, do Guardian, descreve essa religião como uma que admite que os homens que estão dentro dela se comportem de forma extravagante. Como no caso do padrasto de Haze, que tinha outra esposa e filhos, mas dizia que Deus queria que a família Wilson fosse morar com eles.

Até os 14 anos, Angel Haze viveu nessa comunidade religiosa e cresceu com a ideia de que poderia morrer espontaneamente caso não se comportasse adequadamente.

Foi também ali que a rapper foi abusada sexualmente quando tinha apenas sete anos. O homem que a atacou era um amigo da família que tinha livre acesso a casa e as crianças. Ela fala explicitamente sobre isso na sua releitura de “Cleaning Up my Closet”, de Eminem.

“E aconteceu em uma casa
Onde todos sabiam (…)
Uma noite ele chegou em casa e eu estava dormindo na minha cama.
Ele subiu em cima de mim e se forçou entre minhas pernas
E ele disse, ei Ray, eu vi que você gosta de picolés
Então coloca a boca no meu pau e engole essa porra
(…) Imagine ter sete anos e ver porra na sua calcinha
Eu sei que é desagradável, mas às vezes eu até sangro pela bunda
Nojento, não é? Agora deixa esse sentimento te tocar fundo”

A letra toda é explícita, sem segredos, e nos faz encarar seus traumas como menina e como mulher. Em sua entrevista para o Guardian, a rapper diz que, antes da música, não conseguia ficar no mesmo espaço consiga mesma sem se ver sendo arrastada para o fundo por suas experiências de vida. Mas com a música, ela consegue colocar isso pra fora e “vomitar demônios pra todos os lados”.

O clipe do single Battle Cry parece ser outra forte referência ao seu passado. Nele, um pastor parece tirar os demônios de uma garotinha em um culto, enquanto sua mãe e um segundo homem observam. Depois disso, ela é colocada no carro com esse homem, enquanto chora pela mãe. Haze passa pela cena e canta: “Mas um dia você será mais forte do que tudo isso./ Você será./ E então você poderá dizer/ Não há dinheiro que possa comprar/Todo o amor que está aqui, esta noite”.

Seu passado e seu presente de superação são temas recorrentes em suas letras, como em A Tribe Called Red, Black Dahlia e Black Synagoge, todas do álbum Dirty Gold, de 2013. O seu mais recente álbum é Black To The Woods, de 2015.

Vale lembrar que Angel Haze ficou também conhecida por seu relacionamento com a modelo Ireland Baldwin, filha de Alec Baldwin e Kim Basinger. Mas a rapper não gosta de se definir como gay, bi ou hetero, apenas como ela mesma, Angel Haze, um vulcão em erupção depois de anos sendo oprimido.

O seu mais recente single é exatamente sobre isso. Sobre ressurgir como uma fênix. É lindo e ficamos felizes em ver que Haze sobreviveu ao seu passado.

Para conferir mais sobre essa monstra detonadora do rap, dá uma conferida na sua página do Facebook, Spotify, Instagram e YouTube.

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o festival deste ano abriu com um filme que já deu o tom pro evento deste ano: interculturalidade e força feminina. “In Between” (ou “Bar Bahar”) da diretora israelense Maysaloun Hamoud é simplesmente maravilhoso e consegue colocar vários temas da questão Israel/Palestina de forma sutil, bonita e interessante.

O longa conta a história de três mulheres palestinas que dividem um apartamento no vibrante centro de Tel Aviv. Salma (Sana Jammelieh) é uma DJ e bartender lésbica. Laila (Mouna Hawa) é uma advogada criminalista que choca à cultura tradicional da cidade com sua liberdade sexual e forma de se vestir. Mas ela não se importa e gosta de relaxar usando drogas e dançando em clubs da cena underground da cidade. Nour é uma garota doce, muçulmana, que estuda Ciências da Computação e está noiva de um homem religioso e conservador, que espera que ela assuma seus deveres de esposa o mais rápido possível.

Maysaloun Hamoud conseguiu criar três personagens de personalidades diferentes, que vão evoluindo ao longo da história e ao final surpreendem por sua coragem. O interessante é que cada uma tem um problema muito associado ao tradicionalismos da sociedade em que estão inseridas: Salma não pode revelar para sua família que é lésbica e enquanto isso seus pais insistem em lhe apresentar pretendentes; Laila se apaixonada por um homem que se diz liberal, mas no fundo tem vergonha de apresenta-la para a família e assumir o relacionamento com uma mulher tão contrária as tradições; e Nour sofre com um noivo abusivo que não aceita que ela viva em um apartamento com duas “putas” e “pecadoras”.

Entre os conflitos pessoais provocados pelo machismo da sociedade árabe-israelense e a liberdade que desfrutam nessa grande cidade, está um conflito de identidade das três mulheres. Um conflito que não é só gerado pelo apego e ao mesmo tempo desejo de se desvencilhar das tradições (como o medo de Laila de não agradar o namorado com sua comida, ao mesmo tempo em que não quer ser vista como uma dona de casa), mas também pelo ser árabe vivendo na segunda maior cidade de Israel.

Há algumas cenas do filme que deixam claro que, mesmo sendo parte da cultura alternativa da cidade, elas ainda são vistas como estrangeiras. Como quando Salma está trabalhando na cozinha de um restaurante e o gerente entra e diz para ela e seus colegas pararem de falar em árabe, pois os clientes achavam isso desagradável. Ou quando a mesma vai buscar emprego em um bar e o bartender lhe pergunta se ela é latina e expressa uma reação desconcertada quando ela responde “não, palestina”. Ou quando em uma loja, Laila e Salma são observadas descaradamente pela vendedora, ao que Salma responde “nós não mordemos, viu”.

O longa de Hamoud é muito sobre isso: o viver entre mundos. De uma forma ou de outra muitas mulheres vivem nessa situação hoje em dia, ao que tentam se libertar das amarras conservadoras, mas não querem perder sua identidade cultural, que está ligada a uma certa tradição.

Acho que por isso fica impossível não simpatizar com essas três corajosas mulheres de “In Between” e não ficar nervosa com cada acontecimento no desenrolar da história. Foi uma escolha acertada para abrir a Semana de Cinema Feminista de Berlim de 2017 e deixar o público extremamente curioso para ver os próximos filmes do programa.

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